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LEVANTANDO OS EDIFÍCIOS PARA A FÁBRICA GRANDE: OUTROS PLANOS ILUSTRADOS PARA AS MESMAS

4.1. Retomando antigos planos para os sertões do Atlântico

As tentativas de Domingos Pereira e seus sócios podem não ter atingindo o objetivo esperado, o de construir uma máquina grande de ferro. No entanto, a experiência deixou marcas profundas na ocupação do morro de Araçoiaba e na memória de muitos funcionários reinóis e moradores da Vila de Sorocaba. O negócio certamente atraiu outras pessoas com interesse em povoar a região, as quais se somaram a uma parcela que talvez já estivesse no local. Não temos registros sobre esses moradores, suas procedências sociais, ocupações etc. Como tentamos demonstrar até aqui, não é possível atribuir às terras do morro o caráter de local vazio, ao deleite dos planos coloniais, até que ele abrigasse as instalações do futuro distrito industrial que viria a se consolidar ao longo do século XIX.

W. L. Von Eschwege, um engenheiro alemão contratado pelo governo português para dirigir as fábricas de ferro, dentre elas a de Figueiró dos Vinhos em Portugal, mudou-se para o Brasil em 1803. Além de ocupar a direção do Real Gabinete de Mineralogia no Rio de Janeiro, foi encarregado de estudar e incrementar a mineração no Brasil. Seus relatos nos trazem vários detalhes interessantes, principalmente sobre o processo de exploração das minas de Ipanema.373

A respeito do período posterior às tentativas de Domingos Pereiras e seus sócios, afirma Eschwege que no mesmo local foi construído um engenho de açúcar, mas igualmente não se obteve um resultado significativo. Além disso, o Engenheiro relata que conheceu um velho ferreiro de Sorocaba, o qual trabalhou na fábrica como fundidor 374. Ao que nos parece,

373Para maiores informações biográficas sobre o engenheiro ver: SOMMER, Frederico. Guilherme Luis: Barão

de Eschwege : patriarca da geologia brasileira. São Paulo, SP: Melhoramentos, 1952.

374 Eschwege, em suas observações acerca de Minas Gerais, nos esclarece que alguns ferreiros e lavradores desta

região tinham feito algum ferro em forja em pequenos fornos há algum tempo. Nesta província, segundo o engenheiro, a fabricação de ferro tornou-se conhecida no começo do século XIX através dos escravizados africanos. Ver: ESCHWEGE, W. L. von. Pluto Brasiliensis. 2º Volume. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Belo Horizonte: Livraria Itatiaia Editora Ltda., 1979[1833], p.340-1.

esse sujeito esteve envolvido nas empreitadas do mestre João de Oliveira, juntamente com o habilidoso escravizado, que logrou caldear o ferro quando governava as forjas.375

Apostamos nesta hipótese pois, o ferreiro de Sorocaba descreveu a Eschwege detalhes sobre único forno construído em Ipanema, idêntico àquele mencionado nas correspondências de Luiz Antônio de Sousa. Seguramente trata-se daquele que fora feito ao longo do governo de Luiz Antônio de Souza, mencionado no terceiro capítulo. Seja como for, o relato nos traz detalhes mais completos acerca das dimensões do artefato, além das etapas e circunstâncias em que as fundições operavam. Dizia o velho ferreiro de Sorocaba o seguinte:

Fizera-se um pequeno forno de 5 palmos de altura. Sendo construído de tijolos, exigia uma refecção semanal. Ao lado, encontrava-se um grande fole movido a braço, e a lupa metálica extraia-se pela parte superior do forno. Na parte inferior deste, havia um orifício, fechado normalmente com toros de madeira, pelo qual se fazia a corrida das escórias. Havia dias em que se obtinha uma lupa de 1 arroba de peso; porém muitas vezes, ao contrário, trabalhava- se o dia inteiro sem se conseguir uma libra de ferro. O minério, antes de ser fundido, era calcinado em um forno semelhante aos de cal, como ainda se pode ver, e alimentado a lenha. Realizada a calcinação, o minério era então fragmentado a martelo. O ferro obtido era geralmente quebradiço e aceirado. 376

