Letras Telecentro Mocambos Rede Auditório Toninha Nação Tainã Tambores de Aço
5.3 Na roda do Jongo Dito Ribeiro
5.3.2 Rodas de Jongo
Além de todas essas atividades, a fazenda também é o espaço para os encontros quinzenais do Jongo Dito Ribeiro, em rodas onde imperam a dança, o batuque e o canto por três ou quatro horas seguidas. Não há portanto ensaios de jongo e sim encontros nos quais se aprende por meio da prática da roda de jongo propriamente dita167. Essa orientação geral muda apenas quando a comunidade jongueira oferece oficinas de jongo, não sendo essa, entretanto, uma atividade regular. No contexto das oficinas, tudo é explicado e ensinado; há espaço para perguntas e respostas. Fora delas, aprende-se diretamente na roda de Jongo.
Em tempo, é importante dizer que consideram que a roda de jongo está aberta a partir do momento em que estão reunidos e centrados numa mesma atividade que de alguma forma se relacione ao jongo, podendo essa ser uma reunião, uma conversa coletiva ou uma refeição em conjunto. Também não é necessário que apenas membros do grupo integrem essa atividade; a roda também está aberta quando há convidados em sua sede para palestras ou oficinas, ou em ocasiões em que são chamados para falar sobre o jongo fora de sua sede, em escolas, universidades ou eventos culturais.
Tanto em oficinas quanto em rodas realizadas na Fazenda Roseira, os participantes da comunidade procuram deixar claro que a experiência do jongo extrapola a performance musical. Nessas instancias, aprendemos códigos de conduta específicos: não se deve usar cores pretas; homens devem vestir calças e mulheres, saias; homens e mulheres devem se intercalar na roda, para que se mantenha um bom fluxo de energia; nunca se deve interromper um ponto; não se pode jamais passar por cima dos tambores; tambores não devem ser tocados fora de contexto da roda; dentre tantos outros. O descuido desses aspectos pode desmantelar não apenas uma roda de Jongo como também a sorte de seus participantes.
A dança propriamente dita pode acontecer tanto no terreiro à frente da casa quanto no salão do casarão, dependendo das condições do tempo. Dispostos num circulo, do qual os tambores são também integrantes, todos de pés descalços e mulheres vestindo saias, iniciam a roda recitando um verso, que criaram diante dos diversos enfrentamentos pelos quais já tiveram de passar:
Eu segura a sua mão na minha, para que juntos possamos fazer aquilo que eu não posso fazer sozinho (a)
Este verso é repetido umas três vezes, com todos os participantes de mãos dadas. Recitá-lo é especialmente comum logo antes se comentar sobre algum problema que naquele momento acomete a comunidade, mas também pode ser uma forma de saudação. O canto se inicia e invariavelmente o ponto de abertura é este:
Andei, parei, custei mas no jongo eu cheguei Oh, dandá, abre a roda, Oh, dandá, abre a roda, Quem foi que disse, quem te falou?
Que em Campinas não havia joguedô?168
Ao cantarem o primeiro verso da cantiga, vão caminhando para frente. Um passo é dado a cada vez que a palavra “andei” é entoada. Quando ao final de algumas repetições os integrantes do círculo já se encontram todos aglutinados, sem espaço para se moverem mais, começa o segundo verso. Vai-se andando para trás e batendo palmas sem pausas, até que o círculo esteja novamente aberto. Uma vez de volta à forma original da roda, canta-se os dois últimos versos repetidas vezes. Todos voltam exceto o primeiro casal, em geral o mais experiente da comunidade. Depois de “saudar” os tambores, isto é tocá-los levemente mantendo uma postura reverente, o casal inicia a dança.
Essa dança é um contínuo movimento de encontro e afastamento, sendo esses encontros uma metáfora das umbigadas, como me contaram membros do grupo169. Cada
movimento de ida ou volta acontece no tempo de um compasso, sendo o primeiro tempo sempre marcado com uma batida no chão com a ponta de um do pés170. Ao tempo desses compassos, os dançarinos podem rodopiar, mover os braços, brincar com a saia no caso das mulheres, mas devem procurar sempre se olhar nos olhos; os movimentos são livres para que cada um crie sua própria dança, contanto que os pés estejam sempre em sintonia com o tambor Trovão. Esse seria um passo mais básico e simples, o primeiro que se aprende quando se chega à comunidade.
