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3 OS CURDOS, A REVOLUÇÃO DE ROJAVA E A POLITIZAÇÃO DA

3.2 ROJAVA

Rojava, palavra que pode significar tanto “oeste” como “pôr do sol” em curdo, é o nome

de uma região localizada no norte da Síria e no oeste do Curdistão (CSRPC, 2016). Ela é composta por três cantões não-contíguos (Afrîn, Jazira e Kobanî) que somam aproximadamente 30 mil km² e abriga atualmente cerca de 4,6 milhões de habitantes, a maioria deles curdos, mas também assírios e árabes (HACHEY, 2017).

A região de Rojava foi conquistada pelos otomanos em 1516, quando os mesmos invadiram a atual região da Síria. Ela permaneceu sobre o controle otomano até a Primeira Guerra Mundial, quando o império, aliado da Alemanha, perdeu a guerra e foi desmembrado (KNAPP; FLACH; AYBOGA, 2016, p. 11). Como tanto o Curdistão quanto a Síria estiveram sob domínio externo durante séculos, a linha de demarcação entre árabes e curdos nunca foi nítida. No cantão de Jazira, por exemplo, a convivência entre curdos e árabes vai desde tempos pré-islâmicos até os dias de hoje (VANLY, 2005, p. 113).

No início do seu mandato na Síria (1922-1946), e buscando combater o nacionalismo árabe, a França estabeleceu uma clássica política colonialista de “dividir para conquistar”,

cooptando a elite e privilegiando membros das minorias cristã, alauíta e drusa (KNAPP; FLACH; AYBOGA, 2016, p. 11). No entanto, o período do mandato francês foi marcado pelo crescimento do nacionalismo árabe, que naturalmente veio a entrar em conflito com o posicionamento público dos curdos no país (YILDIZ, 2005, p. 27).

Desde o fim do Império Otomano e durante o mandato francês, os curdos na Síria se dividiam em relação aos franceses. Algumas tribos apoiavam a administração descentralizada francesa – predominantemente os curdos que habitavam as áreas rurais e desejavam manter sua autonomia administrativa – enquanto outras apoiavam a independência da Síria ao lado de tribo árabes (YILDIZ, 2005, p. 28). Se, à época do fim do Império Otomano, não existia movimento popular árabe ou curdo e a política era restrita aos intelectuais, com o mandato francês os curdos passaram a ganhar maior consciência política, mobilizando-se em relação às questões de independência e descentralização (YILDIZ, 2005, p. 28).

Durante o mandato francês, a organização e expressão cultural curdas eram permitidas em âmbito privado, o que fez com que intelectuais curdos da Turquia, buscando desenvolver atividades literárias em kurmanji15, se exilassem na Síria (YILDIZ, 2005, p. 28; KREYENBROEK, 2005, p. 57). Contudo, quando o país se tornou independente os franceses não haviam garantido nenhum direito para a minoria curda. Mesmo mantendo um certo grau de tolerância em relação à cultura curda, as autoridades francesas e sírias não estabeleceram nenhuma escola pública curda no país. Ademais, os franceses desencorajavam qualquer atividade política ou militar contra a Turquia por parte dos curdos na Síria (VANLY, 2005, p. 117).

Em 1946, a Síria se tornou independente da França e se dedicou a perseguir seus “inimigos internos” (CSRPC, 2016, p. 16), embora alguns grupos curdos tivessem feito parte do movimento de independência da Síria. Com isso, a nova República Síria revogou a cidadania síria de aproximadamente 200 mil curdos, apropriou-se de suas terras e mudou todos os nomes de cidades curdas, reassentando, nos territórios curdos, beduínos árabes como policiais (CSRPC, 2016, p. 16).

