Capítulo IV: História como Teodicéia
4.3 Rousseau contra a doutrina do pecado original
A ideia, amplamente aceita entre os religiosos de seu tempo, é de que o homem seja o responsável pelos sofrimentos de que padece. Ao pecar pela primeira vez, teria sido banido do paraíso , atraindo para si todos os males. 200 Segundo essa narrativa, pelo pecado original, teria o homem adquirido uma mácula da qual não poderia livrar-se, o que tornaria a natureza humana originalmente má. Diante da “queda”, caberia ao homem esperar com paciência o julgamento divino para sua redenção ou punição eterna.
Segundo Cassierer, Rousseau, rejeita veementemente essa doutrina:
Apesar de toda sua emoção religiosa genuína e profunda, o que separava Rousseau de modo irrevogável de todas as formas tradicionais de fé era o modo decisivo pelo qual rejeitava qualquer ideia sobre o pecado original do homem. 201
Rousseau combateu essa doutrina em vários de seus trabalhos, podendo ser mencionados a Memória ao Sr. de Mably, as Cartas escritas da Montanha e a Carta ao Sr. de Beaumont. Nessa última, Rousseau aponta as contradições expressas na doutrina do pecado original, apelando ao sacramento do batismo. Segundo ele, se, teoricamente, o batismo deveria purificar a alma de todo mal, restituindo-o à inocência, como poderia um batizado ser considerado culpado após o sacramento.
Selon cette même doctrine, nous avons tous dans notre enfance recouvré l’innocence primitive; nous sommes tous sortis du baptême aussi sains de cœur qu’Adam sortit de la main de Dieu. Nous avons, direz-vous, contracté de nouvelles souillures: mais puisque nous
Holy Bible. Genesis. Chapter 4. In: <https://en.wikisource.org/wiki/Translation:Genesis>
200
Cassierer. A Questão Jean-Jacques Rousseau. In: Sadek e Quirino. O Pensamento
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avons commencé par en être délivrés, comment les avons-nous derechef contractées ? 202
Nessa carta, ele até mesmo questiona a presença de tal ensinamento no texto das Sagradas Escrituras, argumentando que a doutrina do pecado original seria uma invenção dos teólogos e incompatível com a Suprema justiça e bondade.
D’abord il s’en faut bien, selon moi, que cette doctrine du péché originel, sujette à des difficultés si terribles, ne soit contenue dans l’Écriture, ni si clairement ni si durement qu’il a plu au rhéteur Augustin & à nos Théologiens de la bâtir ; & le moyen de concevoir que Dieu crée tant d’ames innocentes & pures, tout exprès pour les joindre à des corps coupables, pour leur y faire contracter la corruption morale, & pour les condamner toutes à l’enfer, sans autre crime que cette union qui est son ouvrage? Je ne dirai pas si (comme vous vous en mentez) vous éclaircissez par ce systême le mystere de notre cœur, mais je vois que vous obscurcissez beaucoup la justice & la bonté de l’Être suprême. 203
Essa maneira de enxergar a relação entre o plano divino e a história da humanidade, apesar de ter sua origem em um pensamento bíblico, rompe com o cristianismo vigente em um ponto muito fundamental. De acordo com a teologia tradicional, a salvação da alma apenas seria possível àquele que é redimido pela Graça divina. Agostinho, por exemplo, sustenta que ao homem cabe apenas aceitar com resignação qualquer que seja o seu destino conforme [De acordo com essa mesma doutrina, todos nós, em nossa infância, recuperamos a
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inocência primitiva; nós saímos do batismo tão sadios de coração como Adão das mãos de Deus. Nós teríamos, você irá dizer, nos contaminado novamente: mas uma vez que havíamos nos livrado do mal, como o contraímos novamente?] Lettre à M. de Beaumont. Collection complète des œuvres de J. J. Rousseau, 1782 (Tome 6 : Mélanges (1), pp. 3-118). In: < https:// fr.wikisource.org/wiki/%C3%80_Christophe_de_Beaumont>(tradução nossa)
[Em primeiro lugar, eu não acredito que essa doutrina do pecado original, sujeita a
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dificuldades terríveis, está contida nas escrituras, nem tão claramente e nem tão duramente como aprazia ao retórico Agostinho e aos nossos teólogos construir. E os meios de se conceber que Deus cria tantas almas inocentes e puras, expressamente para uni-las a corpos culpados, a fim de fazê-los contrair a corrupção moral e condená-los todos ao inferno, por nenhum outro crime a não ser por essa união que é seu trabalho? Eu não direi (como você mente para si mesmo) que se clarifica por meio desse sistema o mistério do nosso coração, mas eu vejo que você obscurece enormemente a justiça e a bondade do Ser Supremo.]Lettre à
M. de Beaumont. Collection complète des œuvres de J. J. Rousseau, 1782 (Tome 6 : Mélanges
(1), pp. 3-118). In:<https://fr.wikisource.org/wiki/%C3%80_Christophe_de_Beaumont> (tradução nossa)
a vontade de Deus. Mas Rousseau rejeita tipo de pensamento em nome de uma certa noção acerca do Ser Divino:
Não vou tão longe quanto Agostinho que se teria consolado com a danação de tal tivesse sido a vontade de Deus. Minha resignação vem de uma fonte menos desinteressada, é verdade, mas não menos pura e mais digna, na minha opinião, do Ser perfeito que adoro. Deus é justo; não quer que eu sofra; e ele sabe que sou inocente. Eis o motivo da minha confiança, meu coração e minha mente proclamam que ela não me enganará. Deixemos, portanto, agir os homens e o destino; aprendamos a sofrer sem murmurar; tudo deve por fim, voltar à sua ordem e cedo ou tarde minha vez chegará.204
Segundo Rousseau, segue-se da bondade de Deus que ele seja justo e que, portanto, não faça sofrer um inocente. Ademais, a ideia de que tudo retornará à ordem cedo ou tarde, coaduna-se novamente com a tese que estamos a defender, de que, para Rousseau, o retorno do homem à companhia divina é uma questão de tempo.
