Capítulo V. Resultados e Discussão
V.1. Resultados e Discussão que respeitam as entrevistas focais
Após a exploração do caso sobre a visão global dos pacemakers cardíacos e o caso clínico específico, os seis grupos participantes deste PI foram entrevistados e as gravações foram transcritas integralmente. Durante a condução da entrevista, as questões foram colocadas pela ordem definida no guião de entrevista (Anexo 4), e sempre que o entrevistador considerou ser pertinente, foram utilizadas questões intercalares.
As questões foram enquadradas em cinco categorias de forma a tornar a análise de conteúdo dos resultados obtidos mais facilmente interpretável. Às cinco categorias descritas corresponderam variadas questões descritas na tabela 3.
Tabela 3 - Categorias de análise das entrevistas focais e correspondência com as questões do guião de entrevista.
Categorias Questões
Sistema Cardiovascular Q1, Q2, Q3, Q4
Características da Ciência Q5, Q7
Metodologia de Ensino Baseado em Casos
Q8, Q9
A geologia na medicina Q10
Relações CTS Q6, Q11
As categorias estabelecidas encontram-se divididas em subcategorias e apresentam um código alfabético específico (exemplo: o código A corresponde à subcategoria “Eletrocardiograma”). A cada subcategoria correspondem indicadores
específicos (exemplo: subcategoria A inclui os indicadores A1 e A2), incluídos na tabela 4.
Tabela 4 - Subcategorias e indicadores utilizados na análise de conteúdo das entrevistas.
Subcategorias Indicadores
A: Eletrocardiograma
A1: Reconhecem um eletrocardiograma como um exame para avaliar a atividade elétrica do coração.
A2: Reconhecem o eletrocardiograma como uma exame que serve apenas para medir a frequência cardíaca.
B: Frequência cardíaca
B1: Identificam a frequência cardíaca normal de um adulto.
B2: Não identificam a frequência cardíaca normal de um adulto.
C: Doenças associadas ao sistema cardiovascular
C1: Definem bradicardia. C2: Não definem bradicardia.
D: Constituintes do sistema cardiovascular
D1: Identificam a aurícula direita como um dos constituintes do sistema cardiovascular referido no caso.
D2: Não identificam a aurícula direita como um dos constituintes do sistema cardiovascular referido no caso.
E: Características da ciência
E1: Consideram que o conhecimento científico não é estanque, sendo por isso, mutável.
E2: Consideram que o conhecimento científico é estanque, não sendo por isso, mutável.
F: A sociedade e a ciência
F1: Consideram que o contexto social e cultural influencia o desenvolvimento científico.
F2: Não consideram que o contexto social e cultural tenha influência no desenvolvimento científico.
G: Características dos cientistas G1: Observador.
G2: Observador e criativo. G3: Ter conhecimento.
G4: Ter conhecimento e criativo. H: Aplicação da metodologia de ensino
baseado em casos em outros conteúdos
H1: Gostavam de aprender outros conteúdos através da metodologia de ensino baseado em casos.
H2: Não gostavam de aprender outros conteúdos através da metodologia de ensino baseado em casos.
I: Integração da História da Ciência no Ensino Baseado em Casos
I1: Reconhecem que o caso promove uma melhor compreensão dos conceitos científicos para traçar o seu desenvolvimento e aperfeiçoamento. I2: Consideram que o caso demonstra que a ciência é mutável e instável e que, por isso, o pensamento científico atual está sujeito a transformações.
I3: Reconhecem que o caso promove uma melhor compreensão dos conceitos científicos para traçar o seu desenvolvimento e aperfeiçoamento e que demonstra que a ciência é mutável e instável e que, por isso, o pensamento científico atual está sujeito a transformações.
I4: Consideram que o caso permite a análise da evolução da ciência, promovendo dinâmicas CTS.
I5: Não consideram que o caso permite a análise da evolução da ciência, promovendo dinâmicas CTS.
J: Importância da geologia na medicina
J1: Reconhecem a geologia como uma ciência fundamental para o desenvolvimento de outras ciências, como é o caso da medicina.
