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3 A UFSB E MODELOS REFERENCIAIS DE

3.4 REUNI: OPORTUNIDADE

Em 24 de abril de 2007, através do decreto nº 6.096, o governo federal instituiu o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Esse Programa vai ter forte impacto no ambiente universitário brasileiro no sentido de provocar discussão e fomentar ações no sentido da formulação de projetos que se colocavam em linha com o relatório da ABC e da UFABC. O Reuni não trata da criação de novas universidades, mas contempla mecanismos de indução que incentivam as universidades já existentes a repensarem seus currículos, seus modelos pedagógicos, sua estrutura e a ampliação da oferta de novos cursos e mais vagas. Destaque-se que esse programa não tinha caráter impositivo, respeitou a autonomia das universidades, que o aderiram por decisão de suas comunidades, evidentemente atraídas pelos incentivos oferecidos pelo Programa. O Programa

1 Informação disponível em: https://www.timeshighereducation.com/world-university-rankings/2016/

reputation-ranking#!/page/0/length/25/locations/BR/sort_by/rank/sort_order/asc/cols/stats. Acesso em: 13 nov. 2017.

foi amplamente discutido com as universidades, segundo depoimento do Professor Maerbal Marinho, pró-reitor de graduação da UFBA à época, o

MEC, através de sua Secretaria de Educação Superior (SESu), construiu o programa em interlocução com a Andifes. Foram realizados dois seminários nacionais, o primeiro, em dezembro de 2006, na UFBA, e o segundo, na Universidade de Brasília, em março de 2007. A SESu constituiu um Grupo Assessor encarregado de elaborar as diretrizes do Programa. As Diretrizes Gerais do Reuni e seu detalhamento foram apresentadas às IFES em reunião promovida pelo MEC nos dias 26 e 27 de julho de 2007. Como resultado das discussões, o MEC incorporou algumas mudanças e o documento definitivo foi entregue e discutido em nova reunião ocorrida em 16/08/2007.

Apesar de não ser impositivo, o decreto nº 6.096, de 24 de abril de 2007 (BRASIL, 2007), que criou o Reuni, estabeleceu parâmetros para adesão das universidades:

Criar condições para a ampliação do acesso e permanência na educação superior, no nível de graduação, para o aumento da qualidade dos cursos e pelo melhor aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas universidades federais, respeitadas as características particulares de cada instituição e estimulada a diversidade do sistema de ensino superior. (BRASIL. Secretaria de Educação Superior, 2007, p. 10)

Estabeleceu, também, três diretrizes a serem observadas na apresentação das propostas:

1) A existência de flexibilidade curricular nos cursos de graduação que permita a construção de itinerários formativos diversificados e que facilite a mobilidade estudantil;

2) A oferta de formação e apoio pedagógico aos docentes da educação superior que permitam a utilização de práticas pedagógicas modernas e o uso intensivo e inventivo de tecnologias de apoio à aprendizagem; e

3) A disponibilidade de mecanismos de inclusão social a fim de garantir igualdade de oportunidades de acesso e permanência na universidade pública a todos os cidadãos. (BRASIL. Secretaria de Educação Superior, 2007, p. 10)

Nesse cenário, a mobilidade estudantil emerge como importante objetivo a ser alcançado pelas instituições participantes do Reuni, não só pelo reconhecimento nacional e internacional dessa prática no meio acadêmico, mas fundamentalmente por se constituir em estratégia privilegiada de construção de novos saberes e de vivência de outras culturas, de valorização e de respeito ao diferente.

A regulamentação do Reuni estabelece seis dimensões que deveriam ser seguidas pelas universidades ao elaborarem os seus projetos. Essas dimensões buscam superar alguns problemas vividos pela universidade brasileira, quais sejam: o elitismo, com a oferta limitada de vagas; a estrutura curricular fragmentada e com uma organização que tem como princípio a profissionalização precoce; a falta de autonomia do aluno no sentido da construção de seu percurso acadêmico; distanciamento das universidades da educação básica. O programa busca superar essas questões através de um conjunto de estratégias:

(A) Ampliação da Oferta de Educação Superior Pública 1. Aumento de vagas de ingresso, especialmente no

período noturno;

2. Redução das taxas de evasão; e 3. Ocupação de vagas ociosas.

(B) Reestruturação Acadêmico-Curricular

4. Revisão da estrutura acadêmica buscando a constante elevação da qualidade;

5. Reorganização dos cursos de graduação;

6. Diversificação das modalidades de graduação, preferencialmente com superação da profissionalização precoce e especializada;

7. Implantação de regimes curriculares e sistemas de títulos que possibilitem a construção de itinerários formativos; e

O decreto nº 6.096, de 24 de abril

de 2007 (BRASIL, 2007) estabelece que as universidades que aderirem ao programa terão que alcançar duas metas globais: taxa de conclusão média de 90 por cento nos cursos de graduação presenciais; relação de 18 alunos de graduação por professor em cursos presenciais.

