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2.2 Gestão de Risco na Copa do Mundo da FIFA

2.2.3 Riscos de Infraestrutura

A infraestrutura é um aspecto importante da gestão de risco de um megaevento esportivo, à medida que articula o setor público e o setor privado, bem como instituições internacionais e nacionais. Sediar um megaevento requer equipamentos esportivos adequados (arenas e estádios de futebol no caso da Copa do Mundo da FIFA ou equipamentos esportivos para diversos esportivos no caso dos Jogos Olímpicos), além de uma infraestrutura urbana adequada (aeroportos, portos, transporte público e tecnologia) no paíse ou cidades-sede. A infraestrutura é fundamental para o desenvolvimento de um megaevento esportivo e inclui serviços como tecnologia, energia, alimentos e água. A ausência de infraestrutura é um risco incidente no que diz respeito à imagem do país-sede

responsável por organizar o torneio, sobretudo em países em desenvolvimento, que apresentam diversos problemas sociais.

No caso da Copa do Mundo da FIFA a infraestrutura esportiva se limita as construções, reformas ou ampliações de arenas ou estádios de futebol. O número de equipamentos esportivos nas diferentes edições do torneio tem variado entre nove a 12 arenas ou estádios de futebol por edição, conforme a Figura 2. A única exceção foi encontrada na edição da Copa do Mundo da FIFA Japão e Coréia do Sul 2002, quando foram utilizados 20 estádios de futebol (dez em cada país).

Figura 2 Número de estádios da Copa do Mundo da FIFA de 1994 para 2022

Fonte: Documentos oficiais, artigos científicos e reportagens nos meios de comunicação de massa.

Ao analisar o planejamento futuro das próximas duas edições da Copa do Mundo da FIFA, Rússia em 2018 e Catar em 2022, foi reportada a mesma tendência no que diz respeito ao número de estádios das edições anteriores do torneio, com um total de 12 arenas ou estádios de futebol.

A FIFA exige um mínimo de nove arenas ou estádios de futebol desde a edição da Copa do Mundo da FIFA França 1998, quando o novo formato de 32 equipes foi estabelecido. A FIFA tem exigido um estádio com capacidade de 80.000 assentos para o jogo de abertura e para a final do torneio. Para as semifinais a FIFA requer a capacidade da

do equipamento esportivo com pelo menos 60.000 assentos e para os demais jogos do torneio pelo menos 40.000 assentos (TRANSPARENCY, 2011).

No que diz respeito ao custo com as arenas e os estádios de futebol, o Brasil quebrou o recorde. De acordo com levantanto realizado com base em relatórios oficiais, na Copa do Mundo da FIFA França 1998 o custo foi de US$ 2,8 bilhões. Na Copa do Mundo da FIFA Japão e Coreia do Sul 2002 o investimento foi de US$ 2,0 bilhões. Na Copa do Mundo da FIFA Alemanha 2006 investiu US$ 1,8 bilhão. Na Copa do Mundo da FIFA África do Sul 2010 investiu US$ 2,2 bilhões. Na Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014 foi investido mais de US$ 3,0 bilhões, o que quebrou o recorde de custos relacionados às edições anteriores. No entanto, as estimativas de gastos com equipamentos esportivos na Copa do Mundo da FIFA Rússia 2018 vai quebrar o recorde, com investimento previsto em US$ 3,8 bilhões, enquanto que na Copa do Mundo da FIFA Catar 2022, estima-se US$ 3,0 bilhões (CHADE, 2010).

A gestão das arenas e estádios de futebol tem sido um risco frequente para os governos que sediaram a Copa do Mundo, bem como para a FIFA. Os riscos de gestão dos equipamentos esportivos também se estendem ao cidadão local, à medida que os mesmos são se configuram como o responsável por pagar via impostos os custos de uma arena ou estádios de futebol que venha a ser subutilizado. Os meios de comunicação de massa nacional e internacional têm realizado cobertura sobre o uso do equipamento após o torneio. O campo científico-acadêmico tem analisado a viabilidade da construção ou reforma de uma arena ou estádio de futebol para a realização de uma Copa do Mundo da FIFA. Em geral, as construções destes estádios demandam financiamento público e privado, e após o torneio pode ser gerenciado pelo setor público ou privado ou público- privado. O risco mais incidente está relacionado ao uso das arenas ou estádios de futebol após o megaevento esportivo, com o objetivo de não se tornarem “elefantes brancos”, ou seja, grande construção com pouco uso e com custos contínuos para o estado.

