4 DO BAIRRO DE SANTA TERESA
4.6 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A primeira análise a ser feita da amostra, se dá em relação ao local de residência dos entrevistados (Tabela 1, APÊNDICE B). A amostra, em sua grande maioria, pertence ao estado do Rio de Janeiro, sendo representada por noventa e cinco fluminenses que responderam à pesquisa. O restante é formado por habitantes de diferentes países, havendo residentes de Aveiro (Portugal), Ratingen (Alemanha) e Houston (Estados Unidos).
A segunda questão do instrumento aplicado é referente à forma que se deu o conhecimento acerca do bairro de Santa Teresa. Dentre as cinco alternativas propostas pela pesquisadora, três tiveram 0% das respostas obtidas, considerando que ninguém em questão conheceu o bairro por meio de revistas e jornais, veiculação pela televisão ou por agências de turismo. A internet também não obteve uma marca expressiva, representando apenas 1,02% das respostas. As outras duas alternativas responsáveis por 98,98% da forma de conhecimento estão divididos entre 70,40% e 28,58%, referentes respectivamente à influência de amigos e parentes e a outros motivos. Esses últimos justificam-se por pessoas que não souberam citar o motivo e por moradores atuais ou que já tenham se mudado do bairro.
A freqüência da visitação do bairro pelos entrevistados foi medida pela questão três, onde se pode perceber que a maioria das respostas acusou a freqüência esporádica como a principal, isto representando 59,18% das entrevistas. Em contrapartida, a minoria realiza a visita semanalmente, referente a 4,08% dos entrevistados. É possível perceber também que 8,16% dos entrevistados freqüentam diariamente o bairro, representando esses moradores ou pessoas que trabalhem no local pesquisado.
Na questão quatro foi feito uso da escala de Likert visando à compreensão mais completa da motivação à visitação pelos entrevistados. Dessa amostra algumas pessoas afirmaram motivações alternativas à proposta pela pesquisa, sendo seis pessoas residentes do bairro e duas que tenham conhecidos que morem lá. Das outras pessoas entrevistadas a maioria considerou a oferta de ―atrativos culturais‖ como maior motivadora à visitação de Santa Teresa além de obter a maior média de influência. Da porcentagem total para esta alternativa 7,42% a considerou como menos relevante, contra 45,58% da mais influente em sua decisão de visitar o bairro.
A alternativa com a segunda maior média ―vista para a cidade‖ acumulou apenas um voto a menos que a quantidade de votos como sendo as primeiras duas opções (com nota 4 e 5), somando 57 votos, quase igualando à quantidade acumulada de 58 votos (com notas 4 e 5) de atrativos culturais. Contudo obteve a colocação de penúltimo lugar no quesito mais influente (nota 5), ficando atrás de ―ar bucólico‖, ―eventos‖ e atrativos culturais, nesta ordem.
A vida noturna foi votada em último lugar, mas apresentou uma distribuição de votos mais uniforme, sendo que 25,44% a considerou a opção menos influente, 11,66 a segunda menos influente, 18,20% a intermediária, 13,78% a segunda mais influente e 28,62% a mais influente. A opção ―ar bucólico‖ também não estimulou muito a ida dos visitantes ao bairro, sendo a segunda mais votada como última opção, com 23,30% de votos com nota um (1). Contudo, apesar de ter atingido a segunda menor média, recebeu mais votos que a opção que obteve a segunda maior média, com 32,86% contra 30,74% respectivamente, referentes à nota cinco (5). A seguir encontram-se os gráficos completos (Figuras 6 e 7) com os dados desta questão.
Figura 6: Motivação à visita Fonte: Elaboração própria
Figura 7: Média da motivação à visita Fonte: Elaboração própria
O mesmo modelo de escala de Likert também foi aplicado nas questões cinco e seis. Essa primeira questão citada encarrega-se de verificar o que os entrevistados mais gostaram ou gostam no bairro considerando aqueles aspectos avaliados na questão anterior: ar bucólico; vista para a cidade; vida noturna; atrativos culturais; e
eventos. A priori o que pode ser destacado é a média obtida pelo item ―vista para a cidade‖, significando que foi muito bem cotado pelos entrevistados. Estabelecendo um ranking de preferência, tendo por base as médias, a ordem crescente foi a seguinte: vida noturna como o que menos gostaram ou gostam no bairro, seguido de seus eventos, seu ar bucólico em terceiro lugar, seus atrativos culturais e finalmente a sua vista para o restante da cidade do Rio de Janeiro como melhor cotada.
