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3 SINTONIZANDO A VOZ E AS SONORIDADES

3.2 O LABIRINTO SONORO

3.2.4 Resultados e aprendizados

A experiência em uma escola privada me levou a compreender que falar de cultura dominante nem sempre se refere à questão de classe social ou mesmo econômica, embora muitas vezes (talvez na maioria das vezes) o fator econômico- social seja o grande elemento de dominação cultural/social.

Não se pode negar que os alunos têm experiências e não se pode negar que essas experiências são importantes para o processo de aprendizagem. [...]. Os alunos têm lembranças, famílias, religiões, sentimentos, linguagens e culturas que lhes proporcionam uma voz distinta. Podemos engajar criticamente essa experiência e ir além dela. Mas não podemos negá-la. [...] Nós nos tornamos passivos e deixamos de perceber a violência simbólica que a voz dominante pode exercer. Eu insisto: mesmo para a maioria da classe média branca, a educação freqüentemente funciona mais para silenciá-la do que para capacitá-la. [...] Por isso os professores precisam ser intelectuais; para compreender que o ensino é uma forma de mediação entre diferentes pessoas e diferentes grupos de pessoas, e não podemos ser bons mediadores a menos que saibamos a quem se dirige a mediação em que nos engajamos. [...] O problema do ensino é que a especificidade do contexto é sempre fundamental. (GIROUX, 1999, p. 28-29).

Durante os encontros com os alunos da escola do Sol47, presenciei alguns

acontecimentos que descrevo como ‘silenciadores’. Alguns dos alunos que freqüentavam as oficinas extracurriculares eram os tão denominados ‘alunos problemas’, ‘alunos-reprovados’, de modo que constantemente sofriam pressões por parte dos colegas e da escola como um todo: ‘Fulano têm 9 anos e ainda está na segunda série’; ‘olha, se você não estudar você vai reprovar outra vez, sua mãe não vai gostar’.

Embora eu também ‘penasse’ para trabalhar com a agitação e desconcentração destes alunos, aos poucos eles foram manifestando maior participação. Atribuo este envolvimento a forma pela qual, eu, professora, me inseri no processo criativo. Na época, imbuída das leituras e discussões junto ao grupo de estudos, a idéia de uma ‘resistência poética’ me movia e, de certa forma, na construção e ensaio do Labirinto Sonoro eu pude ouvir as vozes poéticas numa desconstrução e construção de narrativas.

Uma das implicações de pensar a atividade teatral como um espaço de resistência poética era trabalhar a vocalidade como uma forma de dar ao aluno a autoria na produção daquele conhecimento artístico. Em minha atuação como

47 Nome fictício dado à escola em que realizei a pesquisa exploratória e o ‘retorno a escola’. Não identifico os

professora/coordenadora me inseri em diversas atividades: participei dos jogos, criava junto às narrações, ajudava na construção dos elementos de cena, sempre como um modo de estimular a participação do aluno, pois sempre estive preocupada em garantir a participação dos alunos. “Envolvimento emocional e responsabilidade pelo desenvolvimento da atividade são características essenciais do drama – o aluno é o autor da sua criação.” (CABRAL, 2006, p.33).

Todavia, a construção poética da vocalidade não implica que o educando tenha voz social, isso significa que é possível desenvolver um processo artístico que tenha êxito em termos estético e que não está acompanhado de benefício social. A experiência realizada na pesquisa exploratória trouxe benefícios em decorrência de um processo artístico contínuo e não em específico pelo trabalho vocal.

Considero que toda a pesquisa de atividades prévias, os diversos jogos realizados, o trabalho com os poemas, com as canções, todas as práticas elaboradas nos episódios anteriores à montagem influenciaram a propriedade com que os alunos puderam explorar a voz e os sons. Avalio também que o tempo do processo – um semestre – foi fator determinante para o aprendizado vocal.

No processo criativo do Labirinto, os alunos conseguiram adquirir um estágio de envolvimento com a produção de uma obra vocal, isto porque tinham conhecimento sobre os usos de sua voz naquele contexto dramático que objetivavam produzir. Mas também adquiriram conhecimento quanto ao uso de ressonadores e da variação de tons: na chegada dos assombros, vozes instrumentais agudas (triângulo, ‘sopro em garrafa’ e ‘dedo com gota d’água arranhando a beira da taça) contrastavam com as tonalidades graves produzidas na ressonância da caixa torácica.

Considero o desafio que esta criação vocal impôs ao processo de aprendizagem, pois, as crianças por natureza/maturação apresentam uma tonalidade aguda na voz, os instrumentos utilizados também tinham a tonalidade aguda, de modo que a tendência é seguir o tom ouvido, principalmente quando este tom serve de acompanhamento à voz.

No entanto, os alunos vocalizavam contrastando a agudez instrumental, ‘saiam’ conscientemente de seu tom de voz natural para deixar o monstruoso soar em suas vozes. Eles sabiam que naquele momento empregariam uma vocalidade mais grave. Aquilo que eu ouvia inicialmente era de um som estranho e irritante, que causava ansiedade e desconforto na entrada do labirinto. Mas, parece-me que era

exatamente esta a intenção daqueles narradores em sua abordagem vocal: causar um desconforto auditivo. Aqui, as colocações do segundo capítulo acerca do ruído como uma interferência criativa tem sua vez. Mesmo que para aqueles que estavam ouvindo o ruído era ‘um som indesejado’, para aqueles que emitiam, a intenção da produção ruidosa era impingir intencionalmente este incômodo sonoro.

A percepção do espaço era condicionada pelos elementos sonoros e não visuais. A imagem do espaço e do lugar onde se desenrolou a história era para o ouvinte, construída por ritmo, silêncio, pausa, intensidade e altura. Esse espaço não era descrito pelas palavras, mas se expressava por meio delas, de suas sonoridades e ruídos. Através das abordagens e intervenções sonoras dos narradores, os ouvintes imaginaram o espaço do Labirinto.

Se por um lado considero uma lástima a ausência dos registros de áudio e imagem para poder ouvir novamente aquelas vozes que ecoavam no labirinto, por outro lado, os registros de diário e a memória auditiva me fazem compreender que, de fato, os valores da voz na cena teatral “só existem ao vivo, independente dos conceitos nos quais amiúde somos levados a aprisioná-lo para descrevê-lo” (ZUMTHOR apud MARTINS, 2004, p. 44)