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Memória geracional e riscos ambientais no século XXI

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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE. ANDRÉA MARIA SARMENTO MENEZES. MEMÓRIA GERACIONAL E RISCOS AMBIENTAIS NO SÉCULO XXI. São Cristóvão – Sergipe 2013.

(2) ANDRÉA MARIA SARMENTO MENEZES. MEMÓRIA GERACIONAL E RISCOS AMBIENTAIS NO SÉCULO XXI. Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre pelo Núcleo de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Sergipe. Área de Concentração: Desenvolvimento Regional.. ORIENTADOR: Prof. Menezes de Souza.. São Cristóvão – Sergipe 2013. Dr.. Antônio. Vital.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE. M543m. Menezes, Andréa Maria Sarmento Memória geracional e riscos ambientais no século XXI / Andréa Maria Sarmento Menezes ; orientador Antônio Vital Menezes de Souza. – São Cristóvão, 2013. 131 f. : il. Dissertação (mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente) – Universidade Federal de Sergipe, 2013.. O. 1. Riscos ambientais. 2. Memórias geracionais. 3. Futuro. I. Souza, Antônio Vital Menezes de, orient. II. Título. CDU: 504.4”20”.

(4) ii. ANDRÉA MARIA SARMENTO MENEZES. MEMÓRIA GERACIONAL E RISCOS AMBIENTAIS NO SÉCULO XXI. Dissertação apresentada como exigência parcial para a obtenção do Título de Mestre ao Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Sergipe, vinculado ao Programa Regional de PósGraduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente- PRODEMA, Área de Concentração: Desenvolvimento Regional.. Aprovado (a) com média: _________________. BANCA EXAMINADORA. _____________________________________________________________ Antônio Vital Menezes de Souza, Doutor em Educação. Universidade Federal de Sergipe - UFS/ PRODEMA Orientador. _____________________________________________________________ Maria José Nascimento Soares, Doutora em Educação. Universidade Federal de Sergipe - UFS/PRODEMA 1º Examinador. _____________________________________________________________ José Mário Aleluia Oliveira, Doutor em Educação. Universidade Federal de Sergipe – UFS/DED 2º Examinador São Cristóvão (SE), 20 de Dezembro de 2013..

(5) iii. Este exemplar corresponde à versão final de Dissertação de Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente.. ______________________________________ Prof. Dr. Antônio Vital Menezes de Souza Orientador – Universidade Federal de Sergipe.

(6) iv. É concedida ao Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Sergipe permissão para disponibilizar, reproduzir cópias, emprestar ou vender tais cópias desta dissertação.. ______________________________________ Andréa Maria Sarmento Menezes Universidade Federal de Sergipe. ______________________________________ Prof. Dr. Antônio Vital Menezes de Souza Orientador – Universidade Federal de Sergipe.

(7) v. Dedico este trabalho ao meu filho Rodrigo com muito amor..

(8) vi. AGRADECIMENTOS. Para a realização desta dissertação, pude contar com o apoio e ajuda de algumas pessoas. A essas pessoas presto os meus agradecimentos: À família pela compreensão nos momentos de ausência. A Ricardo e ao meu filho Rodrigo, pelo carinho e ternura, fontes de inspiração em minha vida. Ao professor Doutor Antônio Vital, orientador, pelo apoio, compreensão e, principalmente, por dividir comigo seus conhecimentos. A todos os professores do PRODEMA pelo conhecimento transmitido e pelas discussões enriquecedoras; Aos colegas do Grupo de Pesquisa em Tecnologias Intelectuais, Mídias e Educação Contemporânea - SEMINALIS, pelas discussões fecundas. Aos colegas da turma 2012, em especial, às amigas Roseanne, Ana Maria e Danielle pela amizade e dedicação nos trabalhos desenvolvidos em equipe; Ao corpo administrativo, Najó, Val, Luzia pela presteza no atendimento às minhas solicitações; Aos colegas do Departamento Financeiro (DEFIN/UFS) - Carminha, Jussara, Adriana - em especial, aos da Divisão de Contabilidade (DICON/UFS) Magno, Bruno, Clara, Rosana, Maurício, Albérico, Marcel, Cristiane, que nunca se opuseram em ajudar-me nos momentos difíceis. A todos, meus sinceros agradecimentos..

(9) vii. Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo claro e brevemente? [...] e que modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro – se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? Santo Agostinho..

(10) viii. RESUMO. Esta pesquisa tem como objeto de estudo a caracterização das projeções futuras de diferentes gerações quanto aos riscos ambientais. Trata-se da análise dos tipos de influência de memórias geracionais exercidos na caracterização da ideia de futuro ambiental, considerando a sensação de insegurança socioambiental, advinda das experiências sociais diretas e/ou indiretas em torno de flagelos e/ou catástrofes ocorridas no século XXI. A abordagem teórica sobre o tema é demarcada pela natureza interdisciplinar de pesquisa, descrita pelo diálogo entre autores distintos, particularmente (Barbrook (2009); Bauman (2006; 2007; 2008a; 2008b e 2009); Beck (2010); Becker (2011), Dubet (1996); Espinheira (2008); Fischer (2011); Grings (2002); Lemos (2012); Mannhein (1982); Morin (1997 e 2001); Navarro (2005); Rushkoff (1999); Thompson (1998); Toynbee (1973); Bergson (2006); Halbwachs(1990); Bosi (1994,2003) dentre outros. A pesquisa foi realizada no Campus José Aloísio de Campos da Universidade Federal de Sergipe, situado no município de São Cristovão. Participaram desta pesquisa 294 indivíduos distribuídos em quatro grupos (menores de 15 anos, jovens com idade entre 15 e 24 anos, adultos de 25 a 59 anos e idosos com idade igual ou superior a 60 anos). A metodologia se insere no paradigma interpretativo/qualitativo e no método descritivo-fenomenológico de pesquisa. Os principais instrumentos utilizados na coleta de informações foram entrevistas semidirigidas, questionário fechado e diário de campo. Os resultados alcançados explicitam a identificação da crença na intervenção humana como contributiva no agravamento das catástrofes e/ou flagelos naturais. Os entrevistados quando se referem ao futuro ambiental não alteram de imediato seu comportamento ante audiência de flagelos ou catástrofes ambientais produzidos pelos veículos de cultura de massa. O que eles alimentam é a insegurança que apela por novo consumo da mesma porção de medo a fim de mantê-los com a sensação de viventes em direção provável à extinção. Por isso mesmo, vivem entre atônitos e sobressaltados riscos na relação cotidiana de perceber, esquecer e voltar à consciência a finitude imprevista de qualquer instante em qualquer direção. Há tendência de transferirmos nossas responsabilidades em relação ao meio ambiente para os "outros" da nossa geração e os das próximas. Por fim, o futuro ambiental como projeto do presente traduz a dinâmica social contemporânea em seus movimentos de idas e vindas, de seguir com outro tipo de consciência, seja focada em longos e médios prazos, seja em pequenas porções de momentos.. PALAVRAS-CHAVE: Memórias Geracionais. Futuro. Riscos Ambientais..

