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4 A SALAMANCA DO JARAU

4.1 SALAMANCA, A CIDADE E A COVA

A palavra salamanca origina-se de uma cidade de mesmo nome na Espanha, e sobre ela recai uma fama que vem desde a Idade Média, relacionando vários fatores: a Igreja católica, a ciência da época, o domínio mouro na Península Ibérica e a crendice popular. Segundo Villar y Macias, as catedrais e monastérios guardavam a ciência da Europa. Em seus recintos, não apenas os mestres ensinavam como também eram guardados os preciosos livros, que eram copiados para serem criadas bibliotecas. Segundo esse autor, são numerosas “las pruebas de la existência de escuelas ó estudios eclesiásticos en la Edad-Media, y entre ellas es eficacísima la que ofrecen muchas constituciones de las iglesias de España”54

, sendo que em Salamanca, por exemplo, constatou-se a existência de mestre escola em 1179 (VILLAR Y MACIAS, 1887, p. 270-271). Aproveitando a estrutura dessas escolas, foi criada a Universidade de Salamanca por Alfonso IX. No entanto, Villar e Messias afirmou que “no se conoce documento alguno donde conste el año preciso de su fundación, que unos dicen haber tenido lugar á fines del siglo XII, y otros á principios del siguiente”55

(VILLAR Y MACIAS, 1887, p. 271). Apesar desse histórico, circulava entre o povo as histórias que diziam ser em Salamanca que se ensinavam as artes mágicas e a necromancia. Meyer traz um poema de Don Alonso de Ercilla y Zúñiga, do século XVI que fala sobre esse assunto:

Salamanca, que se muestra Felice en todas ciências, do solía

Enseñarse tambien nigromancia (MEYER, 1979, p. 179)

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Daniel Granada nasceu em Vigo (1847). Mudou-se muito jovem para Montevideo. Foi professor de literatura, escritor e filólogo. Em 1904 retorna à Espanha e ali permanece até a sua morte, em Madrid (1929). (ATENEO de Montevideo Fundadores).

54 “as evidências da existência de escolas ou estudos eclesiásticos na Idade Média, e entre elas, está a oferta muito eficaz de constituições das igrejas de Espanha”. Tradução minha.

55 “não se conhece qualquer documento onde conste o ano preciso de sua fundação, mas alguns dizem ter sido no final do século XII, e outros no começo do seguinte”. Tradução minha.

No entanto, o que levou Salamanca a receber essa fama se, conforme pergunta Villar y Messias, “el pueblo en cuyo general estudio siempre se enseñó sana y católica doctrina?”56

(VILLAR Y MESSIAS, 1887, p. 482). O próprio autor responde à pergunta:

Según se deduce de lo expuesto por el sabio maestro Pedro Ciruelo, débelo á la fatalidad de la constelación bajo que se halla España; aunque al afirmarlo caiga em visible superstición astrológica, precisamente en su libro de la Reprobación de las supersticiones y hechicerías, donde, después de atribuir á Zoroastro y los magos de Persia el origen de la nigromancía, asegura que en tempos pasados (sabido es que escribia al mediar el siglo XVI), se ejercitó en nuestra España, que es de la misma constelación que la Persia, principalmente en Toledo y Salamanca; y hé aquí cómo también por este ilustre escritor vuelve á ser nombrada Salamanca por su nigromántico saber57 (VILLAR Y MESSIAS, 1887, p. 483-484).

Muitos estudiosos apresentaram suas conclusões sobre o tema, que podem ser divididos sob dois enfoques: a primeira seria pelos ensinamentos mágicos de influência árabe e a segunda está relacionada aos cultos dos povos antigos. A versão que ficou mais conhecida está relacionada à cova de Salamanca, ou a “cueva de San Cébrian” que nada mais era do que a sacristia subterrânea da igreja de San Ciprian (MEYER, 1989, p. 175). O assunto provocou muitas discussões e estudos. Meyer apresentou alguns exemplos.

Um deles trata-se de Pedro Ciruelo, matemático e teólogo, já citado. Outro se refere ao padre Martin del Rio, autor do livro Pesquisas mágicas (1661), que afirmava ter conhecido o local em Salamanca onde se ensinava as artes negras; o lexicógrafo Don Sebastian Covarrubias, em seu livro Tesoro de la lengua castellana o española (1611), registrou que, o que se dizia sobre o ensino em Salamanca, das artes de encantamento e necromancia em uma cova na igreja de San Cébrian, não passava de fábula. A lenda sobre a cova na igreja de San Cébrian, em Salamanca, passou a ser tema literário e teatral, como o Entremés de la cueva de Salamanca (1615), de Cervantes. O escritor espanhol também empregou o tema das covas misteriosas em sua maior obra, D. Quixote, fazendo o seu personagem principal descer a “cueva de Montesinos” e narrar as suas peripécias nos capítulos XXII e XXIII (CERVANTES SAAVEDRA, 1997, p. 161-171).

