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Devido à polissemia do termo “risco”, empregado em vários campos de conhecimento, é importante a discussão de que ele pode remeter preliminarmente a duas definições na terminologia presente, as quais devem ser distinguidas. A primeira definição se refere a uma condição com potencial de gerar um dano, ou seja, a uma condição perigosa (com caráter de incerteza). É equivalente ao termo em inglês hazard, cuja tradução para a língua portuguesa também pode recair sobre a palavra risco, sendo o mais adequado, no entanto, relacioná-la a perigo. Essa adequação deve ser empregada, pois se considera que uma barragem não está exposta a um risco, e sim a uma condição de perigo, uma vez que, no âmbito da avaliação do risco, o risco, na realidade, se calcula (sob a óptica do cenário, probabilidade e consequência – segunda definição). No item 2.5 e Apêndice A.1 é sintetizada a terminologia, visando uniformizar a comunicação sobre riscos.

Outra abordagem possível é quando se trata, de modo geral, do processo de identificação de riscos, que representa a determinação do que pode dar errado, por que e como. Nesse caso, o processo envolve o reconhecimento dos perigos (ou eventos iniciadores) aos quais a barragem está exposta, os modos de falha, respostas e resultados nos subsistemas e sistema, fatores de exposição e as

consequências adversas resultantes (CNPGB, 2005; CALDEIRA, 2008; BOWLES, 2010). A FIG. 2.6 ilustra o processo.

FIGURA 2.6 – Processo de identificação de riscos Fonte: Adaptado de BOWLES, 2010, p. 6.

Sobre os perigos, ou seja, a fonte de dano potencial (ou evento iniciador que pode conduzir a um modo de falha), eles resultam tanto de uma causa externa como de uma vulnerabilidade interna da barragem (causas intrínsecas). Eles podem ter origem nas diferentes fases de vida de uma barragem: projeto, construção e operação. Conforme anotado por Hartford e Baecher (2004), a identificação dos perigos (hazards) é uma das etapas fundamentais para elaboração da análise de risco.

Entretanto, assim como ocorre com sua terminologia, verifica-se na literatura que não existe uma classificação unificada sobre os perigos associados às barragens. Além de serem os mais variados possíveis, eles são agrupados e listados de diferentes formas e naturezas, sendo comum encontrar referências dúbias com modos de falha e respostas do sistema (barragem). Uma adequada classificação de perigos deve ser lógica, permitindo ampliação e subdivisões, caso necessário.

Uma classificação adotada para os perigos (hazards) é o agrupamento em “riscos” humanos, naturais e tecnológicos (ICOLD 2005). Os “riscos” naturais (como cheias e sismos) representam um risco inevitável, mas, por vezes, podem ser estatisticamente mensurados. Os “riscos” humanos estão associados, evidentemente, ao comportamento humano, citando, por exemplo, atos de sabotagem, falhas humanas e negligência. Já os “riscos” tecnológicos podem ser associados a processos e produtos tecnológicos (emprego de novas tecnologias) que, por sua vez, se relacionam a fatos como insuficiência de sistemas e componentes de construção (por envelhecimento ou desgaste) e projetos e materiais inadequados. Dalcher (2011) sustenta uma questão interessante de que o progresso leva a novos “riscos”, e, portanto, eles permanecerão como uma consequência da inovação tecnológica.

Hughes et al. (2000) identificam o que eles definem por perigos primários e seus respectivos mecanismos iniciadores. Ainda ressaltam que a maior parte dos riscos e mecanismos é facilmente identificável durante as atividades de monitoramento e inspeções visuais. Os perigos primários classificados e alguns exemplos de mecanismos iniciadores são:

 Externos: galgamento, erosão superficial, perda de proteção superficial do talude, instabilidade de encostas, sismos e cheias;

 Internos (estruturais da barragem): instabilidade de massa, escorregamento, percolações elevadas, erosão interna, deformações e recalques, liquefação, perda de integridade do núcleo, efeitos de interface, poropressões e subpressões elevadas, obstrução de drenagem, tensões locais elevadas, buracos de animais e efeitos de crescimento de vegetação;

 Internos (fundações e ombreiras): instabilidade de massa, escorregamento, erosão interna, deformações e recalques, interface barragem/fundação, poropressões elevadas, perda de integridade do cutoff, liquefação e cavidades;

 Estruturas auxiliares: instabilidade, tensões e fissuras, deformações excessivas, poropressões, válvulas, comportas e equipamentos de controle;

 Intrínsecos (projeto/construção): concepção, projeto, detalhamento e construção inadequados;

 Efeitos de envelhecimento: deterioração de materiais e componentes, desagregação de solos e rochas e efeitos térmicos;

 Operacional: falha de operação (erro humano), monitoramento e manutenção inadequados e bloqueio de vertedouros;

 Induzidos: aviões e outros impactos, sismos artificiais, vandalismo e terrorismo.