(11) ix. ABSTRACT. This research has as its object of study the characterization of future projections of different generations about environmental risks. It is the analysis of the types of influences from generational memories exercised in the characterization of the idea of future environmental, considering the feeling of insecurity, socioenvironmental consequential social experiences direct and/or indirect around scourges and/or disasters in the 21st century. The theoretical approach on the topic is demarcated by interdisciplinary nature of research, built by dialog between distinct authors, particularly (Barbrook (2009); Bauman (2006; 2007; 2008a; 2008b e 2009); Beck (2010); Becker (2011), Dubet (1996); Espinheira (2008); Fischer (2011); Grings (2002); Lemos (2012); Mannhein (1982); Morin (1997 e 2001); Navarro (2005); Rushkoff (1999); Thompson (1998); Toynbee (1973); Bergson (2006); Halbwachs (1990); Bosi (1994,2003), among others. The research was conducted on Campus Jose Aloisio de Campos, at the Federal University of Sergipe (UFS), situated in São Cristóvão city. Two hundred e ninety-four individuals participated in this survey, distributed in four groups (younger than 15 years, young people aged between 15 and 24 years old, adults from 25 to 59 years and elderly with age above than or equal to 60 years). The methodology fits into interpretative paradigm/qualitative and descriptive method of phenomenological research. The main instruments used to collect information were semi-structured interviews, closed questionnaire and field diary. The results explain the identification of belief in human intervention as contributory to worsening disasters and/or natural calamities. The interviewees when referring to future environmental does not alter their behavior immediately ante audience of scourges or environmental disasters produced by vehicles of mass culture. What they nourish is the insecurity which calls for new consumption of the same portion of fear in order to keep them with the feeling of living in direction likely to extinction. For this reason, live between amazed and startled everyday risks in relation to perceive, forget and return to consciousness the finiteness of any unexpected moment in any direction.For this reason, living between amazed and startled everyday risks in relation to perceive, forget and return to consciousness the finiteness of any unexpected moment in any direction.There is a tendency to transfer our responsibilities in relation to the environment to the "other" of our generation and the next. Finally, the future as environmental project of the presente days could be translated to contemporary social dynamics in its movements of comings and goings, to follow with another type of conscience, be it focused on long and medium term, be it in small portions of moments. KEY WORDS: Generational Memories. Future. Environmental Risks..

(12) x. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 1 2 (IN) SEGURANÇA E FUTURO NO LIMIAR DO SÉCULO XXI .................................. 8 2.1 DO MEDO E DA INSEGURANÇA ................................................................................ 8 2.2 CULTURA DE MASSA, A INDIVIDUALIZAÇÃO E A CRISE DA SOCIEDADE .. 12 2.3 O FUTURO COMO ALTERNATIVA AO APOCALIPSE (?) ..................................... 24 3 RISCOS AMBIENTAIS NA CONTEMPORANEIDADE .............................................. 33 3.1 RISCOS E PERIGOS: CONCEITOS E CLASSIFICAÇÕES ....................................... 33 3.2 SOCIEDADE DE RISCO ............................................................................................... 47 4 MEMÓRIA DA (NA) SOCIEDADE ................................................................................. 52 5 METODOLOGIA DA PESQUISA .................................................................................... 67 5.1 DO LOCAL DA PESQUISA ......................................................................................... 72 5.2 DA AMOSTRA .............................................................................................................. 72 5.3 DOS INSTRUMENTOS................................................................................................. 75 5.4 ETAPAS DA PESQUISA .............................................................................................. 76 6 RESULTADOS E DISCUSSÕES ...................................................................................... 79 6.1 PERCEPÇÃO DE RISCOS AMBIENTAIS SOB AS FORMAS DOS FLAGELOS, CATÁSTROFES OU DESTRUIÇÃO NATURAL DE MÉDIA OU DE GRANDES PROPORÇÕES. .................................................................................................................... 83 6.2 VISÃO PESSOAL A RESPEITO DO “FUTURO” (DEFINIÇÃO E CARACTERIZAÇÃO). ........................................................................................................ 91 CONCLUSÕES....................................................................................................................... 99 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 102 APÊNDICES ......................................................................................................................... 111 APÊNDICE A – ENTREVISTA SEMIDIRIGIDA ........................................................... 112 APÊNDICE B – QUESTIONÁRIO FECHADO ............................................................... 113 APÊNDICE C – TERMO DE CONSENTIMENTO PARA REALIZAÇÃO DA PESQUISA NAS DEPENDÊNCIAS DA UFS .................................................................. 115 APÊNDICE D – CARTA DE APRESENTAÇÃO DO PRODEMA ................................. 116 APÊNDICE E – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ............. 117.

(13) xi. LISTA DE TABELAS. Número. Título. Página. Tabela 1. Distribuição das quatro amostras geracionais em função do gênero, nível de escolaridade.. 82. Tabela 2. Meios de comunicação mais utilizados para se manter informado.. 82. Tabela 3. Associação de riscos ambientais à ação antropogênica e/ou natural. 84. Tabela 4. Sensações e Comportamentos diante da audiência ou percepção a respeito de notícias veiculadas pelos meios de comunicação.. 85. Tabela 5. Ideia a respeito do futuro.. 92. Tabela 6. Crença de ser afetado ou não pelos riscos ambientais no presente.. 95. Tabela 7. Crença de ser afetado ou não pelos riscos ambientais no futuro.. 96.

(14) 1Introdução. 1. 1 INTRODUÇÃO. Esta pesquisa teve origem nas experiências vividas por mim nos últimos vinte e cinco anos. Entre 1986 e 2011 mantive contato com uma diversidade de experiências, circunstâncias de interação com pessoas de gerações diferentes, seja no campo do trabalho, na formação inicial em fisioterapia, seja nas interações cotidianas com familiares ou amigos próximos. As primeiras reflexões sobre as questões ambientais surgiram desde o desafio de compreensão mais ampla a respeito do conceito de saúde. O complexo conceito de meio ambiente, apareceu, desse modo, em torno das minhas angústias pessoais de formação e de profissionalização. De modo específico, em igual intensidade, deparei-me com a problemática do futuro e com os modos distintos com que cada subjetividade, em sua origem cultural, expressa sensações de (in) segurança ante os desastres, flagelos e/ou catástrofes naturais de médias ou grandes proporções. Tais sensações de insegurança ou relativa despreocupação foram percebidas e partilhadas, principalmente pelas influências geracionais de diferentes atores sociais no cotidiano das relações que fui estabelecendo no decorrer de minha própria história de vida. Em tais contextos, percebia-me envolvida e afetada diretamente pelos tipos de conversação, emissões de opinião e de crenças partilhadas por diferentes atores sociais a respeito do futuro ante a apreensão perceptiva de algum flagelo natural. Porém, pouco a pouco, fui observando que existiam diferentes modos de percepção e de apreensão destas mesmas mensagens por distintas gerações. Crianças, jovens, e adultos exprimiam-se e observavam de maneira ora divergente, ora partilhada ora apaticamente ante a noção de futuro da biosfera e das condições de vida humana no planeta Terra. Então prossegui nos últimos cinco anos exercitando a observação indireta de tais fenômenos a tal ponto que decidi torná-la objeto de pesquisa científica dentro do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Sergipe. Em 1995, durante formação acadêmica inicial em fisioterapia, já se delineava o percurso de inquietações intelectual em torno do tema. A experiência de vivenciar e/ou acompanhar diretamente a angústia de pacientes em torno da possibilidade da finitude da vida, em casos específicos do trabalho com a saúde humana, depreendia de minhas atitudes profissionais em formação um constante encontro com a noção de futuro. A possibilidade (ou sua negação) da existência de um futuro breve ou em longo prazo desafiava e alterava o modo.

