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2 FOLCLORE E LITERATURA NO RIO GRANDE DO SUL: A

2.3 A GERAÇÃO REGIONALISTA: SIMÕES LOPES NETO, ALCIDEZ MAYA,

2.3.3 Roque Callage

Dentro do grupo engajado no projeto de identidade regional, outro nome que se destaca é do santa-mariense, Roque Callage28. Segundo o seu biógrafo, Propício da Silveira Machado, mesmo nascido em família de poucos recursos e quase sem ter acesso aos estudos regulares, Callage buscou o conhecimento através da prática autodidata. Além de escritor, contista, poeta entre outras coisas foi também conferencista. Viajou pelo estado proferindo palestras e conferências. Em uma delas, no ano de 1908, ocorrida no município de Dom Pedrito, um médico local assegurou que Callage deixou “magnífica impressão entre os que

28 Roque Callage nasceu em Santa Maria, Rio Grande do Sul, em 13 de dezembro de 1886, e faleceu em Porto Alegre, em 23 de maio de 1931.

lhe foram ouvir a palavra brilhante e de entusiásticos louvores ao Rio Grande”. Logo após foi à Bagé para outra conferência, e mostrar “o amor que já naquela época votava às coisas de sua terra e de sua gente” (MACHADO, 1975, p. 35). Depois de mudar-se para São Gabriel, Callage passou a trabalhar como jornalista nos periódicos A Tribuna, O Comércio e O Diário da Tarde tendo boa repercussão pelo interior do estado. Os seus livros seguem a temática regionalista em que se aprofunda em um projeto de identidade regional: Prosas de ontem (1908), Escombros (1910), Terra Gaúcha (1914), Crônicas e Contos e Terra Natal (1920), Vocabulário Gaúcho (1926), Quero-Quero (1927) e No Fogão do Gaúcho (1929). Por ter a função de jornalista, Callage acompanhou algumas das forças revolucionárias, em 1923, e alguns episódios foram usados em O Drama das Coxilhas, publicado naquele mesmo ano.

O seu propósito como escritor regionalista foi se evidenciando nas suas obras. Em Terra Natal, Callage referiu-se ao “regionalismo como expressão latente de força em movimento aplicada ao senso estético e definindo todos os surtos do meio onde essa mesma força opera” (CALLAGE, 1920, 27). Através da literatura, o autor entendia ser a melhor forma de perpetuar os costumes, aspectos e paisagens, pois, do contrário, seria:

desconhecer a existência das pátrias que se engrandeceram pela pena dos seus escritores e pela lira de seus poetas que aprofundaram e cantaram suas origens. Tempo virá em que a nossa literatura regional, com todo esse conjunto de efeitos, desde as paisagens que nos enlevam, aos costumes que ainda perpetuamos no pedaço do rincão natal, reafirme para o futuro, as singelezas imperecíveis da nossa tradição (CALLAGE, 1920, p. 34).

Percebe-se a preocupação de Callage em relação às tradições e às lendas por não serem lembradas e estarem em vias de desaparecimento. O escritor as comparou a “velharias inúteis que pouco a pouco se apagam na alma da nossa gente” (CALLAGE, 1920, p. 94). Callage percebia o tempo avançando, o progresso chegando, as lembranças e reminiscências se dispersando em outras coisas. Essas últimas, de acordo com o autor, eram vistas como vagas e indecisas projeções ou belezas do passado, perdidas em livros que não eram lidos, sequer eram abertos. Com este sentimento melancólico, Callage cita duas lendas consideradas por ele como genuínas do Rio Grande do Sul, apesar de o mesmo afirmar não serem lembradas pela geração de seu tempo: O Negrinho do pastoreio e Fogo morto.

Callage apelou para o saudosismo: “tenho ânsias de reviver existências já vividas, fragmentos de épocas já passadas” para viver “sonhos e ilusões que nunca mais palpitarão na aridez tumular da nossa alma nostálgica” (CALLAGE, 1920, p. 94). Em suas reflexãoes, o autor também se referiu às antigas festas e folguedos que não eram mais comemorados, como

festas de Natal, Ano Bom, Reis Magos, as festas juninas. Callage reporta-se aos tempos felizes que ficaram no passado e não sobreviveram ao presente. Para o autor, essa mudança estaria relacionada à falta de tempo para se recordar e reviver aquelas diversões que as pessoas viveram nos “bons tempos”, tais como ele. As pessoas já não se preocupavam em transmitir estas tradições para as novas gerações, ao passo que Callage se referia como um ser solitário em meio a tudo, “à margem do caminho”.

Nas suas obras, predominantemente, contos, podem ser encontrados vários elementos que fazem parte do check-list identitário. Entre eles estão as descrições sobre a paisagem, principalmente, no que se refere às representações simbólicas do gaúcho das coxilhas, sempre acompanhado de seu companheiro fiel, o cavalo. As lendas também ganharam espaço em sua obra. Na introdução de No fogão do gaúcho, Callage defende como única lenda de origem do Rio Grande do Sul o Negrinho do pastoreio. Segundo ele, não há outra que estiveja “diretamente ligada ao homem e ao meio, expressão típica do ambiente que a gerou” (CALLAGE, 1929, p. 5) e que as outras seriam de origem guarani ou ibérica. O autor não escondeu a sua frustração ao afirmar que, mesmo em meio a tantas produções poéticas do cancioneiro gaúcho, pouco se produziu em termos de lendas.

Sob este aspecto, ao mesmo tempo em que apresenta o “homem rústico”, segundo suas próprias palavras, como a origem dessas lendas, Callage admirou-se por não haver nenhuma que se ajustasse ao passado do Rio Grande do Sul, que remontasse a uma época em que o povo ainda estava preso às coisas do mundo sobrenatural. Não se criou um totemismo, para citar sua expressão, exclusivo no Rio Grande do Sul. A sua decepção não poupou sequer Simões Lopes Neto quando analisou Lendas do Sul, mesmo reconhecendo como uma “interessante coletânea”. A partir de sua ótica, Callage concluiu que ficou “claramente demonstrada a absoluta ausência de cor local que se verifica no argumento e no próprio fundo dessas crendices populares” (Callage, 1929, p. 7). A justificativa apresentada para essa pobreza de lendas constitui-se no fato de ter sido o Rio Grande do Sul o último território a ser povoado, vivendo entre constantes conflitos bélicos, o que não oferecia tempo para produzir textos que exaltassem os seus próprios heróis. Assim, foi mais fácil adotar o que já existia em terras distantes e adapta-las ao meio ambiente do Sul.