Tais constatações revelam o caráter da paisagem como principal atrativo do bairro. Não necessariamente a paisagem de Santa Teresa deve se restringir às suas ruas e construções, porém é certo dizer que essa vista também pertence à paisagem do bairro, afinal é necessário estar nele para poder obtê-la. Uma possibilidade para a ocorrência deste resultado pode ter se dado em decorrência de algo inesperado, uma vez que ao serem questionados acerca do que lhes motivara à realização da visita, esse quesito ficou em segundo lugar como mais votado, ficando atrás de atrativos culturais. Mais a frente, na questão seis (figuras 8 e 9), são explanados alguns fatores que podem justificar essa troca de preferências.
Em relação ao ―ar bucólico‖, esse já não é assim visto no bairro. Considerando a significação de algo simples e ao mesmo tempo ingênuo ou romântico não é possível classificar a imagem do bairro desta forma. A partir da opinião dos entrevistados pode ser estabelecida a consciência de que existem mazelas que atingem aquele contexto, sem poder ser um lugar idealizado, como um cenário de teatro, construído para apenas ser admirado. Não que seja vetado qualquer tipo de referência idílica, como pode ser percebido, ao passar do bonde, o encantamento de visitantes, por exemplo. O que justifica isso é a colocação desse quesito na posição intermediária.
Figura 8: Aspectos mais apreciados no bairro Fonte: Elaboração própria
Figura 9: Média do que mais gosta ou gostou no bairro Fonte: Elaboração própria
Ao serem questionados sobre o que pode ser melhorado no bairro foram dispostos cinco itens a serem classificados da mesma maneira que as questões anteriores, de um a cinco. Desta vez as alternativas foram: sinalização, limpeza, segurança, conservação das características urbanísticas e excesso de veículos em circulação.
Os entrevistados consideraram como o principal ponto a ser melhorado a questão da segurança no bairro, tendo mais da metade de seus votantes o classificado desta maneira, obtendo a média de 4,01. Dentro deste ponto encaixa-se
também a questão da iluminação das vias, gerando insegurança em possíveis passeios à noite pelo bairro, como afirmou um entrevistado. Essa questão seria outra justificativa para a alternativa ―vida noturna‖ ter sido classificada como aspecto menos apreciado pela amostra. O segundo ponto, de acordo com os entrevistados, que também pode ou deve ser melhorado é a conservação das características urbanísticas presentes no bairro, com média de 3,96, também alta. Os atrativos culturais vistos como rugosidades inserem-se neste quesito, o que pode ajudar a justificar na questão anterior a preferência da vista para a cidade como a opção preferida após a visita, diferindo-se de sua motivação principal.
Em seqüência está a sinalização como terceiro ponto a ser melhorado. Não apenas a inexistência de placas indicando as exatas vias, designando o melhor caminho a ser tomado ou apontando os atrativos do bairro dificulta o deslocamento das pessoas pelo mesmo. Considerou-se a precariedade em que se encontram esses instrumentos sinalizadores, representando um fator que pode se tornar um empecilho no melhor aproveitamento da visita. Em se tratando de limpeza, o bairro apresenta uma boa estrutura conforme os dados obtidos na pesquisa com os entrevistados.
Quanto à questão de transportes muitos entrevistados afirmaram ser falha a oferta de transportes públicos no bairro e complementam dizendo que os lá existentes deveriam seguir um controle de velocidade, mas não apenas eles, abarcando inclusive os carros de passeio, afinal muitas pessoas adotam o caminhar para se deslocarem por Santa Teresa. Um entrevistado apresentou a seguinte explanação: ―Criação de linhas de ônibus para a zona sul, pois a maioria dos turistas sai de Santa Teresa para a zona sul e a maioria dos moradores que não trabalham no centro trabalha na zona sul‖. Essa afirmativa ressalta que existe falta de incentivo não apenas para a possibilidade de uma integração turística na cidade, mas para o atendimento das necessidades da própria população. A seguir, nas figuras 10 e 11, é possível verificar a disposição dos resultados desta pergunta por completo.
. Figura 10: Aspectos que devem ser melhorados no bairro
Fonte: Elaboração própria
Figura 11: Média de aspectos que devem ser melhorados no bairro Fonte: Elaboração própria
Ao serem perguntados acerca da oferta turística não foi apresentado um consenso nas opiniões coletadas. A maioria ficou dividida entre ser pouco aproveitada ou ser bem aproveitada, porém, a porcentagem relativa máxima definiu
a oferta turística do bairro como pouco aproveitada. O que se pode observar é que eles percebem como algo que ainda pode ser melhorado, sendo que apenas 1,03% classificaram como muito bem aproveitada. Tendo por base questões anteriores é possível constatar alguns pontos influentes nesta posição com base nos dados expostos na figura 12, a seguir:
Figura 12: Aproveitamento da oferta turística Fonte: Elaboração própria
Em relação à paisagem urbana do bairro ser considerada diferencial em relação ao restante da paisagem da cidade do Rio de Janeiro 96,90% afirmaram que acreditam assim o ser. Este resultado já era previsto como defendido no início do estudo, consolidando-se o principal problema norteador da pesquisa a partir da opinião da amostra entrevistada.