Não sabemos o nome desse senhor, provavelmente de idade avançada, o que justificaria o adjetivo “velho” atribuído por Eschwege. No entanto, certo é que ele também tinha algum tipo de conhecimento sobre a lide com o ferro. Vários anos haviam-se passado desde a última tentativa organizada por Domingos Ferreira. Ainda assim, esse artesão tinha em sua memória detalhes precisos sobre as etapas de fundição do minério nas minas de Ipanema. Ao longo dos oito anos das tentativas de exploração desse local, certamente muito se exigiu dos trabalhadores envolvidos. Por isso os detalhes sobre o forno ainda eram tão presentes na memória daquele homem. Os resquícios materiais dessa empreitada foram apagados pelas intempéries do tempo. O que permaneceu são essas descrições de mais um trabalhador que também gastou sua vida nesse avultado projeto colonial ilustrado.

As lembranças sobre o potencial das minas de Ipanema decerto estiveram sempre presentes no imaginário das autoridades régias. Contudo, por falta de apoio da Coroa, de cabedais particulares dispostos em investir no negócio e, principalmente, de pessoas entendidas sobre o trabalho da fundição do minério, o desejo de se criar “máquina grande” fora adiado por certo tempo.

375ESCHWEGE, W. L. von. Pluto Brasiliensis. op cit, p.338. 376 ESCHWEGE, W. L. von. Pluto Brasiliensis. op cit, p.339.

Em 1784, quase dez anos após as últimas tentativas empreendidas por Domingos Pereira e seus sócios, encontramos uma notícia a respeito de uma possível retomada da exploração das minas. Naquele ano, na correspondência com o Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, o governador da Capitania de São Paulo, Francisco da Cunha de Menezes, colocava na presença das autoridades coloniais um requerimento feito pelo Capitão-Mor da Vila de Sorocaba “sobre a ereção de um nova Fábrica de ferro”. No entanto, passados mais de um ano, em novembro de 1785, o governador informava a Claudio de Madureira Carvalho que ainda não havia recebido nenhuma resolução da Corte. 377

Sendo assim, o pedido foi reformulado, no governo de Bernardo José de Lorena. Em agosto de 1788, ele afirmava ao ministro Martinho de Mello e Castro que tanto o Capitão- Mor de Sorocaba como o de Itu tinham condições morais e financeiras para o negócio. Em seguida, dizia que encontrou no Abade Raynal, no “5° volume da história filosófica”, informações sobre São Paulo. Por isso, prontamente passou a perguntar aos capitães sobre as “ditas minas de ferro e estanho”, procurando animá-los.378

Na interpretação de Bernardo José, enganava-se o Abade Raynal, pois não se tratava de uma serra o local das minas de Ipanema, mas, sim, de um morro. O governador lembrava que um homem de nome Jacinto Fernandes Bandeira, talvez um comerciante, tinha muitas correspondências na Espanha. Sugeria que, junto aos navios que chegariam ao porto de Santos, seria muito útil se um mestre da Biscaia fosse conduzido ao Brasil, por meio do intermédio de Jacinto. Porém, isso dependeria das autoridades coloniais para que, de fato, colocassem a fábrica em execução. Outro argumento utilizado era o preço do ferro e do aço, ambos importados respectivamente pelos altos montantes de 1$600 réis e 3$200 réis.379 Junto com

377 Sobre a ereção de uma nova fábrica de ferro. São Paulo, 2 de junho de 1784. In: Publicação oficial de

documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo. v.31, p.129; Para Claudio de Madureira, Capitão mor da Vila de Sorocaba. São Paulo, 11 de novembro de 1785. In: Publicação oficial de documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo. v.85, p.178.

378 Documentos N° 4 ofícios à secretaria de Estado, São Paulo, 9 de agosto de 1788. In: Publicação oficial de

documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo. v.45, p.178-9; Guillaume Thomas François Raynal (1713-1796), conhecido como Abade Raynal, foi uma figura central da ilustração europeia, foi educado pelos jesuítas, mas renunciou aos votos eclesiásticos. Sua obra, geralmente descrita nas fontes como “História das duas índias”, foi uma das que alcançou maior difusão na segunda metade do século XVIII. Para saber mais sobre consultar: FURTADO, Júnia Ferreira; MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Os Brasis na Histoire des Deux Indes do

abade Raynal. Varia História, Belo Horizonte, vol. 32, n. 60, p. 731-777, set/dez 2016.

sua correspondência ao ministro, também enviou as condições para retomada da exploração das minas propostas pelos capitães 380.

