3 O PROTOCOLO VERDE – UMA HISTÓRIA, UM COMPROMISSO
3.4 AS REVISÕES DO PROTOCOLO VERDE EM 2008 E
Mantendo o foco nas instituições financeiras públicas e reconhecendo as necessidades de adaptar os bancos públicos à realidade brasileira, bem como estabelecer premissas mais claras e objetivas para a incorporação do meio ambiente aos negócios, isto é, para incluir a variável ambiental no deferimento de créditos, é redigida a versão de 2008 do Protocolo Verde (ARAÚJO, 2009).
A atualização do Protocolo Verde associou-se ao processo de regulação das questões socioambientais pelo Conselho Monetário Nacional, que editou a Resolução nº 3.545, de 29 de fevereiro de 2008, que estabelecia requisitos ambientais como pré- condição para a concessão de financiamentos agropecuários no bioma da Amazônia. Esse foi o marco para a edição de outras normas de caráter socioambiental, que tratam de temas como crédito rural, trabalho escravo e inclusão do risco socioambiental na avaliação de adequação de capital. Dessa forma, a questão socioambiental emergiu em posição estratégica e determinante para a consolidação de políticas públicas que podiam estimular a estruturação do setor financeiro, capacitando-o a “promover o desenvolvimento equilibrado do país e servir aos interesses da coletividade”, conforme determina o Art. nº 192 da Constituição Federal (BRASIL, 1988).
Mattarozzi e Trunkl (2008) consideram que a versão de 2008 era mais objetiva em relação à anterior, quando os conceitos de sustentabilidade não eram tão disseminados: "O Protocolo Verde de 1995 era mais genérico e baseado em recomendações, agora já se fala em diretrizes, o que dá um caráter mais firme ao compromisso", avalia Trunkl (2008).
A versão de 2008 do Protocolo Verde foi considerada mais ampla que os Princípios do Equador, porém enunciada sem a preocupação de conferir operacionalidade e restritas aos bancos públicos, o que possibilitou uma avaliação menos rigorosa das ações bancárias pelos agentes externos, pela sociedade civil e pelos órgãos de fiscalização (PROTOCOLO VERDE, 2008). Às instituições signatárias do Protocolo Verde, em 1995, quais sejam, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste do Brasil, Banco da Amazônia e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, reuniu-se, posteriormente, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia (YOUNG et al., 2009).
Com a publicação da versão de 2008 do Protocolo Verde, a polêmica de desvantagem dos bancos públicos em relação aos privados, no que se referia a financiamentos de projetos, contribuiu para que, em 2009, a FEBRABAN aderisse oficialmente ao Protocolo Verde, representando 16 instituições financeiras privadas, o que deu origem à nova redação do Protocolo Verde, com vista a nortear as práticas bancárias dos bancos privados, relativas ao desenvolvimento sustentável, por tratarem, basicamente, dos impactos e dos custos socioambientais na gestão de ativos, na análise de risco de projetos e financiamentos e na promoção do consumo consciente dos recursos naturais (PROTOCOLO VERDE, 2008; 2009).
Para que se possa melhor cotejar a versão de 2008, voltada para os bancos públicos, com a de 2009, voltada para os bancos privados, são apresentados no Quadro 5 os princípios e diretrizes das duas versões do Protocolo Verde, ressaltando por sublinhamento as principais diferenças que se podem identificar pela análise do texto, quais sejam:
No Princípio 1, enquanto os bancos públicos são responsabilizados pelo desenvolvimento sustentável, financiando também programas de uso sustentável de recursos naturais, os bancos privados devem oferecer linhas de crédito, mas a responsabilização com o consumo de bens naturais não é citado. Daí decorreram as diferenças nas respectivas diretrizes, nas quais se observa a substituição do termo
sustentável pelo verbete consciente, ou seja, por um termo vago, que distancia as atividades bancárias públicas das privadas;
O Princípio 2 apresenta uma diferença fundamental, pois os bancos públicos devem basear-se na Política Nacional de Meio Ambiente, enquanto os privados se baseiam nas suas políticas internas. No que concerne às diretrizes para o atendimento desse princípio, o Protocolo Verde dos bancos públicos prevê a realização da análise socioambiental de clientes cujas atividades exijam o licenciamento ambiental e que tenham significativos impactos sociais adversos.
o Na diretriz que recomenda considerar nas análises o zoneamento agroecológico ou ecológico econômico, ao Protocolo Verde dos bancos públicos adiciona que esses zoneamentos devem ser de conhecimento público.
o Na diretriz que trata dos padrões de desempenho, o Protocolo Verde público recomenda desenvolver esses padrões por setor produtivo, ao passo que o Protocolo Verde privado restringe-se a recomendar a aplicação para os projetos de médio e alto impactos negativos, sem se referir ao setor produtivo.