(15) 1Introdução. 2. como cada um dos atores sociais desenvolvia-se no contexto social das cenas de interação cultural. Particularmente, a participação simultânea nas disciplinas acadêmicas relativas aos estudos de Fisioterapia Aplicada à Pediatria, Fisioterapia Aplicada à Neurologia e Fisioterapia Aplicada à Geriatria foi determinante neste sentido. Nestes termos, o contato com as diferentes gerações durante a graduação e a especialização (2000) contribuiu para a apreensão de que a sensação de (in) segurança ou uma visão negativa quanto ao futuro da humanidade era diferentemente expressada por muitas pessoas, principalmente, após o acontecimento de catástrofes ambientais divulgados pelos veículos de comunicação de massa. As divulgações midiáticas eram construídas em termos apocalípticos e transpareciam que o problema das mudanças climáticas era inevitável e por culpa antropogênica. Estas experiências culminaram na aproximação com o campo da pesquisa em ciências ambientais, sobretudo, em torno das questões relacionadas à ideia de riscos, meio ambiente, memória e meios de comunicação de massa. Com base nestas trajetórias, as projeções futuras de diferentes gerações quanto aos riscos ambientais ((in) segurança socioambiental frente aos flagelos e/ou catástrofes naturais) foram se consolidando como objeto de pesquisa em minha trajetória intelectual. Toynbee (1973) destaca que as rápidas transformações da vida moderna refletem-se sobre todos e, em especial, sobre os jovens. Embora presente em todas as idades, é na juventude que o sentido da vida é mais questionado, principalmente por esta tentar compreender as circunstâncias em que se encontra. Consequentemente, a ideia de futuro se consolida como problema difuso nos estudos sobre juventude. Um dos argumentos centrais debatidos pelo autor é a ideia segundo a qual a juventude deve ser estudada como uma circunstância sociohistórica de compreensão da natureza humana e descoberta dos enfrentamentos intensivos e crísicos no que se refere ao sentido da vida. E isto decorre da busca autonegada do amor transcendental o que significa que o homem deveria empreender toda sua “habilidade e força” no sentido de alcançar os objetivos da vida: viver para amar, compreender e criar. De outra forma, que o “homem se dê a outrem, ao mundo ou a um espírito maior” (TOYNBEE,1973,p.14-15). O autor descreve a necessidade de existir uma atividade extrapessoal em benefício dos outros no que se refere à sociedade do futuro. Por isso, é possível afirmar que é para os jovens que a humanidade se volta ao tentar assegurar o futuro e que, portanto, as gerações mais velhas devem buscar.

(16) 1Introdução. 3. conciliar-se com as novas, mesmo que isto seja difícil dada a atual crise das relações humanas. Bauman (2008a, 2008b) discorre sobre o abandono do indivíduo a uma luta solitária para impor sentido e objetivo em suas vidas sem que, necessariamente, existam recursos suficientes para enfrentá-la. A individualização, enquanto característica das sociedades modernas, traz uma sensação crescente de liberdade para experimentar, mas, ao mesmo tempo, vem revestida da tarefa de lidar com suas consequências.Nessa perspectiva, a ideia segundo a qual a liberdade do indivíduo moderno veio acompanhada da incerteza, falta de proteção e a insegurança pode ser associada ao conceito de medo desenvolvido por Espinheira (2008). Entre ambos, a referência à ideia de medo e insegurança se sustenta dentro das seguintes proposições: (a) o medo orienta comportamentos; (b) o medo é ubíquo; (c) O medo fabricado desemboca num futuro que está fora de nosso controle. A primeira proposição fundamenta-se na ideia de que o medo é visto como um enfrentamento a uma ameaça direta ocorrido no passado. Isto se perpetua mesmo que não haja um novo fator desencadeador. A segunda proposição refere-se ao fato de temermos ameaças de todos os lugares, pois o mundo está cheios de perigos que podem abater-se sobre nós. Esta inclui, ainda, a vulnerabilidade a que estamos dispostos, o que depende muito mais de uma falta de confiança nas defesas disponíveis que da possibilidade de ameaças reais. Tememos ameaças da natureza, tememos as atrocidades de outros indivíduos, enfim, tememos tudo que venha a atingir nossas vidas, lares, empregos. Porém, a terceira proposição se desenvolve em torno da ideia que a economia de consumo depende de consumidores produzidos para consumirem seus produtos que, logicamente, causam alívio ou expurgam os medos cotidianamente fabricados. Nesse sentido, o “futuro” pode ser definido como uma promessa do presente. O determinismo tecnológico preconiza o presente como um instante-já (futuro) glorioso. No entanto, cabe-nos a reflexão sobre o que determina o futuro em relação às práticas históricas com as quais a humanidade em si se desenvolveu, usando as tecnologias e ferramentas, construindo-o de acordo com seus interesses. Nesse contexto, a exploração de recursos naturais e a poluição, sob a égide de um futuro onde todos terão acesso aos bens tecnológicos, devem ser repensadas, haja vista que a utopia dos benefícios à sociedade não se concretizou, ou seja, a revolução tecnológica não implicou uma revolução social. (PASQUALI, 2004; BARBROOK, 2002; GRINGS, 2002). A partir daí, esta pesquisa pretende analisar as.

(17) 1Introdução. 4. projeções futuras de diferentes gerações como constructo social de primeira ordem frente aos riscos ambientais. Beck (2010) define que os riscos ambientais são invisíveis e em muitos casos imprevisíveis. Este fato exigiria medidas preventivas e responsabilidades por danos futuros, mesmo que estes ainda não tenham ocorrido. Dessa forma, a estruturação do conceito de riscos ambientais não pode ser amplamente debatida sem considerarmos suas dimensões sociais, ecológicas, políticas e administrativas. Afirmamos isto ao concordamos com o Fisher (2011) que entende que as transformações culturais estão diretamente relacionadas à ideia de manutenção, conservação alterações ou mudanças em torno da ideia de futuro. A percepção dos riscos ambientais, enquanto construída em determinados contextos históricos, depende de cruzamento entre o perigo fornecido pelos elementos naturais (risco ambiental objetivo) e as experiências vividas. Nesse sentido, a evocação da memória é fundamental e, para cada geração, terá um enfoque diferente. De acordo com Queirós (2006), a memória histórica geracional pode ser vista como a reunião complexa das memórias comuns - adquiridas ou apropriadas dos participantes de uma situação de geração e das memórias coletivas que grupos concretos desses participantes tenham construído, não sendo incomum que as representações que compõem uma ou algumas destas memórias coletivas adquiram predominância sobre as demais e se difundam mais amplamente no seio de uma dada geração. Assim sendo, o problema dessa pesquisa é a caracterização de influências das projeções futuras de diferentes gerações quanto aos riscos ambientais. Trata-se da análise dos tipos de influência de memórias geracionais exercidos na caracterização da ideia de futuro ambiental, considerando a sensação de insegurança socioambiental advinda das experiências sociais diretas e/ou indiretas de imagens e notícias propagadas pelos veículos de comunicação de massa em torno de flagelos e/ou catástrofes ocorridas no século XXI. Para desenvolver esse estudo, foi elaborada a seguinte pergunta:. Que tipos de influências as memórias geracionais exercem na caracterização do “futuro ambiental” em decorrência da ideia de riscos ambientais?. O objetivo dessa pesquisa é caracterizar as projeções futuras de diferentes gerações frente aos riscos ambientais. Ademais, pretende-se analisar os tipos de influências exercidas.

