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6 JUSTIÇA RESTAURATIVA

6.1 Retrospectiva histórica

um sistema de direito, a fim de impedir as práticas até então utilizadas para solucionar conflitos478.

Muitas dessas práticas somente retornaram na contemporaneidade em decorrência de movimentos conduzidos pelos próprios nativos. Isso ocorreu na Nova Zelândia, quando as minorias Maoris479 foram transferidas para instituições estatais. Os indígenas entendiam que estavam sofrendo racismo institucional que violava sua identidade cultural porque suas tradições não eram consideradas. Em virtude disso, foram realizadas reformas na justiça da Nova Zelândia, com vistas a oferecer uma resposta criminal adequada aos jovens Maoris. As conferências de grupos familiares são originárias da Nova Zelândia e foram adotadas na década de 1980, quando houve um resgate de práticas de resolução de conflitos indígenas. Esses encontros restaurativos com grupos de familiares foram introduzidos como parte do programa nacional, na forma de um guia para as sentenças, como uma alternativa aos tribunais, nos quais a pena privativa de liberdade é utilizada como última alternativa para os casos em que não houver possibilidade de adoção do plano restaurador da infração penal480.

Nada obstante, J. Faget aponta pelo menos três correntes de pensamento que estimularam o resgate da justiça restaurativa nas sociedades contemporâneas ocidentais. “Trata-se dos movimentos: 1) de contestação das instituições repressivas, 2) da descoberta da vítima e 3) da exaltação da comunidade”481.

Em relação ao movimento de contestação das instituições repressivas, sua origem se deu nas universidades americanas, sobretudo “pelos trabalhos da escola de Chicago e de criminologia radical que se desenvolveram na universidade de Berkeley na Califórnia”, que resgataram o pensamento de que o conflito “não é uma divergência da ordem social, mas uma característica normal e universal das sociedades”. Assim, alguns movimentos religiosos, como

478 JACCOUD Mylène. Princípios, tendências e procedimentos que cercam a justiça restaurativa. In: SLAKMON, C., DE VITTO, R.; GOMES PINTO, R. (org.). Justiça restaurativa. Brasília-DF: Ministério da Justiça e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD, 2005, p.164.

479 Maoris são os povos originários na Nova Zelândia e até hoje têm sua cultura preservada e difundida no país.

Para se ter noção, há uma porcentagem no congresso neozelandês para os representantes desse povo.

480 SANTOS, Celeste Leite dos. Injusto penal e os direitos das vítimas de crimes. Curitiba: Juruá, 2020, p.186-187.

481 FAGET, J. La médiation – Essai de politique pénale. (Ramonville Saint- Agne: éditions Erès) apud JACCOUD Mylène. Princípios, tendências e procedimentos que cercam a justiça restaurativa. In: SLAKMON, C., DE VITTO, R.; GOMES PINTO, R. (org.). Justiça restaurativa. Brasília-DF: Ministério da Justiça e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD, 2005, p. 164.

os Quakers e os Mennonites, se aliaram à corrente da esquerda radical para também refutar a posição e as consequências das instituições repressivas482.

Nas décadas de 1960 e 1970, os Estados Unidos experimentaram uma crise do paradigma punitivo representado pela pena privativa de liberdade e pelo ideal de ressocialização, que gerou na década subsequente, o surgimento das ideias de restituição e reconciliação com a vítima e com a sociedade. A partir daí, foram desenvolvidas duas propostas político-criminais, uma que recomendava o “retribucionismo renovado” e o movimento reparador, que recomendava a modificação do foco do direito penal, desta feita voltada para a vítima483.

O movimento americano também se difundiu na Europa com os trabalhos de Michel Foucault, Françoise Castel, Robert Castel e Anne Lovel, Nils Christie e Louk Hulsman, os quais conduziram um movimento que apontava para uma justiça humanista e não punitiva. Ao final da Segunda Guerra Mundial, houve a descoberta da vítima, a partir do desenvolvimento da vitimologia, que inicialmente considerava as razões da vitimização e os fatores que conduziam certas pessoas a se tornarem vítimas. Até então, o pensamento que levaria às consequências da vitimização ainda não havia se desenvolvido, o que ocorreu apenas posteriormente484.

Seguiu-se o movimento de “exaltação da comunidade”, cujo princípio “é valorizado como o lugar que recorda as sociedades tradicionais nas quais os conflitos são menos numerosos, melhor administrados e onde reina a regra da negociação”485.

Relevante notarmos que não foi o desenvolvimento da vitimologia que inspirou a justiça restaurativa, embora esse movimento tenha influenciado a validação de seus princípios, mas foi a partir da valorização da comunidade, que houve a efetiva inspiração da justiça restaurativa.

Assim, na década de 1990, os países anglo-saxônicos comandaram a expansão da justiça restaurativa, utilizando como norte a experiência das comunidades Maoris da Nova Zelândia.

Nessa época, os pesquisadores se interessaram pela justiça restaurativa como uma possibilidade

482 JACCOUD Mylène. Princípios, tendências e procedimentos que cercam a justiça restaurativa. In: SLAKMON, C., DE VITTO, R.; GOMES PINTO, R. (org.). Justiça restaurativa. Brasília-DF: Ministério da Justiça e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD, 2005, p. 164-165.

483 PALLAMOLLA, Raffaella da Porciuncula. Justiça restaurativa: da teoria à prática. São Paulo: IBCCRIM, 2009, p. 34.

484 JACCOUD Mylène. Princípios, tendências e procedimentos que cercam a justiça restaurativa. In: SLAKMON, C., DE VITTO, R.; GOMES PINTO, R. (org.). Justiça restaurativa. Brasília-DF: Ministério da Justiça e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD, 2005, p. 165.

485 JACCOUD Mylène. Princípios, tendências e procedimentos que cercam a justiça restaurativa. In: SLAKMON, C., DE VITTO, R.; GOMES PINTO, R. (org.). Justiça restaurativa. Brasília-DF: Ministério da Justiça e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD, 2005, p. 165.

para modificar o sistema penal tradicional, cujos investimentos financeiros e humanos eram altos, para resultados pífios, tanto em relação aos infratores, quanto em relação às vítimas.

O uso da expressão justiça restaurativa é atribuído ao psicólogo americano Albert Eglash (1958): “Eglash considera que três modelos de justiça são identificáveis: uma justiça distributiva, centrada no tratamento do delinquente, uma justiça punitiva centrada no castigo e uma justiça recompensadora, centrada na restituição"486.

Por outro lado, Howard Zehr foi um dos pioneiros da justiça restaurativa porque a delineou como uma tentativa de olhar o crime e a justiça por meio de novas lentes, visando desenvolver novas abordagens e intervenções. Sua obra Chaging lenses: a new focus for crime and justice, em 1990, foi um importante marco para o rompimento com o modelo retributivo, na medida em que identificou pelo menos dois modelos de justiça diametralmente opostos (o modelo retributivo e o modelo restaurador), solidificando sua teoria das lentes, sobre a qual discorreremos de maneira detalhada mais adiante.