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RISCOS E PERIGOS: CONCEITOS E CLASSIFICAÇÕES

O risco constitui-se num importante conceito e tem sido utilizado em diversos campos da sociedade como a economia (análise do risco-país, risco das bolsas de valores), a saúde (riscos ocupacionais, riscos de contaminações), a engenharia (riscos de acidentes na construção), os seguros etc. Dada a polissemia do termo, o seu estudo tornou-se particularizado e fragmentado sendo comum a problemática em torno das conceituações e entendimentos dos termos risco, perigo, acidente, azar, desastre, entre outros. Nessas

situações, frequentemente, o termo é substituído ou está associado a potencial, susceptibilidade, vulnerabilidade, sensibilidade ou danos potenciais. A ausência de um acordo na terminologia chegou a inaugurar uma nova ciência na década de oitenta cujo objetivo foi o de estudar e limitar os riscos aos quais estavam expostas as populações: a Cindinologia ou Cindínica. No entanto, ainda assim, continua a não existir um conceito universalmente aceito do risco. (ALMEIDA, 2012; DAGNINO; CARPI Jr., 2007; MARANDOLA JR. e HOGAN, 2004a; QUEIRÓS, 2006).

Para Almeida (2012), a confusão do termo advém da complexidade como característica inerente à sociedade contemporânea permeada pelo medo, insegurança e incertezas. Assim, destaca que a origem do termo risco é considerada como incerta por alguns autores16, embora esteja presente em todas as línguas europeias: risk em inglês, rischio em italiano, riesgo em espanhol, risque em francês. O termo também é referido por outros autores ao castelhano antigo “resegue”, que significa ressecar, cortar, e ao latim rixare (brigar) e resecare (extirpar, suprimir). Há, ainda, em grego rhizikon e o árabe risk. De forma geral, para esta autora, o termo “[...] risco pode ser tomado como categoria de análise associada às noções de incerteza, exposição ao perigo, perda e prejuízos materiais e humanos, atrelados não só a processos naturais, mas também a processos oriundos das atividades humanas.” (ALMEIDA, 2012, p.19).

De forma semelhante, Souza e Zanella (2009) destacam que a imprecisão da terminologia da palavra risco ocorre justamente por não existir um corresponde em português, ou em outra língua de origem latina como o Espanhol ou Francês, da palavra inglesa hazard, muito comum na literatura norte-americana. Assim, em levantamento sobre a terminologia, os autores destacam:

Em língua portuguesa, autores da Geografia têm interpretado o termo hazard ora como risco, ora como acidente. Xavier (1996) procurou adotá-lo como sinônimo de risco, já Monteiro (1991) optou pela tradução como acidente. Na versão em português da obra de Gregory (1992), o termo foi traduzido como acaso. Em língua espanhola, Castro (2000) propôs a tradução de hazard como perigo, traduzindo mais fielmente o sentido da expressão em inglês e fornecendo um significado similar à ideia de ameaça, considerada enquanto possibilidade. (SOUZA; ZANELA, 2009, p.15). 17

16

Almeida (2012) cita Veyret (2007) e Aneas de Castro (2000).

17 Os correspondentes autores e obras citados são: XAVIER, H. Percepção geográfica dos deslizamentos de

encostas em áreas de risco no município de Belo Horizonte, MG.1996. 222 f. Tese (Doutorado em

Geografia) – Instituto de geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 1996. MONTEIRO, C. A. F. Clima e excepcionalismo: conjecturas sobre o desempenho da atmosfera como fenômeno geográfico. Florianópolis: Ed. UFSC, 1991. GREGORY, K. J. A natureza da geografia física. Rio

Por fim, os autores defendem que o melhor significado para a palavra inglesa hazard seria entendê-la como sinônimo de ameaça ou perigo, uma vez que existe também o termo

risk que, em outra análise18, refere-se à existência conjunta de ameaça (ou perigo) e

vulnerabilidade. Nestes termos, os autores completam que:

Logo, os riscos devem ser tratados como resultado da intricada relação entre ameaça e vulnerabilidade, que apresentam uma profunda dependência entre si. A noção de risco se estabelece com base na relação conflituosa entre o homem e o seu ambiente, em um processo de mútua influência. Portanto, deve se procurar também rejeitar a ideia maniqueísta da existência de um evento natural agressor atuando sobre uma sociedade que, por sua vez, é tida como vítima. (SOUZA; ZANELA, 2009, p.16).

