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“Femicídio: um tema para debate”

3. Resultados obtidos

3.1. A relação da vítima com o assassino (a)

Ao analisar a relação existente entre a vítima e o assassino, foi possível observar que ex-maridos e ex-companheiros representam 25,5% dos criminosos, enquanto familiares totalizam 15%. Juntos, os maridos e companheiros atuais representam 50,4% ou a metade dos assassinos. Segundo Cardoso (1996), em quase todas as agressões domésticas, o marido ou companheiro foi o responsável pela agressão.

Tio(a) / Sobrinho(a) - 0,63%

Amante - 0,95%

Padrasto / Madastra - 0,95%

Cunhado(a) - 1,26%

(ex)Genro / Nora - 1,58%

Irmão(ã) - 2,21%

Pai / Mãe - 3,47%

Ex-Namorado(a) 3,79%

Ex-Namorada(a) 4,10%

Filho(a) 5,00%

Ex-Marido Ex-Companheiro(a)

25,55%

Marido Companheira(a)

50,47%

Fonte: SPI/Procergs - Extração em: 03/01/2012

3.2. Local do fato

A pesquisa em torno do local do crime apontou que em 83,48%

dos casos, o assassinato ocorre na residência da própria vítima. Um indicativo semelhante ao que é encontrado na literatura (Giffen, 1994;

Soares et al., 1996). Este fato acontece, em razão do local, o crime é praticado de forma encoberta e normalmente sem interrupções de ou-tras pessoas, sob a privacidade da casa.

Isto reforça a ocorrência da violência contra a mulher no espaço doméstico e familiar, no “espaço da mulher”, local em que as relações de desigualdade de gênero são naturalizadas e reproduzidas.

Interior de automóvel 2 - 0,74%

Residência de terceiras 4 - 1,47%

Outros 4 - 1,47%

Estabelecimento Comercial 9 - 3,31%

Via pública 9,56%26

Residência 83,46%227

Fonte: SPI/Procergs - Extração em: 03/01/2012

3.3. Instrumento/arma utilizada

O emprego de instrumentos para cometer o crime é muito repre-sentativo. Em 85% dos femicídios as mulheres foram executadas com o auxílio de armas, sendo a arma de fogo é o meio mais utilizado. Estatisti-camente, arma de fogo corresponde a 47% dos instrumentos, seguidos da arma branca, que corresponde a 38%, o que mostra a necessidade de incluirmos o tema da arma de fogo no debate sobre a violência do-méstica. (ALVIN, 2006).

Instrumento/ Arma Frequência %

Arma de fogo 131 47

Arma branca 106 38

Força física 20 7,2

Ferramentas* 7 2,6

Fogo 6 2,2

Pedra/Madeira 5 1,18

Envenenamento/ Medicamento 3 1,1

Atropelamento 1 0,4

3.4. Motivo do femicídio

O motivo mais frequente do femicídio é o divórcio/separação, cor-respondendo a 51% das ocorrências ou mais da metade dos casos analisados. Em seguida encontram-se discussões/brigas, com 41% e em terceiro lugar, o ciúmes/traição com 5% das situações. De acordo com Romio (2010), os motivos do femicídio configuram-se como con-flitos entre parceiros afetivo-sexuais, que é ocasionado por razões que vão desde recusa da mulher em reatar o relacionamento à situações de vingança, por conta de separação ou ciúmes.

Calúnia - 1 0,93%

Doença/Depressão - 2 1,85%

Ciúmes/Traição - 6 5,56%

Discussão/Briga - 44 40,74%

Divórcio/Separação - 55 50,93%

Fonte: SPI/Procergs - Extração em: 03/01/2012

3.5. Quantidade de antecedentes registrados com o mesmo autor Analisadas as situações de 326 mulheres mortas, descobriu-se que 190 ou 58,3% delas não apresentavam registro contra o futuro as-sassino e 136 ou 41,7% já haviam reportado situações de violência con-tra ele.

Contudo o que mais chama a atenção é que destes 136 casos, 56 mulheres (41,18%), já haviam registrado, no mínimo, uma ocorrência

contra o assassino. Outras 31 vítimas (22,79%) haviam reportado duas ocorrências com o mesmo autor. As vítimas que sofreram três agres-sões representaram 16,9% ou 1/6 dos casos.

Ressalta-se ainda o alto índice de mulheres que reportaram de 4 a 15 agressões. Índice que chegou a 19,14% das vítimas.

56; 41,18%

31; 22,79%

23; 16,91%

10; 7,35%

5; 3,68%

5; 3,68%

1; 0,74%

3; 2,21% 1; 0,74%

1; 0,74%

1

2 3

4

5 6

7 15

8 10

Segundo Carmo e Moura (2010), a vítima possui uma relação com o agressor de dependência, que pode ser financeira ou emocional, o que a faz viver em uma situação de violência constante. Levando-se em consideração o contexto ao qual a mulher se encontra, o funcionamento da violência doméstica é um sistema circular.

