3 DIÁLOGO DE LARS VON TRIER COM O DESENVOLVIMENTO DO SOM
3.1 O boniementeur e os bruitistes – um elo perdido do período silencioso
3.1.2 Ruídos de sala uma interface entre o cinema e o teatro
Outra figura importante dentro do espetáculo cinematográfico dos promórdios do cinema era o sonoplasta81, responsável por produzir os sons relacionados às imagens projetadas. Segundo Barnier (2010), a partir de 1899, já existiam os bruitistes ou bruisseurs, como eram chamadas as pessoas responsáveis por produzir os bruits (barulhos/ruídos) nas seções. Atualmente, utiliza-se o nome bruiteur ou bruitage para denominar o profissional responsável pelos ruídos (efeitos sonoros) de um filme.
Esta denominação variável significa também que o status profissional não foi definido rapidamente e não se estabilizou. A tradição do teatro e dos
81 No Brasil, utilizamos essa palavra que remete à pessoa responsável por produzir ruídos nas coxias do teatro. De origem greco-latina, o termo sonoplastia contém um significado interessante: do latim sono, significa som; e do grego plastós significa modelado. Na sua significação, aproxima-se muito de design de som, remetendo à ideia de manipulação do som.
‘ruídos de coxias’82 se mistura à da ópera para explicar a presença desses assessores83 ativos durante as projeções84. (BARNIER, 2010, p. 121). A sonoplastia foi se desenvolvendo e, durante os anos de 1906 a 1914, ganhou um destaque nos acompanhamentos dos filmes. Algumas empresas começaram a desenvolver equipamentos específicos para serem utilizados na sonorização dos filmes. Esse trabalho nem sempre era profissionalizado. Sobretudo nas seções que contavam com a participação de amadores na função, tinha a sincronia comprometida. Porém nos cinemas mais importantes e teatros, alguns profissionais mais experientes se destacaram no seu ofício. Muitas vezes, os bruitistes ficavam no fosso da orquestra, adotando procedimentos característicos da ópera, onde se utiliza a música de fosso (musique de fosse), na qual ouvimos a sonoridade produzida pela orquestra, sem observar a performance dos instrumentistas (BAPTISTA, 2007).
No Brasil, tivemos experiências de sincronização de ruídos nas salas de cinema. Costa (2006) destaca a presença desses personagens nas sessões: “Em 1912, no Íris Theatre de Serrador, em São Paulo, utilizava-se um contra-regra para imitar os ruídos sugeridos durante os filmes, ‘para lhes dar mais realidade’” (COSTA, 2006, p. 76).
O curioso é que a notícia nos chega em forma de reclamação. Araújo encontra matéria de O Pirralho de 20 de janeiro de 1912 que, de forma irônica, comenta que “os que sentam na primeira fila ficam quase surdos com o barulho de cavalaria produzido por um cavalo só” (apud ARAÚJO, 1981, p. 206). Na Bahia, Walter da Silveira comenta que o exibidor João Oliveira contratava, para o Cinema Jandaia, sonoplastas “que imitavam tempestades, mares revoltos, duelos, tiros” (SILVEIRA, 1978, p. 22). No Paraná, Aníbal Requião, cineasta e exibidor pioneiro no estado, é citado por Roberto Moura. Suas projeções teriam sido acompanhadas não só por pianolas e por um oboé, mas também por repicar de sinos nas paixões de Cristo e ainda “por queima de incenso nos filmes mais românticos” (COSTA, 2006, p. 77).
82 Tradução para “bruits de coulisse”, referência aos ruídos que eram lançados nas coxias para sonorizar os espetáculos teatrais e operísticos.
83 Tradução para o termo accessoriste, que pode ser traduzido pelo menos usual aderecista, que designa a pessoa responsável por gerir aspectos cenográficos, sonoros e técnicos que dão suporte ao espetáculo cênico.
84 “Cette appellation variable signifie aussi que le statut professionnel n’a pas été défini rapidement et ne s’est pas stabilisé. La tradition du théâtre et de ses bruits de coulisse se mêle à celle de l’opéra pour expliquer la présence de ces accessoiristes actifs pendant les projections.” (Tradução do autor).
A função do criador de ruídos antecipa, de alguma forma, o foley artist85 (artista foley), que produz os sons para as ações vistas na tela dentro de um ambiente de gravação de áudio, quando se torna possível a sincronização em suporte físico de som e imagem. Os sons criados ao vivo na sala de exibição apontam para a função crucial que o som começa a ganhar, o de suporte para se contar a história e criar uma imersão na narrativa.
É importante observarmos essa relação entre o teatro e a ópera existente na criação da linguagem cinematográfica. O sonoplasta remete aos espetáculos cênicos que se utilizam da mesma técnica de produzir sons que auxiliam a história e a intensificação da experiência sensorial.
Além da figura do bonimateur anteriormente citada, esse outro aspecto mais rudimentar da criação sonora, aqui associado à sonoplastia, também se faz presente na obra de Lars von Trier. Deparamo-nos com isso, mais enfaticamente, nos filmes Dogville (2003) e Mandelay (2005). Ambos foram concebidos segundo uma lógica que se aproxima bastante do espetáculo teatral, com poucos elementos visuais, carecendo de elementos sonoros para contar a história. Nessa ausência de elementos visuais, o som auxiliará na narrativa na marcação de ações importantes, indicando a passagem do tempo.
A sonoplastia carrega consigo uma simplicidade no processo de sonorização, visto que, muitas vezes, encontramos uma ênfase no sincronismo, porém as diversidades sonoras são simplificadas. Por exemplo, cada porta tem especificidades de sonoridade, bem como cada som de sapato ou o motor de um carro. Essas particularidades podem ser captadas num processo de som direto, ou mesmo dentro da criação de efeitos sonoros no cinema, onde cada vez conseguimos uma maior especificidade dos sons. Todavia, no processo de sonoplastia, sobretudo no início do cinema, trabalhamos com signos sonoros (SANTAELLA, 1989; CARVALHO, 2007) que visam basicamente ilustrar as ações da tela.
Esse caráter rudimentar dos efeitos sonoros nos dois filmes supracitados evocam essa herança do início do cinema sonoro, da tradição dos sonoplastas e, sobretudo, a relação transversal existente entre as linguagens cinematográfica, do teatro e da ópera. O destaque para esses elementos sonoros é um marco importante do cinema de Lars von Trier, que atualiza algumas tradições menos enfatizadas.
As duas obras supracitadas da filmografia do diretor se conectam diretamente com essa tradição do cinema. Em Dogville, a ausência de vários objetos no cenário cria um
85 O nome foley é uma homenagem ao pionerio no ofício e reconhecido artista chamado Jack Foley (AMENT, 2008).
contexto sonoro muito próximo da figura do sonoplasta presente nas coxias do teatro, buscando empregar materialidade ao que é encenado. Essa relação é recontextualizada no filme em questão e remonta às primeiras tentativas de cinema sonoro. O aspecto rudimentar e generalista dos sons utilizados reforça essa semelhança, compravando que eles estão ali mais como um elemento criador da imersão da experiência fílmica do que por uma necessidade de verossimilhança absoluta em relação ao contexto sonoro do set de gravação.