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4 A RETEXTUALIZAÇÃO EM GÊNESIS DE ROBERT CRUMB

4.1 ROBERT CRUMB: do quadrinho Underground a Gênesis

Nascido na Filadélfia, Pensilvânia, nos Estados Unidos da América, Robert Crumb teve uma infância e adolescência conturbadas, em um cenário de violência doméstica e contato com drogas, bebidas e anfetaminas. Segundo Robert Hyghes (2010), crítico de arte da revista Time, da vida suburbana, o que mais marcou a vida do cartunista foram suas experiências psicodélicas com os hippies de São Francisco e que, por meio delas, encontrou sua maneira de expor seus sentimentos e revoltas acumuladas durante as fases anteriores à fase adulta. Estimulado por esse contexto, Crumb produz suas obras trazendo à tona um humor negro, permeado por situações bizarras e pelo sarcasmo. Essas características ganham forma e conteúdo em suas revistinhas e a sociedade e o status quo, de modo geral, tornam-se os alvos de suas provocações.

Os trabalhos desse proeminente cartunista foram bastante apreciados por aqueles que constituíram o movimento da Contracultura14. Dentre os melhores feitos

de Crumb nesse período, destacam-se a tira Keep on Truckin; o personagem “Mr.

14Movimento que floresceu na década de 1960, nos EUA, América Latina e na Europa. Valorizava uma

mentalidade que rejeitava e questionava valores e práticas da cultura dominante da qual a sociedade da época fazia parte. Esse movimento objetivava a mobilização e contestação social e utilizava novos meios de comunicação em massa para difundir sua ideologia. Jovens inovaram estilos, voltando-se aos “olhos conservadores” das famílias consideradas, tradicionais, e aos modelos impostos pela sociedade.

Natural”, um guru espiritual que se destoa dos princípios básicos daquilo que deveria

propor aos seus seguidores15; e “Fritz the cat”, um gato antropomórfico, de boa vida,

que faz uso de drogas e participa de situações sexualmente lascivas. Com esse compêndio de produtividade, Crumb revelava ao mundo seu percurso intersubjetivo, que desnudou, segundo a visão de alguns especialistas em HQs, a hipocrisia da sociedade da época.

No contexto da Contracultura, Crumb se integrou ao chamado movimento

Underground, caracterizado por jovens que se voltavam contra os valores e o

conservadorismo impostos por uma sociedade mecanicista e capitalista, religiosa e política, buscando um espírito mais libertário, no intuito de que a sociedade pudesse se transformar genericamente, tomando-se pela consciência de valores e comportamentos. Nos Estados Unidos, em 1950, as HQs, como produto de uma indústria cultural com produção em massa, provoca esses questionamentos apresentando diversas temáticas, sendo editadas em grandes quantidades. Com o advento da Contracultura, Robert Crumb despontou e ganhou notoriedade com suas publicações inicialmente artesanais e consideradas indecentes por aqueles que defendiam uma sociedade de “moral” e “bons costumes”.

Ressaltamos aqui, segundo García (2012), que os títulos Underground que ganhavam notoriedade eram reeditados e se mantinham em circulação por muito tempo. Crumb teve suas obras nesse percurso de visibilidade, pois as mesmas se destacavam das demais por apresentarem temáticas coléricas e de sublevação. Entende-se que a abordagem despudorada da sexualidade foi o ponto de partida para que a arte do quadrinista ganhasse amplo reconhecimento.

Conforme explica García (2012, p. 115), além do sexo, outros temas foram aparecendo e ganhando espaço nos quadrinhos Underground, como, por exemplo, as drogas. As HQs do movimento da Contracultura encarregaram-se de atacar a censura institucionalizada e isso se deve a um fato histórico sobre a produção de quadrinhos do movimento em questão. A Entertaining Comics, popularmente conhecida como

ECComics, era uma editora americana de histórias em quadrinhos, mais identificada

com os gêneros de ficção criminal, ficção de horror, sátira, ficção militar e ficção científica. Para a infelicidade dos artistas de quadrinhos, a censura do Comics Code

15 Diversos trabalhos de Crumb possuem uma ligação bem forte com a cultura hippie. Mr. Natural é

o exemplo perfeito da contracultura da década de 1960, sendo o personagem uma sátira dos gurus espirituais, numa época em que estes estavam em voga.