Há porém um passo criado pelo Jongo Dito Ribeiro, ao qual se referem como um dos
168 Ver anexo XIII. 169 Ver fotografia 26.
170 Ver anexo XIII, compasso 2. Após a batida com a ponta do pé pode se seguir um movimento de encontro,
diferenciais de sua própria comunidade. Salvo a gestualidade e a particularidade dos movimentos de cada um, incluindo aí velocidade, equilíbrio e mobilidade corpórea, não há improvisos sobre este passo, uma vez que ele caracteriza a comunidade. Consiste em um passo cruzado com a perna direita para a esquerda, um giro para a direita e daí em diante um sequência: um passo cruzado para a esquerda, outro passo cruzado para a direita e um giro para a direita, e assim sucessivamente.
Enquanto esse casal baila no centro, o círculo humano os observa, cantando, batendo palmas e muitas vezes dançando sem sair do lugar. Logo a substituição desse primeiro casal se inicia: um homem na roda sai de seu lugar e andando do lado de dentro no sentido anti-horário171, sem atravessar o meio, se dirige aos tambores e os saúda. A saudação aos tambores é feita sempre na primeira vez que se entra na roda. Isto feito, dirige-se ao centro da roda, mais especificamente ao homem que está dançando e lhe diz: “sapeca Ioiô”. Ao ouvir isto, o homem que estava dançando sai do centro e encontra um lugar para si no círculo de pessoas ali ao redor, sendo substituído pelo segundo, que agora dança com a mulher que permaneceu no centro. Essa ação também poderia ter sido executada por uma mulher; neste caso, “sapecaria” a mulher que se encontra dançando no centro da roda, não havendo uma prescrição sobre qual gênero deve iniciar as substituições.
Com as comunidades de Jongo de Bracuí e de Angra dos Reis os jongueiros do Dito Ribeiro aprenderam um ponto de “visaria”, ou animação, e que cantam logo no início da roda, especialmente se há visitantes, para que aprendam:
Olha a dança do jongo gente Como é que é A mulher tira homem E o homem tira mulher172
Na Comunidade de Campinas, o ponto é cantado trocando as últimas estrofes; canta- se “o homem tira homem e a mulher tira mulher”, tanto com o objetivo de levantar o ânimo
171 O sentido anti-horário de movimento numa roda é comumente encontrado em várias expressões afro-
brasileiras. Na capoeira, por exemplo, o giro dos dois jogadores em alguns momentos do jogo em sentido anti-horário é chamado de “volta ao mundo” e tem relação com os Xirês (sequência de toques e cantigas) do Candomblé. São muitos os elementos em comum, compondo uma cosmogonia com vários aspectos compartilhados pelas formas expressivas e religiões afro-brasileiras, como estruturas hierárquicas, conceitos de ancestralidade e de família, entre outros.
dos participantes, quanto para ensinar àqueles que se encontram pela primeira vez na roda. É praticamente uma deixa para que os novatos mais tímidos que ainda não se arriscaram se animem e experimentem a dança pela primeira vez.
Esse ponto também alivia qualquer tipo de constrangimento criado tanto pela ação voluntária para se entrar na roda, quanto pelo fato de ser tirado dela na medida em que institui uma regra, normalizando-a; todos terão que passar por isto e é assim mesmo que se faz. No primeiro aspecto, a entrada na roda, o ponto informa que não há aprendizado ou experiência sem risco: é preciso enfrentar os medos e arriscar-se a errar em frente a todos. É claro que em se tratando de uma forma participativa de música, há uma ação compensatória para essa insegurança. A comunidade procura manter sempre jongueiros experientes dançando com novatos, segurando suas mãos, rodopiando-os e auxiliando demais movimentos quando necessário.
Já o modo como se sai da roda é especialmente importante se pensarmos no equilíbrio entre inclusão e fluxo da performance, do qual falávamos anteriormente, já que a dança desajeitada de um novato pode comprometer o andamento rítmico e, portanto, a roda como um todo. “Sapecar” um novato, após algum tempo dançando significa equilibrar seu momento de aprendizado com a dinâmica do todo. A dança tem continuidade até que se encerre o ponto, ação executada por aquele que quer iniciar outro, gritando “cachueira”, para que tudo pare, dança, canto e tambores.