(18) 1Introdução. 5. pelas memórias geracionais na caracterização do “futuro ambiental”, considerando a percepção dos riscos ambientais nas condutas sociais verbais de atores sociais de diferentes gerações quanto às experiências sociais diretas ou indiretas advindas estabelecidas entre os atores sociais de diferentes gerações. A relevância social e científica desta pesquisa é justificada por dois elementos. O primeiro está no reconhecimento das experiências sociais como elementos de efetiva influência na estruturação, funcionalidade e expressões da vida sociocultural partilhada pelos atores sociais, dentro da caracterização e desenvolvimento do objeto de pesquisa; o segundo explicita a importância das pesquisas em ciências ambientais demarcarem-se pela inclusão e complementaridade entre as diferentes dimensões peculiares aos atores sociais (dinâmica socioantropológica e biopsicossocial). Metodologicamente, a pesquisa está situada no paradigma interpretativo, pois visa compreender e interpretar a dinamicidade relativa ao objeto de pesquisa. Baseia-se na pesquisa do tipo qualitativa e no método fenomenológico. Participaram dessa pesquisa 294 indivíduos distribuídos entre as faixas etárias estabelecidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2011). Para os jovens, consideramos os indivíduos com idade entre quinze e vinte e quatro anos. Os adultos, aqueles com idade variável entre vinte e cinco e cinquenta e nove anos. Por fim, os idosos, aqueles com idade superior a sessenta anos. Sendo o local de estudo o Campus José Aloísio de Campos da Universidade Federal de Sergipe, incluímos também como sujeitos de pesquisa alunos do Colégio de Aplicação (CODAP) com idade inferior a 15 anos. Utilizamos como instrumentos de coletas de dados a entrevista semiestruturada, desenvolvida frente-a-frente com auxílio do gravador de áudio, após prévia autorização do entrevistado, e questionário fechado. Foram ainda recorrentes anotações pontuais sistematizadas em diário de campo. Por fim, a pesquisa teve três etapas. Na primeira, o estudo consistiu de pesquisa bibliográfica sobre as categorias de análise. Para tanto, buscamos fundamentos teóricos em Zigmund Bauman (Medo Líquido e a Sociedade Individualizada) e Gey Espinheira(Sociedade do medo) para a construção acerca da (in)segurança e do medo da sociedade atual. No contexto da abordagem da problematização histórica da cultura de massas, foram desenvolvidos estudos sobre as obras de Edgar Morin (Cultura de massas no século XX: neurose e Cultura de massas no século XX: necrose). Para a compreensão dos riscos ambientais na contemporaneidade, ancoramo-nos em Ulrich Beck (A sociedade do risco). Quanto ao futuro, debruçamo-nos em Arnolde Joseph Toynbee (A sociedade do futuro),.

(19) 1Introdução. 6. Douglas Rushkoff (Um jogo chamado futuro: como a cultura dos garotos pode nos ensinar a sobreviver na era do caos) entre outros teóricos. Na segunda etapa, selecionamos e entrevistamos os sujeitos, conforme faixas etárias já definidas. Em seguida, tratamos de analisar os discursos refletindo sobre a relevância dos dados baseada na questão norteadora da pesquisa. Nesta etapa, também validamos a interpretação dos relatos dos sujeitos que vivenciaram o fenômeno por meio da recorrência e diálogo das interpretações conclusivas com as opiniões dos autores-pesquisadores envolvidos na construção teórica dessa pesquisa. Esta dissertação está dividida em cinco capítulos, antecedidos pela introdução e seguidos pela conclusão da pesquisa, e pelas referências utilizadas na construção de todo o trabalho. Na Introdução foram situadas as motivações que levaram à construção do objeto de pesquisa. Também, foi apresentada uma contextualização sintética do tema e apresentação do objetivo da pesquisa. Destacamos ainda a relevância social e científica em que se fundamentou esta pesquisa. No Capítulo I, intitulado (in) segurança e futuro no limiar do Século XXI, desenvolvemos teoricamente a ideia de futuro na sociedade individualizada, na qual o medo e a insegurança, advindos de ameaças externas, são vistos como fatores que imobilizam o indivíduo e o tornam cada vez mais individualizado. Portanto, nessa perspectiva, deve-se evitar os espaços públicos, as ruas. Sendo o público esvaziado, o privado, o familiar, torna-se lugar seguro contra tais perigos. No Capítulo II, intitulado Riscos Ambientais na Contemporaneidade, foram abordadas desde a definição de risco, até as formas e as dificuldade de gestão e/ou enfrentamento técnico-político ante as demandas instaladas. Mesmo considerando que os riscos tornaram-se uma constante ameaça às pessoas e ao meio ambiente, sendo cada vez mais difíceis de serem controlados, a dimensão do perigo não corresponde com a sua percepção pelos indivíduos ameaçados. Nessa direção, é que a caracterização das projeções futuras de diferentes gerações quanto aos riscos ambientais fez-se importante elemento de análise científica, aqui, elaborado como objeto de pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio e Ambiente da Universidade Federal de Sergipe. No Capítulo III, os conceitos relativos às “memórias” foram discutidos levando-se em consideração a visão anatômica, filosófica e psicossociológica. Em seguida, debatemos a ideia.

(20) 1Introdução. 7. do problema sociológico das gerações proposto por Karl Mannheim, a experiência social definida por François Dubet e por último as representações sociais de Serge Moscovici. No Capítulo IV está delineada a “Metodologia da Pesquisa”. Destacamos o método fenomenológico, o paradigma interpretativo e todos os demais elementos formais que correspondem aos procedimentos de análise escolhidos para o desenvolvimento desse estudo. São apresentados e definidos os instrumentos de coleta de informações, suas finalidades e critérios específicos. O Capítulo V, intitulado “Análise e interpretação dos dados”, corresponde às análises dos discursos produzidos nas entrevistas tendo em vista as categorias de análise: futuro e percepção. de. riscos. ambientais. diante. dos. flagelos. e. catástrofes. naturais..

(21) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 8. 2 (IN) SEGURANÇA E FUTURO NO LIMIAR DO SÉCULO XXI. 2.1 DO MEDO E DA INSEGURANÇA. A adesão dos indivíduos ao sistema fabril e urbano inclinou a associação do tempo às horas de trabalho e ao relógio. Em benefício de um futuro melhor, sacrificou-se o tempo presente. No entanto, o salto para a tão esperada modernidade caracterizada pela certeza no progresso tecnológico e científico que nos guiaria a um futuro distante dos medos e inseguranças não foi expurgador destes sentimentos. A erosão das certezas do positivismo e das promessas deterministas de progresso, na passagem do século XIX para o século XX, atinge seu auge nas duas grandes guerras, cedendo lugar a uma modernidade líquida assinalada por uma velocidade acelerada da vida e individualismo diante da não credulidade na ciência, na tecnologia, nas instituições clássicas etc. As expectativas não atendidas no passado e no presente contribuíram para a ruína da ideia de um futuro glorioso entre nós. Nossa existência é muito mais angustiante e permanecemos à espera de fatos e acontecimentos que possam nos atingir, mesmo que estes realmente não aconteçam. Vivemos a contemporaneidade como uma era de medos e tendemos a nos proteger de tudo e todos que nos cercam. No século XIX, a oposição entre sociedade e natureza serviu ao propósito do conhecimento e controle desta com intuito de contrapor a irracionalidade da sociedade agrária estamental, instituindo uma sociedade industrial. Naquele século, os privilégios do Estado soberano e das imagens religiosas foram corroídos e cederam lugar ao entendimento de que uma sociedade industrial, desenvolvida em suas estruturas esquemáticas de vida e de trabalho, seus setores produtivos, papéis de gêneros definidos, sua compreensão científica e tecnológica são constituintes de uma sociedade moderna. Este pensamento se estendeu ao século XX e na oposição entre sociedade e natureza esta última foi subjugada e explorada. Ao longo deste processo de exploração e transformação tecnológico-industrial, a natureza foi absorvida, passando de um fenômeno externo e prédeterminado, para interno e fabricado. O consumo da natureza revela uma sociedade que, sem seu contrário, encontra a si mesma, pondo em desencanto seus fundamentos balizadores da sociedade industrial: progresso, ciência, classes, família nuclear, democracia.. Em outros.