Escrita em julho de 1788, Claudio de Madureira e seu cunhado faziam menção aos atributos físicos do local, o tamanho do morro, a quantidade matas para lenhas, a disponibilidade de pastos para os bois – provavelmente informações que as autoridades coloniais já tivessem sob posse. Tratava-se, desse modo, de reafirmar certos atributos a fim de convencê-los da utilidade do projeto. Ademais, faziam menção ao mestre João de Oliveira Figueiredo, conferindo a ele o insucesso da fábrica que tentou-se construir no governo de Luiz Antônio de Souza.381 Contudo, não há referência ao sujeito escravizado que esteve com ele e

tirou as melhores fundições quando se ocupava do único forno construído. Ou mesmo a qualquer outro trabalhador, como o velho ferreiro de Sorocaba, e tampouco às experiências de Nova Oeiras, em Angola.

Os capitães afirmavam que, no período em que sociedade de Domingos Ferreira vingou, por cerca de oito anos, “muitas arrobas de ferro, que se acham espalhadas em muitas obras em toda esta Capitania” foram feitas. No entanto, só restavam sinais dessa empreitada, submersos na imensidão do morro382. É contraditório pois, ao mesmo tempo em que eles invalidam a experiência anterior, também reconhecem que certa quantia de ferro fora forjada e tivera serventia para algo. E se realmente os objetos estavam “espalhados” pela Capitania, como afirmavam, não se tratava de pouca coisa. Certamente, o material era reconhecido por quem o possuía como aquele oriundo das minas de Ipanema.

Algumas condições foram postas pelos capitães, e se elas fossem aceitas pela Coroa o negócio poderia ser levado adiante. A primeira delas seria a vinda de um “mestre inteiramente perito daquela arte”, ou seja, da arte de fundir o minério de ferro. O transporte dessa pessoa deveria ser pago pela Real Fazenda. Depois, ele teria direito a um terço dos lucros do negócio. Em segundo lugar, a fábrica deveria ficar isenta do encargo e dos direitos reais pelo tempo de oito anos. Por fim, uma das últimas condições era de que apenas os capitães e seus filhos tivessem direito às benfeitorias da fábrica. E, passando a duração dessas vidas, a Real Fazenda deveria pagar por meio de laudo de quatro árbitros, dois de cada parte, o que fosse de direito aos capitães. Eram esses os requisitos, e caso eles fossem preenchidos os capitães mores

380 Para Martinho de Mello e Castro, correspondência enviada por Bernardo José de Lorena. São Paulo, 2 de agosto

de 1788. In: Publicação oficial de documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo. v.45, p.10- 11.

381 Carta dos capitães mores, São Paulo, 22 de julho de 1788. In: Publicação oficial de documentos interessantes

para a história e costumes de São Paulo. v.45, p.179-181.

colocariam “todas as suas forças para construir com a mais possível brevidade a referida fábrica” 383.

Não encontramos uma resposta para o pedido, já que o empreendimento provavelmente não foi retomado e os planos ficaram apenas no papel. Possivelmente, a Coroa não concordou com as condições postas pelos capitães, ou não tinha recurso suficiente para patrocinar a vinda de um mestre da Biscaia e garantir o investimento nas demais despesas. Anos mais tarde, em 1796, a exploração das minas de Ipanema retornaria aos horizontes coloniais, impulsionada pelos planos do ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho.

Filho de Sousa Coutinho, governador de Angola, com certeza teve íntimo acesso às experiências e memórias do seu pai sobre a exploração do ferro, bem como sobre o trabalho e as habilidades dos ferreiros e fundidores de Illamba. Não obstante, depois que ocupou seu cargo, também tentou prontamente reanimar as explorações de Nova Oeiras.

D. Rodrigo de S. Coutinho, de acordo com Nívia Pombo, é reconhecido pela historiografia luso-brasileira como um dos maiores estadistas portugueses do final do século XVIII. Teve uma formação privilegiada no Colégio dos Nobres e na Universidade de Coimbra, espaços reformados pelo seu padrinho o ministro Marquês de Pombal. Segundo a autora, suas ideias ilustradas e reformistas, para o reino e império português, ganharam força política ao longo do período em que ele esteve no cargo de Secretário de Estado da Marinha e Domínios Ultramarinos e do Erário Régio, entre 1796 e 1803. Também nesse período, uma geração de intelectuais luso-brasileiros fora mobilizada por ele com a intenção de delinear uma nova organização política e administrativa, além da coleta e estudos precisos sobre as posses coloniais lusas 384.