3.6. Crimes registrados pelas vítimas em relação ao autor do fe-micídio.

Através da análise dos dados, foi possível descobrir quais crimes antecedem os assassinatos. Ameaças e lesões corporais estão presen-tes em 82,5% dos casos. E neste sentido é necessário destacar as duas tentativas de homicídio as quais, apesar de não chamarem a atenção percentualmente são significativas, pois já anunciavam o crime gravís-simo que seria praticado.

Crime Frequência %

Ameaça 141 41,7

Lesão Corporal 138 40,8

Outros crimes* 24 7,1

Vias de fato 13 3,8

Dano 5 1,5

Estupro 4 1,2

Incêndio 4 1,2

Desobediência 2 0,6

Difamação/Injúria 2 0,6

Homicídio tentado 2 0,6

Maus tratos 2 0,6

Abandono Material 1 0,3

Fonte: SPI/Procergs - Extração em 03/01/2012

* Violação de domícilo, perturbação da tranquilidade, crimes contra a liberdade individual, crimes contra a administração pública, outros furtos, outros crimes.

3.7. Tempo decorrido entre o último registro de violência e o as-sassinato

Uma descoberta extremamente significativa foi que, 6,7% dos as-sassinatos ocorreram no período de 24 horas depois do último registro.

Ademais, dentro do primeiro mês, (considerando-se os dados do mesmo dia) este índice chegou a 33% ou 1/3 dos crimes. Também

cha-ma a atenção o fato de a metade das mulheres (49,6%), foram assassi-nadas até 3 meses depois de comunicar a agressão.

Ao analisar o período de até um ano, esses casos chegam a 76%

ou ¾ dos casos.

Tempo Frenquência %

No mesmo dia 9 6,7

1 mês 36 26,7

2 meses 13 9,6

3 meses 9 6,7

4 meses 8 5,9

5 meses 6 4,4

6 meses 2 1,5

7 meses 7 5,2

8 meses

9 meses 9 6,7

10 meses

11 meses 1 0,7

1 ano 3 2,2

2 anos 10 7,4

3 anos 8 5,9

4 anos 3 2,2

5 anos 7 5,2

mais de 5 anos 4 3

Total 135 100

3.8. Quantidade de crimes reportados pela vítima em relação a outro(s) agressor(es).

Das vítimas que registraram violência doméstica contra outro au-tor, 16% delas já haviam sofrido de 4 a 8 agressões prévias e 43% das vítimas possuíam mais de 2 agressões. Isso reforça vários estudos que demonstram a existência de uma espécie de “ciclo de violência” no qual a mulher está inserida antes de ser morta.

47,37%

19,30%

17,54%

5,26%

5,26%

1,75%1,75% 1,75%

1

2 3

4

5 6 7 8

3.9. Tipos de crimes sofrido com outro(s) agressor(es).

Analisando o histórico das vítimas e aprofundando-se o tipo de agressão sofrida anteriormente, verificou-se que a ameaça e a lesão corporal são os crimes mais praticados contra estas mulheres, embora tenhamos situações graves como maus tratos e tentativas de homicídios.

Crime Frequência %

Ameaça 54 42,5

Lesão Corporal 54 42,5

Outros crimes 9 7,1

Vias de fato 4 3,1

Dano 3 2,4

Calúnia 1 0,8

Homicídio 1 0,8

Maus Tratos 1 0,8

Total 127 100

3.10. Quantidade de crimes praticados pelo autor do homicídio contra outras mulheres anteriormente.

Uma importante descoberta foi a de que os autores dos homicí-dios já costumavam agredir outras mulheres com que conviviam. Mas estas vítimas anteriores, por assim dizer, conseguiram romper o ciclo de violência e escaparam do possível homicídio.

59,21%

23,68%

7,89%

2,63%3,95%1,32%

1

1,32%

1

2 1 3

4 8

10 11

45

18 6

2 3

Das outras vítimas que denunciaram violência praticada pelo as-sassino, cerca de 9% já haviam comunicado de 4 a 11 agressões pré-vias e 41% delas possuíam mais de 2 agressões.

3.11. Tipos de crimes praticados pelo autor do homicídio contra outras mulheres anteriormente.

Verificou-se que em 152 casos o autor do femicídio já tinha agre-dido outras mulheres anteriormente, e os crimes mais frequentes são a ameaça e a lesão. Este dado é relevante, pois indica que a violência

contra a mulher é ainda maior do que se pode perceber e grande parte dela está oculta, transmitindo aos agressores uma falsa sensação de poder e impunidade, que vai se estendendo através das suas relações e acaba de forma trágica no assassinato.