Evidente que as estratégias e objetivos são muito ambiciosos, no sentido de que pressupõem um processo profundo de mudanças na estrutura pedagógica e organizacional das universidades. Entretanto, o Decreto não considera a história da universidade brasileira e a sua resistência a mudanças. Além disso, algumas estratégias para serem viabilizadas presumem que o processo de mudança ocorra de forma similar em um grande número de universidades,

8. Previsão de modelos de transição, quando for o caso.

(C) Renovação Pedagógica da Educação Superior 1. Articulação da educação superior com a educação

básica, profissional e tecnológica;

2. Atualização de metodologias (e tecnologias) de ensino-aprendizagem;

3. Previsão de programas de capacitação pedagógica, especialmente quando for o caso de implementação de um novo modelo.

(D) Mobilidade Intra e Inter-Institucional

1. Promoção da ampla mobilidade estudantil mediante o aproveitamento de créditos e a circulação de estudantes entre cursos e programas, e entre instituições de educação superior.

(E) Compromisso Social da Instituição 1. Políticas de inclusão;

2. Programas de assistência estudantil; e 3. Políticas de extensão universitária.

(F) Suporte da pós-graduação ao desenvolvimento e aperfeiçoamento qualitativo dos cursos de graduação

1. Articulação da graduação com a pós-graduação: Expansão quali-quantitativa da pós-graduação orientada para a renovação pedagógica da educação superior. (BRASIL. Secretaria de Educação Superior, 2007, p. 11-12).

como, por exemplo: a reestruturação acadêmico-curricular, a mobilidade intra e interinstitucional e o suporte da pós-graduação ao desenvolvimento e aperfeiçoamento qualitativo dos cursos de graduação.

Apesar da clareza dos objetivos, das metas e das suas estratégias visando o fortalecimento das IFES, o processo de adesão das universidades sofreu forte oposição de segmentos do movimento estudantil e de professores, que se articularam nacionalmente, verificando-se a convergência entre segmentos da esquerda e setores conservadores das universidades, que criticavam o programa com argumentos de que estaria ocorrendo a quebra da autonomia da universidade e de que se estava impondo mais atribuições às universidades sem a garantia de incremento dos recursos orçamentários e do quadro de docentes e servidores. No processo de adesão das universidades ao Programa foram registradas as seguintes ocorrências:

Em 25 universidades federais, houve tumulto e violência em reuniões de Conselhos Universitários; 14 Reitorias foram invadidas; 9 dessas ocupações somente terminaram mediante emissão de mandados judiciais de reintegração de posse. Em nossa Universidade Federal da Bahia, manifestantes tentaram, sem sucesso, impedir reuniões do Conselho Universitário, agendadas para deliberar sobre a implantação do Programa em nossa universidade. Inconformados com a decisão majoritária do Conselho e das Congregações de 26 das 30 unidades de ensino que compõem a UFBA, ocuparam a Reitoria. Apesar da reação, no prazo, todas as 54 universidades federais brasileiras aderiram ao Programa REUNI. (ALMEIDA FILHO, 2008, p. 189-190)

Há de se considerar que parte dessas críticas se fundamenta numa tradição dos governos no Brasil de não viabilizar o estabelecido em programas e projetos, no caso específico do Reuni, o MEC se submete às restrições orçamentárias eventualmente impostas pelos ministérios da Fazenda e do Planejamento. Quem talvez tenha sintetizado as críticas feitas ao Reuni por

segmentos da comunidade universitária foi Borges (2012, p. 133), ao afirmar que,

O Reuni ficou limitado à previsão orçamentária concedida, não havendo a garantia da efetividade, da continuidade e do cumprimento de desembolsos acordados inicialmente. Ademais, o MEC subordina o Reuni e, consequentemente, o projeto de implantação da ‘Universidade Nova’, aos Ministérios do Planejamento e da Fazenda. Conforme o diploma legal (art. 3º, § 3º), ‘o atendimento dos planos é condicionado à capacidade orçamentária e operacional do Ministério da Educação’. No Brasil, é muito comum a descontinuidade das políticas públicas. São milhões de investimentos em projetos que não são concluídos e nem alcançam os seus objetivos.

Apesar das críticas e da oposição desses grupos, o Reuni se impõe e inaugura uma nova etapa de expansão do Sistema Universitário Federal, agora calcado num modelo que respeita a autonomia das universidades e oferece mecanismos de indução para a adesão das universidades ao programa. As propostas de adesão ao Reuni foram elaboradas por cada uma das universidades que demonstraram a intenção de participar.