O conceito de “elefante branco”, de acordo com Alm et al. (2014, p.1) tem origem nos países asiáticos e se refere a "um empreendimento muito caro, e seus custos associados ultrapassam significativamente o seu valor em uso diário". Em outras palavras, são construções públicas valiosas, dependentes dos recursos financeiros estatais, desproporcionais ao custo e com subutilização após um determinado evento. No caso da

presente pesquisa o termo “elefante branco” está relacionado aos estádios ou arenas de futebol.

A Figura 2 mostra a diferença principal entre o risco de subutilização dos equipamentos esportivos entre os países emergentes e os países desenvolvidos. As construções de equipamentos esportivos nos países desenvolvidos são baixas se comparado com o número de arenas e estádios de futebol construídos nos países emergentes, como a África do Sul e o Brasil. No grupo de países desenvolvidos, a edição da Copa do Mundo da FIFA Estados Unidos 1994 usou um número total de nove estádios de futebol, e nenhum novo equipamento esportivo foi construído. As arenas e estádios de futebol nos Estados Unidos foram adaptados para sediarem o torneio. Na Copa do Mundo da FIFA França 1998 foi utilizada dez arenas ou estádios de futebol, incluindo cinco remodelados e apenas um foi construído, o State de France (PLAY THE GAME, 2014).

Na Copa do Mundo da FIFA Japão e Coreia do Sul 2002 a gestão foi realizada entre os dois países, o que torna a análise mais complexa devido às diferentes leis e burocracias de cada país. Na Coréia do Sul foram construídos dez novos estádios e no Japão foram construídos sete novos estádios de futebol e três outros foram remodelados (HORNE; MANZENREITER, 2004). Embora o Japão e a Coreia do Sul integrem o grupo de países desenvolvidos, não existem relatos de infraestrutura esportiva de qualidade para o futebol antes da realização do megaevento esportivo. Além disso, não existem no Japão e na Coreia do Sul, campeonatos nacionais de futebol estruturados e com grande suporte de torcedores. Assim, no caso do Japão e da Coreia do Sul, por ser organizada por duas diferentes burocracias se configura como uma edição que deve ser avaliada separadamente.

Outro exemplo de megaevento esportivo com infraestrutura esportiva de qualidade foi reportado na Copa do Mundo da FIFA Alemanha 2006, quando foram utilizados doze estádios de futebol, oito existentes e apenas quatro reformados. Além disso, nesta edição do torneio, pode-se destacar o fato da Alemanha ter um Campeonato Nacional de Futebol estruturado, com times tradicionais e com grande número de torcedores (GERMANY, 2006).

A Copa do Mundo da FIFA nos países emergentes tem uma organização diferente dos países desenvolvidos. Na Copa do Mundo da FIFA África do Sul 2010, por exemplo, foram utilizados 10 estádios de futebol, o que incluiu a construção de seis novos estádios e uso de dois estádios já existentes antes dos preparativos para o torneio. No caso

da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014 foi utilizado doze equipamentos esportivos, seis novas arenas ou estádios de futebol e as outras seis foram reformadas. Ao analisar os projetos das próximas edições do torneio, na Copa do Mundo da FIFA Rússia 2018 12 estádios serão utilizados, o que inclui sete estádios novos no planejamento, e os outros três estádios serão reformados. É importante destacar que dois estádios de futebol atendem ao padrão da FIFA e já são existentes, a Kazan Arena e Estádio Olímpico (ambos foram utilizados nos Jogos Olímpicos de Inverno Sochi 2014 e estão aptos para receber o megaevento esportivo). Na Copa do Mundo da FIFA Catar 2022 não existe arenas ou estádios de futebol no padrão FIFA, e serão utilizados 12 equipamentos esportivos, dentre os quais oitos estão planejados para serem construídos e outros quatro serão reformados e expandidos.