Risco é um constructo social, ou seja, é uma percepção humana ou de um grupo de indivíduos da probabilidade de ocorrência de um evento perigoso e causador de danos, diante da vulnerabilidade deste indivíduo ou grupo. Conflituosamente, a noção de risco é confundida com a noção do próprio evento causador de perigo e ameaça. Assim, o perigo corresponde à possibilidade ou a ocorrência de um evento causador de prejuízo. É uma ameaça potencial às pessoas e seus bens. Risco, contudo, é uma probabilidade de ocorrência de perigo e de geração de perdas. (ALMEIDA, 2012).

A palavra risco vem sempre acompanhada de um adjetivo que o qualifica e o associa ao cotidiano da sociedade. As classificações mais correntemente citadas na literatura são: risco tecnológico, risco natural, risco social e risco ambiental.

Os riscos tecnológicos, de acordo com Veyret (2007), podem ser classificados como tipos de poluições. Estas podem ser as crônicas, quando os fenômenos ocorrem de maneira perigosa e recorrente e, por vezes, lenta e de forma difusa, ou as acidentais, aquelas que ocorrem quando há vazamentos de produtos tóxicos, explosões, incêndios. Para Dagnino e Carpi Jr. (2007), três fatores são indissociáveis deste tipo de risco, sendo que, onde quer que exista um desses fatores, haverá a probabilidade do risco: o processo de produção (recursos, técnicas, maquinários e equipamentos), o processo de trabalho (relações entre direções

de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993. CASTRO, S. D. A. Riesgos y peligros: uma visión desde la Geografía. Scripta Nova. Revista Eletrónica de Geografía y Ciências Sociales, Barcelona, n. 60, 2000. Disponível em: <htt p://www.ub.es/geocrit/sn-60.htm>. Acesso em: 20 ago. 2005.

18 Está versão é defendida segundo Souza e Zanella (2009) por : SMITH, K. Environmental hazards: assessing risk and reducing disaster.3nd. ed. London: Routledge, 2001.

empresarias e estatais e empregados) e a condição humana (existência individual e coletiva, ambiente).

Os riscos naturais são assim denominados quando os riscos não podem ser relacionados ou atribuídos à ação humana, podendo, contudo, serem agravados pelo homem. Para Veyret (2007), os riscos naturais são aqueles pressentidos, percebidos e suportados por um indivíduo ou grupo diante de uma possível ação de um evento natural. Apresentam causas físicas, sendo difícil a intervenção ou previsão humana. Dentre estes, a autora cita os de origem litosférica, como os terremotos, vulcões, desmoronamento de solo, e os de origem hidroclimática, como os ciclones, as tempestades, nevascas, inundações, secas etc. Quando agravados pela ação humana, os riscos naturais tendem a impactar mais gravemente. Assim, a autora cita como exemplos a erosão, a desertificação, os incêndios, a poluição, inundações etc.

Os riscos sociais implicam uma diversidade de atores e variáveis a serem consideradas. Deste modo, diante da polissemia da palavra social, pode-se identificar como risco social a maior parte dos riscos. Riscos relacionados a elementos naturais como furacões, terremotos, epidemias, secas etc., bem como os riscos decorrentes das sociedades e das formas políticas e de administração adotadas (crescimento urbano, industrialização, grande densidade em alguns bairros) podem afetar ou ser afetados pelos riscos sociais. (DAGNINO; CARPI Jr., 2007).

Os riscos ambientais para Veyret (2007) seriam a síntese dos riscos naturais e os riscos decorrentes de processos naturais agravados pela intervenção e ocupação humana. Souza e Zanella (2009), por outro lado, inferem que, conhecendo a diferença entre hazard e risk, a expressão risco ambiental refere-se a uma situação de ameaça ambiental (de ordem física, tecnológica e até mesmo social) atuando sobre uma população reconhecidamente vulnerável.

Cerri e Amaral (1998) afirmam que nas diferentes formas de classificação dos riscos, os riscos ambientais assumem a classe maior quando são consideradas as situações potenciais de perdas e danos ao homem (vide figura 1). Os autores propõem na figura que os riscos naturais, sociais e tecnológicos seriam subclasses dos riscos ambientais. Como exemplos de riscos tecnológicos, destacam os vazamentos de produtos tóxicos, inflamáveis, radioativos, colisão de veículos, queda de aviões etc. Dentre os riscos sociais, enfatizam os assaltos guerras, conflitos, sequestros, atentados.

