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4. APRESENTAÇÃO DO CONTEXTO DA PESQUISA

4.3. Descrição da Formação de Multiplicadores

4.3.2. Síntese do 2º semestre (fevereiro junho/2012)

Foram realizados dez encontros com os multiplicadores ao longo do semestre, com duração média de 2,5 horas cada. O semestre de curso contou com 2 encontros teóricos, 6 práticos e 2 de planejamento.

No início do semestre, novamente, foi apresentada a preocupação do grupo com relação à frequência das famílias nos grupos reflexivos e seu envolvimento na educação dos filhos. Indagavam: “Como o convite para participar dos encontros chega melhor às famílias?” “Como se comunicar melhor com as famílias?” “Por que os pais participam mais de um encontro do que dos outros?”. A quantidade de pessoas que frequentava os grupos era preocupante para os multiplicadores quando comparada ao número de pais que era atendido pelos serviços oferecidos pelas instituições comunitárias.

O grupo levantou hipóteses a este respeito, compreendendo que pais teriam a expectativa de falar especificamente dos seus filhos nesses encontros, e que, ao virem que se tratava de um tema mais amplo, acabavam não voltando, e também, quanto a um possível desgaste da relação entre pais, educadores e coordenação. Colocou-se em discussão o modo de abordar os pais e a consideração pelos temas de interesse das famílias, de forma que os participantes conseguissem se enxergar e enxergar seus filhos.

30 Os educadores demonstraram interesse em organizar estatisticamente dados já recolhidos para descrever as famílias participantes de seus projetos.

O apoio às famílias também foi compreendido na formação, como o conhecimento dos serviços de saúde, educação e serviço social da região, podendo contar também com parcerias existentes no bairro, como profissionais da área da saúde e educação para possíveis encaminhamentos. Em um momento posterior, os multiplicadores realizaram a pesquisa de recursos para encaminhamento das demandas familiares, criando uma página no serviço de mapas do Google, contendo informações quanto a localização de instituições de saúde, de ensino, além de psicólogos, fonoaudiólogos, dentistas etc. Foi apontada pelo ECOFAM, a necessidade de que os multiplicadores deveriam ter disponibilidade para conhecer as coisas a sua volta, as políticas públicas, o CRAS etc.

Ao longo do semestre, os multiplicadores ressaltaram como significativa a compreensão da teoria através de exemplos práticos, afirmando se utilizar da própria experiência cotidiana como forma de compreender o pensamento freireano, o que, segundo eles, promovia a reflexão sobre as próprias práticas, alterando ou embasando-as teoricamente.

A partir de situações trazidas pelo grupo, como demandas de crianças na escola, por exemplo, foi possível dialogar sobre preconceitos do grupo acerca de algumas famílias e crianças, tema que persistiu em muitos encontros ao longo do semestre. Como exemplo, a violência presente na comunidade, tema recorrente nos encontros com pais, foi discutida em diversos momentos, sendo problematizada e tendo seu conceito ampliado, uma vez que era comum ser reconhecida apenas enquanto violência física consumada. A formação de uma rede de apoio entre os educadores e famílias e entre as próprias famílias também foi um dos assuntos recorrentes nos encontros com os multiplicadores e nos grupos de mães.

Observou-se no decorrer do semestre, pelas falas dos participantes, momentos de reflexão que começaram a sinalizar uma mudança de postura do grupo, com relação às expectativas trazidas nos primeiros encontros. Como exemplo, cito uma das aulas teóricas realizadas, a vivência da entrevista reflexiva,

31 na qual multiplicadores se voluntariaram para serem entrevistados pela Profa. Heloísa Szymanski e ofereceram suas compreensões sobre esta abordagem:

Quando a pessoa faz a devolutiva, dá o sentido de que estamos sendo ouvidos, que está acompanhando nosso pensamento, então vale a pena continuar falando e pensando. (Paulo)

É um cuidado com o que o outro falou, porque as vezes pode não ter entendido e o outro pode falar que não. (Pedro)

Observou-se que a concepção sobre a família também foi se modificando desde o início do curso. O desinteresse, nomeado como causa principal de uma suposta distância entre escola e pais de alunos deu lugar à curiosidade de conhecer melhor as famílias e compreendê-las, como novamente afirma Paulo, um dos multiplicadores: “além do que aparenta, além dos próprios preconceitos, há mais no modo de se cuidar dos filhos”.

Os multiplicadores demonstraram questionarem-se quanto a quem eram as famílias atendidas, o que os teria levado à reflexão sobre sua própria postura em relação ao outro. Neste momento do curso, a suspensão dos próprios preconceitos foi tida pelos próprios multiplicadores como algo complexo, mas fundamental.

Ao final do semestre, o grupo relatou que percebia a mudanças em seu trabalho, a partir das atividades teóricas e práticas do curso. Afirmaram que ao buscar uma postura dialógica, ocorreram mudanças nas relações entre educadores e famílias. O grupo percebeu uma ampliação da confiança da família na equipe e entre os membros da própria equipe. Também foi relatada uma mudança no relacionamento dos pais com os educadores, pois os pais se mostraram, em algumas situações, preocupados com os educadores.

Ilustrando a mudança de postura dos educadores, o comunicado para a reunião de pais, inicialmente tinha o caráter de “convocação” e neste momento do curso, havia se tornado um convite, conforme explica, novamente, o multiplicador Paulo:

Com os Multiplicadores, vi uma nova forma de abordar as famílias. Antes, era “obrigado a participar”, agora é convite. A gente forçava a participação, punia o outro que não vinha... a gente tava trabalhando da forma errada. Nosso papel não é de justiceiro, de punir o outro que não vem.

32 De acordo com o grupo, após a mudança, pais que antes não compareciam às reuniões, passaram a frequentá-las.

O grupo também afirmou que a formação tem os estimulado a buscar mais conhecimento e preparo, percebendo-se com mais autonomia e iniciativa na criação de novas formas de atuação. Foi mencionada a existência de um plantão quinzenal dedicado às famílias e suas demandas. Com esta aproximação, o grupo afirmou que as famílias possuem maior autonomia no que diz respeito às próprias demandas, reconhecendo sua própria postura com relação a elas, conforme aponta o multiplicador: “Tava uma cultura paternalista: vem aqui pra resolver meu caso. Hoje as famílias estão indo atrás” (Paulo).

Os conhecimentos e reflexões advindos da formação passaram a ser compartilhados com a equipe de educadores das instituições, conforme relata uma multiplicadora:

(...) tenho discutido com os educadores... passou nos educadores achar que tudo é culpa da família... que modo posso orientar/ajudar essa família? Houve mudança de pensamento e prática, na ação mesmo mudou. (Daniele)4

Consideraram ainda não dominar o conteúdo teórico sobre práticas dialógicas e em especial, entrevista reflexiva.