No Princípio 4, os bancos públicos comprometem-se a publicar anualmente os resultados do efetivo cumprimento do Protocolo Verde, enquanto os privados apenas a divulgar.
O Princípio 5 trata dos esforços que as instituições signatárias devem realizar na cooperação e integração do Protocolo Verde. No entanto, se observa que a recomendação da promoção da harmonização de procedimentos para esse fim é restrita apenas aos bancos públicos:
o Nas diretrizes dos bancos públicos, aparece a implementação de mecanismos de governança que envolvem os signatários, enquanto os privados se referem apenas ao acompanhamento da governança para a efetividade do Protocolo Verde;
o Existe ainda uma diretriz no Protocolo Verde público para o desenvolvimento de um modelo padronizado de abordagem com vista a identificar informações socioambientais com os clientes, ausente no documento dos bancos privados.
Quadro 5– Comparativo de princípios e diretrizes das versões de 2008 e 2009 do Protocolo Verde
Protocolo Verde de 2008 Protocolo Verde de 2009 Princípios Diretrizes Princípios Diretrizes
1. Financiar o desenvolvimento com sustentabilidade, por meio de linhas de crédito e programas que promovam a qualidade de vida da população, o uso sustentável dos recursos naturais e a proteção ambiental.
a) Aprimorar, continuamente, o portfólio de produtos e serviços bancários destinados ao financiamento de
atividades e projetos com adicionalidades
socioambientais;
b) oferecer condições diferenciadas de financiamento (taxa, prazo, carência, critérios de elegibilidade, etc.) para projetos com adicionalidades socioambientais; e
c) orientar o tomador de crédito de forma a induzi-lo à adoção de práticas de produção e consumo sustentáveis.
1. Oferecer linhas de financiamento e programas que fomentem a qualidade de vida da população, o uso sustentável do meio ambiente.
a) Aprimorar, continuamente, a oferta de produtos e serviços bancários destinados a promover projetos que
apresentem adicionalidades
socioambientais;
b) Oferecer condições diferenciadas de financiamento para projetos que apresentem adicionalidades socioambientais;
c) orientar o tomador de crédito para a adoção de práticas sustentáveis de produção e consumo consciente.
2. Considerar os impactos e custos socioambientais na gestão de ativos (próprios e de terceiros) e nas análises de risco de clientes e de projetos de investimento, tendo por base a Política
Nacional de Meio Ambiente.
a) condicionar o financiamento de
empreendimentos e atividades, potencial ou efetivamente poluidores ou que utilizem recursos naturais no processo produtivo, ao Licenciamento Ambiental, conforme legislação ambiental vigente;
b) incorporar critérios socioambientais ao processo de análise e concessão de crédito para projetos de investimentos, considerando a magnitude de seus impactos e riscos e a necessidade de medidas mitigadoras e compensatórias;
c) efetuar a análise socioambiental de clientes cujas atividades exijam o licenciamento ambiental e/ou que representem significativos impactos sociais adversos;
d) considerar nas análises de crédito as recomendações e restrições do zoneamento agroecológico ou, preferencialmente, do zoneamento ecológico-econômico, quando houver; e e) desenvolver e aplicar,
compartilhadamente, padrões de
desempenho socioambiental por setor
produtivo, para apoiar a avaliação de
projetos de médio e alto impacto negativo. 2. Considerar os impactos e custos socioambienta is na gestão de seus ativos e nas análises de risco de clientes e de projetos de investimento, tendo por base as políticas
internas de cada instituição;
a) observar no financiamento de
projetos potencialmente causadores de significativa degradação do meio ambiente a apresentação por parte do tomador do crédito das licenças ambientais exigidas pela legislação
vigente;
b) incorporar critérios socioambientais ao processo de análise e concessão de crédito para projetos de investimentos, considerando-se a magnitude de seus impactos e riscos e a necessidade de medidas mitigadoras e
compensatórias;
c) considerar nas análises de crédito as recomendações e restrições do zoneamento agroecológico ou, preferencialmente, do zoneamento ecológico-econômico, quando houver; e forem de conhecimento público; e e) aplicar padrões de desempenho socioambientais na avaliação de projetos de médio e alto impacto negativo. 3. Promover o consumo sustentável de recursos naturais, e de materiais deles derivados, nos processos internos.
a) definir e contemplar critérios socioambientais nos processos de compras e contratação de serviços; b) racionalizar procedimentos
operacionais visando promover a máxima eficiência no uso dos recursos naturais e de materiais deles derivados; e
c) promover medidas de incentivo à redução, reutilização, reciclagem e destinação adequada dos resíduos, buscando minimizar os potenciais impactos ambientais negativos.
