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Rituais e bem-estar familiar: estudos empíricos

Resumo do capítulo

2. Factores Contextuais e Satisfação Conjugal

2.1 Rituais familiares

2.1.2 Categorização, função e papel dos rituais familiares

2.1.2.1 Rituais e bem-estar familiar: estudos empíricos

Vários estudos demonstraram que uma realização construtiva de rituais familiares está associada a uma melhor saúde familiar, a um melhor bem-estar e a um maior ajusta-

mento psicossocial da família. Por outro lado, a ausência de rituais pode constituir um índi- ce acerca da patologia familiar. Famílias disfuncionais relatam, frequentemente, uma severa interrupção dos seus rituais ou uma desorganização da sua actividade ritual. Segundo Wolin, Bennett, e Jacobs, (1988), os rituais afectam o comportamento de todos os membros da família. Desta forma, podem determinar e clarificar os papéis familiares e o estatuto de cada membro, delimitar as fronteiras e estabelecer ou manter uma determinada hierarquia. São, como já referimos, o óleo da estrutura e do funcionamento familiar.

Inicialmente, vários foram os estudos de rituais familiares que se debruçaram sobre o seu papel em famílias alcoólicas (Wolin & Bennett, 1984; Bennett, et al., 1987; Wolin, Bennett, & Jacobs, 1988). Estes estudos verificaram que o planeamento e manutenção de rituais, como o jantar, as férias e celebrações, estavam significativamente relacionadas com uma menor transmissão de hábitos de beber álcool na geração seguinte. Desta forma, os autores encaram os rituais familiares como factores protectores. Wolin e Bennett (1984), Wolin, Bennett, e Jacobs (1988) afirmaram que ficaram impressionados pelo poder dos rituais como espelho da cultura familiar e/ou patologia familiar. Fiese (1993) também cons- tatou que os membros de famílias com alcoolismo atribuem menos significado aos rituais familiares em relação às famílias sem hábitos de beber álcool e que os rituais familiares podem funcionar como factores protectores para sintomas de ansiedade nos adolescentes.

Os rituais familiares podem também desempenhar um papel importante como factor protector em relação à saúde física e ao bem-estar. Verificou-se que as rotinas e rituais familiares protegem os membros familiares do stress associado a uma doença crónica e servem para gerir melhor a doença (Fiese & Wamboldt, 2000). Markson e Fiese (2000) verificaram que as rotinas familiares podem desempenhar um importante papel em minimi- zar as dificuldades em lidar com um membro asmático e promover uma melhor adesão ao tratamento. De igual forma, as famílias que relataram a prática de rituais com mais signifi- cado, tinham filhos asmáticos com menor nível de ansiedade em relação às famílias que relataram a prática de rituais com menor significado (Markson & Fiese, 2000). Doentes com dores crónicas indicaram maior satisfação com a vida familiar, quando rotinas e rituais familiares faziam parte das suas actividades diárias (Bush & Pargament, 1997). Neste caso, a previsibilidade de rituais familiares revelou-se um factor importante para lidar com a dor, enquanto o significado atribuído aos rituais estava associado a um maior ajustamento do casal.

Outros estudos revelaram os efeitos benéficos dos rituais familiares para os filhos. Constatou-se que os filhos de famílias que criaram rotinas previsíveis, revelam menos comportamentos problemáticos (Kiser et al., 2005), são, em geral, mais saudáveis (Keltner, 1990) têm um melhor rendimento escolar (Fiese & Wamboldt, 2000) e uma melhor per- formance na leitura (Serpell et al., 2002). Verificou-se, igualmente, que os filhos adorme- cem mais cedo e acordam menos durante a noite, quando lhes são proporcionados rituais ao deitar (Seymour et al., 1989). Também os adolescentes, que se envolvem em rotinas e em rituais familiares significativos, são socialmente mais competentes (Fiese, 1992, Eaker & Walters, 2002), e que um maior significado atribuído aos rituais está correlacionado com a sua integridade. Um extenso estudo longitudinal (Portes et al., 1992) verificou que as práti- cas de rotinas familiares servem como factores protectores para muitos comportamentos de risco nos adolescentes, excepto em relação a uma gravidez precoce. Muito frequentemente, após o divórcio, ocorre uma interrupção dos rituais; contudo, a sua manutenção facilita a adaptação dos filhos e fornece um sentido de segurança e estabilidade (Henry & Lovelace, 1995). Kiser et al. (2005) verificaram que as famílias com um adolescente em tratamento psiquiátrico revelaram valores significativamente mais baixos no índice de rituais familia- res (sobretudo na dimensão “recursos”) em comparação com famílias não clínicas.

As rotinas e rituais familiares são também valiosos factores protectores, não só para o casal, mas também para a família como um todo. Os rituais familiares foram considera- dos importantes para fortalecer a coesão, a estabilidade familiar, o relacionamento intra- e extra-familiar e os laços emocionais (Meske et al., 1994). O carácter simbólico dos rituais familiares fornece um sentido de pertença ao grupo (Bennett et al., 1988). Desta forma, contribuem para fomentar uma identidade familiar em comum, clarificar os papéis e expec- tativas dos cônjuges, e revelam um efeito positivo na satisfação e no comprometimento conjugal (Braithwaite & Baxter, 1995; Shumway & Wampler, 2002; Weigel & Ballard- -Reisch, 2002). Os casais que praticam rituais familiares com significado nos difíceis dois primeiros anos da vida dos filhos, revelam-se mais satisfeitos do que casais onde isto não sucede (Fiese et al., 1993). Segundo Berg-Cross et al. (1992) e Weigel e Ballard-Reisch (2002), existe uma maior probabilidade de alcançar um relacionamento estável, se o casal incorpora rituais familiares. De igual forma, verificou-se uma correlação entre a satisfação conjugal e a prática de rituais em feriados religiosos (Fiese & Tomcho, 2001). Um maior tempo partilhado em conjunto, com todos os membros da família, através de rotinas ou rituais familiares, está correlacionado com uma diminuição dos conflitos familiares (Dubas

& Gerris, 2002). Vários autores sublinham que a manutenção de rotinas e rituais familiares fortalecem as relações e permitem vencer melhor os eventos de transição ou crises (Castle & Phillips, 2003; Denham, 2003; Fiese et al., 2002; Hawkins, 1997). Mas os rituais familia- res poderão também assumir, segundo Oswald (2002) efeitos negativos. O autor verificou como os rituais familiares servem para excluir homossexuais na ligação com as suas famí- lias de origem.

Na sua revisão de literatura, Fiese et al. (2002) concluíram que as rotinas e rituais familiares estão correlacionados com uma maior competência parental, melhor adaptação social, melhor saúde e rendimento escolar dos filhos, melhor harmonia entre pais e filhos e uma maior satisfação conjugal. Desta forma, os rituais familiares constituem factores pro- tectores para o relacionamento intra-familiar, extra-familiar e inter-geracional e para a manutenção da coesão conjugal e familiar, sobretudo em momentos de crise. Além disso, são um veículo para a transmissão dos valores culturais. Os rituais familiares parecem ser muito poderosos em fomentar o bem-estar físico e psicológico e um ajustamento psicosso- cial da família (Kiser et al., 2005), o que foi amplamente relatado pela investigação neste campo.