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4. APRESENTAÇÃO DO CONTEXTO DA PESQUISA

4.3. Descrição da Formação de Multiplicadores

4.3.4. Síntese do 4º semestre (fevereiro junho/2013)

Foram realizados 11 encontros com os multiplicadores ao longo do semestre, com duração média de 2,5 horas cada. O semestre de curso contou com 3 encontros teóricos, 6 práticos e 2 de planejamento.

No primeiro encontro do semestre, multiplicadores informaram que o CCA5 começa o ano com 123 alunos e o CEI com 80. As instituições iriam participar de um projeto voltado para a profissionalização de jovens de 16-20 anos, designando profissionais responsáveis. Outra novidade também foi a iniciativa espontânea do grupo de multiplicadores que passou a se reunir quinzenalmente aos sábados, para discutir os conteúdos da formação.

Os multiplicadores expuseram suas expectativas para o semestre: aprofundar a compreensão sobre o diálogo; entender como aplicar este conhecimento no cotidiano; compreender se há a possibilidade de diálogo com o poder público e entender como os benefícios desta formação podem se estender à coletividade. Neste grupo, mais uma vez, surgiu o questionamento por parte de um dos líderes comunitários: “como mobilizar as pessoas a participarem”.

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35 Esteve também em pauta no grupo um debate sobre os limites da atuação dos multiplicadores, a partir de uma fala de um líder comunitário. Ele relatou uma desilusão com relação à participação da comunidade e do grupo, bem como a dificuldade em se relacionar com o poder público, afirmando que os problemas não se encerravam no trabalho das instituições comunitárias, mas sim, que o trabalho devia se expandir e abarcar outros problemas da comunidade, como o cuidado com o meio ambiente, por exemplo, e que assim seria necessário trabalhar com o poder público para resolvê-los, dizendo ainda que seria ingenuidade não envolver o governo nestas questões. Outros participantes também expressaram suas opiniões, algumas consonantes e outras que discordavam desta posição. Entre as que discordavam, afirmava-se que não havia possibilidade dos educadores realizarem mais uma função, pois já estavam sobrecarregados. Defendeu-se também a autonomia da população para lidar com estas questões, cabendo ao multiplicador fortalecê-la.

Este diálogo se estendeu por outros grupos ao longo do semestre, com intervenções do ECOFAM no sentido de esclarecer a compreensão dos multiplicadores sobre os limites de seu trabalho. Diante de tal discussão, o ECOFAM procurou compreender quem e quantos eram os multiplicadores neste semestre (oito no momento de realização deste encontro) e como o projeto de formação se encaixava nos trabalhos das instituições. Os educadores esclareceram que no momento, o PFM fazia parte da formação continuada oferecida a todos os educadores das instituições, podendo estes optar por comprometerem-se, normalmente, com o curso ou não. Além disso, o ECOFAM foi informado que os multiplicadores se dividiam em torno de dois eixos de trabalho, um voltado para a problemática das famílias e outro político, que visava a abarcar problemas da comunidade com relação ao poder público.

Havia sido determinado pelas instituições comunitárias que todos os educadores, multiplicadores ou não, deveriam realizar a entrevista reflexiva com uma família de sua escolha. Sendo assim, houve a oportunidade para discutir com os educadores em mais um encontro, maiores detalhes quanto a análise e compreensão da entrevista reflexiva.

Posteriormente, com surpresa, os educadores narraram as entrevistas que realizaram, sendo estas carregadas pela emoção dos entrevistados quando

36 adentravam em suas histórias de vida, marcadas pela vulnerabilidade. O grupo emocionou-se durante os relatos, assim como não lhes foi possível guardar sua emoção durante a entrevista em si. Novos fatos da vida dos pais entrevistados foram desvelados aos educadores, levando-os a uma maior compreensão da situação da família e das crianças.

