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5. MEDIAÇÃO EM MUSEUS

6.4 AS ENTREVISTAS COM A EQUIPE DO MAC-PR

6.4.1 Ronald Simon, curador

A primeira entrevista semiestruturada realizada no MAC-PR ocorreu no dia 01 de julho 2017, com o curador da exposição “Anos 60/70: Um Panorama – Mostra do Acervo”, Ronald Simon. Nesta entrevista o pesquisador buscou conhecer como foi o processo de curadoria da exposição e as relações entre o trabalho do curador e da Ação Educativa. A entrevista aconteceu em uma das salas do segundo andar do museu, local com pouca movimentação e propícia para a gravação da conversa.

Ronald Simon relatou que a exposição nasceu a partir de uma doação de obras da artista Pietrina Checcacci, que produziu nos anos 60 e 70 e continuava produzindo até a data da entrevista. A doação das obras motivou a equipe do museu a planejar uma exposição que exibisse obras do acervo pertencentes ao mesmo período das doadas pela artista, e, a partir deste recorte, o curador consultou no acervo quais eram as obras que se encaixavam neste perfil. Ao realizar a seleção, Ronald Simon constatou que grande parte dos artistas também era participante de Salões, tanto vencedores do chamado “Prêmio Aquisição”, que adquiria para o acervo as obras mais expressivas, quanto por meio de doações dos participantes ou de seus familiares. Foram priorizados para participar da exposição, dentre estes artistas, os que possuíam uma produção considerada importante para a crítica e a história da arte paranaense e brasileira, e que continuaram a produzir após terem participado destas premiações. Ronald Simon afirmou que a presença acentuada de obras com temática de crítica à ditadura militar foi apenas uma consequência do recorte temporal da exposição, e não proposital.

Quando questionado sobre a relação de seu trabalho com o desenvolvido pela Ação Educativa, Ronald Simon afirmou que esta relação não acontece de maneira paralela ao planejamento da exposição. Ao projetar a exposição, questões como espaço físico e arquitetura do prédio têm muita influência na forma como as obras são expostas, e é após a reflexão sobre essas questões que as obras são dispostas nas diversas salas do museu. A subordinação da exibição das peças de arte contemporânea ao envoltório arquitetônico em que se encontram é algo discutido por Bishop (2013), e essa subordinação pode resultar em situações negativas, como as que em se torna difícil navegar entre os espaços do museu e visualizar obras em salas muito pequenas, que não comportam todos os participantes dos grupos escolares. Serota (1996, apud BARBOSA, 2008) afirma que a maneira de expor as obras está diretamente ligada a conceitos de como se ensina e se aprende sobre arte, portanto, estes problemas de locomoção presentes no MAC influenciam a percepção que os estudantes tem das obras durante as visitas, levando inclusive a casos em que nem todos os participantes conseguem ver uma obra específica ou escutar a fala das monitoras.

Feito isso, o curador agenda junto à equipe da Ação Educativa uma visita mediada guiada por ele próprio, antes da abertura da exposição, e as informações são então apropriadas e adaptadas pelas monitoras durante as mediações feitas por elas aos diversos públicos participantes. Sobre o trajeto planejado pelo curador, Ronald Simon salienta que, por também ser professor, tenta tornar a visita didática, posicionando obras de maior impacto na entrada, para chamar a atenção do visitante, e dispondo as obras nas salas de acordo com a linguagem da história da arte da qual pertencem. Porém, quando possível, esta ordem é quebrada para que a visita à exposição não se torne monótona. A relação entre as obras que estão próximas também é levada em consideração, sendo possível induzir interpretações por meio do contraste entre obras que sejam distintas, tanto em forma quanto em conteúdo. O curador também afirma ser necessário adaptar os diferentes discursos de acordo com o público participante da visita, pois, segundo o curador, “não dá para chegar pra uma criança de 7 anos e dizer ‘esta obra foge da questão pictórica na tela’, mas é possível perguntar ‘você percebeu que essa obra não é pintura, e sim madeira colada?’. E eles sempre respondem a isso, sempre pegam esse gancho”. A mediação deve então “falar a linguagem” do visitante que participa no momento. Esta visão corrobora com a importância que Lima (2008) dá para o mapeamento dos diversos públicos que

visitam o museu, buscando assim construir percursos de mediação de acordo com a faixa etária dos visitantes e grupos.

