3 TURISMO NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
3.1 RIO DE JANEIRO E SEUS PRINCIPAIS ATRATIVOS
Faz-se necessário para analisar a diferenciação da paisagem do bairro de Santa Teresa, a ser trabalhado mais a frente, considerado um bairro turístico, a relação entre os atrativos urbanos encontrados em outros bairros na cidade. A partir de um dos principais meios de divulgação dos atrativos da cidade, para caracterizar a oferta turística carioca, o presente trabalho vai adotar os principais atrativos da cidade estabelecidos pela RIOTUR.
A Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro S.A é o órgão executivo da Secretaria Especial de Turismo, mais conhecida como RIOTUR. Tem por objetivo geral a execução da política de turismo do Município do Rio de Janeiro, formulada pela respectiva Secretaria, visando à captação de fluxos turísticos, dos mercados nacional e internacional. Para alcançar esse objetivo a RIOTUR executa um plano de ação, que inclui ações de marketing que visam promover, institucionalmente, o destino turístico Rio, no Brasil e no exterior. Esse órgão de turismo usa de parcerias com iniciativa privada em parcerias de projetos e atividades relacionadas ao turismo do Rio objetivando o fortalecimento do Setor (RIOTUR, 2011).
Conforme as informações divulgadas pelo órgão supracitado a cidade do Rio de Janeiro apresenta cinqüenta e sete atrativos de maior destaque, já consolidados nos cenários turísticos nacional e internacional. A natureza recebe uma atenção relevante, estando presente em diversas áreas da cidade, podendo ser desfrutada diretamente em forma de: passeios e prática de atividades relacionadas ao ecoturismo na Floresta da Tijuca; cachoeiras; no Jardim Botânico; em seus parques com jardins como o Parque Guinle ou no Sítio Roberto Burle Marx; Lagoa Rodrigo de Freitas; ou nas praias e sua extensa orla. Essa, por sua vez, garante a indicação pelo órgão de nove principais praias: de Ipanema, Copacabana, da Barra da Tijuca, Arpoador, Praia do Pepino, do Diabo, do Pepê, da Joatinga e de Guaratiba, além de outras encontradas na zona oeste, em sua maioria, como Prainha e Grumari,mais reservadas, não tão freqüentadas por turistas.
Em se tratando de atrativos urbanos, Pão de Açúcar e Cristo Redentor são atrativos tradicionais e de reconhecimento internacional, também apresentando integração com a paisagem natural, dificilmente dissociada do restante da cidade. O segundo se sobressai inclusive por sua importância religiosa, enquanto ícone
material do catolicismo, ponto de convergência para peregrinos. Acerca do viés religioso há de se destacar inclusive os diversos templos que se tornaram atrativos no Rio de Janeiro, a exemplo da Igreja da Candelária, Igreja da Penha, a Catedral Metropolitana e o Mosteiro de São Bento. Em sua maioria católica, devido à influência na formação da cidade e de sua população, esses atraem não apenas peregrinos, mas curiosos pelo patrimônio material cultural que representam. Vestígios arquitetônicos de distintas épocas e estilos são responsáveis por incitar a aproximação de visitantes.
Quanto a vestígios urbanos pertencentes à cidade é interessante destacar a visão de Law (1992), que define como principais atrativos de turismo urbano elementos como museus, galerias de arte, casas de espetáculo, esportes espectáveis, entretenimento, prédios históricos, paisagem urbana além de datas e eventos especiais. Já os elementos secundários intensificam esses atrativos ou dão assistência no processo de atração e apoio ao visitante como os setores de alimentos e bebidas, acomodação, agenciamento e transportes. O mesmo autor afirma ainda que a maioria dos recursos encontra-se próxima aos centros, que tradicionalmente dispõem de boa acessibilidade, o que para um visitante torna-se essencial, haja vista a maior facilidade de conhecer o destino em seu deslocamento nesse meio distinto de seu habitual. A concentração de elementos que propulsionam o turismo, segundo o mesmo, promove inclusive a sua diferenciação em relação a outros lugares, sendo as peculiaridades, portanto, que acabam por distingui-los, atendendo aos diferentes apelos e demandas pessoais dos visitantes.