56 “as pessoas em cujo amplo estudo se ensinou a sã e católica doutrina?”. Tradução minha. 57

“Segundo se deduz do exposto pelo sábio mestre Pedro Ciruelo, deve-se à fatalidade da constelação inferior que se encontra na Espanha; porém, ao afirma-lo cai em visível superstição astrológica, precisamente em seu livro da Reprovação das superstições e feitiçarias, onde, depois de atribuir a Zoroastro e aos magos da Pérsia a origem da necromancia, assegura que em tempos passados (sabido que escreveu em meados do século XVI), se exerceu em nossa Espanha, que é da mesma constelação que a Pérsia, principalmente em Toledo e Salamanca; E eis aqui como também por este ilustre escritor volta a ser nomeada Salamanca por seu necromântico saber”. Tradução minha.

Além de citar autores que afirmaram acontecer ensinamentos necromânticos na cova da igreja de San Cébrian, Villar e Messias relatou que o “conde de Guimerán, citado por don Adolfo de Castro, en sus Filósofos españoles, asegura que, para no ser descubiertos los que se dedicaban á la nigromancía, hacian sus enseñanzas de noche en bodegas, que en Castilla, dice, llaman cuevas”58

(VILLAR Y MACIAS, 1887, p. 485). A fama da igreja de San Cébrian, que se estendeu para toda a cidade, surgiu alguns séculos depois de sua fundação em 1156 sendo que, segundo Villar e Messias,

era muy pequeña y daba nombre á la cuesta llamada despues del Seminario de Carvajal; y en su memoria se puso en la plazuela una cruz con la estátua del Santo y este letrero: Esta fué la iglesia de San Cebriati; cruz que existió hasta fines del siglo XVIII59 (VILLAR Y MACIAS, 1887, p. 165-166).

Segundo o mesmo autor, a cova, que ficava atrás do altar, não era profunda, mas era ali que um sacristão ensinava, entre outras artes, astrologia, quiromancia e necromancia. Marcos Celestino também apresentou a mesma ideia, e ainda acrescentou que algumas versões da tradição local, no início do século XIV, afirmavam ser um estudante60 e outras ainda aludiam à presença do próprio diabo. Os dois autores, no entanto, tiveram consenso em um aspecto: o número de alunos deveria ser sete, assim como sete eram os anos de estudos. No final desse tempo, seria sorteado um dos sete alunos para pagar o mestre. No caso de o sorteado não ter como pagar a dívida, deveria ficar preso na cova (MARCOS CELESTINO, 2004, p. 164-165).

Há outro entendimento sobre a fama de Salamanca. À medida que a Universidade de Salamanca recebia seus estudantes e a instituição crescia, aos olhos do povo supersticioso a instituição se transformava em um lugar de mistérios onde eram praticadas atividades suspeitas, desconhecidas, perigosas e o mal poderia estar sendo realizado. Assim, com a dedicação aos livros e o emprego do latim por parte de acadêmicos e mestres, criou-se um temor em torno de todos os centros de estudos na Europa Medieval e isso deu a crença de que a Universidade estaria relacionada a qualquer tipo de práticas com o demônio (PAULA, 2010, p. 10-11).

58 “conde de Guimerán, citado por don Adolfo de Castro, em seu livro Filósofos españoles, asegura que, para não serem descobertos aqueles que se dedicavam à necromancia, tinham seus ensinamentos à noite em adegas, disse, chamadas de covas”. Tradução minha.

59 “era muito pequena e dava nome ao morro nomeado após o Seminário de Carvajal; em sua memória foi colocada na praça uma cruz com a imagem do santo e este sinal: Esta foi a igreja de San Cebriati; Cruz, que existiu até o final do século XVIII”. Tradução minha.

60 O texto original traz a palavra bachiller que pode ser traduzida por estudante, no caso da Universidade de Salamanca.

A igreja de San Cébrian encontrava-se bastante arruinada em 1580. Quatro anos depois foi demolida e suas pedras foram usadas para a construção da Catedral Nova (VILLAR Y MACIAS, 1887, p. 165). Da igreja restou apenas uma parte da caverna, o seu piso, a abóbada de pedra, e a porta com os degraus que levavam até a igreja (VILLAR Y MACÍAS, 1887, p. 489). Porém, a fama da cova de Salamanca atravessou o oceano Atlântico. Meyer explicou que “a palavra Salamanca aparece mais tarde como simples nome comum, sobretudo na América, designando as cavernas encantadas, e foi nesta acepção que a empregou Simões Lopes Neto” (MEYER, 1979, p. 176).