Para estes autores, os riscos naturais, enquanto componente do risco ambiental, ainda são subdivididos em riscos físicos e riscos biológicos (associados à fauna e à flora). Os riscos físicos são tripartidos em riscos atmosféricos (furacões, secas, tempestades, granizo etc.),

riscos hidrológicos (enchentes e inundações) e riscos geológicos. Estes últimos, podem ser ainda classificados quanto ao seu caráter endógeno, associado aos processos da geodinâmica interna, (terremotos, atividades vulcânicas e tsunamis) e exógeno, associado à geodinâmica externa, (escorregamentos e processos correlatos, erosão/assoreamento, subsistências e colapsos de solo, solos expansivos).

Os riscos biológicos associados à fauna correspondem às doenças que seriam provocadas por vírus e bactérias, pragas, como gafanhotos e roedores, picadas de animais venenosos etc. Por fim, os riscos biológicos associados à flora seriam aqueles determinadores de doenças provocadas por fungos, pragas como as ervas daninhas, ervas tóxicas e venenosas etc.

Figura 1. Riscos Ambientais. Adaptado de Cerri e Amaral, 1998, p. 302.

Para Marandola Jr. e Hogan (2004a, b), o fato da natureza dos riscos não estar restrita a uma única dimensão da realidade, exprimindo toda a complexidade da sociedade contemporânea em seus diferentes embates e naturezas, enseja uma postura de análise multidimensional e transescala para um melhor conhecimento da sua dinâmica. Estes autores destacam que as abordagens correntes sobre o tema envolvem desde leituras altamente objetivistas, encarando-o como eventos probabilísticos, a outras que entendem o risco

subjetivamente somente como fonte de interações sociais. Entre ambas, contudo, existem outras tendências com diferentes graus de objetivismo e subjetivismo.

Muitas destas abordagens estão, para os autores, voltadas para estudos com escalas de análise coletivas, relegando-se a individual e não levando em consideração como as populações experienciam ou como percebem o risco em suas vidas. Este fato deve-se principalmente por estas análises direcionarem-se a espaços-tempos distintos (localizados), sem que se haja uma ligação com as macroestruturas sociais ou culturais. Os teóricos da Sociedade de Risco é que passam a estudar esta amplitude, colocando o risco no próprio mecanismo de produção social. Marandola Jr. e Hogan (2004b) dividem as abordagens e tendências sobre o risco em quatro grupos: (1) Avaliação e Gestão do Risco; (2) Percepção do Risco; (3) Eventos e Sistemas Ambientais; (4) Sociedade de Risco, conforme veremos a seguir.

Avaliação e Gestão do Risco trata-se de uma forma de abordagem fortemente objetivista. É propriamente a análise do risco. Suas características fundam-se na importância de que estudos de identificação, avaliação e gestão do risco poderiam diminuir as incertezas com as quais convivemos diariamente, assim como, fornecer bases seguras para a ação política por meio do conhecimento científico. Estes foram estudos defendidos pelos primeiros geógrafos envolvidos com os natural hazard (perigos naturais), bem como em trabalhos preocupados com a saúde pública.

William Rowe (1987) no artigo Alternative risk evaluation paradigms, define o que vem a ser a gestão e avaliação risco:

[...] avaliação do risco [...] significa estimar o risco e a gestão do risco significa a redução ou controle do risco para um nível ‘aceitável’, se é que este nível pode ser explicitamente determinado. Na verdade estes dois processos são inseparáveis desde que a incerteza em um afete os nossos julgamentos sobre o outro e vice versa (ROWE, 1987, p.1-2 apud MARANDOLA JR., HOGAN, 2004b).

Ainda para Rowe (1987), a análise do risco seria uma ferramenta de análise política que combinaria conhecimentos científicos associados à ciência da informação política para auxiliar na tomada de decisões. Seria um subsídio para a decisão e sua importância e utilidade derivariam de suas aplicações e sucesso na resolução das decisões envolvidas. Este autor salienta que a análise não seria um modelo, mas, sim, um arcabouço de princípios norteadores para a formulação de metodologias aplicadas em distintos contextos. Esta concepção do

importante papel da ciência na política ambiental era fortemente defendida por organismos supranacionais, bem como por associações acadêmicas internacionais,como a Scientific

Committe on Problems of the Environment (SCOPE). Marandola e Hogan (2004b) trazem

duas considerações a respeito da avaliação objetivista do risco:

em primeiro lugar, a linha de investigação surge a partir de problemas empíricos, principalmente ligados à gestão. Em segundo lugar, apesar de reconhecer a incerteza, assenta-se sobre uma concepção de ciência onde ela é encarada como possuidora de meios para disciplinar a incerteza, promovendo uma base segura para a tomada de decisões. Temos uma certa reserva com respeito a esta crença, embora não neguemos o papel do conhecimento científico em auxiliar a elaboração de políticas públicas. No entanto, este auxílio deve ser realizado a partir da participação dos cientistas na construção dos conhecimentos, juntamente com as populações afetadas e o poder público, e não estabelecendo um processo de cima para baixo. Seria talvez este o papel da percepção neste quadro. (MARANDOLA JR.; HOGAN, 2004b, p.32).

