• Nenhum resultado encontrado

4.3 A GOVERNANÇA COLABORATIVA NA RELAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA-

4.3.2 O processo colaborativo

4.3.2.7 Resultados intermediários

Os resultados intermediários são relativos às pequenas vitórias que são alcançadas e as estratégias implementadas ao longo da colaboração. Esse conjunto de resultados, reconhecidos pelos stakeholders, auxiliam no êxito da colaboração (ANSELL; GASH, 2008). As pequenas vitórias são importantes elementos que auxiliam a condução da parceria, enquanto o resultado principal não é atingido, sendo que, uma vez identificadas elas devem ser divulgadas pela liderança para estimular a construção da confiança e o compromisso com o processo colaborativo (ANSELL; GASH, 2008; BRYSON; CROSBY; STONE, 2006).

Alguns resultados intermediários foram alcançados desde as condições iniciais do Programa, o primeiro resultado consistiu na estratégia do Pró-reitor de Extensão de incluir os professores na formatação do Programa de transferência de tecnologia. Na visão dos stakeholders 12 e 13, essa estratégia foi a “grande” sacada da parceria, pois é uma maneira de formar multiplicadores do conhecimento adquirido em Cingapura, no Espírito Santo.

A transferência de conhecimento já está produzindo resultados para a subsidiária, já que mais de 50 trainees estão atuando na produção em diferentes áreas. Inclusive, o retorno do Grupo em Cingapura é muito positivo, pois na visão deles o Programa está atendendo as expectativas. Alguns trainees já assumiram cargos de liderança em equipes de mais de 100 pessoas. O

A maioria deles estão com turmas embaixo de trabalhadores em que eles são responsáveis por essas pessoas. Aguinaldo tem 180 pessoas abaixo dele, ele está na estrutura. Aguinaldo tem uma capacidade de crescimento enorme, o desempenho dele é excelente. Isso é resultado daquilo que eles aprenderam [...]. Hoje, quando você olha, são eles que estão tocando o estaleiro.

Esses resultados dos trainees em campo apontaram a redução da curva de aprendizagem na subsidiária. Como o Estado do Espírito Santo não possuía força do trabalho capacitada para trabalhar na construção naval, os coordenadores de área tinham dificuldade de seguir o cronograma de produção. Segundo os stakeholders 13 e 15, os resultados são perceptíveis no cotidiano da produção.

Eles estão com equipes que nunca trabalharam com isso, mas estão conseguindo desenvolver. Eu acredito que isso é muito por conta do conhecimento que trouxeram de lá. Esse conhecimento específico, junto dos gerentes, mas está sendo liderado por eles. Eles têm equipes e gerenciam, eles fazem cronograma, acompanham o resultado, eles fazem acontecer. Então, os resultados certamente já estão aí, a gente já vê no dia- a-dia mesmo (stakeholder 13).

O que se observa aqui é que quando eu cheguei aqui eu tinha muita dificuldade de encontrar pessoas para nos ajudar no processo fabril. E nós realmente tivemos que contratar pessoas que não tinham o embasamento técnico que nós gostaríamos que tivesse. E num determinado momento essa garotada começou a chegar e veio me ajudar, dividindo comigo esse espaço [...]. Isso já mostra um trabalho mostra uma evolução bem clara em termos de melhoria, você consegue prazo, qualidade. Porque toda empresa desse segmento, quando você instala, existe uma curva de aprendizado. Independentemente se você contrata com experiência ou não. É claro que essa curva de aprendizado vai ser maior ou menor em função da capacitação técnica que você conseguiu colocar a sua disposição, e nós estamos reduzindo gradativamente (stakeholder 15).

Outro aspecto relevante identificado foi à possibilidade de o trainee tornar-se a ponte entre as culturas, brasileira e cingapuriana, mediando possíveis conflitos relacionados à cultura organizacional e compartilhando a cultura local com os expatriados.

Então, eu acho que a engenharia de lá também é um pouco maias avançada, um pouco mais conhecedora e muito mais resiliente do que a nossa, então os supervisores de lá e os supervisores divergem porque a estrutura organizacional diverge bastante também. Então eu acredito que nós estamos presentes aqui hoje, que muitas vezes foi relatado até mesmo pelo pessoal da área, nós temos uma cultura cingapuriana e uma cultura brasileira, nós somos a ponte entre elas, então sem essa ponte aqui hoje eu acredito que seria muito mais difícil trabalhar [...] (stakeholder 18).

Por exemplo, tem um especialista em construções de navio, que é um cingapuriano que veio para cá também, apesar de ele ter aprendido lá, a gente tem o conhecimento técnico e compartilhamos a cultura brasileira. Então a gente está exatamente no fogo cruzado aqui, estamos no meio, então nós somos cobrados, somos questionados. Para mim o aprendizado não acabou em Cingapura, ele continua aqui hoje [...] (stakeholder 18).

