CAPÍTULO 2 – Revisão bibliográfica
2.4 Deposição de lípidos no tecido muscular
2.4.2 Síntese de triacilgliceróis no tecido muscular
A síntese de TAG no músculo ocorre ao nível dos adipócitos intramusculares(Hocquette et al., 2005a; Smith and Grouse, 1984). De um modo geral, a síntese de TAG nos tecidos, ou lipogénese, envolve dois processos bioquímicos. Por um lado, a hidrólise pela LPL dos lípidos transportados pelas lipoproteínas (quilomicrons e VLDL), cria um aumento de concentração de AG livres o que aumenta a probabilidade de serem absorvidos pelos adipócitos, e por outro, a síntese endógena de AG (síntese de novo) a partir de glucose ou de AGV produzidos no rúmen.
2.4.2.1 Síntese de novo de ácidos gordos
A síntese de novo de AG necessita de dois elementos, por um lado, uma reserva de acetil-CoA (citoplasmática) e por outro, a presença de equivalentes redutores, sob a forma de NADPH (Laliotis et al., 2010). O acetil-CoA pode ter origem em diferentes precursores (glucose, aminoácidos, lactato, piruvato ou acetato). Embora o acetato seja claramente o principal precursor dos AG nos animais ruminantes, iremos dar mais importância à lipogénese a partir da glucose, uma vez que é preponderante no tecido adiposo intramuscular, podendo contribuir para 50 a 75% dos carbonos dos AG sintetizados de novo(Smith and Grouse, 1984) naquele depósito lipídico. De facto, Hocquette et al. (2005) mostraram que a expressão da GLUT4 (iso-forma 4 do transportador de glucose) bem como a atividade da PFK (fosfofrutoquinase) e da ATP-citrato liase foram maiores na gordura intramuscular do que no tecido adiposo subcutâneo, indicando um maior potencial para a síntese de acetil-CoA a partir de glucose o que sugere que o IMF apresenta uma maior capacidade para sintetizar AG a partir de glucose comparativamente aos restantes depósitos de gordura da carcaça. Estas diferenças metabólicas, entre os diferentes depósitos de gordura, podem ter importantes consequências na produção animal(Hocquette et al., 2010, 2007).
As duas enzimas chave da lipogénese a partir da glucose são a ATP-citrato liase e a NADP-malato desidrogenase, por vezes também designada como enzima málica (Drackley, 2000). A síntese de AG a partir da glucose inicia-se pela transformação citoplasmática da glucose em piruvato, pela via da glicólise, seguida de descarboxilação oxidativa mitocondrial a acetil-CoA, graças à PDH (piruvato desidrogenase) (Figura 2.11). O acetil-CoA é transformado em citrato no ciclo de Krebs, por condensação com oxaloacetato. Nos tecidosonde ocorre síntese de AG algum do citrato é transportado para o citoplasma onde é utilizado como fonte de acetil-CoA.
No citoplasma, a ATP-citrato liase catalisa a transformação do citrato a acetil-CoA, ficando este disponível para a lipogénese. Quando isto ocorre, permite também a libertação de oxaloacetato, posteriormente convertido a malato pela NAD-malato desidrogenase. Posteriormente, a enzima málica catalisa a descarboxilação oxidativa do malato a piruvato. Este piruvato reentra para a matriz mitocondrial. O resultado final deste ciclo de reações é o transporte de acetil-CoA da matriz mitocondrial para o citoplasma. Em resultado da ação da
enzima málica, ocorre também a redução do NADP+ a NADPH,produzindo-se deste modo
Figura 2.11– Esquema simplificado da síntese de novo de ácidos gordo no tecido adiposo intramuscular.
[ACC – Enzima acetil-CoA carboxilase; ATP-CL – Enzima ATP-citrato liase; GLUT4 – iso-forma 4 do transportador de glucose; EM – Enzima málica; FAS – Enzima sintetase de ácidos gordos; PDH – Enzima
uma parte do poder redutor necessário à síntese de AG (Drackley, 2000). O restante NADPH necessário é produzido a partir de glucose pela via das pentoses e a partir do iso-citrato pela via da iso-citrato desidrogenase(Laliotis et al., 2010; Nafikov and Beitz, 2007).
A iniciação da síntese começa graças à acetil-CoA carboxilase, a enzima que catalisa a carboxilação do acetil-CoA a malonil-CoA — o verdadeiro dador de unidades acetil para o processo de elongação — e que constitui a etapa limitante da lipogénese (Drackley, 2000). A biossíntese de palmitato é catalisada pela sintetase de ácidos gordos (FAS, fatty acid sintetase) e é frequentemente resumida pela seguinte equação (Drackley, 2005; Laliotis et al., 2010):
Acetil-CoA + 7 malonil-CoA + 14 NADPH + 14 H+ palmitato + 7 CO
2 + 8 CoA + 14 NADP+ + 6 H2O
A sintetase de AG (FAS) é um complexo enzimático que consiste de duas cadeias polipeptídicas multifuncionais, cada uma contendo sete enzimas distintas necessárias àelongação do acetil-CoA até ácido palmítico (Drackley, 2000). Para além do acetil-CoA, o propionil-CoA também pode ser utilizado como precursor na síntese de novo de AG. Neste caso, produzem-se AG de cadeia ímpar (OCFA), normalmente com 15 ou 17 carbonos. O metil-malonil-CoA pode também substituir o malonil-CoA na reação de elongação resultando neste caso na formação de AG de cadeia ramificada (BCFA) (Drackley, 2000; Laliotis et al., 2010).