J2: Não reconhecem a geologia como uma ciência fundamental para o desenvolvimento de outras ciências, como é o caso da medicina.
K: Relações CTS
K1: Reconhecem a ciência, a tecnologia e a sociedade como uma tríade complexa, onde a sua combinação obriga a analisar as suas relações recíprocas. K2: Reconhecem que as ideias científicas têm que estar enquadradas socioculturalmente.
K3: Não reconhecem a reciprocidade das relações ciência, tecnologia e sociedade.
Foi realizada uma análise prévia das entrevistas (Anexo 5) com o intuito de eliminar informação irrelevante para os objetivos definidos neste PI. Ulteriormente, codificaram-se as respostas através do sistema de códigos apresentado e contabilizaram-se as frequências de cada código. Nesta última etapa houve o cuidado de contabilizar a resposta do grupo e não a resposta individual uma vez que, de acordo com Krueger & Casey (2014), a unidade de análise do grupo focal é o próprio grupo e não a resposta individual de cada entrevistado.
As frequências obtidas nas respostas para a categoria “Sistema Cardiovascular”, presentes na tabela 5, revelaram que os alunos apresentam resultados bastante satisfatórios em relação a todas as questões avaliadas, à exceção da questão 1, onde dois dos grupos revelaram dificuldade em reconhecer o eletrocardiograma como um exame que mede a atividade elétrica do coração (tabela 5).
Todos os grupos entrevistados foram capazes de identificar a frequência cardíaca normal de um adulto e afirmando que, no caso clínico explorado, “o senhor não tinha uma frequência cardíaca normal” (discente I-4). Um aluno ainda destacou que o senhor tinha “uma bradicardia” (discente I-3).
Adicionalmente, todos os grupos entrevistados foram capazes de explicar o que era uma bradicardia, referindo que “é um termo na medicina que designa uma frequência cardíaca abaixo do normal” (discente V-4).
Por fim, todos os grupos identificaram corretamente a cavidade do coração para qual eram enviados os impulsos elétricos gerados pelo pacemaker artificial de Hymann.
Tabela 5 - Frequências de resposta nas entrevistas focais em relação à categoria "Sistema Cardiovascular".
Questões Q1 Q2 Q3 Q4
Subcategorias A1 A2 B1 B2 C1 C2 D1 D2
Frequência 4 2 6 0 6 0 6 0
Em relação à categoria “Características da Ciência”, as frequências dos indicadores avaliados mostram que, de acordo com a tabela 6, todos os grupos entrevistados consideram que a ciência é mutável, afirmando que “na época de 50 os pacemakers eram ligados à corrente elétrica e evoluiu para pacemaker implantável (…) a ciência evolui para se adaptar melhor ao ser humano, observam (…) para o que podem melhorar” (discente III-1). Um discente ainda acrescentou que “ao haver vários tipos de doenças e reações de pessoas aos tratamentos faz com que os cientistas pesquisem outras formas de ajudar e curar as pessoas, logo estamos constantemente a evoluir na ciência e na saúde” (discente VI-4).
Quando pedido para enunciar características que os discentes consideravam importantes para ser um cientista, um grupo considerou apenas como característica importante, ser observador. Dois grupos consideraram duas características como importantes: observador e criativo e, por fim, um grupo caracterizou como ter conhecimento e ser criativo.
Tabela 6 - Frequências de resposta nas entrevistas focais em relação à categoria "Características da Ciência".
Questões Q5 Q7
Subcategorias E1 E2 G1 G2 G3 G4
Frequência 6 0 1 3 0 2
No que diz respeito à categoria “Metodologia de Ensino Baseado em Casos” (tabela 7), à exceção de um grupo, todos os grupos consideraram que a utilização do caso contribuiu para a melhoria da sua aprendizagem, auxiliando na explicação dos avanços da ciência e da tecnologia na saúde do sistema cardiovascular.