Por fim, a Figura 2 indica que nas edições da Copa do Mundo da FIFA em países emergentes foi construído ou reformado um número maior de arenas e estádios de futebol em comparação com as edições do megaevento esportivo nos países desenvolvidos. Dessa forma, o risco de atrasos nas obras e o uso de recursos públicos são mais incidentes em países emergentes, do que em países desenvolvidos devido à necessidade de reforma ou construção de novas instalações esportivas. Outro risco está relacionado ao uso do estádio de futebol após o megaevento esportivo, especialmente em países sem um Campeonato Nacional de Futebol estruturado como o Japão e a Coreia do Sul ou em regiões de países com baixa média de público nas arenas e estádios de futebol e grandes incertezas como no caso brasileiro nas cidades de Manaus, Brasília e Cuiabá, conforme será discutido e aprofundado no capítulo seguinte.

A gestão de risco associado com as construções de arenas e estádios de futebol tem sido de responsabilidade dos governos que foram sedes da Copa do Mundo da FIFA. As escolhas das sedes dependem da viabilidade econômica do projeto no pós-torneio, o que pode variar entre baixa e alta incerteza de riscos (CABRAL; SILVA JR. 2013).

De acordo com Garcia e Rodriguez (2001) o uso adequado das arenas ou estádios de futebol pós o torneio depende de diferentes fatores, como a estrutura do campeonato local, qualidade e reconhecimento do público sobre os jogadores, as condições climáticas, a cultura local sobre o futebol, bem como se os jogos do campeonato são transmitidos ao vivo na televisão e noticiados diariamente nos meios de comunicação de

massa. Estes fatores são de grande relevância para o equipamento esportivo não se tornar um “elefante branco” (GARCIA; RODRIGUEZ, 2001).

Na Copa do Mundo da FIFA Estados Unidos 1994 foi reportada uma adequada infraestrutura urbana antes da realização do megaevento esportivo e não foi necessária construções e reformas de aeroportos (FIFA, 1994). Na edição da Copa do Mundo da FIFA França 1998 foi descrita no relatório oficial ferrovias francesas adequadas, especialmente a do Train à grande Vitess (TGV) ou trem de alta velocidade. Sobre os aeroportos foi mencionada uma infraestrutura apropriada e o aeroporto de Bordeaux registrou 50 mil viagens extras em Junho, no período de realização do megaevento esportivo (DAUNCEY; HARE, 1999).

Na Copa do Mundo da FIFA Japão e Coreia do Sul 2002 foram construídos uma conecção no transporte urbano entre as vinte cidades japonesas e coreanas. Os dados coletados indicaram uma eficaz ligação no transporte entre as cidades-sede no Japão. Apesar do sistema de transporte urbano criado nas cidades-sede, os relatórios do torneio indicaram uma ineficiente conexão entre as cidades japonesas e as cidades estrangeiras (HAHN, 2002).

A Copa do Mundo da FIFA Alemanha 2006 operou com o seu próprio sistema de transporte, estações ferroviárias regionais e aeroportos. Durante o torneio a infraestrutura do transporte envolveu “rotas de trens de alta velocidade e ligações de autoestradas nas regiões da Alemanha ao longo das doze cidades da Copa do Mundo” (GERMANY, 2006, p.5). Apesar da qualidade da mobilidade urbana na Alemanha, o Governo Federal do Brasil investiu em torno de US$ 4,6 bilhões (3.7 bilhões de euros) em rotas, o que incluiu a expansão de aproximadamente 370 km de autoestradas (GERMANY, 2006).