(22) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 9. termos, ao se concretizar, a sociedade industrial se desestabiliza. (BECK, 2010). No cenário da modernidade sólida, as formas tradicionais de controle do medo e da segurança mantidas pelo Estado, pela família, instituições religiosas, papéis definidos de gêneros são destituídas do caráter de solidariedade no quadro da modernidade líquida, passando-se para o indivíduo este controle: o indivíduo é remetido a si mesmo e ao seu próprio destino individual no mercado de trabalho, com todos os riscos, contradições e oportunidades. E isto não reflete uma emancipação bem-sucedida do indivíduo, mas sim a uma dependência do mercado de trabalho, das instituições e do consumo pala padronização dos estilos de vida. (BECK, 2010). Neste contexto, Bauman (2008a, 2008b) discorre sobre o abandono do indivíduo a uma luta solitária para impor sentido e objetivo em suas vidas sem que, necessariamente, existam recursos suficientes para enfrentá-la. A individualização, enquanto característica da modernidade líquida, trouxe uma sensação crescente de liberdade para experimentar, mas, ao mesmo tempo, veio revestida da tarefa de lidar com suas consequências. Nessa perspectiva, a ideia segundo a qual a liberdade do indivíduo moderno veio acompanhada da incerteza, falta de proteção e a insegurança pode ser associada ao conceito de medo desenvolvido por Espinheira (2008). Para estes autores, a referência à ideia de medo e insegurança se sustenta dentro das seguintes proposições: (a) o medo orienta comportamentos, quer haja ou não uma ameaça presente; (b) o medo é ubíquo; (c) O medo fabricado desemboca em um futuro que está fora de nosso controle. A primeira proposição fundamenta-se na ideia de que o medo é visto como um enfrentamento a uma ameaça direta ocorrido no passado. Isto se perpetua mesmo que não haja um novo fator desencadeador de reações que oscilem desde a fuga à agressão. E, sendo produto de uma experiência anterior, o medo pode ser reciclado, servindo como modelo para o comportamento humano, mesmo que não exista um perigo iminente. É um “sentimento de ser susceptível ao perigo” (BAUMAN, 2008a, p.09). Diferentemente dos animais, o homem experimenta um medo não instintivo, social e reciclado que orienta seu comportamento. Assim, o medo disseminado que acompanha o indivíduo é muito mais desconfortante e assustador quando é difuso, disperso, indistinto, desvinculado, desancorado, flutuante, sem endereço nem motivos claros; quando nos assombra sem que haja uma explicação visível, quando ameaça que devemos temer pode ser vislumbrada em toda parte, mas em lugar algum se pode vê-la. (BAUMAN,2008b,p.08).

(23) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 10. Uma sensação de insegurança, já que estamos sujeitos a perigos que podem abater-se sobre nós a qualquer momento, e vulnerabilidade, uma vez que poderemos não ter sucesso na defesa ou fuga a uma ameaça. A vulnerabilidade é muito mais decorrente da não credulidade nos mecanismos de defesa que propriamente na intensidade e força de uma ameaça real. Para este autor,. uma pessoa que tenha interiorizado uma visão de mundo que inclua a insegurança e a vulnerabilidade recorrerá rotineiramente, mesmo na ausência de ameaça genuína, às reações adequadas a um encontro imediato com o perigo; o ‘medo derivado’ adquire a capacidade de autopropulsão. (Bauman, 2008a, p.09).. No entanto, o medo reciclado pode ser desvencilhado dos perigos que o produz, independente das contribuições e responsabilidades de cada um deles. Assim, as reações de defesa ou de enfrentamento podem ser direcionadas para longe dos perigos responsáveis pela insegurança. A segunda proposição refere-se ao fato de temermos ameaças de todos os lugares, pois o mundo está cheios de perigos que podem abater-se sobre nós. Tememos ameaças da natureza (furacões, terremotos, inundações, deslizamentos etc.), tememos as atrocidades de outros indivíduos (assassinatos, agressões sexuais, contaminação de alimentos, ar e água poluídos etc.), enfim, tememos tudo que venha devastar nossas vidas, lares, empregos. Além de poderem surgir de qualquer lugar, pessoa (conhecidas ou impercebíveis) e da natureza, estas ameaças ainda vêm de uma zona de produção diária de perigos que, prontos a nos atacarem sem aviso, está longe de terminar. Como afirma o autor, de uma. [...] terceira zona entorpecente de sentidos e irritante, até agora sem nome, por onde se infiltram medos cada vez mais densos e temíveis, ameaçando destruir nossos lares, empregos e corpos com desastres: naturais, mas nem tanto; humanos, mas não de todo; ao mesmo tempo naturais e humanos, embora diferentes de ambos (BAUMAN, 2008a, p.11).. Porém, a terceira proposição se desenvolve em torno da ideia que a economia de consumo depende de consumidores produzidos para consumirem seus produtos que, logicamente, causam alívio ou expurgam os medos fabricados. Para este autor, numa sociedade de consumo, os consumidores produzidos são amedrontados e buscam nos produtos oferecidos no mercado o alívio e conforto para seus mais temerosos sentimentos frente aos.

(24) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 11. perigos iminentes. Enfim, o enfrentamento dos medos é uma luta diária e sem fim e os perigos provocadores destes sentimentos são indissociáveis da vida humana. Os perigos desencadeadores de medos podem ser de três tipos: os que ameaçam o corpo e a propriedade; os que ameaçam a ordem social e a confiabilidade nela da qual depende a segurança o sustento; e “os perigos que a ameaçam o lugar da pessoa no mundo- a posição na hierarquia social, a identidade (de classe, gênero, étnica, religiosa) e, de modo mais geral, a imunidade à degradação e à exclusão sociais”. (BAUMAN, 2008b, p.10). Na modernidade carente de certezas e segurança, ter medo tornou-se comum. Assim:. Os medos são muitos e variados. Pessoas de diferentes categorias sociais, etárias e de gênero são atormentadas por seus próprios medos; há também aqueles que todos nós compartilhamos-seja qual for a parte do planeta em que possamos ter nascido ou que tenhamos escolhido (ou sido forçados a escolher) para viver. (BAUMAN, 2008b, p. 31).. Viver no mundo “líquido-moderno”, no qual o “amanhã não pode ser, não deve ser, não será como hoje”, implica em um ensaio diário de desaparecimento, extinção e morte. E assim, indiretamente, um ensaio da não finalidade da morte, de ressurreições recorrentes e reencarnações perpétuas. Reprime-se o horror ao perigo, silenciando-se os medos derivados de perigos que, pela preservação da ordem social, não devem ou não podem ser efetivamente evitados. (BAUMAN, 2008b, p 12-13). A morte, neste caso, seria passageira e duraria até o surgimento de um novo fato ou acontecimento. No entanto, para o autor, ainda que possamos adiar despreocupadamente os perigos iminentes, nem todos estes podem ser descartados. Para ultrapassarmos estas barreiras que ficaram próximas demais de nossa tranquilidade e que não podem ser negligenciadas, pensamos os perigos como “riscos”. Numa tentativa de prever suas conseqüências indesejadas, calculamos os riscos e vivemos o mais próximo da certeza, ainda que esta não seja de um todo possível, uma vez que perigos calculados ensejam uma probabilidade e não previsibilidade. E esta fuga do problema, nada mais é que um subterfúgio ou um caminho para não minarmos nossa autoconfiança e mantermos nossa saúde mental, já que, desviando nossa atenção para os riscos previsíveis, não nos preocupamos com aqueles que somos impotentes para impedir. Isto até que outra catástrofe se apresente e nos mostre que eles são reais. Sobre os riscos discutiremos com mais ênfase no Capítulo 3. Por ora, pontuaremos na sequência a.