Os alunos defendem que com esta metodologia de ensino “é mais fácil para perceber onde os conteúdos que se [abordam] nas aulas se colocam numa situação que é real” (discente IV-3), aproximando os alunos dos fenómenos do mundo real aos conteúdos ensinados na escola. Ainda acrescentam que é “ importante darmos estas coisas com a história e os vários avanços” (discente VI-2), uma vez que se torna mais fácil perceber que a ciência tem base empírica e, dessa forma “com a história percebe- se melhor como aconteceu o desenvolvimento da ciência e da tecnologia no coração” (discente VI-4), revelando o potencial da História da Ciência a respeito da natureza do conhecimento científico.
Por outro lado, o grupo que revelou que não gostava de aprender outros conteúdos através da metodologia de ensino baseado em casos, explicou que “noutras matérias gostaria, nesta é-me indiferente porque não conheço ninguém com pacemaker” (discente II-3), revelando que a motivação intrínseca do aluno é um fator importante no que toca a algumas matérias.
Tabela 7 - Frequências de resposta nas entrevistas focais em relação à categoria “Metodologia de Ensino Baseado em Casos”.
Questões Q8 Q9
Subcategorias H1 H2 I1 I2 I3 I4 I5
Frequência 5 1 0 0 4 2 0
No que concerne à categoria “Geologia na medicina” (tabela 8), todos os grupos consideraram que o desenvolvimento da medicina foi possível por mérito de outra ciência, a geologia, afirmando que “se a geologia não fosse assim tão evoluída, a medicina também não devido aos metais e minerais que são explorados pela geologia e que são utilizados nos equipamentos na medicina” (discente VI-3). Um aluno ainda realçou que “sem a geologia estar tão evoluída não sabiam que o ouro era uma hipótese em vez do titânio para o pacemaker do paciente” (discente I-4).
Tabela 8 - Frequências de resposta nas entrevistas focais em relação à categoria “Geologia na medicina”.
Finalmente, no que concerne à categoria “Relações CTS”, elencadas na tabela 9, todos os grupos entrevistados reconhecem que o contributo da ciência para a sociedade é inquestionável, e que o conhecimento científico é social e culturalmente integrado. Os discentes consideram que “a ciência vai tendo avanços” (discente II-4), na medida em que possibilita avanços nos campos da saúde, uma vez que “a partir da 2ª Guerra Mundial que a opinião da população mudou devido ao sucesso de novas tecnologias que levaram a uma melhor qualidade de vida” (discente IV-2). No entanto, os discentes reconhecem que o conhecimento científico tem que ser social e culturalmente aceite, uma vez que “a sociedade influencia a ciência” (discente V-5), exemplificando que “antes da 2ª Guerra Mundial a sociedade tinha fé em Deus e acreditava-se que se as pessoas morriam (…) porque Deus queria” (discente III-1), mas que “depois da Guerra as pessoas mudaram a forma de pensar e aceitaram a máquina porque várias pessoas sobreviveram à conta dos pacemakers” (discente III- 3).
No entanto, apenas quatro grupos reconhecem que a ciência, a tecnologia e a sociedade como uma tríade complexa, afirmando que o conhecimento científico “permite-nos desenvolver novas tecnologias, (…) permitem fazer novas observações sobre o mundo que (…) nos permitem construir ainda mais conhecimento científico, que, vai inspirar outra tecnologia” (discente II-1). Um discente ainda acrescenta que “é necessário o desenvolvimento da tecnologia para melhorar a ciência, mas também é preciso que a sociedade acredite e aceite” (discente VI-2).
Tabela 9 - Frequências de resposta nas entrevistas focais em relação à categoria “Relações CTS”.
Questões Q10 Subcategorias J1 J2 Frequência 6 0 Questões Q6 Q11 Subcategorias F1 F2 K1 K2 K3 Frequência 6 0 4 2 0
Da análise das entrevistas conclui-se quanto ao efeito do PI na aprendizagem dos avanços científicos e tecnológicos na saúde do sistema cardiovascular, que os discentes compreendem que “a ciência muda ao longo do tempo, a ciência é provisória” (discente III-5).