Authority fez com que a empresa abandonasse as temáticas polêmicas e se

concentrasse semanalmente em gêneros humorísticos e satíricos. Com isso, a EC

Comics foi destruída por um sistema opressor da época e alguns dos desenhistas do

movimento Underground repudiaram e reagiram ao ataque produzindo quadrinhos mais “ácidos”. Mas em meados da década de 1973, o movimento perde sua força nos EUA.

Muitas obras de Crumb imortalizaram-se no universo das HQs. O artista sempre se utilizou das características fundamentais das histórias em quadrinhos para produzir seus feitos artísticos e, além disso, inovou com uma técnica de ilustração conhecida como hachura. Essa particularidade deixou evidente a sua “marca” ou predileção, uma vez que as suas HQs possuem uma identidade visual. Vejamos a técnica usada por Crumb em seus quadrinhos, na figura a seguir:

Figura 26 – Hachuras para desenhos

Fonte: Disponível em: <https://desenheirosofficial.files.wordpress.com>. Acesso em 12 de out. de 2017.

Crumb é considerado um dos artistas fundadores do Underground dos quadrinhos americanos, tido por muitos críticos como uma das figuras mais vultosas desse movimento. É óbvio que os trabalhos que tornaram Crumb reconhecido passam longe da religiosidade. Suas histórias consideradas marginais e psicodélicas, sempre confrontaram os valores morais da cultura ocidental. Em 2009 o artista então decide fazer uma HQ do primeiro livro da Bíblia, Gênesis, contemplando seus 50 capítulos.

Logo no início da obra – uma iniciativa surpreendente, considerando o universo dos quadrinhos de Crumb – o cartunista explica o seu posicionamento no processo da retextualização. O depoimento dado ao leitor é claro e objetivo, declarando respeito ao que se propôs a fazer, ainda que não tome o texto-fonte como um texto “sagrado”, como pode ser verificado na transcrição abaixo.

Quadro 4 – Introdução de Gênesis por Robert Crumb

Eu, R. Crumb, ilustrador deste livro, no melhor de minha habilidade, reproduzi fielmente cada palavra do texto original, que tirei de várias fontes, incluindo a Bíblia do rei James, mas sobretudo, a recente tradução de Robert Alter (The Five Books of Moses, 2004). Em alguns raros trechos me aventurei em pequenas interpretações próprias, quando considerei que as palavras poderiam ser ditas de maneira mais clara. Mas me abstive de ser indulgente nessa “criatividade” e, por vezes, mantive sua intricada vagueza em vez de balburdiar um texto tão venerável. Todas as outras versões em quadrinhos da Bíblia que vi contêm passagem com narrativas e diálogos completamente inventados, numa tentativa de “modernizar” e deixar mais “dinâmicas” as velhas escrituras. Apesar disso, todas essas várias Bíblias em quadrinhos proclamam que a Bíblia é a “palavra de Deus”, ou “inspirada por Deus”. Enquanto eu, ironicamente, não acredito que a Bíblia “é a palavra de Deus”. Acredito que é a palavra de homens. É, no entanto, um texto poderoso, com camadas de significados, que evoluiu e foi sendo condensado por várias gerações até chegar à forma final, consolidada durante o exílio da Babilônia, em 600 a.C.. Foi a casta sacerdotal que, nesse período, compilou e colocou em ordem coerente essa coleção de histórias, lendas, linhagens tribais, algumas vezes costurando juntas duas versões de uma mesma história e proclamando o produto final como sagrado, um documento santificado. Os rolos de pergaminho se tornaram objetos de veneração, destinados apenas a olhos privilegiados. As histórias desse povo, os Hebreus, eram então algo mais que apenas histórias, elas eram a fundação, a fonte escrita do poder religioso e político, entregue pessoalmente por Deus. Este documento era a prova escrita de que você era parte de um povo escolhido, especial, e diferente de todos os outros povos. Estudiosos contemporâneos dizem que os sacerdotes inseriram palavras e adulteraram as já antigas histórias para fortalecerem seus propósitos políticos. Muitos estudiosos, examinando de perto as palavras concisas de capítulos do Gênesis, percebem nelas sentidos e intenções antigas, e perdidas, coisas que foram alteradas pelos sacerdotes, cada vez mais entrincheirados, e o triunfo do patriarcado sobre o antigo e quase esquecido matriarcado. Muito se perdeu nas brumas do tempo. Muito do que os

