5 – PRÁTICAS DE REVISÃO NA TURMA DE 2º ANO
5.2.1.2 – REVISÃO PARA COMPLETUDE DA IDEIA
As mudanças feitas nesta categoria se referem a acréscimos ou supressões de detalhes que deixam a história mais clara, pois as palavras ou expressões inseridas ou apagadas contribuem para a coerência e/ou coesão textual. Voltar à produção pela segunda vez, depois de um intervalo de sete meses, permitiu que os alunos observassem melhor os problemas de incompletude das ideias.
As quatro crianças que revisaram individualmente e refletiram sobre a questão abordada garantiram um texto mais adequado. Os exemplos abaixo justificam essa afirmação:
As revisões feitas em duplas também se efetivaram para completar a informação ou dar ênfase a um sentimento, como é o caso de Valdir e Vivian:
Tivemos um caso de supressão. Lino e Paulo tiraram uma parte da frase por não entenderem o que estava escrito. No texto original, Lino apresentava uma escrita toda hipossegmentada e ainda com alguns problemas relacionados ao princípio alfabético. O intervalo de sete meses, para esse caso, dificultou o processo de leitura, já que as crianças tinham vencido a etapa da apropriação do princípio alfabético e não compreendiam mais a lógica anterior da hipossegmentaçao da escrita. Lino e Gustavo não conseguiam entender o que estava escrito em uma passagem logo no início do texto e resolveram tirá-la; para tanto, riscaram o que supunham ser omitido.
QUANDO FOI ESPILICAR SAIU UMA CASCATA DE FLORES E DIAMANTES QUE ERAM O DOM SECRETO QUE A FADA TINHA DADO A MENINA (Laura - TP)
ENQUANTO A MAIS VELHA NINGUEN QUIRIA FICAR PERTO (Paulo - TP)
...FADA FICOU TAO IRRITADA COM SUA GROSERIA QUE LHE DE UM DOM SECRETO QUE ERA QUE QUANDO FALAVA.QUANDO CHEGOU EM CASA E QUANDO ABRIU A BOCA SAIAM SAPOS LAGARTOS E COBRAS. (Lucas - TP)
A JOVEM QUI ÉRA UMA FADA FICOU COM TANTA RAIVA QUE DEO UM DON CECRÉTO
Valdir e Vivian (TP)
A MAIS VELHA ERA RABUGEMTA EGOISTA EQUAL A MAI
A mudança feita não comprometeu o sentido da história, visto que a parte excluída do texto trata-se de uma informação adicional.
A percepção de pequenas falhas no enredo envolve uma observação detalhada e, mais do que isso, um manejo apurado com a linguagem e com a articulação dos episódios narrativos. Pela apresentação dos resultados, notamos que os sujeitos desta pesquisa adequaram a produção visando ao sucesso da interlocução, considerando os possíveis leitores. Conseguiram, desta forma, entrar em dialogia com o texto escrito, ou seja, perceberam que o significado do texto é construído de alguém para um outro e que isso ocorre a partir da interação autor-texto ou leitor-autor-texto.
Em relação ao agrupamento, podemos afirmar que não houve discrepância quanto ao número de revisões. Parece que o fato de trabalhar em parceria não foi decisivo para obtermos mudanças efetivas na produção, pelo menos para este critério. Porém, um dado relevante é que, após a segunda revisão, apenas três produções revisadas em duplas continuam com problemas, ao passo que cinco feitas individualmente apresentam omissões. Com esse dado, podemos considerar que o processo de revisão em parceria foi mais eficaz, pois as partes alteradas, embora em menor proporção, foram suficientes para deixar a história completa.
É necessário salientar também a postura de alguns alunos diante da tarefa de revisar. Uma dupla, Larissa e George, percebeu que faltavam partes relevantes do enredo, mas decidiram não mudar. O pouco compromisso diante da tarefa foi notório e, quando questionados se iriam realizar as alterações, a dupla respondeu que a produção estava satisfatória.
