Minha senhora,
É mnito difficil responder a V. E xia sobre a ques tão qne me propõe, e digo, com o coração nas mãos
(e por não fugir á pergunta), que em quasi todas as cousas deste mundo muito preferível é a theoria á pratica mórmente quando ambas se associam em demonstrações e exemplos. Já não falo das cousas havidas por más nem daquelles atrozes peccados que, quando só o são de pensamento e não se põem por obra, parecem naturalmente menos graves. Quero referir-me áquillo que se chama o prazer, a admiração, o gozo, a boa fortuna, o dinheiro e a boa mulher. Creio que não vale a pena experimental-os e que é melhor nunca tel-os visto.
Dos dois versos de Camões :
Mais vale exp’rimentá-lo que julgá-lo, Mas julgue-o quem n&o pode exp’rimentá-lo.
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o ultimo é de urna alma sã e discreta Especulação e praxe jámais se completam, o que á primeira vista se pi.dera entender e acreditar. A muita theoria torna o homem subtil e aéreo, e redul-o a pura alma ou phantasma ; mas a muita pratica, pelo eom- mum, mais emmagrece que engorda. A theoria faz- nos em ether ; a pratica faz-nos em ossos.
Ha quem o duvide ? A mesma duvida não se compadece com os factos.
É o que comprovam todas as historias do mun do ; agora, porém, quero só recontar um caso que succedeu não ha m oitos annos nesta boa e valorosa cidade.
Uma mulher literata das que importunam a gen te para que as ouçam na leitura dos seus fastientos poemas, (e são aqui innumeraveis como V. Ex.a bem o sabe) convidou um dia o meu amigo Bernar do Claraval para um destes frequentes e indigestos banquetes de literatura.
A literatura feminina não me desagrada ; e creio que ellas, as mulheres, quando a vida fôr mais in tensa, serão os únicos homens de letras.
V. E x .a bem conhece o Bernardo Claraval, o famoso autor da Bailada em ut minor, que é um hy- mno á divina serpente do paraiso. Não é homem que recuse ponto ou qualquer convite que cheire a saias, e tanto mais vindo da poetiza que no caso de que falamos era formosa e, se não formosa, rica de corpo e da mais natureza.
prio Bernardo que me encontrando na rua, amon toando razões, enfiou o seu pelo meu braço e disse em palavras curtas :
— Vamos ao poema da Alice.
Fomos juntos e lá chegamos. Eu, medroso e com o quem ia para apanhar, e elle ousado e forte, acostumado a domar serpentes e a confundir os co rações frágeis.
Não era um poema como me havia dito, mas era quasi a mesma cousa porque era um romance de amor.
Dona Alice lia admiravelmente, com todas as re gras physionomicas da prosodia sentimental em que tudo falava ou pelo menos estremecia e vibrava do collo para cima. Os olhos delia despediam relâm pagos ás vezes, os seios amplos arfavam e os lábios lembravam aquella serpente edenica que dera re putação ao autor do Genesis e ao Bernardo.
Aquella conferencia ou leitura não era de todo theoretica e especulativa ou literaria porque num passo do manuscripto em que se descrevia uma ceia opipara, com admiráveis côres, entrou pela sala uma rapariga com uma bandeja de chá e biscoitos. E dona Alice interrompeu a leitura, e nós o ouvido que era attento.
— Uma lembrança magnifica, disse Bernardo já com um biscoito entre dois dedos. Esta magni fica descripção da ceia no romance de V. Ex.% já me fazia agua na boca ; e tenho para mim que a pra tica é um complemento essencial da theoria. Seja abençoado o chá. Bem vindos, estes magnifico* bis coitos . . .
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prosa, manducando poeticamente os biscoitos de Alice.
Mais foi isto apenas um incidente e dentro em pouco a leitura continuou sob a excitação do chá reconfortante. As scenas do romance succediam- se ; os personagens inflammavam-se proximos ao incêndio da catastrophe.
Dona Alice lia com todas as inflexões admirá veis de sua voz meiga, suave, ás vezes plangente, quasi em lagrimas nos passos mais tristes, e havia ali no seu livro grandes tristezas de amor e de pai xões longas, abafadas.
O Bernardo movia-se na cadeira, untuoso, mu lherengo, com os olhos em agua, a boca aberta para ajudar as narinas amplas, que bebiam todo o ar da sala . Em um ponto ou capitulo os dous amantes do romance, que sempre os ha nas cavallarias de taes livros, encontravam-se á beira de uma floresta, fu gitivos, escapando á perseguição do mundo e dos preconceitos, e começou então aquella musica eter na dos beijos longamente imaginados . . . Dona Alice tremia, sentindo a inspiração, a sinceridade e a verdade de sua própria arte . . .
A o lado, Bernardo avolumava-se, incontido, sem geito, inquieto, como mordido por invisiveis serpentes . . . Num momento, como homem que não admitte a pura especulação theorica, vi-o le vantar-se, forte, apoplético, brutal e chamar a si a dona e o manuscripto que se lhe escapou em folhas brancas como pombas ruidosas e arrulhantes voe jando por toda a sala.
Estava já Dona Alice a cavallo sobre aquella admiração incoercível. Os dois seres inconhos pa reciam desapparecer um no outro em mysterio in consútil . . .
Eu, espavorido, sahi, correndo, e precipitei-me escadas a baixo.
Quando cheguei á rua, olhei para cima a vêr se enxergava acaso o Bernardo.
Q u a l! a estas horas o nosso homem repetia, em segunda edição refundida, o chá e os biscoitos.
Não posso dizer as coisas muito ao certo, por que a vista se me escureceu, mas pude lobrigar que allí a pratica amparava a theoria, se não estou tres variando.
Creio, pois, ter respondido a V. E x .a E como deste exemplo do meu amigo Bernardo de Clara- val tenho tirado algum governo de vida, aproveito para communical-o, etc., etc. De V. E x .a etc.