Verifica-se que vários dos mecanismos listados podem ser facilmente inter-relacionados, como também sub-caracterizados. De maneira geral, observa-se que os perigos acabam incidindo ou nas fontes externas (representados por eventos extremos, sejam naturais ou da atividade humana) ou internas (ou intrínsecas, geralmente, associadas a deficiências fundamentais de projeto e construção ou falhas na operação e manutenção). Essa classificação é ratificada pela Associação Canadense de Barragens (CDA, 2007).

Caldeira (2008) agrupa os perigos (eventos iniciadores) nas seguintes categorias:  Ações externas extremas: cheias e sismos;

 Deficiências de projeto ou de construção (que conduzem a processos internos de deterioração);

 Rupturas tecnológicas: mecânicas ou elétricas de equipamentos (corrosão e fadiga);  Ações humanas e acidentais: atos de guerra, de vandalismo ou de sabotagem.

Em vista das abordagens apresentadas, verifica-se que a categorização dos perigos não é trivial e nem sempre suas subdivisões são independentes. No caso da sua identificação, pode ser relativamente imediata para as fontes externas, mas para as internas pode não ser tão simples.

Definidas as fontes ou situações potenciais de dano (perigos), e não menos importante para alcançar a estimativa do risco, são as etapas posteriores de identificação dos modos de falha, associados às respostas do sistema, e respectivas consequências.

A identificação dos modos potenciais de falha (ruptura) de uma barragem de terra e enrocamento converge nas categorias gerais listadas por Lafitte (1993 citado por Hartford e Baecher, 2004):

 Falhas hidráulicas devido a níveis excepcionais: inclui, por exemplo, galgamento e subsequente erosão externa devido a vertedouro com capacidade de descarga insuficiente, ou até mesmo associado a danos em comportas ou erros de operação.

 Movimentos de massa devido a carregamentos excepcionais (excetuando as cheias incluídas no item anterior), propriedades inadequadas dos materiais, ou singularidades geológicas não detectadas: inclui, por exemplo, instabilidade de taludes (por equilíbrio limite), deformações que conduzem a galgamento, liquefação de solos, instabilidades de fundação ou ombreiras, rebaixamento rápido associado a escorregamento do talude de montante e deslizamentos de encostas para o interior do reservatório que acarretem em galgamento.

Erosão interna: inclui, entre outros, desenvolvimento de piping no núcleo da barragem e erosão de solos de fundação ou juntas (preenchimento de descontinuidades).

Hartford e Baecher (2004) comprovam que vários estudos anteriores, com registros históricos de ruptura de barragens, identificam essas três categorias de modos de falha como sendo as mais comuns que ocorrem na prática.

As categorias mencionadas, no entanto, são bastante amplas e consideram o sistema macro (barramento). Evidentemente, essas categorias gerais de modos de falha devem ser decompostas nos

subsistemas e detalhadas quando da realização das análises, em um nível mais fundamental e com o estudo pormenorizado dos mecanismos de falha.

Por fim, identificam-se os fatores de exposição relacionados ao agravamento ou atenuação dos efeitos durante a ocorrência do cenário da falha e as consequências em termos de impactos sociais, ambientais, econômicos e perda de vidas humanas.

No contexto genérico de gestão de risco, a identificação de riscos ganha elevada importância, sendo considerada, às vezes, uma etapa independente no processo, conforme observado em AS/NZS (1999), PMI (2008) e ABNT (2009). Contudo, no âmbito das barragens é consenso que a identificação dos riscos é parte integrante do processo de análise de risco, conforme verificado em Bowles (2010). Caldeira (2008) ressalta que o importante é que a identificação dos riscos seja realizada de forma exaustiva e sistemática.