Em síntese, das nove crianças em atividade individual, apenas Andrea não fez alteração, por não conseguir perceber duas omissões importantes: o pedido da fada à irmã mais nova e o desfecho sobre a irmã mais velha, o que prejudica a compreensão do enredo.
Duas duplas não executaram a revisão neste quesito, tampouco necessitavam fazê-lo, uma vez que as produções apresentavam as principais informações da história.
5.2.2 – LINGUAGEM
Ao contrário do que se pensa, ser falantes de uma língua, não garante ser efetivo usuário da linguagem escrita. Embora uma habilidade dependa da outra, a aprendizagem da escrita e o uso da linguagem são processos distintos.
Uma dificuldade de autores principiantes é conseguir expressar em palavras tudo o que é necessário para compor um texto. Segundo Soares (1999, p. 62),
(...) a aprendizagem do uso da escrita, na escola, torna-se, pois, a aprendizagem de ser sujeito capaz de assumir a sua palavra na interação com interlocutores que reconhece e com quem deseja interagir, para atingir objetivos e satisfazer desejos e necessidades de comunicação.
Tal posição de interlocutor torna mais significativo o processo de produção. Geraldi (2003, p. 17) também contribui na defesa dessa postura:
A aprendizagem da linguagem é já um ato de reflexão sobre a linguagem: as ações linguísticas que praticamos nas interações em que nos envolvemos demandam esta reflexão, pois compreender a fala do outro e fazer-se compreender pelo outro tem a forma de diálogo.
O diálogo permitido com a presença de um destinatário, no caso das revisões feitas individualmente, e a ajuda efetiva de um colega, nas revisões em dupla, proporcionou substanciosa reflexão sobre a linguagem. Apesar de não constituir uma categoria, muitos ajustes na forma de expressar as ideias foram assumidos. Essas pequenas modificações, como veremos adiante, são resultado de um grande esforço cognitivo para adequar o que estava escrito no primeiro texto produzido da história original, visando à compreensão do outro.
Em relação à divisão das categorias referente à linguagem, o quadro abaixo mostra as revisões feitas individualmente e em duplas que modificou a produção original:
Tabela 5.3 – REVISÃO DA LINGUAGEM – 2º ANO
Categoria Individual Duplas
Sem revisão da linguagem 6 3
Palavra repetida 1 1
Substituição pronominal, verbal ou lexical 0 3
Referente 3 6
Das nove crianças que realizaram a revisão individualmente, seis não fizeram alterações que se encaixam nas categorias estabelecidas, e, das nove duplas, apenas três. Vale ressaltar que três dos seis alunos que concluíram individualmente a atividade, executaram pequenos ajustes na linguagem o que favoreceu maior adequação da escrita em relação a seu propósito comunicativo. Das três duplas que se enquadraram na categoria sem revisão da linguagem, todas adaptaram o texto, melhorando aspectos linguísticos. Diferente da primeira revisão feita, os ajustes não consistiram apenas na introdução de artigos, de preposições ou de outra palavra qualquer. Apesar de também termos encontrado esse tipo de modificação, as mudanças envolveram forma mais conveniente e apropriada de expressar os acontecimentos vividos pelas personagens, como é o caso de Laura, que substitui a palavra “igual” por “igualzinha” no intuito de reforçar a descrição feita à filha mais velha.
Outro exemplo da mesma criança diz respeito à substituição de “a garota foi no poço” por “a garota foi ao poço”. É notório, nesse caso, o refinamento linguístico.
MAS A MAIS VELHA ERA RABOGEMTA E EGOISTA IGUALZINHA A MÃE Laura (TP)
Valdir e Vivian também harmonizaram o texto incluindo “com tanta” na frase: “ficou com tanta raiva”. O acréscimo teve como objetivo ressaltar o sentimento da personagem para justificar, no enredo, o dom secreto ruim dado à irmã mais velha. Além dessas crianças, muitas outras fizeram esse tipo de alteração, o que mostra um olhar atento por parte dos aprendizes em relação à linguagem (suas normas e convenções) e também em relação ao processo interlocutivo (o melhor entendimento para o seu leitor).
Passemos agora para a análise das categorias.