Como nos esclarece Luiz Carlos Villalta, na administração de D. Maria I, posterior ao período pombalino, cultivou-se uma ideia de que era necessário desenvolver primeiramente a metrópole, sem romper, no entanto, com o sistema que a unia às suas colônias. Ela foi assim a primeira responsável por absorver as vantagens da exploração colonial e desenvolver suas manufaturas. Esse foi um dos ideais que motivou Portugal a patrocinar e incentivar pesquisas e viagens científicas, e além da reformulação dos espaços institucionais, a intenção era fomentar a produção de matérias primas na América. Entre o final do século XVIII e o início do século

383 Idem, p. v.45, p.179-181.

384MAXWELL, Kenneth. A geração de 1790 e a ideia do império luso-brasileiro.In: Chocolate, piratas e outros

malandros: ensaios tropicais. São Paulo, Paz & Terra,1999, p.157-207; SANTOS, Nívia Pombo Cirne dos. Um

turista na corte do Piemonte, Dom Rodrigo de Sousa Coutinho e o iluminismo italiano e francês (1778-1790).

VARIA HISTÓRIA, Belo Horizonte, vol. 25, nº 41: p.213-225, jan/jun 2009, p. 214-5; SANTOS, Nívia Pombo Cirne dos. O palácio de Queluz e o mundo ultramarino: circuitos ilustrados. Portugal, Brasil e Angola, 1796-

XIX, Villalta demonstra que Portugal tinha em relação ao Brasil um superávit de trinta por cento nas relações comerciais, com destaque ao linho e as ferragens 385.

No período mariano a manufatura de tecidos foi proibida no Brasil, em 1785. No entanto, para Fernando Novais o incentivo à siderurgia e à indústria da pólvora, por exemplo, mostram que não se procurou impedir indiscriminadamente todo o tipo de indústria. O autor nos explica que o impedimento diz respeito a indústria têxtil e não aos demais ramos 386.

Nesse sentido, Novais esclarece que a exploração do ferro estava ligada principalmente à necessidade de aprimorar as técnicas minerais relacionadas à extração do ouro. O autor traz como exemplo uma “Exposição” feita pelo governador das Minas, Rodrigo José de Menezes, ao Ministro do Ultramar Martinho de Melo e Castro, em 1780. O documento apresenta como proposta “um novo estabelecimento, que à primeira vista parece oposto ao espírito e sistema de administração dessa capitania, mas que bem examinado se conhece pelas razões, quanto a mim, as mais sólidas, e convincentes a sua utilidade.” Tratava-se, portanto, da criação de uma fábrica de ferro. Depois, dizia Rodrigo José que “se em toda parte do mundo é este metal necessário, em nenhuma o é mais que nestas minas; qualquer falta de que se experimente cessa toda a qualidade do trabalho...” 387

O governador das Minas, apesar de reconhecer a proibição diante do contexto político estabelecido pela metrópole, não deixou de propor o projeto. Caso semelhante ocorreu em São Paulo, em 1784, quando Francisco da Cunha Menezes também apresentou o pedido dos capitães de Sorocaba e Itu.

Segundo Arno Whelling, no século XVIII, é patente em Portugal a pressão exercida pelo desenvolvimento capitalista europeu. Desse modo, as mudanças industriais, mais tarde caracterizadas como uma “Revolução Industrial”, fez-se sentir em Portugal em sua elite intelectual, impulsionando-a a procurar mecanismos para a modernização, tanto nos termos da ilustração como nas práticas de governo e dos negócios388. A corrida industrial também dependia da produção de ferro, além de que, diante do cenário de eminentes instabilidades e guerras o ferro, esse era, juntamente com a pólvora, um material indispensável à manutenção de um poder bélico e, consequentemente, político e econômico. D. Rodrigo, imerso nessa

385VILLALTA, Luiz Carlos. 1789-1808: o império luso-brasileiro e os Brasis. São Paulo, SP: Companhia das

Letras, c2000, p. 21-22.