Como já previsto também como um dos fatores mais preocupantes, a partir de visitas durante o processo do estudo, foi elaborada esta questão nove específica acerca da segurança no bairro que indaga: ―você acredita que a instalação de UPP estimulará a visitação em Santa Teresa?‖. Apesar de 83,68% dos entrevistados terem afirmado que acreditam no estímulo à visitação, há quem pense que a instalação de Unidade de Polícia Pacificadora em Santa Teresa não irá influenciar a visitação ao bairro. Tal resultado pode ter sido obtido pelo fato de a parte explorada por visitantes ser justamente composta por locais de maior movimentação,
representando menos risco à segurança, próximos a residências de uma parcela não muito atingida pela falta de recursos básicos como é percebido em outras partes menos abastadas do bairro. Existe também a possibilidade de haver falta de credibilidade na aplicação deste método por parte desses 16,32% dos entrevistados. Apesar de terem sido percebidos pontos a serem aperfeiçoados, como segurança, melhora na conservação das características urbanísticas e a questão de transportes, 97,92% dos entrevistados afirmaram recomendar a visita ao bairro, contra apenas 2,08% de rejeição, havendo esta parcela justificado com a vivência de experiências desagradáveis que tenham tido no bairro ou mesmo a falta de interesse pelo que foi visto.
Considerando as questões trabalhadas no início do estudo, no capítulo ―Turismo urbano: rugosidades e atratividade.‖ é possível fazer algumas reflexões mais profundas com base nos dados obtidos com a aplicação dos questionários. A questão da paisagem ser observada por olhares múltiplos, por exemplo, foi comprovada, uma vez que a subjetividade presente na percepção de cada entrevistado proporcionou a apresentação de opiniões divergentes. Cada visitante apresenta demandas distintas e por conseguinte vai buscar preenche-las da sua maneira particular, por meio de experiências, não apenas por meio do olhar. O que pode para uns representar uma simples paisagem apreciável esteticamente, para outros é vista cheia de significação, partindo de outras concepções estabelecidas por vivências anteriores.
Assim, essas pessoas buscam desvendar a alma do lugar, identificando características peculiares por meio da vivência, da sinestesia presente no ambiente, captando a essência presente no local. Esse ambiente cultural que proporciona atratividade ao bairro de Santa Teresa, como percebido na pesquisa, não se dá apenas pela presença dos bens materiais, pois existe um cotidiano presente, que influenciará tanto positiva como negativamente.
Como um bairro predominantemente residencial existe uma dinâmica diária que acaba por promover também essa certeza de que Santa Teresa não é um lugar inventado, criado apenas com a finalidade da visita turística. Os. bens materiais, por iniciativa dos próprios moradores, que se fazem bastante presentes, vem sendo preservados. Isso gera a curiosidade que estimulou a ida de visitantes ao bairro, a construção dessa paisagem urbana. O bonde, com destacada importância nesse processo de atração, criando diferenciação ao passeio ao bairro, fora o caminhar
que se torna um fator propício para o aproveitamento da visita, conseguindo, assim, o visitante perceber, presenciar melhor os detalhes na paisagem.
Com a aplicação dos questionários foram percebidas distintas valorações relacionadas à paisagem. Desde os mais pessoais como o valor afetivo, como afirmaram alguns entrevistados ao defenderem a não descaracterização original ou destruição desses bens que remetem à memória coletiva. Nesse ponto também pode ser visto o valor pragmático, em relação à opinião que os entrevistados tiveram acerca de como se encontra a preservação atual desses bens, frutos de relações que os grupos sociais estabeleceram com o ambiente, aparecendo em marcas tangíveis. .
Essas peculiaridades, por sua vez, como as rugosidades, geram atratividade ao bairro, porém se não houver uma sinergia de ações tomadas pelos diferentes sujeitos envolvidos como poder público, moradores e visitantes, voltadas para a conservação dessa identidade espacial do ambiente visitado, as consequências serão percebidas tanto no âmbito do morador como no do turista e conseqüentemente no do poder público.