Caríssimos leitores, este mês nos reserva um acontecimento especial. No próximo dia 27 de novembro, às 11h00, no Museu de Arte de São Paulo (MASP), teremos o concerto que celebrará o lançamento de Retratos Brasileiros, primeiro CD da Camerata de Violões Infanto Juvenil do Programa Guri Santa Marcelina. E um caderno com as partituras das doze obras que o integram também será lançado.
Sem dúvida é um momento de imenso valor histórico para esse segmento de trabalho com grupos de violões. As gravações foram realizadas em dezembro de 2013 no estúdio Cantareira e, em 2016, viabilizaram-se as necessárias condições para que a produção fosse concluída. E nada melhor do que registrar na Violão+, revista que vem cumprindo papel relevante por causa da diversidade de conteúdos que aborda – todos valiosos documentos da nossa música – e já se consolida como importante fonte de pesquisa para os apaixonados pelas cordas dedilhadas. Tive o privilégio de conduzir a Camerata de Violões e venho expondo toda a estruturação acerca desse trabalho ao longo das últimas colunas. Destaquei, inclusive em edições recentes, algumas das obras originais feitas para a Camerata e que integram o CD. No mês de lançamento do trabalho, cedo este espaço para alguém que participou de todo o processo, o violonista sete cordas e pedagogo, Jorge Elias de Almeida, chorão de primeiríssima linha e educador de excelência.
Na ocasião da gravação, ele integrava a equipe como supervisor pedagógico do programa Guri, participando ativamente de todo o processo sempre com olhar profundo diante da realização. Almeida estudou por uma década em Tatuí e integrou as cameratas de violões do renomado conservatório. Como supervisor do Programa Guri, liderou a equipe de professores das cordas dedilhadas, sabendo valorizar o potencial de todos e sempre com conduta moral irrepreensível. Além do trabalho com a camerata, colaborou no sentido de abrir portas para a criação de grupos infantojuvenis com caráter popular, entre eles a Big
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Band e o Regional de Choro. É um desses camaradas que a vida nos proporciona a honra de conhecer e conviver. É momento de alegria! Momento de celebração! Momento de gratidão! Gratidão a todos os envolvidos! Aos que ele menciona em seu texto, e que eu corroboro, fazendo de seu agradecimento também o meu! Valeu, compadre!
Com a palavra, Jorge Elias de Almeida:
“Acredito que o CD Retratos Brasileiros, da Camerata de Violões do Guri Santa Marcelina, seja a síntese do trabalho das grandes formações de conjunto de violão realizado até então. Resultado de um minucioso processo artístico- pedagógico, trata-se com a mesma relevância tanto os aspectos estéticos quanto os didáticos, fazendo que ambos dialoguem de tal forma que nos parece impensável que esse tipo de formação pudesse ser concebido de outra forma. A seleção do repertório para os arranjos, a escolha dos compositores para a encomenda das obras originais, a edição das partituras (com toda a digitação e padronização de timbres), o trabalho com os alunos durante os ensaios (para as apresentações e mais tarde para a gravação), a gravação e mais tarde a masterização, todo o processo foi muito bem arquitetado.
Nesse trabalho, temos a satisfação de ouvir jovens violonistas executarem obras de grandes músicos – violonistas e amantes do violão – de forma tão sincera que não podemos deixar de sentir a comunicação entre as gerações, garantindo-se a perpetuação da escola do violão brasileiro, tão bem retratada neste CD.
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O CD faixa por faixa
Paulo Porto Alegre é um poço de generosidade! Nós lhe pedimos uma peça e ele veio logo com três: “Samba Canção”, “Coral” e “Pentatônicas”, que formam as 3 peças para Camerata de Violões. Sempre com extremo bom gosto, Paulo escreve com a mesma maestria essas três peças tão distintas entre si.
É incrível como o professor Geraldo Ribeiro lapida suas obras de forma a dar-lhes um brilho do mais lindo diamante. A “II Canção de Dezembro” evoca o clima introspectivo de fim de ano. Pela sua total clareza no discurso, torna-se uma peça que requer muito cuidado em sua execução. O professor Pietro Carlo Corrêa sempre traz em seus arranjos a preocupação de fazer que a peça seja divertida para tocar. Mesmo os trechos virtuosísticos apresentam- se como um desafio saudável para o executante. Com “Da Noite para o Dia” não podia ser diferente. Escrita com urgência para um exame da faculdade, a obra se adaptou muito bem à Camerata de Violões.