Outros principais atrativos também considerados indicados à visitação, segundo a RIOTUR (2011), são grandes construções como o prédio onde funciona o Copacabana Palace e o Palácio do Catete, localizados na zona sul. Todavia, é percebida no centro da cidade a existência de uma grande concentração de prédios de relevância histórica e de elementos que compõem uma paisagem urbana rica, preservada até os dias atuais. Esta se encontra ao mesmo tempo integrada a um ambiente de negócios devido à concentração de inúmeros escritórios e conseqüente movimentação diária, seja pelos funcionários em horário de almoço, os comerciantes, formais ou informais, os transportes, ou por pessoas passeando pelas ruas da cidade; ambiente típico de cidades grandes.
O Palácio Gustavo Capanema localizado no centro da cidade, por exemplo, é um dos primeiros exemplares da arquitetura moderna no Brasil. Na Cinelândia é
possível encontrar rugosidades como o Theatro Municipal, onde são exibidas peças teatrais e apresentações de dança, principalmente, até os dias de hoje. Contudo grande parte desses prédios atualmente apresenta funções diferentes das que possuíam na época em que foram construídos. É evidenciada, dentre esses, a presença daqueles que atualmente exercem função de centros culturais, localizados em antigas construções de destaque arquitetônico como o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), datado de 1880, que reúne dois teatros, auditório, salas de vídeo e cinema, quatro salas para mostras e biblioteca. A exemplo de outros centros culturais alocados em prédios históricos está também o Centro Cultural Light.
Possuidor de um rico acervo histórico ao ar livre coloca-se em destaque para o órgão executivo da Secretaria Especial de Turismo do Rio de Janeiro o bairro Santa Teresa, principal objeto de estudo. Localizado próximo à região central da cidade possui diferentes vias de acesso direto ao bairro. Sua configuração urbana e seu dito ―ar bucólico‖ são responsáveis por gerar apreço nos visitantes devido à sua diferenciação em relação a outras localidades, a ser analisada no capítulo seguinte mais a fundo, com inúmeros exemplares de construções seculares preservadas constituindo essa configuração. Ruas estreitas, de terreno acidentado, ladeiras sinuosas presentes em todo o bairro fora o seu mais conhecido atrativo: o bonde de Santa Teresa, que tem sua estação no Largo da Carioca, centro da cidade.
Em sua maioria, os atrativos destacados pela RIOTUR (2011) localizam-se na área central da cidade e na zona sul, compreendendo uma estrutura urbana melhor assistida em se comparando com as áreas da zona norte ou da zona oeste. Não que a existência de atrativos efetivos ou potenciais seja pouco relevante nessas partes da cidade; muitas vezes não são de fácil acesso; ou apresentam baixa oferta de suporte ao turista; sendo mais distantes em relação a outros atrativos ou do lugar onde se hospeda; mazelas sociais como a violência que impedem ou dificultam a visita a determinadas áreas. Estes são alguns aspectos que podem influenciar negativamente a presença de visitantes em determinadas áreas da cidade.
Como exemplo de atrativos importantes nesses trechos não tão aproveitados pela atividade turística está, na Zona Norte, a Quinta da Boa Vista, por exemplo, residência dos imperadores do Brasil no século XIX. Outro exemplo é o Estádio Jornalista Mário Filho, conhecido popularmente como Maracanã, ícone de esporte caracteristicamente praticado pelos brasileiros, o futebol, e palco de shows para um
público de grande número, nacionais ou internacionais como Frank Sinatra e Paul Mc Carthney.
A partir de tais explanações é possível destacar que o espaço receptivo no turismo, pode ao mesmo tempo seduzir e instigar o visitante a permanecer no lugar transitoriamente ou repulsá-lo, variando de acordo com a experiência vivida no ambiente, atendendo ou não às demandas pessoais. Não necessariamente um bairro inteiro poderá ser aproveitado pela atividade turística, nem mesmo no caso do bairro de Santa Teresa. A delimitação de áreas patrimoniais geralmente torna-se restrita por fatores que afetam a sociedade, como a falta de infraestrutura e a violência urbana, que comprometem o seu conhecimento e usufruto de maneira a potencializar a preservação dessas áreas. A visitação é prejudicada, não tendo o turista um aproveitamento maior do que poderia em relação ao espaço existente e à oferta da qual dispõe a localidade.
