4 NOVOS DESAFIOS DA CIDADE: MARCA E IMAGINÁRIOS DO RIO
4.1 No reservations (2012): dos estereótipos ao processo civilizador
4.1.3 O “retorno ao Rio”
Após sua visita, Bourdain “volta ao Rio”: uma música sensual com imagens de uma
praia vazia enquanto o apresentador fala sobre a relação de sua esposa com o Jiu-Jitsu. Após,
com a voz em off, apresenta com Rio como a sexta maior cidade das Américas, que recebe
várias coisas de todos os lugares do Brasil. Para demonstrar, segue a “30 minutos do centro da
cidade, se o trânsito estiver bom, e provavelmente não estará” para o Cadeg, o Mercado
Municipal do Rio de Janeiro. As imagens do caminho mostram um local bem favelizado. O
local, para a infelicidade do apresentador, encontra-se fechado durante sua visita. No entanto,
o motivo da visita é levar sua esposa a uma churrascaria “working class”, a qual ele julga
melhor que as tradicionalmente turísticas, já que não se trata de um local “grande, ostentador,
inevitavelmente cheio e com um buffet enorme e garçons que enfiam espetos em você”. Tony
pergunta a sua esposa suas impressões sobre a cidade. Ela diz estar amando, embora não tenha
ido à praia, apenas visto pela janela.
Após o almoço, imagens do bondinho, da praia, dos Arcos da Lapa e de pessoas
sambando introduzem o novo passeio de Bourdain com Danni Camilo. O apresentador diz
encontrar a chef em Copacabana, mas diversas imagens da Lapa (figura 22) são exibidas para
ilustrar a voz em off. Danni informa que o “Baixo Copacabana” é um lugar de pessoas loucas,
dos bêbados, dos compositores dos anos 1980, das prostitutas, dos jovens... Lá Tony
experimenta um galeto enquanto a história do lugar é contada por Danni. O ritmo acelerado
do restaurante 24h e da quantidade de comida é ditado por um samba. Além da comida
(galeto, arroz com brócolis, batata chips e farofa de ovo), o apresentador também experimenta
várias cachaças das mais de 100 disponíveis.
Um novo dia (e um novo bloco) começa com imagens do Corcovado. A próxima visita
de Bourdain é em Santa Teresa, apresentada como “o mais mágico bairro do Rio de Janeiro.
Em cima da montanha, escalando as ruas de paralelepípedo, uma charmosa, cheia de arte
surrada, arquitetonicamente fascinante, parte legal da cidade” (figura 23). É apresentada como
a Bervely Hills da cidade há 100 anos, mas que hoje é uma parte boêmia da cidade que se
recupera de anos de negligência. Tony também menciona a especulação imobiliária do bairro,
dizendo que se tivesse comprado um imóvel no bairro da última vez que esteve lá, atualmente
ele estaria rico.
Figura 23: morros de paralelepípedo e casarões em Santa Teresa.
Danni Camilo mais uma vez acompanha o protagonista nesse novo passeio. Diz que é
também sua parte favorita da cidade e que não menciona o nome do boteco onde se
encontram para que ele não fique cheio. Tony respeita a vontade de Danni, a qual também
lamenta que o Rio não seja reconhecido por seus vários botequins ou botecos. Ela conta a
história do local, tal como fez com a galeteria de Copacabana. Tony faz um paralelo do
boteco com a “bodega” nova-iorquina. A chef apresenta o chopp garotinho ao apresentador.
Quando ele elogia o chopp gelado, Danni menciona: “você está virando brasileiro! Regra
número um: cerveja gelada”. Eles também provam o bolinho de carne seca (“que é muito
brasileira”), bolinho de bacalhau e sanduíche de mortadela. Bourdain conclui, então, que esse
é o tipo de comida do Rio de Janeiro. Danni salienta: “o espírito do Rio é sobre ser feliz,
‘alegria’ é o estilo de vida do carioca, porque as pessoas têm muita felicidade para dar”. Tony
lamenta ser um sujeito misantrópico e não querer viver desta forma. A chef diz: “mas você
tem que abraçar as pessoas aqui e beijá-las!” O apresentador ri em meio a um arrepio na
espinha.
É então que ambos introduzem a luta de Otavia. O bloco seguinte trata sobre a tão
esperada luta e Tony se declara nervoso, apreensivo, reconhecendo que a oponente de Otavia,
chamada Valkiria, é muito mais experiente, é parte da família Gracie, está em seu próprio
país, frente a diversos estudantes e, portanto, tem mais chances de ganhar. Enquanto lutam,
Bourdain narra e explica as regras do esporte. O programa atinge seu clímax. Otavia ganha a
luta e, enquanto comemora, sua oponente chora. O apresentador encerra o bloco aliviado.
Na última parte do episódio, Bourdain e Otavia são convidados para um almoço na
casa da mãe de Igor, treinador de Otavia (figura 24). No bate-papo, a família menciona que
todos os homens estão envolvidos com o Jiu-Jitsu. O almoço servido (picadinho, farofa de
maracujá e feijão) é muito elogiado por Bourdain. A mãe de Igor brinca: “está bom mesmo ou
você está dizendo porque nós somos Gracie? As pessoas podem discordar dos Gracie, não se
preocupe”. O episódio termina com um brinde e um panorama da Baía de Guanabara com o
Pão de Açúcar ao fundo, ao som de uma bossa nova.
Figura 24: os Gracie recebem os Bourdain para um almoço.
O Jiu-Jitsu contorna toda narrativa da trama e é entendido como esporte nacional,
colocado lado a lado com o futebol. A luta de Otavia abre os blocos do episódio junto com
paisagens exuberantes, proporciona sua tensão e seu momento clímax. Nesse meio, temos a
celebração do corpo atlético: na preparação física, na alimentação (muita proteína animal e até
a exceção mencionada ao carboidrato durante o almoço dos Gracie), nas marcas deixadas pelo
treino, na questão da feminilidade e até de certo machismo do apresentador, que pondera
sobre o fato de sua mulher rolar pelo chão com homens suados. Por outro lado, também temos
os corpos das praias, malhados, perfeitos, embora diferentes dos corpos atléticos. Assim, a
cultura do corpo é celebrada de diversas formas no episódio, remetendo à questão da
perfeição física tratada por Amâncio (2000) e já exposta anteriormente neste capítulo.
Outra questão diz respeito ao imaginário estadunidense sobre o Jiu-Jitsu brasileiro e a
família Gracie, cujos membros tiveram destaque no surgimento, crescimento e popularização
do esporte. Awi (2012) diz que a família levou o Jiu-Jitsu para os Estados Unidos e o
divulgou por meio de uma marca de roupas, programas de ensino do esporte a distância,
vídeos de defesa pessoal dirigidos a mulheres e crianças e, por fim, por meio de aulas para o
exértico, a SWAT e os principais órgãos de segurança do país.
O episódio Rio de No reservations, em sua metade final, apesar de abordar roteiros
menos tradicionais, traz uma série de clichês da cidade, especialmente no que diz respeito à
comida e à forma de “ser carioca”. Vale lembrar que esse “ser carioca” é parte do texto de
Danni Camilo, uma não-carioca que acompanha Bourdain por grande parte do episódio.
No documento
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(páginas 98-101)