O Reuni se constituiu em importante instrumento de indução da expansão da oferta de vagas nas universidades federais, mas, principalmente, possibilitou um fértil processo de reflexão sobre a necessidade de construção de novos modelos de organização institucional e pedagógica. Outro aspecto importante é que, ao possibilitar a ampliação da oferta de vagas nas universidades federais, o Reuni, se constituiu em importante instrumento para a redução da dívida social do ensino superior. (ALMEIDA FILHO, 2008, p. 192)

É importante notar que a decisão do governo Lula de fortalecimento do ensino superior federal, a partir da decisão de criação de novas universidades, da expansão das universidades já existentes, através da expansão de vagas, do ensino noturno gerou um importante movimento no sentido da construção de novos modelos pedagógicos e institucionais.

Como já visto, o projeto da UFABC já sofre a influência das propostas contidas no relatório final do GT ABC (2004), entretanto, é a partir do Reuni que se coloca o desafio para que cada uma das universidades federais pré- existentes e das que foram criadas posteriormente lancem um olhar sobre o seu modelo pedagógico-institucional.

A realidade é que o Reuni, na medida em que estabelece estratégias e objetivos que apontam para a possibilidade de mudanças nas estruturas pedagógica e institucional das universidades federais, oferecendo as condições financeiras e o suporte de pessoal docente e técnico-administrativo para dar sustentação às propostas de mudança, vai gerar uma intensa efervescência no ambiente universitário, criando um clima propício para um movimento mais profundo de transformação do modelo pedagógico adotado pelas universidades federais.

Concomitantemente ao processo de expansão, novos marcos conceituais fizeram-se presentes no período de 2003 a 2014. O processo de expansão e reestruturação das IFES, notadamente no período de execução do Reuni, estimulou mudança de paradigmas, possibilitando a reestruturação da arquitetura acadêmica e a melhora da qualidade da formação oferecida na graduação. (BRASIL. Secretaria de Educação Superior, 2015, p. 48)

Nesse contexto, propostas mais amplas de arquitetura curricular em nível de graduação começam a entrar na agenda das políticas públicas para a reforma acadêmica da educação superior brasileira. Foram criados, então, os BIs, que se constituem em cursos superiores de natureza geral, ou seja, não profissional, organizados por grandes áreas do conhecimento e que conferem um diploma de graduação.

Nessa formação, espera-se que os egressos sejam capazes de responder a novas demandas da sociedade contemporânea, atuando em áreas de fronteira e de interface entre diferentes disciplinas e campos de saber, trabalhando em

equipe e em redes, comprometidos com a sustentabilidade nas relações entre ciência, tecnologia, economia, sociedade e ambiente e apresentando postura flexível e aberta em relação ao mundo do trabalho.

A estrutura curricular dos BIs prioriza arranjos interdisciplinares flexíveis, o que possibilita ao estudante exercer a liberdade para fazer as suas escolhas em relação ao seu percurso formativo, aumentando assim sua responsabilidade e autonomia para moldar a sua trajetória acadêmica. Os BIs também incentivam a mobilidade no interior das instituições e entre instituições que compartilham este regime curricular.

Os primeiros resultados positivos com os BIs motivaram a criação de um GT com o objetivo de discutir as Licenciaturas Interdisciplinares (LIs), cursos de graduação alicerçados em bases conceituais e epistemológicas que valorizam a construção de novos itinerários formativos, proporcionando ao estudante a oportunidade de construir sua trajetória formativa na perspectiva de uma flexibilização curricular, com foco nas dinâmicas de inovação científica, tecnológica, artística, social e cultural, associadas ao caráter interdisciplinar dos desafios e avanços do conhecimento.

As LIs têm por objetivo formar professores com visão interdisciplinar para atuar na educação básica. Desta forma, são organizadas de modo a favorecer a construção de percursos de formação caracterizados por um permanente diálogo entre as áreas de conhecimento das diretrizes curriculares nacionais gerais para a educação básica ‒ linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas.

Os avanços em curso nas universidades federais iniciadas com a implementação de propostas inovadoras, que abrangem mudanças significativas na arquitetura curricular estão em processo de experimentação e consolidação. É preciso reconhecer que não se tratam de mudanças superficiais, mas estruturais, que alteram a lógica da organização e da produção universitária, por isso o movimento de mudança tem acontecido de forma lenta e com riscos de retrocesso. O novo desenho

institucional adotado pelas IFES deve ser suficientemente sustentável, ancorado em fundamentos humanísticos, que não se curvem aos interesses apenas comerciais, para enfrentar o tensionamento desse período. (BRASIL. Secretaria de Educação Superior, 2015, p. 48-49)

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