A relação entre o Instituto e a subsidiária evoluiu para outras formas de cooperação. Uma delas foi à criação da Rede de Cooperação em Estudos, Extensão e Pesquisa sobre Ambientes Costeiros e Marinhos Capixabas. Essa rede, na verdade, trata-se de um arranjo de cooperação constituído por instituições governamentais e não-governamentais, sendo o Instituto Federal de Ensino o gestor executivo do Programa juntamente com a subsidiária, que é a financiadora do projeto. De acordo com o stakeholder 4:

Esse caso da Recepac é muito mais o caso da governança colaborativa na prática, tem mais integração. Mais muito por uma ação de trabalho colaborativo da empresa com a gente aqui do [Instituto] e a gente puxa o estado o tempo todo, puxa os agentes públicos locais, a sociedade civil organizada.

Outras possibilidades de parcerias foram apontadas pelos stakeholders. A primeira refere-se à proposta do Instituto em ter como o locus de pesquisa a subsidiária, para o desenvolvimento de projetos de acordo com o banco de problemas identificados na produção. Além disso, algumas relações pontuais estabelecidas entre alguns professores, que participaram do intercâmbio com profissionais da subsidiária, podem levantar outras frentes de pesquisa.

Estamos trazendo o doutorado de engenharia mecânica pela Unicamp que vai dar outra alavancada nessa visão futura de ampliar essa competência do campus, e ainda há oportunidade para outras iniciativas. A gente está em curso com esse processo, não está encerrado, podem acontecer outras coisas nesse caminho (stakeholder 4). No meu caso eu estava acompanhado dos técnicos e tinha uma turma de engenheiros também, que era um programa interno da [subsidiária]. Então a gente teve um contato muito grande com esses engenheiros e acredito que no futuro vão surgir boas relações de pesquisa. Inclusive boa parte se formou comigo, então se criou um ambiente amistoso entre os funcionários da [subsidiária] e os professores. Um network (stakeholder 10).

A socialização do conhecimento adquirido já foi introduzida, em caráter experimental, para egressos do curso técnico de Mecânica de uma das unidades. Esta foi uma iniciativa de alguns professores que retornaram do intercâmbio, onde desenvolveram um curso de extensão: “o primeiro produto do intercâmbio, voltado a pequenas áreas como arquitetura naval” (stakeholder 5).

Se não fosse esta questão da oportunidade de Cingapura, por mais que a [subsidiária] estivesse aqui do lado, a maioria dos alunos iriam formar sabendo apenas o básico da indústria naval. Hoje aqui no campus, por iniciativa de outros professores que também participaram do Programa, já foi ofertado um curso de tecnologia naval [...]. É um curso pós-técnico, como se fosse uma complementação do ensino técnico (stakeholder 10).

Além disso, foi lançado no ano de 2015, na unidade do Instituto no mesmo município da subsidiária, o curso de Engenharia Mecânica, com ênfase em Engenharia Naval. As disciplinas na área de engenharia e construção naval estão sendo ofertadas por professores que já retornaram do Programa. Conforme afirmou o stakeholder 5, “esta parceria com a [subsidiária] já nos possibilitou levar uma das ênfases do curso de Engenharia Mecânica para a área naval”.

Alguns stakeholders chegaram a ir mais longe, em suas expectativas sobre os resultados do Programa, ou seja, vislumbram, a longo prazo, a possibilidade de resgate da construção naval brasileira.

Eu acho que existem excelentes resultados. Primeiro que agente criou uma cultura naval nessas pessoas, e mais importante, a gente criou em alguns professores. Isso é muito importante, até gente adaptar isso ao nosso modo brasileiro de ser. Porque também não acredito em importação de nada que não tenha a nossa cara. Mas, os professores serão os multiplicadores disso. Eles vão poder ser, não sei se é sonho, mas eles vão poder regatar a nossa indústria naval. Acho que eles serão esses agentes

(stakeholder 24)

A faixa etária dos alunos que foram pra Cingapura que são do [Instituto] é de 20 anos, alguns com 25, 29. Ou seja, esses alunos que vão pra Cingapura e retornam com um contrato já firmado, a gente sabe que pela experiência profissional deles, por ter estudado fora, [...] etc., eles não vão parar por aí. Então, esses alunos têm tudo para no futuro fazer um mestrado, fazer um curso superior e daqui a 20 anos estar comandando a indústria naval do nosso Estado, que hoje ainda é muito limitada. Nós estamos sabendo que a escola dessa garotada toda foi considerada a melhor do país, aí a gente leva para um centro de alta tecnologia e, então, eles absorvem e voltam para aplicar aqui e continuar seu próprio desenvolvimento. Então, eu vejo esse processo muito importante, não só para o governo, mas para o país. Daqui, provavelmente, nós vamos ter um estaleiro do porte como esse que está sendo feito aqui, não vai ficar restrito ao âmbito nacional. Nós vamos ter que ter a capacitação para concorrer em âmbito internacional. E o objetivo é esse mesmo, nós temos que chegar lá. Porque senão nós não vamos conseguir fazer com que o nosso passado retorne (stakeholder 15).

Percebe-se que pequenas vitórias alcançadas ao longo do Programa foram “resultados bem- sucedidos”, que influenciaram a construção da confiança e do compromisso com o processo de colaboração. Alguns resultados estavam relacionados a processos críticos da colaboração como, por exemplo, a mudança do local de moradia. Outros, por sua vez, foram resultados intermediários, tangíveis, capazes de oferecer pistas quanto à obtenção do resultado almejado (ANSELL; GASH, 2008). Cabe ressaltar que o Programa ainda está em curso.