5 ZERO HORA NO TWITTER: ESTRATÉGIAS EMERGENTES DE LEGITIMAÇÃO
5.2 A ANÁLISE DE CONTEÚDO
5.2.4 O que diz a organização sobre o uso informativo do Twitter
5.2.4.2 Ricardo Stefanelli editor de redação de Zero Hora
Jornalista, editor de redação de Zero Hora, escreve a Carta do Editor na Zero Hora impressa e no Blog do Editor.
Conversamos com Ricardo Stefanelli um dia depois de ter feito a entrevista com Bárbara Nickel. Ele começa afirmando que irá apenas confirmar o que ela nos disse, pois “ela é praticamente a voz oficial da empresa na área de mídias sociais”. Para ele, a presença da Zero Hora no Twitter ou em qualquer ferramenta de mídia social está diretamente relacionada à postura do Grupo RBS em relação à tecnologia como um todo.
O que posso te ratificar é que a RBS tem por norma estar atenta sempre a qualquer coisa, a qualquer tecnologia, a qualquer meio, qualquer ação, a qualquer atividade que esteja ligada às atividades dela, isso é o perfil da RBS desde que ela nasceu num poste em passo fundo há quase 53 anos. Tá no DNA da empresa o acompanhamento a tudo que envolva a área da comunicação. E nada mais comunicação nos últimos sete, oito anos principalmente do que as redes sociais, seja Orkut, Facebook, e agora mais recentemente o Youtube, o Twitter e amanhã provavelmente será outro assunto, isso muda com muita rapidez (STEFANELLI, 2010).
Para Stefanelli, está no “código genético” da empresa a necessidade de sempre acompanhar os novos meios tecnológicos. Quando perguntamos se a presença no Twitter atende a uma estratégia da organização, ele afirma que o Twitter faz parte da estratégia da empresa de acompanhar seu público onde ele estiver se manifestando. Ele dá um exemplo da cobertura da falta de água na região metropolitana de Porto Alegre, que no dia de nossa conversa (16/09/2010) era o principal assunto da capa da Zero Hora da edição da capital. Ele comenta que a matéria do jornal impresso foi muito pautada pelo Twitter, pelo que o público dizia através da mídia social.
Inclusive a gente reproduz algumas manifestações do próprio Twitter dentro do jornal impresso, dentro do jornal online, porque pra nós tudo é casado. Se isso é uma estratégia, é. Qual é a estratégia? Estar atento ao seu público, isso é uma demanda, uma necessidade, uma estratégia, uma obrigação, nossa função social. O que é a RBS? A RBS é uma empresa de comunicação cujo mandamento é “nós permitimos a comunicação entre as pessoas”. O Twitter é um meio (STEFANELLI, 2010).
Para o editor, o que ocorre com o jornalismo hoje nas mídias sociais digitais é mais uma das transformações do jornalismo, que ele prefere classificar como atualizações que
114 ocorreriam sempre que uma nova tecnologia é incorporada. No entanto, reconhece que a internet possibilitou uma mudança mais “violenta, mais forte”, em função da inclusão do receptor que agora também quer ser emissor, participante no processo. Para Stefanelli, “cabe ao jornalismo, e em especial ao jornalista, ser um filtro disso”.
Ele analisa que a marca, a tradição das organizações informativas dão legitimidade ao que é dito na internet, ajudando as pessoas a se guiar diante de tanta informação. Segundo ele, quando se trata de uma informação dada por uma empresa com nome dentro do jornalismo, “ali tem um filtro, no caso da Zero Hora de 46 anos, do Estadão 120 anos, do Globo 80 anos. São marcas que criaram legitimidade nos filtros, ou seja, ajudar as pessoas a se guiar nesse mundo”.
Questionamos se o papel de intermediação do jornalismo estaria ameaçado. Ele diz que, para a Zero Hora, a internet e as mídias sociais, assim como qualquer outra tecnologia, nunca foram vistas como ameaça. Ele compara o que ocorre com o Twitter hoje a uma mudança ocorrida no início dos anos 1990, ainda antes da internet, que tinha o objetivo de propiciar ao jornal “ouvir as pessoas”. Ele refere-se à inclusão dos números de telefone de cada editor no alto das páginas do jornal impresso e à criação do conselho do leitor, no ano 2000. Para ele, isso já era uma forma de rede social. “Hoje temos 24 conselhos de leitor dentro de Zero Hora. Cada caderno tem o seu e o jornal como um guarda-chuva de todos tem um conselhão. São redes sociais”.