O planejamento urbano deveria se ocupar da história do município ou da região por meio de traços presentes e perceptíveis no ambiente diário, como essas rugosidades e marcas arquitetônicas e urbanísticas em vez de buscar elementos antigos e restringi-los a museus, por exemplo, com circulação limitada, muitas vezes àqueles visitantes de passagem pelo destino, pouco pelos próprios moradores, fundamentais para garantir a identidade espacial do ambiente visitado.
Seguindo esse pensamento de identificar as vocações reais das localidades é interessante destacar que os gestores da cidade do Rio de Janeiro passaram a percebê-la de outra forma. O Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro As cidades da Cidade enfoca identidades, vocações e potencialidades das regiões da cidade do Rio de Janeiro, valorizando sua diversidade, diferentemente do plano estratégico anterior a este referente ao ano de 2004. Intitulado ―Rio Sempre Rio‖, buscou compreender a cidade situando-a diante de fenômenos em movimento ascendente como a globalização e do surgimento de termos como cidades globais. Houve uma negação ao recorte da cidade, negligenciando suas diferenças internas, e volta-se a destinações práticas, pois era dada grande importância à competição entre as cidades.
A partir de estudos acadêmicos na década de 1990, contudo, passou-se a pensar nas peculiaridades regionais, direcionando destaque ao desenvolvimento endógeno, baseado no fortalecimento interno visando à criação de condições sociais e econômicas para a geração e atração de novas atividades produtivas. Foi então
focada a divisão por regiões da cidade no plano estratégico ―As cidades da Cidade‖, reconhecendo a heterogeneidade expressa em 12 regiões com características histórico-geográficas únicas, habitadas por populações com maneira de pensar e agir distintas, bem como em relação à diferenciação quanto à natureza e à topografia de cada uma.
Dentre estas 12 áreas selecionadas há aquelas que assim o são devido a características pertinentes à preservação da natureza e sua utilização para o ecoturismo; potencial industrial; pólo formador de atletas; foco no setor de serviços e comércio; pólo prestador de serviços; centro de comércio varejista; centro de eventos nacionais e internacionais; base de chegada de turistas, como a Ilha do Governador, e Zona Sul sendo ―vitrine nacional e internacional do turismo; da cultura e do lazer, reforçando a maneira de ser do carioca‖ (Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 2004, p.195). O bairro de Santa Teresa, por sua vez está inserido em uma área de ligação com bairros tanto da zona sul como da zona norte da cidade e segundo o Plano é classificado como pertencente à Região Centro.
O conceito percebido a partir da potencialidade dessa região, segundo o documento, pretende a consolidação da imagem de ―centro de referência histórico- cultural do país, consolidando as vocações de centro de negócios, centro de desenvolvimento de tecnologia e principal centro de telecomunicações da América Latina‖ (PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, 2004, p.91). Essa região é formada por 13 bairros, sendo eles: Benfica, Caju, Catumbi, Centro, Cidade Nova, Estácio, Gamboa, Mangueira, Rio Comprido, Santa Teresa, Santo Cristo, São Cristóvão e Saúde, além de Ilha de Paquetá. Contudo, os atrativos encontrados nessa área são poucos ou mesmo seus bairros não apresentam uma efetiva atratividade aos turistas.
A maioria dessas localidades em questão, apesar de ter passado por um processo de formação historicamente parecido, não oferece aos visitantes muitos serviços de apoio ou condições de fácil acesso ou deslocamento pelas mesmas. Ao passar do tempo foram alvo de degradação e pouca manutenção de seus bens, a conservação de seu patrimônio, chegando a serem tratados com aparente descaso pelo poder público, tornando-se locais marginalizados, tanto pelo aspecto da violência como pela condição de estarem distantes do desenvolvimento, do tal progresso escrito na bandeira do país.
No caso de Santa Teresa, já é possível perceber uma efetiva presença de visitantes, apesar de se apresentar certa degradação em seu ambiente - como será abordado mais a fundo na pesquisa inserida no capítulo quatro. No bairro, o turismo se faz mais presente, existindo distintos meios de hospedagem e atrativos culturais. O local definitivamente insere-se na região citada por seu aspecto histórico-cultural, por seu patrimônio preservado, guardando exemplares de construções e vestígios urbanísticos materiais na sua paisagem, deixando a questão de centro de negócios, centro de desenvolvimento de tecnologia e principal centro de telecomunicações da América Latina, para o centro da cidade.