(25) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 12. segunda industrialização e a formação da cultura de massa como fomentadores do processo de individualização do homem.. 2.2 CULTURA DE MASSA, A INDIVIDUALIZAÇÃO E A CRISE DA SOCIEDADE. A segunda industrialização não é aquela que ocorre com o avanço tecnológico de máquinas no ambiente fabril. De acordo com Morin (1997), trata-se daquela que se processa nas imagens e nos sonhos, colonizando a alma e industrializando o espírito, dominando o interior humano e derramando mercadorias culturais. Oriunda do cinema, imprensa, rádio, televisão nos Estados Unidos na segunda metade do século XX, pós Segunda Guerra, a segunda industrialização visava atender aos problemas emergentes da civilização que já não se contentava com respostas prontas. A vida privada e a cultura passam a ser fabricadas industrialmente e vendidas de forma comercial. Os problemas periféricos do homem (amor, medo, fatos variados do coração e da alma) retomam a centralidade das interrogações contemporâneas, contribuindo para a formação da ‘Terceira Cultura’ ou cultura de massa. Ainda que produzida segundo as normas de produção industrial,. ela constitui um corpo de símbolos, mitos e imagens concernentes à vida prática e à vida imaginária, um sistema de projeções e de identificações específicas. Ela se acrescenta à cultura nacional, à cultura humanista, à cultura religiosa, e entra em concorrência com estas culturas. [...] A cultura de massa integra e se integra ao mesmo tempo numa realidade policultural; faz-se conter, controlar, censurar (pelo Estado, pela Igreja) e, simultaneamente, tende a corroer, a desagregar as outras culturas. A esse título, ela não é absolutamente e autônoma: ela pode embeber-se de cultura nacional, religiosa ou humanista e, por sua vez, ela embebe as culturas nacional, religiosa ou humanista. (MORIN, 1997, p. 15-16).. Se no começo do século XX as fronteiras das classes sociais, etárias, do nível de educação demarcavam as respectivas zonas de cultura, é justamente com a instituição de cultura de massa que estas são suprimidas. A sua produção visa atingir o maior número de indivíduos, de variadas estruturas sociais, e este objetivo implicava na procura de um denominador comum: misturam-se conteúdos, buscando atender a uma variedade de interesses e gostos, obtendo-se, assim, o máximo de consumo. Destaca-nos o autor que a.

(26) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 13. cultura de massa é média em sua inspiração e seu objetivo, porque ela é cultura do denominador comum entre as idades, os sexos, as classes, os povos, porque ela está ligada a seu meio natural de formação, a sociedade na qual se desenvolve uma humanidade média, de níveis de vida médios, de tipo de vida médio. (MORIN, 1997, p. 51).. Na homogeneização, não apenas das fronteiras anteriores, a cultura de massa traz fundamentalmente a identificação de valores entre os distintos indivíduos, padronizando gostos e interesses, democratizando o consumo e tornando-se lugar-comum entre as diferentes classes e estratos. E este caráter se projeta transnacionalmente, enfraquecendo as diferenciações culturais nacionais, principalmente por universalizar1 temas como amores e medos romanceados, fatos distintos da alma e do coração comum a todos os humanos, separando-os de folclores e tradições. Desta forma, as tradições não são destruídas, mas ficam cada vez mais envolvidas com as formas de interação mediadas pelos veículos de comunicação de massa, liberando-as das formas simbólicas das localidades da vida cotidiana. (MORIN, 1997. THOMPSON, 2012). A modificação das condições de vida pela técnica, a ampliação dos horizontes do bemestar, a possibilidade de mais consumo e a promoção de uma nova vida privada são fatores que correspondem a um novo grau de individualização da existência humana. Neste aspecto, a cultura de massa se apropria principalmente da área do lazer. Ela vai fornecer os modelos e imagens que a vida privada do homem moderno aspira. Enquanto produto da organização do trabalho industrial, o lazer refere-se não apenas a um tempo de descanso e repouso, mas um tempo concedido para o consumo, em detrimento do fortalecimento da vida familiar tradicional e das relações sociais. (MORIN, 1997). É neste tempo que o indivíduo tenta reencontrar sua personalidade negada no trabalho que, embora menos penoso fisicamente, se esvazia de qualquer substância pessoal dada sua especialização. E, desta forma, por intermédio do espetáculo, do estético a “pobreza da vida 1. Ao destacar a universalização, Morin (1997) questiona se seria esse homem universal aquele comum a todos os homens (homem médio). Deixa claro que sim, ao apontar os seguintes sentidos antropológicos: a) O homem imaginário- aquele que se projeta, que responde às imagens pela identificação; b) O homem –criança - aquele que se encontra em todo o homem, que gosta “do jogo, do divertimento, do mito, do conto”;c) o homem dotado de “um tronco comum de razão perceptiva, de possibilidades de decifração, de inteligência”(p.45). Para este homem, a linguagem adaptada é a audiovisual (imagem, som musical, palavra, escrita), “que se desenvolve tanto mais sobre o tecido do imaginário e do jogo que sobre o tecido da vida prática”. Por outro lado, e ao mesmo tempo, a cultura de massa “cria uma nova universalidade a partir de elementos culturais particulares à civilização moderna e, singularmente, à civilização americana”. Neste sentido, o homem universal não apenas é aquele comum a todos e sim aquele “homem novo que desenvolve uma civilização nova que tende à universalidade”. (p.44-45)..

(27) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 14. real” é enriquecida de “liberdade antropológica” 2 quando o homem se direciona e se projeta no mundo das imagens,. onde reinam a aventura, o movimento, a ação sem freio, a liberdade, não a liberdade no sentido político do termo, mas a liberdade no sentido individual, afetivo, íntimo, da realização das necessidades ou instintos inibidos ou proibidos. [...] E é porque a cultura de massa se torna o grande fornecedor dos mitos condutores do lazer, da felicidade, do amor, que nós podemos compreender o movimento que a impulsiona, não só do real para o imaginário, mas também do imaginário para o real. Ela não é só evasão, ela é ao mesmo tempo, e contraditoriamente, integração. (MORIN,. 1997, p.90).. Seja na violência projetiva, no erotismo difundido, na felicidade e no amor identificativo em detrimento “dos valores tradicionais e das grandes transcendências”, o indivíduo privado realiza-se individualmente. Neste aspecto, o tema da felicidade pessoal liga-se ao tema do presente, dissolvendo-se o passado e o futuro. A felicidade projetiva corresponde ao hedonismo do presente da civilização contemporânea. “Esse hedonismo é de bem-estar, de conforto, de consumo: desenvolve-se em detrimento de uma concepção da existência humana na qual o homem consagra seu presente a conservar os valores do passado e a investir no futuro” (MORIN, 1997, p.126). O dinheiro perde parte de seu valor cumulativo que visava à segurança e manutenção do patrimônio familiar e volve-se para as despesas hedonistas. A procura por mais mercadorias atende mais à satisfação, ao conforto e ao prestígio que propriamente às necessidades. A felicidade moderna volta-se para o encontro entre “as prioridades de valores afetivos e a prioridade dos valores materiais, a prioridade do ser e a prioridade do ter, e ao mesmo tempo faz força para superá-la, para conciliar o ser e o ter”. (MORIN, 1997, p. 126127). E, sob esta ótica, o homem moderno quer sempre estar jovem para amar e desfrutar seu presente, desvalorizando a velhice e os “valores gerontocráticos” e afirmando a 2. Neste aspecto, a liberdade antropológica é para Morin aquela em que o homem não está mais a mercê da norma social, das leis. Uma liberdade verdadeira que desemboca no maldito “a zona de sombra dos instintos e dos interditos” (p.113). Na apreciação das imagens e impressos, o homem faz com toda a segurança a experiência da insegurança. Vive-se toda a liberdade, haja vista ser o homem livre um homem sem segurança. Segundo o autor, há um fundo de violência no humano que precede qualquer civilização e que não pode ser reduzida indefinidamente. Sob a “crosta da civilização”, existem latentes energias adormecidas da espécie, prontas a qualquer instante a irromperem ”não mais sobre as telas e os jornais, mas em cada um de nós. Todas as experiências nos provam que ninguém está definitivamente civilizado [...] A cultura de massa nos entorpece, nos embebeda com barulhos e fúrias. Mas ela não nos curou de nossas fúrias fundamentais. Ela as distrai, ela as projeta em filmes e notícias sensacionalistas”. (MORIN, 1997, p. 117).