estudiosos dizem são conjecturas eruditas, já que instigam indícios e insinuações, tentam completar espaços entre fragmentos, detalhes que se perderam ou foram suprimidos há tempo demais para serem recuperados. Enquanto trabalhava neste livro, li algumas dessas investigações acadêmicas do Gênesis e elas me foram úteis para enriquecer a base a qual desenvolvi os desenhos.

Se minha interpretação visual e literal do livro do Gênesis ofender ou ultrajar alguns leitores, o que parece inevitável dada a reverência de tantas pessoas por ele, tudo que posso dizer em minha defesa é que abordei isto como um trabalho de pura ilustração, sem a intenção de ridicularizar ou fazer piadas visuais. Dito isso, sei que não dá para agradar a todo mundo.

Gostaria de agradecer publicamente a Robert Alter por me dar a liberdade de usar – sem abusar, espero – sua tradução, e a Peter Poplaski por me fornecer uma enorme quantidade de fontes visuais para o trabalho, incluindo centenas de fotos de épicos bíblicos de Hollywood, que ele capturou de programas de TV, de DVDs e de fitas VHS. Sendo um artista e um ilustrador, Pete sabia o que eu não queria com este projeto. Roger Katan, outro amigo, também ajudou muito com material visual. Foi ele que me compeliu a voltar atrás e a corrigir as primeiras páginas depois riu de como eu desenhava as roupas, as quais ele disse mais se parecerem com roupões de banho modernos, e de como as tendas pareciam vir dessas lojas de material esportivo. Eu era ignorante. Tinha muito a aprender. Katan cresceu no Marrocos e ajudou bastante com os detalhes da vida cotidiana no mundo pré-moderno de sua infância, e, por ter interesse profissional na arquitetura do norte da África, me emprestou livros cheios de fotos de lugares com um visual estranho, “bíblico”, e de pessoas com roupas e utensílios que não se modificaram em mais de mil anos. Eu também quero agradecer publicamente a Betsy Sandlin, uma velha amiga, cujo conhecimento de hebraico ajudou a esclarecer certas passagens difíceis. Algumas muito difíceis. Mesmo os mais dedicados estudiosos admitem que não têm claro qual é, precisamente, o significado de algumas velhas palavras, ou qual o contexto em que elas foram usadas. Há várias discordâncias entre eles a respeito dessas palavras. O texto, afinal, é muito, muito velho!

R. Crumb, janeiro de 2009.

Figura 27 – Capa da HQ Gênesis por Robert Crumb16

Fonte: Disponível em: http://www.crumbproducts.com/pages/books_comics.html. Acesso em 12 de out. de 2017.

Na sequência, partiremos para a análise dos quatro primeiros capítulos da HQ – nosso recorte – que trata da criação do mundo e de Adão e Eva. Naturalmente, uma análise da HQ completa, com suas mais de duzentas páginas, resultaria numa empreitada extenuante e mesmo redundante. Acreditamos que só os capítulos iniciais, que fecham um ciclo narrativo são suficientes para compreendermos o processo de retextualização empreendido no objeto de estudo, abrindo caminho para estudos posteriores com enfoques mais pontuais.