3. Promover o consumo sustentável de recursos naturais, e de materiais deles derivados, nos processos internos.
a) definir e contemplar critérios socioambientais nos processos de compras e contratação de serviços; b) racionalizar procedimentos operacionais visando promover a máxima eficiência no uso dos recursos naturais e de materiais deles
derivados; e
c) promover medidas de incentivo à redução, reutilização, reciclagem e destinação adequada dos resíduos, buscando minimizar os potenciais impactos ambientais negativos.
Protocolo Verde de 2008 Protocolo Verde de 2009 Princípios Diretrizes Princípios Diretrizes
4. Informar, sensibilizar e engajar continuamente as partes interessadas nas políticas e práticas de sustentabilidade da instituição.
a) capacitar o público interno para desenvolver as competências necessárias à implementação dos princípios e diretrizes deste Protocolo;
b) desenvolver mecanismos de consulta e diálogo com as partes interessadas; e c) comprometer-se a publicar anualmente os resultados da implementação dos princípios e diretrizes estabelecidos neste Protocolo 4. Informar, sensibilizar e engajar continuamente as partes interessadas nas políticas e práticas de sustentabilida de da instituição.
a) capacitar o público interno para desenvolver as competências necessárias à implementação dos princípios e diretrizes deste Protocolo; b) desenvolver mecanismos de consulta e diálogo com as partes interessadas; e
c) divulgar os resultados da implementação dos princípios e diretrizes estabelecidos neste Protocolo 5. Promover a harmonização de procedimentos, cooperação e integração de esforços entre as organizações signatárias na implementação destes Princípios. a) implementar mecanismo de governança envolvendo os signatários
para compartilhar experiências, acompanhar a efetividade e propor melhorias no processo de implementação dos princípios e diretrizes deste
Protocolo, bem como sua evolução;
b) desenvolver um modelo de abordagem padronizado para levantar informações socioambientais junto aos clientes; e
c) realizar, a cada dois anos, a revisão dos princípios e diretrizes para o contínuo aperfeiçoamento deste Protocolo.
5. Promover a cooperação e integração de esforços entre as organizações signatárias na implementaçã o deste Protocolo.
a) promover o envolvimento dos signatários para o compartilhamento de experiências, acompanhamento da efetividade e governança dos princípios e diretrizes deste protocolo, bem como propor melhorias no seu processo de implementação; e b) realizar, a cada dois anos, a revisão dos princípios e diretrizes para o contínuo aperfeiçoamento deste Protocolo.
Fonte: Protocolo de Intenções pela Responsabilidade Socioambiental. Protocolo Verde, 2008. Elaboração própria.
Em 2010, a FEBRABAN promoveu discussões com as instituições privadas, bem como com o Ministério do Meio Ambiente, ONGs, Banco Central e a sociedade, por meio de consulta pública, cujo resultado foi a elaboração de uma matriz com 11 indicadores para monitoramento e a avaliação do Protocolo Verde (FEBRABAN, 2011). A matriz estava constituída por um questionário com 65 questões, para obtenção das informações necessárias ao cálculo dos indicadores, para estabelecer e implantar uma agenda comum às instituições bancárias, com vista a induzir à adesão e à implantação de ações, como também permitir a elaboração de diagnóstico da área, face aos compromissos do Protocolo Verde (FEBRABAN, 2011). Acerca das respostas desta Matriz, o Diretor de Relações Institucionais da FEBRABAN, Mário Sérgio Vasconcelos, informou, por mensagem eletrônica, que as respostas dos bancos não estão disponíveis, pois a FEBRABAN não individualiza dados de seus associados, apenas os trata de forma global, setorialmente (VASCONCELOS, 2012).
Segundo a FEBRABAN, no documento Bancos e Desenvolvimento Sustentável, os bancos aderentes eram 19, até julho de 2011 (Amazônia, BANCOOB, Banrisul, BIC, BPN, Brasil, Bradesco, Brasil, Cacique, Citi, HSBC, Itaú Unibanco, Nordeste, Nossa Caixa Desenvolvimento, Rabobank, Safra, Santander, Sofisa, Tribanco, Votorantim), mas os bancos respondentes da Matriz de Indicadores eram 15 (Amazônia, BANCOOB, Brasil, BIC, Bradesco, CEF, Citi, HSBC, Itaú Unibanco, Nordeste, Rabobank, Santander, Sicredi, Sofisa, Votorantim), denotando, dessa forma, que o cumprimento do
Protocolo Verde, já em 2011, não tinha sua avaliação condizente com as reponsabilidades assumidas pelas instituições financeiras (VASCONCELOS, 2011).
4 METODOLOGIA
Para a descrição da metodologia, neste capítulo, foram detalhados o tipo de estudo, com a explicação de cada categoria classificatória; a amostra e os instrumentos de investigação para, em seguida, apresentar passo a passo o método empregado para a coleta dos dados e a análise.