386NOVAIS, Fernando A. O Reformismo ilustrado Luso-Brasileiro: Alguns aspectos. Revista Brasileira de História. São Paulo, n.7, 1994, p.116; NOVAIS, Fernando Antonio. Aproximações: estudos de história e

historiografia. São Paulo, SP: CosacNaify, 2005, p.61-80.

387 Idem, p.116.

388WEHLING, Arno. Fomentismo português no final do século XVIII: doutrinas, mecanismos,

conjuntura política, apresentou logo que assumiu seu cargo várias mudanças para o Império português, que incluíam a retomada das explorações das minas de ferro nas posses coloniais atlânticas, como no Brasil e Angola.

No Brasil, em 1795 já havia sido expedido aos governadores das Capitanias um ofício do Secretário do Estado que previa a remoção dos impostos sob o sal e o ferro, e sobre a “introdução de escravos”. Desse modo, em todo o espaço colonial seria permitido:

(...) que se possam abrir minas do ferro, se possam manufaturar todos e quaisquer instrumentos deste gênero, mas para se suprir o desfalque, que uma semelhante liberdade possa ocasionar nos reais direitos é a mesma senhoria outro sim servida ordenar, que ouvindo V.S. as câmaras dessa Capitania, haja de assentar com elas em uma tarifa moderada dos direitos, que um semelhante gênero deverá pagar nas fábricas do país, logo que ali se puser em venda, tanto pelo que respeita ao ferro em bruto, ou em barra, como daquele que se vender já manufaturado para instrumentos, como daquele que se vender já manufaturado para instrumentos de agricultura, e outros utensílios domésticos.389

Tendo em vista que a metrópole não produzia o suficiente para o próprio abastecimento, sendo a maior parte do ferro importado de locais do norte europeu e reexportado ao Brasil, os objetivos do pragmatismo ilustrado seriam atingidos tão logo as indústrias lograssem algum resultado. Além disso, a produção de ferro fazia parte da lógica econômica mercantilista da época. E apesar de proibida a indústria de tecidos, a exploração de ferro era permitida com o intuito de manter a harmonia entre os domínios portugueses e de fortalecer-se perante a outras nações390.

Por isso, novamente os projetos e incentivos para os sertões das bordas do Atlântico foram retomados e faziam parte daquilo que a historiadora Maria de Lourdes Vianna caracterizou como um processo histórico marcado pelo sentimento de “uma utopia de um poderoso império”, materializada de várias formas, inclusive através da construção de fábricas

391.

Em Angola, segundo Alfagali, o mineralogista José Álvares Maciel, por insistência de D. Rodrigo, foi nomeado diretor da fábrica de Nova Oeiras, a fim de continuar o trabalho de exploração. Maciel, de acordo com a autora, já havia feito vários estudos mineralógicos em

389 Ofício do secretário de Estado sobre a remoção dos impostos sobre o sal e o ferro. Palácio de Queluz, 27 de

maio de 1795. In: Publicação oficial de documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo. v.45, p.466.

390NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na crise do Antigo sistema colonial (1777-1808). São Paulo:

Hucitec, 1986, p.285 Apud ALFAGALI, Crislayne Gloss Marão, op cit, 2018, p. 101-2.

391LYRA, Maria de Lourdes Viana. A utopia do poderoso império: Portugal e Brasil: bastidores da política:

Minas Gerais, além de uma viagem ao norte de Portugal e outros pontos da Europa. Nascido em Vila Rica, filho de uma família abastada, teve a oportunidade de realizar seus estudos na Universidade de Coimbra, em 1785, onde formou-se em Filosofia Natural. Depois, retornou a Vila Rica em 1788 e se envolveu com a Inconfidência Mineira, evento que o levou, na condição de degredado, para o presídio de Massango, em 1792 392.

Em relação ao reino de Angola, Alfagali explica que D. Rodrigo retomou o objetivo de tornar aquela posse colonial muito além de uma feitoria, ou de um local de reserva mão de obra escravizada para a América Portuguesa, continuando dessa maneira os planos de seu pai: ele também queria promover e incentivar o desenvolvimento de outras atividades econômicas, além de estabelecer um povoamento civil dos sertões. Por meio do apoio do governador de Angola, Miguel Antonio de Melo (1797-1802), o ministro teve o auxílio para executar seus planos ilustrados, um deles seria a reconstrução de Nova Oeiras 393.

José Álvares Maciel, a pedido de D. Rodrigo, visitou a antiga fábrica e forneceu um

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