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2. ESTUDOS DAS ELITES E O JUDICIÁRIO

2.2 Desenvolvimento da Teoria das Elites

2.2.2. Robert Dahl

As ideias de Mills, constantes da obra A elite do poder, receberam muitas críticas, tanto no aspecto ideológico quanto no aspecto metodológico. No aspecto metodológico destaca-se a crítica formulada por Robert Dahl, importante autor da genealogia “pluralista” 15, que através do seu estudo sobre a influência política na cidade de New Haven na obra Who governs? (1961), da análise da teoria democrática, feita em

Um prefácio à teoria democrática (1956) e em Poliarquia (1971) critica o modelo da

elite dirigente de Wright Mills.

Miguel (2003, p. 127) introduz os pensamentos de Dahl afirmando que esse reservava [...] o termo “democracia” para um ideal que raras vezes é[seria] concretizado no mundo real (e nunca em agrupamentos tão numerosos e complexos quanto Estados- nações)”.

Miguel também afirma (2003, p. 127) que Dahl cunhou a palavra “poliarquia”

15 Pluralismo deve ser entendido aqui como a crença de que é possível aceitar a tese fundamental do elitismo clássico, segundo a qual são minorias que comandam a vida política, e conjugá-la com a defesa da democracia, desde que esse sistema político seja entendido de uma maneira específica (PERISSINOTTO, 2009, p. 129).

para asseverar qual seria o contexto ideal da democracia. O mesmo autor também assevera citando trecho da obra do teórico norte-americano:

“Embora Dahl desenvolva um conjunto de critérios de democracia, cuja efetivação parcial definiria uma organização como poliárquica, o ponto crucial – que transparece já no significado etimológico da palavra – é a presença de uma multiplicidade de pólos de poder, sem que nenhum seja capaz de impor sua dominação a toda a sociedade. Em suma, se não podemos contar com o governo do povo ou mesmo com o governo da maioria, podemos ao menos ter um sistema político que distribua a capacidade de influência entre muitas minorias. Assim, as eleições ocupam uma posição central num ordenamento poliárquico não porque introduzam um “governo de maiorias em qualquer maneira significativa, mas [porque] aumentam imensamente o tamanho, número e variedade das minorias, cujas preferências têm que ser levadas em conta pelos líderes quando fazem opções de política” (DAHL, 1989 [1956], p. 131).”

Ainda acerca dos julgamentos desenvolvidos por Dahl em face da tese de Wright Mills, transcreve-se a opinião de Perissinotto (2009, p. 132-33):

“Segundo Dahl, o problema maior do trabalho de Wright Mills é não ter produzido uma prova definitiva da existência da famosa “elite do poder”, isto é, de um grupo coeso, unido, capaz de monopolizar o processo de tomada de decisão políticas.”

Dahl argumentava, portanto, que a estrutura política americana seria muito melhor delineada pelo modelo pluralista do que pelo modelo elitista de Wright Mills.

Dahl desenvolveu seu argumento (crítica) através de dois pontos-chave. Primeiramente apontou um problema metodológico na tese elitista: ponderou que para fosse aceita a existência de uma "elite dirigente" em um dado país, seria necessário que se demonstrasse como esse grupo efetivamente exerceria a sua dominação política. Para isso, seria indispensável que esse fosse um grupo coeso e identificável com interesses reais compartilhados, que atuasse em uníssono e que fosse vitorioso em todas as questões nas quais se envolver. Quanto às decisões tomadas, elas precisariam ser objeto de conflito com os demais grupos da sociedade, para que se comprovasse o real exercício de poder por parte da elite.

Em segundo lugar, Dahl inovou o elitismo ao apresentar a concepção que os grupos sociais são levados a buscar influenciar os decisores na medida em que os interesses fundamentais de seus membros estivessem sendo minimamente ameaçados por decisões públicas. Ademais, afirmava o Autor, esses grupos eram compostos por indivíduos autônomos (PIO e PORTO, 1998, p. 298-9).O processo decisório é, portanto,

colocado em evidência.

Perissinotto (2009, p. 134-5), inclusive, afirma que Robert Dahl, em oposição ao “método posicional”, formulou o “método decisional”, constituído, basicamente, de três passos:

“1. Primeiro, a hipotética elite do poder deve ser um grupo bem definido e seus limites devem ser bem delimitados pelo analista. 2. Em seguida, deve-se escolher uma quantidade razoável de casos envolvendo decisões políticas fundamentais, em torno das quais haja conflito entre as preferências da suposta elite do poder e as preferências de outros grupos.

3. Finalmente deve-se provar que em tais casos as preferências da suposta elite do poder regularmente prevalecem sobre as preferências dos seus concorrentes.”

Munido dessa proposta metodológica é que Robert Dahl escreveu sua conhecida pesquisa, que se revelou como um marco nessa “discussão” entre ele e Mills, sobre o poder político na cidade de New Haven e cujos resultados estão no livro intitulado Who

governs, em que estabeleceu, através do estudo do processo de decisão a nível local da

cidade em comento, um panorama do cenário político nacional americano.

Pio e Porto (1998, p. 302-3) aglutinam as principais características do pluralismo de Dahl:

“Como já foi observado, esse modelo baseia-se no fato de que o poder político dos cidadãos não deriva apenas de sua posição nas estruturas social e econômica. Pelo contrário, em sua formulação inicial, o pluralismo supõe que é a capacidade de convencimento dos candidatos aos cargos públicos o recurso essencial ao exercício de poder. Terão maior capacidade de realizar seus interesses aqueles que forem capazes de convencer a maioria da população da validade de suas propostas em relação às de seus concorrentes. Disso deriva o papel angular da liderança política, dos políticos profissionais, que se especializam na articulação das preferências individuais em uma vontade coletiva e na mobilização de contingentes eleitorais dispersos e pouco interessados.”

Sinteticamente, percebe-se que o embate entre Wright Mills e Robert Dahl produziu dois modelos metodológicos completamente diferentes: método posicional e método decisional, respectivamente.

O primeiro, também conhecido como monismo, sustenta a homogeneidade da elite e a confluência de interesses da mesma. Há, também, uma coesão na elite do poder, com atuação nas esferas política, econômica e militar. Dispondo de valores sociais semelhantes, a ação da elite está ligada entre os atores da mesma, de forma íntima e

pessoal. Ainda assim, o monismo prevê que a posição estratégica ocupada na sociedade interfere diretamente na elite que participa do poder.

O segundo, conhecido como método decisional, prioriza a pluralidade dos grupos na competição da maquinaria política e principalmente a alternância destes no poder.

Ao contrário de Mills, portanto, Dahl reuniu esforços para melhor explicar o processo de tomada de decisões políticas (AMARAL, 2011, p. 47).