2.4.2.2 Elongação, dessaturação e esterificação dos ácidos gordos
O principal produto final da síntese de novo de AG nos tecidos dos ruminantes é normalmente o ácido palmítico, podendo este constituir cerca de 20 a 30% do total de AG presente no tecido adiposo (Drackley, 2000). Nos lípidos do tecido adiposo dos ruminantes estão também presentes quantidades consideráveis de 18:0 e c9-18:1. Estes AG podem ter origem nos TAG transportados pelas lipoproteínas ou serem produzidos a partir do 16:0 por elongação e dessaturação da cadeia hidrocarbonada.
A elongação do 16:0 a 18:0 ocorre devido à ação das enzimas elongases de AG localizadas no retículo endoplasmático. O malonil-CoA é a fonte dos 2 carbonos adicionais necessários (Drackley, 2000). A concentração de 18:0 é regulada pela presença da enzima estearoil-CoA dessaturase (SCD), responsável pela conversão do 18:0 a c9-18:1, por inserção de uma dupla ligação no carbono Δ9, ou seja, o nono carbono contado a partir do grupo metilo terminal (Paton and Ntambi, 2009).
Para além do 18:0, muitos outros AG podem ser dessaturados por ação da mesma enzima (14:0, 16:0, 17:0 e t7-18:1, e provavelmente também o t13-18:1, t14-18:1 e t15-18:1)
originado c9-MUFA (Cook and McMaster, 2002) e alguns dienos c9,tx (Bessa et al., 2015). Do mesmo modo, grande parte do c9,t11-18:2 presente na carne dos ruminantes resulta também da dessaturação do t11-18:1.Palmquist et al. (2004) estimaram que 45 a 95% do ácido ruménico presente no músculo e no tecido adiposo de borregos seja sintetizado endogenamente. A atividade da enzima SCD aumenta à medida que o animal acumula tecido adiposo(Smith et al., 2009b) e com a alimentação com concentrados, num efeito mediado pela insulina (Daniel et al., 2004). Por outro lado, a suplementação das dietas com PUFA, principalmente com n-3 PUFA, tende a reduzir a atividade da enzima SCD(Daniel et al., 2004).
Contudo, os animais vertebrados não têm dessaturases capazes de inserir duplas ligações, quer na posição n-6, quer na posição n-3, pelo que o 18:2n-6 e o 18:3n-3 são considerados AG essenciais (Cook and McMaster, 2002). A incapacidade de os animais vertebrados sintetizarem estes AG essenciais dá origem a dois subgrupos distintos de LC-PUFA, nomeadamente os da série n-3 e n-6. Estes LC-PUFA da série n-3 e n-6 (Figura 2.12) podem ser sintetizados a partir dos respetivos precursores (18:3n-3 e 18:2n-6) através de uma série de dessaturações realizadas pelas enzimas Δ5 e Δ6-dessaturase, comuns a ambas as séries de AG (Cook and McMaster, 2002).
A preferência das enzimas de dessaturação pelos AG precursores da série n-3, relativamente aos da série n-6, nos mamíferos é consensual (Raes et al., 2004). Por exemplo, a afinidade da enzima Δ6D pelo 18:3n-3 é 2 a 3 vezes superior à que tem Figura 2.12– Esquema simplificado da dessaturação e alongamento dos ácidos gordos das séries n-9, n-6 e n-3.
ARA – ácido araquidónico (20:4n-6); EPA – ácido eicosapentaenóico (20:5n-3); DPA – ácido docosapentaenóico (22:5n−3); DHA – ácido docosahexaenóico (22:6n-3)
DPA DHA 18:3n-3 18:1n-9 Δ6-dessaturase enlongase Δ5-dessaturase enlongase Δ4-dessaturase Série n-9 Série n-3 18:2n-6 Série n-6 EPA 20:4n-3 18:4n-3 20:3n-9 20:2n-9 18:2n-9 22:3n-9 22:4n-9 ARA 20:3n-6 18:3n-6 22:4n-6 22:5n-6
pelo 18:2n-6 (Cook and McMaster, 2002). Contudo, as membranas celulares dos mamíferos apresentam uma incorporação preferencial de 18:2n-6 comparativamente à de 18:3n-3 (Wood et al., 2008). Assim, a proporção de n-6 LC-PUFA é geralmente maior do que a de 18:3n-3 nos tecidos dos ruminantes, sendo que os LC-PUFA mais abundantes nos tecidos dos ruminantes são, por ordem decrescente, o 20:4n-6, o 22:5n-3 e o 20:5n-3 (Wood et al., 2008).
Na carne dos animais ruminantes, a maior parte dos AG encontram-se esterificados sob a forma de TAG ou FL. As vias metabólicas de síntese de TAG e FL são constituídas por um conjunto de 4 reações bioquímicas das quais as 3 primeiras são comuns e resultam na formação de 1,2-diacilglicerois(Drackley, 2000). A esterificação dos AG com o glicerol ocorre na superfície citoplasmática do retículo endoplasmático (Drackley, 2000). A especificidade da distribuição dos AG nos TAG é determinada durante a esterificação do glicerol-3-fosfato com dois AG, seguida de incorporação de um terceiro AG. No tecido adiposo, os SFA, nomeadamente o 16:0 e o 18:0, são predominantemente esterificados na posição sn-1 enquanto a posição sn-2 é predominantemente ocupada por AG de cadeia curta, BCFA, AG insaturados, especialmente ácido linoleico, e isómeros c-18:1. Na posição sn-3 encontram- se esterificados principalmente LC-PUFA e isómeros t-18:1 (Demeyer and Doreau, 1999). Tipicamente, os glicerofosfolípidos contêm um SFA na posição sn-1 e um PUFA na posição sn-2 (Mapiye et al., 2012a).