(28) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 15. dominância dos valores juvenis3. Deprecia-se a experiência acumulada, haja vista que no aceleramento de nossa evolução civilizacional muito mais importante é a “adesão ao movimento”. O abrandamento ao acesso a idade adulta leva, por exemplo, ao apagamento da família. A nucleação familiar (casal e filhos) declinou o valor da família baseada no pai chefe. Nesta dimensão, o pai autoritário, ordenador, cede lugar para um pai mais humano, liberador. Da mesma forma, a mãe envolvente e sempre presente, é substituída por uma mãe que trabalha, que quer viver mais intensamente sua vida. A ausência destes pais arcaicos implica numa contracorrente ao movimento de desenvolvimento: a experimentação pelos adolescentes de um “vazio, angústia, aborrecimento” para a figura paterna, e a necessidade “de uma comunhão, de uma fé, de uma religião ou de um clã” (MORIN, 1997p.149-150), para a figura materna4. Sendo a adolescência uma fase de busca de si mesmo, do sentido da existência humana, de confrontação às normas e valores sociais vigentes, é ainda aquela que contraditoriamente revela um indivíduo que pretende integrar-se à sociedade. Nessa sombra, a cultura de massa apropria-se da função familiar e de ancestrais oferecendo modelos imaginários de condutas5 que, ao mesmo tempo em que integram os temas da adolescência, também atrofiam sua virulência e enfraquecem suas revoltas. Assim, para o autor:. a cultura de massa desagrega os valores gerontocráticos, acentua a desvalorização da velhice, dá forma à promoção dos valores juvenis, assimila uma parte das experiências adolescentes. Sua máxima é ‘sejam belos, sejam amorosos, sejam jovens’. Historicamente, ela acelera o vir-a-ser, ele mesmo acelerado, de uma civilização. Sociologicamente, ela contribui para o rejuvenescimento da sociedade. 3. Morin(1997) destaca existir uma nova Trindade que delineia o novo modelo de existência: o amor, beleza e juventude. Neste modelo, centra-se “o adulto juvenil de trinta, quarenta, cinquenta, sessenta anos, logo além sem dúvida, até às portas da morte, com a angústia da morte que confere uma certa febre ao presente”.Na desvalorização da velhice, a supremacia da juventude se estabelece não como a juventude em si, porém como a adolescência. E, desta forma, “A adolescência surge enquanto classe de idade na civilização do século XX.” (p. 153, grifos do autor). O autor prefere manter a ambivalência do termo classe de idade ao considerar que a noção de idade conduz ao transitório e a de classe, ao estável. E justifica o uso do termo pelo aparecimento em grande escala de “traços distintos comuns”, principalmente a violência imaginária, da cultura adolescente que contribui para fazê-la existir como uma realidade socio-histórica. (MORIN, 2001, p.141-142).. 4. A decadência das figuras materna e paterna impulsiona, segundo Morin, a uma identificação com outras entidades como a Igreja, o Estado-pai, a pátria-mãe e dos modelos disseminados pela cultura de massa.. 5. Para Morin(1997), os olimpianos são os modelos mortais promovidos à divindade que ‘por meio de sua dupla natureza, divina e humana, efetuam a circulação permanente entre o mundo da projeção e o mundo da identificação(p. 107).Os astros de cinema, os campeões, os jogadores, os playboys, os artistas tornam-se modelos de cultura, modelos de vida, substituindo os antigos modelos (pais, educadores, heróis nacionais). A cultura de massa incentiva a divindade dos olimpianos, ao mesmo tempo em que mergulha em suas vidas extraindo delas as particularidades que permitem a identificação..

(29) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 16. Antropologicamente, ela verifica a lei do retardamento contínuo do Bolk, prolongando a infância e a juventude junto ao adulto. Metafisicamente, ela é um protesto ilimitado contra o mal irremediável da velhice. (MORIN, 1997, p.157).. Nas polaridades globais6, a cultura de massa incita as necessidades de bem-estar, da felicidade da vida individual ao mesmo tempo em que, em determinadas sociedades, torna-se estimuladora de revolta e insatisfação. Para as classes mais favorecidas de todo o planeta, o lançar-se sobre o consumo real pode ser alcançado, no entanto às classes mais populares é dificultado este acesso. Nestas últimas, a realidade pode conduzir a um estado de revolta, dada a análise crítica de suas condições de vida, ou de imobilização numa espécie de “catalepsia de espectador”. (MORIN, 1997, p. 164). O indivíduo privado, que busca suas realizações e felicidades privadas no presente, está cada vez mais desenraizado de passado e tampouco se dispõe a encarar o futuro, visto que não investe nada além de sua própria existência. Um indivíduo que “[...] poderia reconhecer nos heróis de filmes a imagem exaltada de sua própria condição: heróis sem passado, sem futuro além do happy end, e que respondem ao apelo do ‘realizem-se’”. (MORIN, 1997, p. 176). Para este autor, os valores por ela difundidos e exaltados, em detrimento das transcendências, tendem a ser transitórios e precários, assim como o indivíduo que dela emerge.. A cultura de massa que privilegia o presente, a atualidade, que estimula e é. estimulada pelo consumismo, na qual tudo é passageiro ou em que “tudo se usa muito depressa”, voltada à mitologia da felicidade, das futilidades e superficialidades, faz emergir, por outro lado, uma contracorrente ao seu movimento. Para Morin (2001), nas décadas de 60-70, a cultura de massa começa a perder seu caráter homogeneizante, integrador e euforizante. A crise se estabelece justamente em seus aspectos mais integradores como a “[...] promoção dos valores juvenis, a promoção dos valores femininos, a promoção da libertinagem, e do princípio do prazer, enfim a promoção da mitologia concreta dos lazeres/ férias, viagens.” (MORIN, 2001, p.10). A progressão desses valores desenvolve-se de forma ambígua: ao mesmo tempo em que integra, apresenta um desdobramento “reivindicativo e corrosivo”, provocando uma crise da cultura e, consequentemente, uma crise da sociedade. Ao passo que o indivíduo torna-se cada vez mais desejoso de objetos, estimula-se sua subjetividade. Valores subjetivos, afetivos são impregnados nos objetos. O lazer, as férias, por. 6. Tratamos este termo como referência aos Hemisférios Norte e Sul, Oriente e Ocidente..