Pontos são sempre canções metafóricas, como neste exemplo criado pelo próprio Jongo Dito Ribeiro:
Macaco pula galho Eu também quero pular
Tatu tá cavucando quero ver tamanduá
Certamente, todo ponto é passível de mais que uma interpretação, mas dentro do contexto em que é mais comumente utilizado pela comunidade, o Tatu abre caminhos onde não se vê, portanto é o sábio; já o Macaco, faz graça, macaquice, sendo apenas um espertalhão. Este, por exemplo, é um ponto de porfia ou desafio, podendo ser usado para zombar de alguém na roda. Pontos podem encaminhar provérbios, crônicas, segredos e demandas. São sempre cantados de maneira responsiva, ou seja, há sempre uma voz solando e propondo o ponto, que é respondido pelo canto dos demais, por vezes com uma
repetição, como no ponto de abertura que acabamos de ver, ou por uma complementação, como no segundo exemplo:
Chama a Sinhá, o cumade chama a sinhá Pode me chamar que eu vou173
Uma vez inteiramente cantado, reinicia-se o batuque, acompanhado de palmas de quem está na roda e da dança de quem já estava no centro. De um modo geral, quem quer iniciar um novo ponto aproxima-se dos tambores para cantar. Há sempre pessoas responsáveis pela cantoria, ou seja, são aquelas encarregadas de não deixar que o canto arrefeça ou perca o vigor. Elas se posicionam sempre próximas aos tambores, mas não são necessariamente as únicas a proporem novos pontos. Sua tarefa é especificamente manter o ânimo das cantigas. O novo ponto será cantado e dançado até que outro seja proposto e assim sucessivamente até o encerramento da roda.
Não há exatamente uma sequência prescrita de pontos174, mas um engatilhamento de temas que se sucedem como numa conversa informal em que um assunto vai puxando outro. Assim, se um ponto para Nossa Senhora do Rosário é cantado, desencadeia uma série de pontos relacionados a santos católicos reverenciados nesse contexto; um dos próximos pontos pode fazer referência a um orixá, abrindo então espaço para esse outro assunto cantado em mais um conjunto de pontos e assim por diante. Na comunidade Jongo Dito Ribeiro são cantados pontos de outras comunidades – do Jongo do Tamandaré, de Guaratinguetá, ou do Jongo da Serrinha, do Rio de Janeiro – e também pontos próprios. Seus integrantes dizem que pontos nunca são compostos. Eles são recebidos durante a roda de jongo, e seu significado é normalmente captado pelos participantes mais experientes e atentos ao diálogo da roda.
Relembrando as características participativas identificadas por Thomas Turino (2008), não há forma prescrita para esta música, com número certo de repetições ou momento certo para se acabar: o ponto será repetido inúmeras vezes e por tempo indeterminado. O contexto da letra deste ponto somada à excitação dos dançarinos, dos
173 Ver anexo XV.
174 Esta é, na verdade, uma orientação recente no jongo Dito Ribeiro. No início de sua história, as rodas eram
abertas com uma sequência específica do que deveria ser cantado, por julgarem ser essa uma atitude de respeito para com uma performance que consideram sagrada. Hoje em dia, ainda que a atitude de respeito
tocadores e de quem está cantando e batendo palmas na roda pode levar a cantiga a um auge de vigor, velocidade e volume, seguido de um arrefecimento. É neste último momento que alguém grita “Cachuera!”, interrompendo este ponto e propondo um novo.
Além de pontos de saudação, visaria e porfia como os mencionados acima, há pontos de louvação, demanda ou briga, zombaria, dentre outras categorias.
Pontos de louvação são cantados geralmente nos momentos iniciais da roda, para louvar e pedir proteção aos jongueiros velhos, pretos velhos ou ancestrais;
Nossa Senhora do Rosário, saravá São Benedito. Vamos abrir roda de jongo, peço que estejam comigo.
Saravá sinhô tambú, saravá o candongueiro Saravá os preto véio, saravá Dito Ribeiro 175.
Há também pontos de saudação aos ancestrais, que podem carregar a memória da escravidão no Brasil. Um ponto muito famoso e que já tem versões em sambas e outros estilos musicais, é sempre lembrado pelo Dito Ribeiro
Tava durmindo, angoma me chamou Tava durmindo, angoma me chamou Disse levanta povo, cativeiro já acabou Disse levanta povo, cativeiro já acabou176
Já pontos de gurumenta ou gromenta, chamam diretamente para uma briga. Possuem portanto um conteúdo mais pesado e, ao menos na experiência do Dito Ribeiro, são endereçados a quem está fora da comunidade, representando distúrbio ou ameaça, como por exemplo a família Cantuso. Eis o ponto composto para expressar esta situação.
O milho virou pipoca Na Fazenda Roseiral Eu com meu tambu na mão
Sinhozinho não me toca177
Há também pontos de encante que tratam especificamente da relação com o
175 Ver anexo XVI. 176 Ver anexo XVII. 177 Ver anexo XVIII.