Segundo Hendel, em Rousseau Moralist, foi a proximidade com o Padre Lamy que o levara a reinterpretar a relação entre queda e salvação. Segundo Lamy, o ser humano poderia intervir em sua própria vida e salvar-se pelos seus próprios méritos.
Padre Lamy pregou contra a impureza da paixão, vaidade, orgulho e egoísmo do homem. Ele lembrava seu jovem pupilo de sua inevitável cegueira, o despertava para a transitoriedade da vida e a verdade da eternidade. (…) O errante pecador pode salvar-se trazendo alguma regularidade à sua existência diária, levantando-se todos o s d i a s e m u m c e r t o h o r á r i o , t r a b a l h a n d o persistentemente em seus afazeres sem sucumbir à tentação de se entreter com novelties, tomando seu descanso e recreação em tempos definidos, e assim por diante. - o movimento de seu dia seria teria um regime como o da natureza, o trabalho do divino criador. 205
DCS. Segunda Caminhada. p.38.
204
Hendel, C.W. Jean-Jacques Rousseau Moralist. New York: Oxford Press, 1934. p. 3.
Essa interpretação é muito cara à Rousseau que, como já foi visto, sugere ao homem que conheça a si mesmo, negando assim a corrupção já instalada em sua sociedade. Mas o filósofo vai ainda mais longe em sua reinterpretação da “queda", já que, como já havíamos visto, é a partir do afastamento do homem em relação à ordem que a total realização do plano divino pode ser engendrada. Para Rousseau está claro que faz parte dos desígnios da Providência dotar o homem da capacidade de ultrapassar as suas inclinações naturais. Como coloca, em suas Cartas Morais:
(...) dado que Deus é a fonte de toda sabedoria, ele pretende que nós nos governemos segundo os princípios de sabedoria que colocou em nosso espírito. Ter-lhe-ia sido possível, portanto, obrigar-nos a isso, e fazer com que seguíssemos necessariamente a ordem de seus decretos, que são os fundamentos da virtude e da religião. Mas vendo o modo como os homens se conduzem neste mundo, logo nos convencemos de que eles não seguem absolutamente a ordem cujos princípios estão gravados no fundo de seus corações. É preciso, portanto, que Deus não tenha empregado seu poder infinito para forçá-los a agir dessa forma, pois seria absurdo imaginar que os homens pudessem, de alguma maneira, furtar-se a essa ordem. Se examinarmos agora as consequências disso, descobriremos a imensa fonte de benefícios que aprouve a Deus derramar sobre os homens, e os meios que lhes colocou nas mãos para que possam se tornar felizes.206
Depreende-se da teodicéia rousseauísta que a possibilidade de negar a ordem divina faz do humano, humano, dado que a obediência do animal não ocorre pelo desejo de obedecer, mas principalmente por impossibilidade de se fazer outra coisa. O homem seria, portanto, o único ser capaz de fugir à ordem causal por conta da sua liberdade. Essa possibilidade não seria, entretanto, mero capricho de Deus, que teria desejado dar movimento ao mundo, mas faria parte de um plano para dotar o homem de felicidade. Mas não é pouco o que deve passar o homem para atingir os objetivos de sua criação. Afinal, afastar- se da ordem traz consequências devastadoras para seu si. Longe de Deus e
Rousseau. Fragmentos sobre Deus e Sobre a Revelação. Tradução Brasileira Adalberto
206
Luiz Vicente. In: Escritos sobre a Religião e a Moral. Clássicos da Filosofia: Cadernos de Tradução n2: IFCH/UNICAMP, 2002.
de sua benevolência, o homem, ao criar um universo próprio, cria também o mal.