(30) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 17. exemplo, tornam-se motivos de fuga para o indivíduo que, em sua atomização social, busca um reencontro com a vida comunitária, com a natureza. É a liberação de “[...] virtualidades abafadas na vida cotidiana urbana dedicada ao trabalho e às obrigações, e de outra parte, à problemática da vida privada em que a cultura de massas apresenta os problemas do casal, da sexualidade, da solidão etc.”. (MORIN, 2001, p. 109). Este retorno ao “neo-arcaísmo ou neo naturismo” de final de semana torna-se, portanto, mais virulento e presente em oposição à fria e artificial vida urbana. O que para o autor,. Mais que uma noção estável, a contratendência ‘neo-arcaica’ é uma espécie de síndrome cuja definição bastante ampla permite pouco a pouco associar e explicar múltiplos fenômenos: o surgimento de uma crise de identidade cultural regional, a abertura ecológica, os diversos aspectos de uma contracultura juvenil (‘neorousseauismo, neo-ruralismo’) estão, assim, ligados no seio de uma mesma síndrome e definidos em suas relações com um modo de vida urbano e consumidor fundado sobre o princípio da alternância trabalho-férias-lazeres. (MORIN, 2001, p. 175).. O neo-arcaísmo, apontado inicialmente na intelligentsia, seguida pela alta sociedade e espalhando-se nas demais camadas burguesas e urbanas, surgiu como uma necessidade de retorno à natureza (physis) e às origens (arché), porém não se recusa o bem estar e o conforto da técnica (techné). Por sua vez, o neo-arcaísmo propiciou o despertar da consciência ecológica, tornando-se forma de contestação e que põe em choque o ecossistema urbanoindustrial “[...] que tende a poluir as fontes primeiras da vida e a desagradar a própria vida. As soluções, nestas condições, não podem ser tecnológicas: implicam uma reestruturação geral do sistema, não apenas urbano, mas também civilizacional.” (MORIN, 2001, p.184). Diante de tanto progresso na ciência e da tecnologia, o indivíduo, paradoxalmente, sente uma necessidade de volta à baixa racionalidade. Comparativamente aos modelos neoarcáicos surgidos na década de 70, como o aparecimento da astrologia, o movimento contracultural dos filhos do caos neste início de século, pode ser entendido como uma tentativa de espiritualidade e amor genuínos em face da fria pós-modernidade urbana e cibernética. Estes fenômenos são indicativos não apenas do desenvolvimento da subjetividade moderna, mas também da atomização do indivíduo nas grandes aglomerações. (RUSHKOFF, 1999, MORIN, 2001). Os meios de comunicação de massa são notoriamente transformadores sociais, políticos e pessoais. Ao passo que novos meios são desenvolvidos, as relações indivíduo a indivíduo e as relações consigo mesmo tendem a ser modificadas. A produção e transmissão.

(31) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 18. de formas simbólicas num sentido único podem ser usadas por indivíduos, instituições públicas ou privadas etc. com objetivo de intervir nos acontecimentos e produzir consequências as mais diversas. Nestes termos, os meios de comunicação de massa são muito mais de transmissão que de comunicação. Por outro lado, é importante destacar que o receptor dos produtos midiáticos não é inteiramente passivo. O sentido que cada indivíduo dá ao produto recebido depende de sua cultura, condição social e formação, de tal sorte que uma mesma mensagem possa ser entendida de maneiras distintas e em diferentes contextos. (THOMPSON, 2012). Por meios de comunicação- ou os media - são entendidos os dispositivos tecnológicos que suportam mensagens e permitem a sua difusão. Quando esta difusão é enviada a um número grande de receptores, podem ser nomeados por mass media, ou meios de comunicação de massa. Existem muitos meios de comunicação social por meio dos quais as sociedades contemporâneas recorrem: rádio, a televisão, a imprensa, o cinema, a fotografia, os discos, a internet. (SOUSA, 2006). O campo do mass media é para Sousa (2006) diversificado. É nele que os diferentes grupos sociais se articulam, se representam e se legitimam. Quanto à importância dos meios de comunicação, o autor nos descreve:. A importância dos meios de comunicação para a sociedade assenta, efectivamente, nessas enormes capacidades de representação das pessoas, da sociedade e da cultura; de produção e reprodução, de construção e reconstrução dos processos sociais e culturais. Os meios concorrem com outros agentes mediadores, como a família ou a escola, mas têm um papel central na prescrição dos comportamentos e atitudes aceitáveis e convenientes no meio social, no estabelecimento dos parâmetros da normalidade, na disponibilização de informação, na promoção do conhecimento e na oferta social de referentes sobre a realidade. A influência dos meios de comunicação social nas pessoas e na sociedade é mais positiva do que negativa. Os meios tiveram um papel importante, talvez mesmo decisivo, na emancipação das pessoas face à ignorância e na construção do ambiente de "conhecimento geral" que caracteriza os nossos tempos. (SOUSA, 2006, p. 539, grifo do autor).. A recepção dos produtos da mídia é uma atividade rotineira e prática na sociedade moderna. Ela é uma atividade, posto que não seja passiva, dado que o material recebido pode ser trabalhado e adaptado para suas próprias finalidades. Trata-se ainda de uma atividade situada, haja vista que os produtos são recebidos por indivíduos situados em seus contextos sócio-históricos (recursos disponíveis e poder), embora também permita o distanciamento dos contextos de suas vidas diárias. É também uma atividade de rotina ao participar como.

(32) 2(In) Segurança e Futuro no Limiar do Século XXI. 19. integrante da vida do indivíduo. E, ao mesmo tempo, é uma realização especializada, pois depende de habilidades e competências adquiridas por meio de “[...] processos de aprendizagem ou de acumulação socialmente diferenciados e diversamente acessíveis a indivíduos de formação diferente”. (THOMPSON, 2012, p. 68). Por fim, a recepção dos produtos é um processo hermenêutico devido à necessidade de interpretações distintas para produtos distintos. Um processo ativo e criativo no qual o indivíduo inclui uma “[...] série de conjecturas e expectativas para apoiar a mensagem que ele procura entender.” (THOMPSON, 2012, p. 69). Dessa forma, a compreensão do produto varia de um indivíduo para o outro e de um contexto sócio-histórico para o outro. Esta interpretação também é incorporada e modifica a compreensão que o indivíduo faz de si e do outro. Tornase uma apropriação das formas simbólicas readaptadas a sua vida e contexto. Destaca-nos o autor:. Na recepção e apropriação das mensagens da mídia, os indivíduos são envolvidos num processo de formação pessoal e autocompreensão [...] uma consciência daquilo que ele é e de onde ele está situado no tempo e no espaço. Nós estamos constantemente modelando e remodelando nossas habilidades e nosso cabedal de conhecimento, testando nossos sentimentos e gostos e expandindo os horizontes de nossa experiência. [...] É um processo no qual algumas mensagens são retidas e outras são esquecidas, no qual algumas mensagens se tornam fundamento de ação e de reflexão, tópico de conversação entre amigos, enquanto outras deslizam pelo dreno da memória e se perdem no fluxo e refluxo de imagens e ideias. (THOMPSON, 2012, p. 71).. Em algumas situações, a recepção e apropriação das mensagens podem dar origem ao que Thompson denomina formas conjuntas de ação responsiva. São aquelas em que distintos indivíduos, em contextos diversos, respondem de maneira semelhante e até coordenadas. A ação responsiva dos receptores pode ser guiada pela mensagem, mas não controlada ou determinada por ela, principalmente porque corresponde a um conjunto de ações em que há várias possibilidades de resposta. As reações sociais podem ser intensificadas ou estimuladas e fugir do controle7. Na maior parte da história da humanidade, as interações sociais sempre ocorriam face a face. O desenvolvimento dos meios de comunicação proporcionou novas formas de interações e relacionamentos sociais, que romperam com a barreira do tempo e do espaço, 7. O autor faz alusão a uma série de eventos sociais, como a Guerra do Vietnam, do Golfo Pérsico, as convulsões do Leste Europeu, cuja participação da sociedade foi muito influenciada pela mídia. Para mais detalhes, ver páginas 153 a 157..

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