Stefanelli reforça várias vezes que a presença de ZH nas mídias sociais não está relacionada a uma visão estratégica comercial da empresa, apesar de não termos utilizada essa conotação à palavra estratégia. “[...] Vejo essas redes sociais como uma maneira até de aperfeiçoar o jornalismo. Se isso vai se transformar numa oportunidade de negócios, é provável, mas como conseqüência, não como meta. O que a gente olha com todo rigor é que isso é uma forma de aperfeiçoar nossos processos”. Para ele, circula muita inverdade na internet, que ajudou a propagar as “conversas de comadre”, avisando que está fazendo uma metáfora. “O papel do veículo e do jornalismo é iluminar isso como verdade ou desmistificar o boato”.
O editor de Zero Hora acredita que, apesar de algumas empresas da mídia tradicional já terem sucumbido às transformações trazidas pela internet, muitas outras poderão sair fortalecidas; “[...] o jornalismo poderá sair fortalecido”.
Questionamos qual seria a principal contribuição do Twitter para o jornal. Ele afirma, sucintamente, que deveria ser na possibilidade de ampliar a pauta do jornal. Insistimos
115 perguntando se a principal função seria essa e ele diz que na verdade não se trata disso, pois o Twitter ampliou a pauta, assim como ocorre com a internet como um todo, que ajuda na apuração, na busca por novos temas a serem abordados. “É como se fosse mais gente telefonando para uma redação, mais gente escrevendo para uma redação. Nossa pauta, a nossa agenda está mais atenta”. E do ponto de vista do jornal utilizar como canal de informação, para difundir informação? Chamar para o jornal, dar visibilidade ao jornal... “Aí é uma conseqüência, parodiando a música que diz que todo artista deve estar onde o povo está, nós estamos onde os leitores estão, em qualquer plataforma, em qualquer meio”. Ela firma que utilizam o Twitter para divulgar conteúdo ou para responder “coisas institucionais sobre a empresa, por exemplo”.
Com relação aos cuidados que o jornal enquanto organização estaria tendo para evitar problemas na utilização do Twitter, ele reafirma o que disse Bárbara sobre a multiplicação de conhecimento. “A gente espalha os conceitos para toda a redação, alerta para as oportunidades e especialmente dos riscos que essas redes proporcionam. É como uma casca de banana, ela surge e te derruba. A responsabilidade é de todo mundo”. Ele afirma que as regras de uso do Twitter ou de qualquer outra ferramenta estão claras nos manuais de ética e responsabilidade social da empresa.
Voltamos a questionar sobre qual seria, então, o principal objetivo do Twitter. Ele nos diz que não um objetivo, pois o que ocorre é que o jornal está nas redes, acompanhado-as, valendo-se delas, embora o que ele (Ricardo Stefanelli) mais aprecia no Twitter é sua possibilidade de funcionar como um “alimentador da pauta”.
Questionamos sobre a cobertura do #temporalrs, que nos deu o corpus da análise de conteúdo principalmente por ter sido comentado por Stefanelli na Carta do Editor. Ele afirma que
Talvez tenha sido um momento em que toda a empresa [RBS] se viu mais envolvida pelo Twitter. Talvez uma outra unidade, um ou outro veículo em algum outro momento tenha sido mais forte, mas naquele momento a movimentação... aquilo veio de supetão, arrombou a porta, pediu pra entrar, e foi bom porque a gente soube reagir com a agilidade necessária, todas as unidades, a gente soube reagir com agilidade àquela demanda com a mesma velocidade com ela veio. (STEFANELLI, 2010).
Perguntamos se existe um uso estratégico das iniciativas interativas para fortalecer o discurso do jornal, para que ele possa dizer “nós somos participativos”, como ocorreu com a referida Carta do Editor. Ele afirma que não existe um discurso de interatividade, pois ela é
116 intrínseca à organização. “Nós não temos um discurso, nós somos participativos [...]. Nós poderíamos ter um discurso, mas o discurso de conseqüência, a RBS é uma empresa participativa, a gente ta envolvido com as comunidades, em maior ou em menor grau”. Para ele, são exemplos dessa “cultura participativa” os cadernos de bairro, os conselhos de leitor, a presença da RBS TV nas comunidades. “Então, o Twitter e as redes sociais não fazem parte do nosso discurso, fazem parte da nossa prática, tem uma diferença aí”.
Questiono de que forma os valores da Zero Hora se fazem presente na mídia social. “Pra nós é tudo sob o mesmo guarda-chuva. Não nos interessa em qual meio, em qual plataforma, os valores têm que ser os mesmos. A gente até pode escorregar, mas não justifica. Guia de ética, qualidade e responsabilidade social é a nossa bíblia [mostra o caderno]” (STEFANELLI, 2010).