Ainda sobre a estrutura física do museu, Ronald Simon acredita que, por mais que o museu se localize em uma área central da cidade e que a taxa de visitação seja relativamente alta, as grades na fachada do museu são um fator que limita a entrada de visitantes, caso confirmado por Suano (1986) e Bishop (2013), que identificam que a apresentação exterior dos museus também influencia na forma como são aceitos ou rejeitados pelo público. Leite e Oliveira (2014) afirmam que os museus de arte se inserem no conjunto de instituições que regulam os fluxos sociais, de forma a promover um distanciamento “necessário” entre a vida material e a arte, que assim permanece restrita aos limites dessas instituições. Porém, o curador tem consciência de que “o ideal seria se não tivesse nada, mas não estamos na Europa [...] isso é uma realidade nossa [...] um problema muito mais social”. Em uma reforma prevista para 2018, está incluído o projeto de substituição das grades por paredes de vidro, com desenhos que imitam a fachada do prédio antigo, e Ronald Simon acredita que esta é uma alternativa para dar mais visibilidade ao museu.

Ronald Simon enxerga que seu papel como curador (que ele define como “não sou o curador, eu estou fazendo curadoria a convite, eu sou um artista que está fazendo curadoria”) é o de dar visibilidade às obras e aos artistas presentes no acervo do museu. Segundo ele, é comum artistas visitarem o museu e se mostrarem impressionados ao rever obras que produziram há décadas e nem se lembravam mais. No acervo do MAC encontram-se muitas obras que foram produzidas por artistas que atualmente não mais desenvolvem trabalhos artísticos e Ronald acredita ser importante não deixar essa produção, de artistas que em algum momento foram importantes para a história da arte paranaense, esquecida. “Eu também vejo por esse lado, de mostrar o que existe, não é só o que está na Bienal de São Paulo que é importante”, afirma.

Para Ronald Simon, a mediação da arte contemporânea é ainda mais delicada, pois diferente dos movimentos anteriores, mais acessíveis, a arte contemporânea é materializada em meios não convencionais e trata de assuntos e conceitos que até pessoas com uma bagagem mais ampla em arte tem dificuldade em compreender. Ele discorre sobre uma obra em específico, exposta na fachada do museu (figura 8):

Você viu aqui na entrada do museu? Está escrito MUSEU, é um trabalho do Salão Paranaense, não sei se você sabia. O trabalho dele a noite deixa só aceso o USE, [...] ele entrou no Salão Paranaense com esse trabalho. Ele colocou um locutor ali na frente um dia e o locutor ficava convidando as pessoas para usarem o museu, pra entrar no museu. Foi uma loucura o tanto de gente que entrou aqui, loucos pra ver [...]. Agora, dentro de uma exposição, explicar numa monitoria esse trabalho, porque ele vai além da questão da luz, das letras, é a questão do museu em si como instituição e da população em relação ao museu, como elas veem o museu, ou não veem. É uma coisa muito além das letras.

O curador afirma que muitas exposições de arte contemporânea necessitam de um “manual” para ser consultado, o que requer tanto planejamento do museu para contornar a complexidade dessas obras quanto disposição do público para interpretá- las, ponto de vista consonante com as visões de Danto (2006) e Manuel Borja Villel (apud CANCLINI, 2012), que acreditam ser necessária uma reestruturação na curadoria e organização dos museus, com o intuito de tornar estes espaços em locais que facilitem a comunicação das obras com o público. Ronald Simon reconhece que em exposições atuais existe um grande apelo pela interatividade, fenômeno também identificado por Canclini (2012) e Coutinho (2008), o que resulta, segundo ele, em uma espécie de “playground de maluco”. Descrevendo algumas obras que viu na bienal, ele discorre que as mesmas convidavam o público a “subir em cima de uma montanha, [...] entrar dentro de um labirinto, parecia que você estava num parque de diversão, depois tinha um negócio que você ficava pulando no chão e se vendo no espelho”. Ronald questiona até que ponto este tipo de obra não cria uma confusão, pois este lado espetaculoso, grandioso e interativo da arte contemporânea acaba por deixar as obras vazias de conteúdo.

Para o curador, a rejeição do público também pode ser considerada como uma resposta. E a forma de tornar a arte contemporânea mais acessível, por mais que soe como um “lugar comum”, segundo o curador, é através da educação. Para ele, a forma como a educação de arte é vista no Brasil torna o trabalho da monitoria uma “batalha”, pois “enquanto as aulas de arte não forem consideradas de igual importância às aulas de matemática, enquanto a arte for vista como algo supérfluo”, não teremos uma mudança nessa situação. Schlichta (2009) confirma esta visão do curador quando afirma que o que é valorizado no ensino são as disciplinas consideradas “sérias” e úteis ao ingresso no mercado de trabalho, sendo as aulas de artes mantidas num segundo plano. As visitas mediadas são uma arma muito importante nesta batalha, discorre Ronald Simon, pois é comum acontecer de as crianças fazerem as visitas

junto ao grupo escolar e depois voltarem com os pais, querendo mostrar algo interessante que viram.