Na Percepção do Risco, a ênfase é dada à cultura e aos processos socioconstrucionistas. Dentre os trabalhos precursores nesta área e que tiveram resultados reveladores, Souza e Zanella (2007) mencionam o de Kates (1962 e 1967) que tinha por objetivo traçar um comparativo entre a visão dos técnicos e pesquisadores com a dos cidadãos comuns diante das inundações em diferentes áreas dos Estados Unidos e das tempestades tropicais no Leste daquele país, respectivamente. Estes estudos mostraram que as imagens dos cidadãos frente aos riscos e as medidas de combates podiam ser muito diferentes daquelas observadas pelos técnicos.Contudo, os autores também enfatizam que até mesmo os mais informados ou instruídos podem sofrer influências dos fatores subjetivos, logo, é necessário considerar o papel da percepção tanto na avaliação leiga quanto na avaliação técnica e científica dos riscos.

Na abordagem sobre a percepção, enriquecida com trabalhos oriundos da Sociologia, Antropologia e Psicologia, o risco recebe um tratamento mais subjetivista, embora não fique totalmente descolado dos processos sociais. Navarro (2005) destaca a importância dos estudos sobre os riscos envolverem a percepção dos envolvidos, tendo em vista que, diante da segunda modernidade, novos padrões cognitivos estão se desenvolvendo no que tange a tomada de decisões tanto no âmbito governamental quanto no cotidiano da vida dos indivíduos.

A objetividade dada em alguns estudos compromete a importância do processo cognitivo elaborador da percepção do risco. Sendo este um fenômeno que se processa em concorrência

com a autopercepção no contexto coletivo, o enfrentamento ou não de situações de risco, segundo a autora:

dependerá do contexto que posiciona o indivíduo em um determinado lugar, ou seja, sua inserção em um dado evento (cotidiano ou esporádico), da função que ocupa o indivíduo em determinado espaço social, dos aspectos culturais, da personalidade, da história de vida, das características pessoais e das pressões e/ou demandas do ambiente. Influenciados por um sistema de valores, os indivíduos tendem a construir uma auto-imagem e a consolidar o que pensam ser um determinado potencial humano, baseando-se neste sentimento para promoverem auto-avaliações para se exporem ou não a riscos. (NAVARRO, 2005, p. 68).

Outro aspecto enfatizado é a dificuldade no reconhecimento e tratamento dos perigos, uma vez que muitos indivíduos não se declaram cognitivamente proprietários ou vítimas destes perigos potenciais. Tal fato deve-se ao descuido nas observações precisas das situações de perigos o que leva a “[...] elas não se inscrevam num campo de competências bem definidas, causando a dispersão de interesses e prerrogativas para análises bem pontuadas capazes de transformar as situações difusas de perigo em riscos definidos.” (NAVARRO, 2005, p.68).

A autora assegura que a complexidade em que se situa a problemática do risco, e sua distribuição na sociedade contemporânea, demanda atitudes e escolhas individuais que relegam questões voluntárias como a afetividade ou o desejo. Estas escolhas são elaboradas por processos cognitivos balizadores que envolvem objetividades e subjetividades. Como exemplos, a autora cita situações de dúvidas cotidianas: os riscos do consumo dos alimentos geneticamente modificados, a confiança e fidelidade no parceiro em relação às doenças sexualmente transmissíveis. Entretanto, estas mesmas situações que transformam o perigo difuso em risco definido desenvolvem, em paralelo, condições de mobilização, sejam na esfera individual, sejam pelo intermédio de associações, sindicatos etc., que se revertem em conquistas legais e sociais.

Para Souza e Zanella (2007), levando-se em consideração os prejuízos das comunidades afetadas por desastres ambientais, percepções distintas, assim como percepções semelhantes, podem ser identificadas em grupos socioeconômicos e culturais diferenciados. Algumas características ou qualidades das situações de risco são capazes de influenciar a percepção de forma a atenuar ou a agravar a avaliação que se faz da realidade. No Quadro 1, elencamos os principais fatores que podem influenciar a percepção:

FORTE INFLUÊNCIA FRACA INFLUÊNCIA Alta probabilidade de ocorrência Baixa probabilidade de ocorrência