Crime Frequência %

Ameaça 77 50,7

Lesão corporal 50 32,9

Outros crimes* 7 4,6

Vias de fato 6 3,9

Abandono Material 2 1,3

Corrupção de menor 2 1,3

Dano 2 1,3

Maus Tratos 2 1,3

Estupro 2 1,3

Difamação/Injúria 1 0,7

Homicídio tentado 1 0,7

Total 152 100%

3.12. Faixa etária da vítima e do autor do homicídio

Identificou-se que para cada 10 mulheres assassinadas, três de-las morreram com idade entre 18 e 27 anos. Além disso, as vítimas com idade entre 28 e 37 anos correspondem a 25% ou ¼ dos casos.

Em relação aos autores, 1/3 deles tem idade entre 28 e 37 anos.

Na maioria dos relacionamentos a vítima é mais nova. Além disso, ve-rificou-se que 54,5% das meninas com idade entre 0 e 11 anos foram assassinadas por autores com idade entre 18 a 27 anos.

Faixa

total% 1,60 21,80 29,20 24,70 16,70 6,10

3.13. Status do autor até 30 dias do femicídio

É possível notar que, em 31% ou pouco menos de 1/3 dos casos os autores estavam respondendo o processo em liberdade. Um peque-no grupo (4%) estava foragido ou procurado. Outros 19% cometeram suicídio após o femicídio e praticamente a metade (46%) estava reco-lhida na prisão.

98

Os dados evidenciam que no Estado do Rio Grande do Sul o índi-ce de autores que são presos, logo após a prática do femicídio, chega a praticamente metade dos casos. Enquanto foragidos e procurados representam 4% deles.

3.14. Se a vítima possui filhos com o autor e a idade dos mesmos.

Descobriu-se que a cada 10 mulheres assassinadas, seis pos-suíam filhos com o autor do crime. Contudo, o mais significativo é que do total de filhos, 62% são crianças: possuem até 10 anos de idade. Se considerar os filhos de até 15 anos, chega-se ao percentual de 87%.

Menos de 1 ano

Esta descoberta é de suma importância, pois que demonstra a necessidade de políticas públicas diferenciadas, no sentido de man-ter as crianças amparadas depois que a mãe é assassinada e o pai é preso. Elas são vítimas invisíveis do femicídio. Verdadeiros órfãos da violência!

3.16. A escolaridade da vítima e do autor10

Através do cruzamento da escolaridade da vítima e do autor, ve-rifica-se que há uma grande concentração em torno dos que possuem ensino fundamental, representando 77,2%, para os autores e 72,2%

para as vítimas.

Observa-se também que as vítimas possuem maior escolaridade que o agressor. Isso fica evidenciado através do cruzamento entre o ensino médio com o fundamental e o superior com o fundamental com 15,8% e 2,5%, respectivamente.

Quantidade 6 10 87 11 0 114

% do total 3,80% 6,30% 55,10% 7% 0 72,20%

Total Quantidade 6 12 122 17 1 158

% do total 3,80% 7,60% 77,20% 10,8 0,60% 100%

10 O número final de indivíduos, no primeiro quadro, está menor que nas tabelas individuais, pois trata-se de um cruzamento e neste optamos por não considerar os dados sem informação. O cruzamento para se tornar válido deve possuir as duas variáveis. Isto é, tanto à vítima quanto o autor precisavam ter a escolaridade informada.

Vítima Frequência % Autor Frequência %

Total 218 100 Total 221 100

3.17. Etnia11 da vítima e do autor

O cruzamento entre a etnia da vítima e do autor indicou que não há diferenças significativas entre as frequências observadas, bem como não se observou discrepância entre a etnia das partes e a composição étnica estadual, apontada pelo IBGE.

Etnia da vítima

Frequência % Etnia da

autor

Frequência %

Branca 285 88,2 Branca 262 84,2

Negra 36 11,1 Negra 49 15,8

Asiática/

Oriental

2 0,6 Asiática/

Oriental

0 0

Indígina 0 0 Indígina 0 0

Total 323 100 Total 311 100

11 Etnia/raça: enquadrou-se em quatro tipologias os indivíduos: branco, negro (cor preta, parda, mulata e albina), asiático/oriental e indígena, a partir de uma análise sociológica. Partimos dos dados registrados na confecção da identidade dos participantes informados ao IGP/DI (Instituto Geral de Perícia), no qual é retirada esta informação através da certidão de nascimento e/ou da certidão de casamento; e, quando não encontrada, é realizada por auto-declaração. Assim, ao cadastrar uma ocorrência o servidor tem acesso aos dados cadastrais do participante. (Lei 10.639/2003; Lei 11.340/2006, art.8º, V, VIII e IX; e, Lei 12.288/2010, art. 1º, IV).

No caso dos femicídios, a grande maioria das vítimas pertencen-tes à etnia branca com 88,2% e a etnia negra com 11,1%. Isto também reforça estudos anteriores os quais indicam que, ao contrário do senso comum, a violência doméstica não está associada com classe social, escolaridade ou etnia, tanto da vítima como do agressor. (FONSECA;

LUCAS, 2006)

Referências

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