A revitalização linguístico-cultural tem sido a bandeira de muitos povos indígenas que desejam “[...] reafirmar suas identidades, supostamente perdidas, buscando-as no passado, embora, ao fazê-lo, eles possam estar realmente produzindo novas identidades” (WOODWARD, 2009, p. 11). Assim, nesta seção, pretendemos discutir algumas questões relacionadas à identidade indígena. Para isso, faz-se necessário que revisitemos alguns conceitos e definições para que possamos compreender as transformações por que passaram esses povos ao longo dos tempos.
Partindo do pressuposto de que “a identidade de um indivíduo se constrói na língua e através dela” (RAJAGOPALAN, 1998, p.41), podemos dizer que a identidade constrói-se por meio de “atos de criação linguística” (TADEU DA SILVA, 2009, p.76).
Para entender a língua, cultura e memórias de um povo, devem-se considerar as influências que esses elementos têm na (re)construção de sua(s) identidade(s). Em se tratando de povos indígenas isto não é diferente, visto que o contato com não-índios modificou e transformou as identidades desses povos de modo intenso e violento. Para tanto, é preciso reconhecer que:
O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas (HALL, 2006, p. 13).
Ou seja, diversas identidades (co)existem simultaneamente no mesmo sujeito, dependendo das circunstâncias e momentos, nem sempre de forma harmoniosa. Logo, cabe ao sujeito negociá-las do modo mais conveniente e apropriado. Para as comunidades indígenas, esses conflitos e contradições são ainda maiores, pois estes foram violentamente obrigados a “abandonar” suas identidades indígenas para que pudessem se relacionar com a sociedade dominante. Entretanto, há que se ressaltar que essas relações são carregadas de conflitos, devido às questões políticas e ideológicas presentes nesses contextos.
Para Hall (2006), “a identidade é definida historicamente e não biologicamente” (HALL, 2006, p.13). Em outras palavras, isso significa que a identidade não nos é dada ao nascer, mas sim construída em nossas relações e interações com o outro.
A identidade do índio, vista desta maneira, é, então, um fenômeno emergente, no sentido de que ela emerge, surge mesmo como resultado da interação entre este e membros de outros grupos sociais e étnicos num determinado contexto político e econômico (MAHER, 1996, p.21).
Entretanto, essa interação a que se refere a autora deve ser sempre vista como conflituosa, a julgar que ela acontece por meio da sobreposição de um grupo sobre o outro. “[...] As relações entre o português e as línguas indígenas no Brasil nunca foram harmoniosas
e, dificilmente, poderiam ser analisadas independentemente dos fenômenos sociais” (FRANCESCHINI, 2011, p. 46).
Maher (1998, p. 116) define a questão da identidade indígena da seguinte forma:
O “ser índio”, remete, isto sim, a uma construção permanentemente (re)feita a depender da natureza das relações sociais que se estabelecem, ao longo do tempo, entre índio e outros sujeitos sociais e étnicos: tal construção busca a) determinar especificidades que estabeleçam “fronteiras identificatórias” entre ele e um outro e/ou b) obter o reconhecimento dos demais membros do grupo ao qual pertence, da legitimidade de sua pertinência a ele .
Fica claro pela colocação da autora que é através da interação diária e constante no espaço e no tempo com o outro que o sujeito índio se constrói, principalmente através da linguagem meio pelo qual o sujeito pode construir sua(s) identidade(s). Talvez, as “fronteiras identificatórias” as quais a autora se refere estejam justamente relacionadas às diferenças de um grupo em relação ao outro. Portanto, “[a]firmar identidade significa demarcar fronteiras, significa fazer distinções entre o que fica dentro ou que fica fora” (TADEU DA SILVA, 2009, p. 82).
Em se tratando de línguas indígenas, as transformações e os impactos ocasionados pela globalização foram ainda maiores, visto que estes povos devido ao contato com não- indígenas foram obrigados a abandonar suas línguas, culturas e costumes. Assim sendo, questionamos: Se a língua é um dos principais elementos na constituição da identidade do ser humano, será que os indígenas que deixaram de falar a língua de seus ancestrais perderam sua identidade indígena?
Ao ouvirmos alunos Kaingang ou Guarani falarem o português, “sentimos” que eles não falam o português do mesmo modo que nós. Parece haver uma voz, um canto que muitas vezes rejeitamos em interpretar (HONÓRIO, 2009, p. 92).
Pelas palavras da autora conclui-se que não, pois mesmo deixando de falar a língua que os identifica, esses povos mantiveram características que são próprias de sua identidade linguística, no caso o canto e a musicalidade da língua indígena (HONÓRIO, 2009). Talvez esse modo de falar a língua Portuguesa, com “jeito indígena”, possa ser associado à
subjetividade linguística presente em cada sujeito e também a uma forma de resistência identitária desses sujeitos.
Nesse sentido, o RCNEI (1998, 123) afirma que:
É importantíssimo entender que mesmo tendo perdido sua língua de origem, um povo pode continuar mantendo uma forte identidade étnica, uma forte identidade indígena. Os povos indígenas têm, cada um deles, o seu modo próprio de falar a língua portuguesa. Esses modos de falar o português têm, quase sempre, marcas muito específicas da língua de origem do povo em questão: no vocabulário, na gramática, na pronúncia. Esses modos de expressão devem ser respeitados na escola e fora dela, já que também são atestados de identidade indígena.
No entanto, apesar de todas essas considerações a cerca da identidade indígena, não podemos afirmar que a língua que identifica um povo não seja importante forma de representação étnica. Prova disso são as constantes investidas e reivindicações por parte dos povos indígenas para falarem e usarem suas línguas indígenas. Para Woodward (2009, p. 11), “[u]ma das formas pelas quais as identidades estabelecem suas reivindicações é por meio do apelo a antecedentes históricos”. No caso das comunidades indígenas, essas reivindicações estão diretamente ligadas as suas línguas, culturas e costumes.
No entanto, essa busca é ilusória, justamente porque as identidades se transformam continuamente ao longo do tempo.
O passado e o presente exercem um importante papel nesses eventos. A contestação no presente busca justificação para criação de novas – e futuras – identidades nacionais, evocando origens, mitologias e fronteiras do passado. Os atuais conflitos estão, com frequência, concentrados nessas fronteiras, nas quais a identidade nacional é questionada e contestada (WOODWARD, 2009, p. 23).
É a contestação da identidade que faz com que as pessoas busquem no passado aspectos culturais, linguísticos para que possam comprovar sua(s) identidade(s), principalmente para os povos indígenas que precisam constantemente (re)afirmar suas identidades indígenas perante a sociedade não-indígena. Por isso é tão comum a associação da identidade a símbolos, uma vez que “[...]a identidade é tanto simbólica quanto social” (WOODWARD, 2009, p.10). Ou seja, identidade é definida tendo como base o que as pessoas usam ou possuem, por exemplo, se se fala ou se usa a língua indígena então se é
índio. Percebemos, portanto, que a identidade é definida por meio de sistemas de representação, através das quais se busca definir o que uma pessoa é ou não é.