Entre os problemas expostos para a realização das entrevistas, destacam- se a hesitação dos pais em comparecerem, as dificuldades iniciais de colocarem- se de maneira empática com pais que eram considerados negligentes, o preconceito com famílias não tradicionais e lidar com a fragilidade/vulnerabilidade dos entrevistados. Além disso, os educadores também demonstraram adequação na explanação do motivo da entrevista aos pais, capacidade de improvisação e acolhimento frente às demandas. Foi relatada também, uma mudança de postura de entrevistadores e entrevistados após o processo de entrevista: houve maior aproximação de ambas as partes no dia a dia escolar, uma das entrevistadas obteve novas compreensões acerca de si mesma e o desejo dos educadores em oferecer mais apoio às famílias intensificou-se.

No encontro de encerramento do curso, os multiplicadores afirmaram compreender que ouvir o outro é essencial para efetuar seu trabalho. Paulo afirmou:

(...) de 2004 pra cá a gente fez um atendimento mais aberto, de estar dando apoio, buscando orientar as famílias, mas sempre na forma de um atendimento, não de uma entrevista, a gente mais que comprava a briga das pessoas, mas não fazia com as pessoas e não tinha um ouvido verdadeiro para as pessoas, não se ouvia. A gente tinha a questão do preconceito frente o que a gente via. Então o que eu aprendi foi o seguinte: pra gente ter uma ação, primeiro tem que parar e ouvir a pessoa.

Foi apresentada a compreensão de que cada família tem suas próprias particularidades, demandando soluções singulares a cada uma, e estas, por sua vez, só podem ser descobertas através do ouvir.

O ouvir, porém, foi por eles definido como atitude dependente de algumas condições: há de se ter disponibilidade para ouvir, organizar o tempo, desligando- se de tudo mais para estar com o outro e os preconceitos precisam ser colocados de lado a fim de se escutar e compreender o outro.

37 O novo formato de entrevista para o atendimento do plantão foi concebido como uma melhora na qualidade do atendimento, como reitera Paulo:

(...) a partir do curso, a qualidade do atendimento no plantão aumentou, que antes ele era realizado por devoção, por carinho, mas não tinha tanta habilidade

Outras transformações do plantão comunitário, também foram apresentadas: a demanda recebida foi ampliada. Não mais apenas problemas quanto a lotes e matriculas institucionais, mas demandas pessoais dos moradores também tem surgido, como, por exemplo, um caso de aconselhamento matrimonial. O grupo espanta-se com a confiança com a qual os moradores o procura, e passaram a procurar as instituições espontaneamente, sem a necessidade de convocação. O grupo demonstrou-se preocupado em criar um ambiente mais adequado para a recepção das atuais demandas, pois, de acordo com os membros, no ambiente atual, não há tempo e privacidade suficientes.

Durante o encontro, o grupo ressaltou que ainda tem muito a aprender. Foram dadas sugestões de aprofundamento do trabalho, como por exemplo, montar grupos de estudos que abordassem constituições familiares atuais e sobre como lidar com diferenças. Quanto às dificuldades, de acordo com o que foi exposto no encontro, entrar em contato com demandas mais íntimas de moradores, ainda é visto e sentido como um desafio.

Sobre uma possível dicotomia levantada pelo ECOFAM entre a priorização de satisfação de necessidades práticas sobre o diálogo no apoio dos educadores à população, estes afirmaram compreender que o apoio do grupo se dá sobre a demanda que surge, entendendo que famílias com mais necessidades satisfeitas podem ter mais espaço para pensar em outras questões, como por exemplo, a educação.

A presente pesquisa teve como questão indagar qual foi o sentido da formação acima descrita para os participantes. O objetivo geral da pesquisa foi compreender o sentido da formação para os participantes do Projeto de Formação de Multiplicadores para o trabalho com famílias de uma comunidade de baixa renda. Quanto aos objetivos específicos, desejava-se compreender o que convocou os participantes a realizarem a formação; entender como compreendem a proposta do curso; apreender como descrevem o contexto da população

38 atendida; compreender como vivenciaram a formação. A seguir, detalharemos o método escolhido para a realização do PFM.