Curto intervalo de recorrência Impactos nunca experimentados

Expectativa de que ocorra em breve Expectativa de que ocorra no futuro

Evento extremo Baixa variação em torno do habitual

Evento imaginável, de fácil definição. Início e fim difíceis de identificar

Fortes consequências Fracas consequências

Impacto direto sobre o bem-estar Efeitos indiretos sobre o bem-estar

Perdas de vidas humanas Sem perdas de vidas humanas

Vítimas identificáveis Vítimas tratadas estatisticamente

Impactos concentrados Impactos aleatórios

Razoável certeza de que irá ocorrer Incerteza de que irá ocorrer

Mecanismos e efeitos inteligíveis Mecanismos e efeitos não entendidos

Impactos dramáticos Impactos pouco perceptíveis

Quadro 1. Principais características climáticas que influenciam a percepção. Adaptado de Souza e Zanella (2007, p. 38) apud Whyte (1985, p.101).

Os autores destacam que, mesmo diante da importância de todas as características, o impacto do evento apresenta-se como a principal influência no processo de avaliação subjetiva dos riscos. Assim, os desastres experimentados quando, por exemplo, acompanhados de perdas humanas e financeiras tendem a ser os mais concretos e evidentes. Contudo, é necessária a consideração dos valores inerentes a cada indivíduo (cultura, religião etc.).

Outra variante na percepção do risco a avaliar é a de indivíduos que observam o fenômeno de um ponto de vista externo, como os gestores públicos. Souza e Zanella (2007) apontam que a tomada de decisão, nestes casos, envolvem análises de custo-benefício assentadas na racionalidade econômica. Este modelo, na maioria dos casos, tende ao fracasso ao materializar-se.

Os estudos relacionados aos eventos e sistemas ambientais são riquíssimos em empiria, no entanto, sua abordagem conceitual necessita de avanço. De forma geral, a base conceitual aplicada à empiria é sempre relacionada a uma anterior. Os riscos avaliados, tratando-se de eventos naturais, são principalmente os ligados à Geomorfologia, à Climatologia, à Hidrologia e à Geologia. (MARANDOLA Jr.; HOGAN, 2004b).

Nos estudos ligados à Geomorfologia19, destacam existir uma ligação muito estreita com as características intrínsecas dos sistemas ambientais. Os estudos voltavam-se à dinâmica dos sistemas em relação aos eventos externos, assim, os riscos seriam expressos pela vulnerabilidade, suscetibilidade ou fragilidade dos próprios sistemas a estes eventos que, em geral, eram de origem antrópica. Os perigos pouco aparecem e, geralmente, de uma forma não muito bem conceituada relacionada mais aos riscos ou às consequências dos eventos.

Nos riscos avaliados e ligados à Climatologia, abordagens foram feitas considerando o fenômeno das cheias20, de origem natural, mas com forte influência da geomorfologia e da ação humana. Outra vertente estuda este fenômeno considerando também a vulnerabilidade das áreas21. Nos estudos dedicados aos recursos hídricos e aquíferos, os autores ressaltam as contribuições de Foster & Hirata (2003)22. Para a determinação dos riscos e vulnerabilidades nesta natureza de investigação, foram utilizados “[...] medições bioquímicas, análise geológica e geomorfológica, estudos de drenagem e de recarga, pluviosidade, análises químicas da qualidade da água, perfurações etc.” (MARANDOLA Jr.; HOGAN, 2004b, p. 38). O homem é marginalizado no processo e teria um caráter meramente contaminante, relegando-se, assim, discussões acerca das causas e estruturas que contribuiriam para a contaminação.

19

MARANDOLA Jr. & HOGAN (2004b) atribuem a Jurandyr Ross a proposta metodológica de análise da fragilidade do relevo, contudo ressaltam uma série de outros estudiosos que trataram os riscos desvinculando- os das fragilidades e dos perigos naturais. Foram abordagens enfocadas nas áreas de risco, nas vulnerabilidades e nas susceptibilidades. Assim, como contribuinte desta linha, os autores destacam o artigo escrito por Nelson F. Fernandes e Cláudio P. do Amaral: “Movimentos de massa: uma abordagem geológico-geomorfológica” (FERNANDES & AMARAL, 2000).

20 Cf. MONTEIRO, Carlos A. de F. Clima e excepcionalismo:conjecturas sobre o desempenho da atmosfera como fenômeno geográfico. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1991. 241p.

21

Cf. SOUZA, Cristiane M. Avaliação ambiental estratégica como subsídio para o planejamento urbano. 2003. Tese (Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

22

Cf. FOSTER, Stephen & HIRATA, Ricardo. Determinação do risco de contaminação das águas

subterrâneas. Um método baseado em dados existentes. (trad. Ricardo Hirata et al) São Paulo: Instituto

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