Douglas Lora é um desses grandes músicos que transita com tranquilidade entre a música clássica e a música popular. Isso fica nítido no “Baião Guri”: a tradicional música nordestina escrita com a rigorosidade da música
de concerto. Um parêntese: foi emocionante a presença do compositor no concerto de encerramento do ano, quando a Camerata executou o seu baião.
Conversamos com o Celso Cintra num concerto em Uberlândia, onde, a convite de seus alunos Thales e Pietro, pôde ouvir a Camerata. Quando o convidamos a compor para o grupo, ele aceitou de pronto. E nos trouxe a linguagem da música contemporânea na obra “Branca”. Sua visita ao grupo nos trouxe ainda sábios conselhos, daqueles que mudam a nossa percepção do mundo.
O “Choro Urbano” do maestro Edmundo Villani-Cortes foi a primeira peça que chegou em nossas mãos. E trazida pelo próprio! Estávamos com nossos afazeres na sede do Guri quando recebemos a ligação da recepcionista avisando que o compositor queria nos ver. O maestro nos mostrou sua adaptação para a Camerata de Violões, trazendo todos aqueles acordes invertidos típicos dos acompanhamentos dos choros.
A “Lenda do Caboclo”, do mestre Heitor Villa-Lobos, cujos arranjos se tornaram um clássico na música de câmara para violão, já foi adaptado para duo, trio, quarteto, orquestra de violões e agora recebe esta belíssima versão de Thales Maestre para a Camerata de Violões com as suas cinco vozes explorando de forma magnífica a textura do grupo.
Quando ouvi a Camerata ensaiando esta valsa do Américo Jacomino, “Primeiras Rosas”, disse ao Thales que sempre sentira falta das valsas seresteiras no repertório das cameratas de violões. Está tudo lá: o acompanhamento em pizzicato, o tremolo lembrando o bandolim, as “baixarias”… “Rosa Carioca” é um belo retrato da época da formação da linguagem do choro, quando este ainda não era um gênero, mas a maneira com a qual os músicos brasileiros interpretavam as danças vindas de fora. Nesse foxtrot de João Pernambuco, Thales tão bem traduziu, na percussão obtida na lateral e no tampo do violão, os passos dos dançarinos no salão.
O “IV Centenário”, do sanfoneiro Mário Zan, figura no repertório da Camerata como um exemplo da época de ouro do rádio brasileiro, onde o violão tinha importante papel na constituição dos regionais. Muito tempo depois, descobrimos que a música estava presente
em grupo
no pioneiríssimo trabalho de Alfredo Scupinari e o seu Sexteto Paulistano de Violões em disco de 1971!
Um trabalho de muitas mãos
Um trabalho como esse não seria possível sem a participação e colaboração de muitos.
A princípio de todos os alunos da Camerata de Violões que, apesar da pouca idade, demonstraram, do início ao fim, um profissionalismo exemplar.
Dos professores de violão do Programa em 2013, que tão bem orientaram seus alunos: Affonso Marques, Alexandre Ribeiro, Cristiano Petagna, Eduardo Meneses, Eric Corso, Felipe Guimarães, Fernando Poles, Flávio Fevereiro, Heloíse Ferreira, Leandro Sarmento, Luciano Morais, Paulo Caldas, Pedro Messias, Pietro Corrêa, Santiago Steiner, Siderlei Santos, Thales Maestre e Valdir Silva. Da gestão, coordenação pedagógica e coordenação do serviço social do Guri Santa Marcelina: Giuliana Frozoni, Ricardo Appezato, Valéria Zeidan e Marta Bruno, no total apoio a este trabalho, assim como toda a equipe técnica, pedagógica e social do programa pela impagável colaboração.
Dos compositores que tão generosamente aceitaram nosso convite e nos deixaram estas obras--primas.
Do professor do grupo Pietro Corrêa, que, além do valiosíssimo suporte pedagógico, atuou na sonorização da Camerata, realizou as gravações dos ensaios e participou da edição e masterização do CD.
De André Mainardi, outro grande companheiro, responsável pela sonorização do grupo nos concertos, e que tão bem captou a ideia do trabalho.
De Pedro Martins Pereira, no registro em texto e vídeo do grupo nesta temporada.
De Ricardo Marui, nas audições dos alunos, onde se iniciou nossa parceria, que se estendeu por toda a gravação e masterização, tudo com impecável competência.
E claro, o trabalho incansável de Thales Maestre, que organizou, escreveu e dirigiu todo este belíssimo projeto, enriquecendo ainda mais o legado do nosso tão querido violão.
Para mim, basta ter presenciado isso tudo. Meus profundos agradecimentos a todos!