Com a nomeação da Síria como “República Árabe”, em 1961, o país expressou oficialmente sua identificação étnica. Mais tarde, os regimes dos Assad (1966 – hoje) puseram

em prática diversas tentativas de assimilação dos curdos, considerados uma ameaça à coesão interna (KNAPP; FLACH; AYBOGA, 2016, p. 11). Em 1962, o regime militar em vigor na Síria realizou um censo-surpresa de um dia com os residentes da província de Hasakê (no cantão de Jazira), exigindo que os curdos provassem sua residência anteriormente a 1945. Aqueles que não conseguiram fornecer os documentos comprobatórios foram designados como

ajanib (estrangeiros) ou maktounemeen (escondidos) e considerados infiltrados ilegalmente na

terra. Com isso, cerca de 120 mil curdos foram privados de sua cidadania, destituídos do direito à propriedade e, portanto, condenados à pobreza (VANLY, 2005, p. 118; KNAPP; FLACH; AYBOGA, 2016, p. 19).

Em 1973, em um contexto de políticas de arabização da Síria, Hafez Al-Assad instituiu um Cordão árabe na fronteira do país com a Turquia, o que causou deportações em massa e empurrou os curdos para o nordeste do país (VANLY, 2005, p. 123). Nesses esforços, cerca de 150 mil curdos foram deslocados para a região de Rojava sem compensação (EGRET; ANDERSON, 2016, p. 61). Árabes beduínos foram trazidos da área do rio Eufrates, próximo a Raqqa, e realocados em território curdo, cujas cidades foram renomeadas em árabe (VANLY, 2005, p. 124). Por fim, foram criadas vilas árabes com diversos incentivos para favorecer o assentamento de árabes na região, majoritariamente curda (YILDIZ, 2005, p. 37). Foi também nos anos 1970, mais especificamente em 1979, que o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK) chegou aos cantões do norte da Síria, onde se fortaleceu e ganhou o apoio dos curdos locais (KNAPP; FLACH; AYBOGA, 2016, p. 96).

Nos anos 1980, os curdos foram os que mais sofreram com os efeitos da crise econômica na Síria. Por conta disso, muitos jovens migraram das áreas curdas do norte do país em busca de trabalho em Damasco e Aleppo, inflando a população curda nessas cidades, e muitos outros se dirigiram à Europa em busca de melhores condições de vida (VANLY, 2005, p. 124). Em Damasco, os curdos são mais assimilados à cultura árabe e desfrutam de melhor posição social do que no norte do país (YILDIZ, 2005, p. 25).

Os curdos são a maior minoria nacional da Síria e a única com uma base territorial (VANYL, 2005, p. 114). Não obstante sua importância política no país, não existem estatísticas oficiais sobre o seu número, pois, mesmo que tenham práticas culturais e festividades diferentes das dos árabes sírios, o regime do Baath16 não os reconhece como uma minoria étnica ou

16 O Partido Socialista Árabe Baath da Síria lidera o país desde 1963. Atualmente, a Síria é presidida por

nacional (VANLY, 2005, p. 114; YILDIZ, 2005, p. 28). Apesar das diversas tentativas de assimilação dos curdos na cultura árabe, a identidade curda permanece distinta, mesmo com a dispersão desse povo pelo país. Tal dispersão, aliás, dificulta a formação de uma força política curda, unificada social e culturalmente, na Síria (YILDIZ, 2005, p. 28).

Apesar da tensão étnica entre sírios árabes e curdos, a questão curda, tanto na Síria como em outros países, não pode ser resumida a um conflito entre curdos e árabes, ou entre curdos e governos centrais, mesmo que a retórica de ambos os lados por vezes dê essa impressão (BRUINESSEN, 2005, p. 26). O Curdistão é uma sociedade complexa, com muitos conflitos internos e rivalidades, que tendem a ser exacerbados tanto por fatores econômicos como políticos a nível estatal. Várias formas de cooperação entre detentores de poder local e os aparatos estatais se desenvolveram com o tempo, tornando difícil determinar com precisão a distinção entre perseguição pelo Estado e outras formas locais de opressão (BRUINESSEN, 2005, p. 27).