Na Copa do Mundo da FIFA África do Sul 2010 foi reportada a construção e a expansão do transporte público. No total, sete aeroportos (O.R. Tambo, Cape Town, King Shaka, Bloemfontein, Port Elizabeth, George e East London) foram reformados ou expandidos antes do megaevento esportivo. Os investimentos de 2006 até 2010 foram direcionados à Companhia de Aeroportos da África do Sul (Airports Company South Africa), com aproximadamente US$ 2.2 bilhões (R17 bilhões) (AIRPORTS, 2010).

No caso da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014 foi possível identificar nos documentos as descrições sobre as extensões, reformas e construções de novas linhas de

metrô, Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs), estradas, duplicação de avenidas, Bus Rapid Transit (BRT) ou sistema de linhas exclusivas para ônibus em diferentes cidades-sede. Por fim, pode-se enfatizar que as mudanças no transporte público antes dos megaeventos esportivos objetivaram criar uma ligação entre o centro da cidade, aeroporto e estádios de futebol (BRASIL, 2014a).

No total, aproximadamente R$ 11.3 bilhões foram investidos entre 2011 e 2014 na expansão, reforma e construção de aeroportos. O Aeroporto Internacional de Guarulhos, o Aeroporto Internacional de Campinas (Viracopos), o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, o Aeroporto Internacional de Brasília, o Aeroporto Internacional de Confins (Tancredo Neves), o Aeroporto Internacional de Porto Alegre (Salgado Filho), o Aeroporto Internacional Afonso Pena (Curitiba), o Aeroporto Internacional de Cuiabá, o Aeroporto Internacional de Fortaleza, o Aeroporto Internacional de Guararapes (Recife), o Aeroporto Internacional de Salvador e o Aeroporto Internacional de Manaus foram reformados ou expandidos. Somente o Aeroporto do Estado do Rio Grande do Norte (São Gonçalo do Amarante na cidade de Natal) foi construído. As reformas e construções dos novos aeroportos, no Brasil, aumentaram aproximadamente 70 milhões a capacidade de passageiros por ano, o que pode ser considerado de grande desenvolvimento, já que os aeroportos no Brasil estavam executando voos com um número acima da capacidade permitida (AGÊNCIA ESTADO, 2014).

Apesar do abandono de diversas obras prometidas e do atraso nas obras de infraestrutura urbana, o Brasil não apresentou caos nos aeroportos ou problema na logística do evento. Os principais jornais do mundo, New York Times, Al Jazeera, Wall Street Journal, The Guardian e The Telegraph destacaram na segunda semana da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014, que o país apresentou infraestrutura adequada para receber o megaevento esportivo e que não foram reportados grandes problemas de mobilidade urbana (SÁ, 2014).

Vale ressaltar que os dados da Copa do Mundo na África do Sul e no Brasil apresentam similaridades, sobretudo no que diz respeito à infraestrutura para receber o megaevento esportivo. Ambos os países têm largas economias regionais, na África e na América do Sul, além de apresentarem largo mercado informal e de serem países emergentes, membros do BRICS (Brazil, Russia, India, China and South Africa). Por fim,

muitos países ao redor do mundo questionaram se a África do Sul e o Brasil poderiam ou não sediar uma Copa do Mundo da FIFA (BUTLER; AICHER, 2015).

Para finalizar, os dados apresentados até o momento permitem afirmar que existem diferenças significativas na infraestrutura e na organização da Copa do Mundo da FIFA nos países desenvolvidos e emergentes. Nos países emergentes o custo financeiro com infraestrutura urbana e esportiva é mais elevado do que em países desenvolvidos, que apresentam infraestrutura esportiva e urbana adequada para receber o torneio, o que torna os riscos menores. Os megaeventos esportivos organizados pelos países do BRICS como o Brasil e África do Sul passaram por diferentes reformas e construções nas cidades-sede, com o objetivo de adaptar e melhorar a infraestrutura para receber a Copa do Mundo da FIFA e os expectadores. Para a Copa do Mundo da FIFA Rússia 2018 existe uma expectativa de investimentos de larga escala no que diz respeito à infraestrutura esportiva e urbana das cidades-sede.