4. MÉTODO DE PESQUISA
4.5 PROCESSO DA PESQUISA
5.1.1 Compreensão preliminar do problema
5.1.1.6 Síntese da compreensão preliminar do problema
Com base no que foi exposto, pode-se perceber que existe uma clara tendência a se buscar formalizar o processo dos empreendimentos a partir do seu planejamento e prescrição em detalhe das suas atividades constituintes, trocas de informações e entregáveis. Este tipo de abordagem parte da premissa que o processo é simples.
Ao contrário da premissa adotada no planejamento dos empreendimentos, verificou-se a presença de certas características de complexidade nesse processo (grande e variado número de elementos e interdependências, e significativa incerteza), demandando a adoção de uma abordagem colaborativa de desenvolvimento. Entretanto, observou-se uma excessiva segmentação dos processos entre os diferentes setores da empresa, em parte pela influência da abordagem tradicional de gestão de empreendimentos.
Além disso, uma característica determinante identificada nos empreendimentos é a velocidade. Os prazos estipulados para o desenvolvimento dos empreendimentos são relativamente curtos (75 dias para projeto e 100 dias para obra), considerando que dentro do prazo é necessário esperar a aprovação dos projetos por parte de órgãos públicos e que as edificações contemplam uma grande quantidade de detalhes e sistemas construtivos. Ademais, o prazo dos empreendimentos é normalmente restrito, isto é, o início depende da liberação do shell por parte do empreendedor e o termino de questões comerciais e estratégicas da empresa. Neste contexto, as atividades dos empreendimentos vêm sendo realizados de forma paralela e simultânea, resultando no aumento das interdependências e consequentemente do impacto da incerteza.
Apesar do contraste entre a abordagem prescritiva utilizada no planejamento e a abordagem colaborativa efetivamente utilizada em execução, o controle do processo tem ainda sido exercido mais através do controle dos entregáveis, e menos pelo controle direto da execução das atividades. Tal contraste também se manifesta nas formas de contratação, onde contratos bilaterais de natureza clássica19 acabam sendo ofuscados pelas relações de parceria que vem
sendo estabelecidas entre a empresa e escritórios de projetos, gerenciadoras e construtoras.
O caráter informal da abordagem colaborativa empregada tem contribuído para que possíveis oportunidades de melhorias permaneçam ocultas. Diversas melhorias podem ser implementadas por meio da aplicação de conceitos, princípios e práticas da filosofia Lean e da abordagem Agile Project Management, podendo ser destacadas as seguintes: incrementar a colaboração entre os intervenientes, explicitando os processos colaborativos; criar mecanismos de aprendizagem em pequenos ciclos; aumentar a transparência de processos da empresa; aumentar a confiabilidade dos processos pela gestão de compromissos; e tornar a medição de desempenho proativa, sistemática e focada no desempenho global.
Com base nos dados coletados, pode-se constatar a necessidade de uma mudança no paradigma que serve de base para a formalização dos processos de gestão de empreendimentos. O paradigma no qual tais processos se apoiam (denominada de abordagem
19 No entendimento de Williamson (1979), os contratos de natureza clássica têm o objetivo de facilitar o
intercambio aprimorando a “discrição” e intensificando a “apresentação”, e implicam a contratação abrangente com a premissa de que todas as contingências futuras relativas ao fornecimento do bem ou serviço podem ser previstas e definidas. Segundo o mesmo autor, nem todas as contratações se encaixam confortavelmente no esquema de contratação clássica, em particular, contratos de longo prazo executados em condições de incerteza, onde a apresentação completa pode ser proibitivamente cara, se não impossível.
Cristian Cevallos Jaramillo ([email protected]) – Dissertação de Mestrado – PPGCI/UFRGS, 2018
tradicional) reside na crença de que a complexidade estrutural e a incerteza são relativamente baixas.
Por outro lado, a filosofia Lean e a abordagem APM foram concebidas considerando a existência da incerteza e a incapacidade do pensamento racional para prever todas as situações possíveis. Ambas têm ênfase na aprendizagem e melhoria contínua, na colaboração entre os intervenientes, e no detalhamento progressivo dos planos. De fato, estas últimas abordagens já vêm sendo adotadas parcialmente e de maneira informal para solucionar ou superar aqueles problemas nos quais a abordagem tradicional provou não ser eficaz, gerando um conflito entre o processo de empreendimento tal como prescrito, e aquele efetivamente desenvolvido.
A aceitação e reconhecimento desta necessidade de mudança é a base para possibilitar que se explore uma série de oportunidades de melhoria, as quais são descritas na Figura 44, organizadas segundo o tema envolvido.
Figura 44: Oportunidades de melhoria na gestão de empreendimentos identificadas a partir do diagnóstico
Tema Oportunidades de melhoria
Processo de empreendimentos
Construir um mapa amplo de processo dos empreendimentos, que permita enxergar o empreendimento como um todo, com caráter prescritivo, mas sem elevado detalhamento das atividades, visando definir uma visão única do processo para todos os intervenientes e, simultaneamente, reconhecer e preservar níveis adequados de autonomia dos mesmos. Formalizar alguns procedimentos e ferramentas referentes ao processo dos empreendimentos, criando um sistema de documentação hierárquico e conciso, visando a padronizar algumas atividades e melhorar a gestão de conhecimento na gestão de empreendimentos.
Explicitar os processos colaborativos e o papel de cada interveniente ao longo do processo. Sistema de
Planejamento e Controle de Empreendimentos
Implementar de forma gradual um sistema de planejamento e controle de empreendimentos hierárquico, colaborativo, com curto ciclo de controle e ênfase na gestão de compromissos. Podem ser adaptadas algumas ideias do Sistema Last Planner e do método Scrum, que correspondem às abordagens Lean e Agile respectivamente.
Criação de painéis de controle em diferentes níveis hierárquicos, visando a aumentar a transparência, destacando os indicadores que têm maior importância na empresa.
Relação com fornecedores e governança da cadeia de suprimentos
Promover um maior envolvimento nas fases iniciais dos empreendimentos dos parceiros externos ou fornecedores (escritório de projetos, gerenciadora e construtora).
Aprimorar os incentivos à cooperação dos parceiros, incluindo a formulação de uma política de fornecedores, o aperfeiçoamento do sistema de avaliação de desempenho adotado e o alinhamento de mecanismos de recompensas e compartilhamento de riscos.