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CONCLUSÃO 271 BIBLIOGRAFIA

1.1 SÍNTESE DO PANORAMA DA LITERATURA COMPARADA

“Comparar é um procedimento que faz parte da estrutura de pensamento do homem e da organização da cultura.” (Carvalhal, 2003:6)

Só na Idade Moderna o estudo comparatista se fortaleceu. A abordagem comparatista concede à literatura um caráter flexível diante de ditaduras procedentes da Idade Antiga. A França, por muito tempo, cultivou a superioridade; mesmo assim, também na França houve questionamento sobre a superioridade de uma literatura frente a uma outra.

Para Remark (1994:175)

A literatura comparada é o estudo da literatura além das fronteiras de um país específico e o estudo das relações entre, por um lado, a literatura, e, por outro, diferentes áreas do conhecimento e da crença, tais como as artes [...], a filosofia, a história, as ciências, a religião, etc. Em suma, é a comparação da literatura com a outra ou outras e a comparação da literatura com outras esferas da expressão humana.

Portanto, o pensamento de Remark possibilita a efetivação de uma comparação entre literatura e o texto fílmico. Remark acredita que o domínio do comparativismo transcende o texto literário e pode abarcar a relação entre a literatura e as outras artes. Porém, é importante referir que a comparação entre artes distintas só é pertinente se se retificarem as características dos diferentes códigos inerentes a cada espécie de texto.

Com o Barroco surge outra conceção sobre a literatura comparada. Severo Sarduy (1979:178) concebe que o barroco: “reflete estruturalmente a desarmonia, a rutura da homogeneidade, do logos enquanto a carência constitui nosso fundamento epistémico.” Assim faz uma crítica à história oficial.

Segundo Sarduy

Barroco em sua ação de pensar, em sua queda, em sua linguagem afetada, às vezes estridente, multicor e caótica, metaforiza a impugnação da entidade logocêntrica que até então nos estruturava em sua distância e

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sua autoridade; barroco que recusa toda a instauração, que metaforiza a ordem discutida, o deus julgado, a lei transgredida. Barroco da Revolução.

As narrativas barrocas produzem profusão de sentidos, não há linearidade, não pretendem desvelar a verdade, pretendem somente conservar a liberdade de expressão. Esses escritores possuem uma visão não naturalista da História. “Um passado que dialoga com o presente por seus fragmentos e ruínas, quem sabe preveni-lo de tornar-se teológico e conclusivo.” (Chiampi, 1998: xvii)

No decorrer da história sabe-se que houve mudanças dos cânones desde o ano de 1980. Hispano-americanos foram premiados no Nobel, como o escritor Gabriel Garcia Marquez, da Colômbia, em 1982, Octávio Paz, do México, em 1990, entre outros subsequentes. Não houve mais, a partir dessa época, a hegemonia francesa e norte- americana e surge assim a valorização de todas as literaturas. Os modelos literários são reinterpretados, “as condições literárias e sociais que determinaram sua influência, às novas relações de tempo e espaço, à tradição literária nacional em geral e à individualidade ideológica, psicológica e artística do autor.” (Zhirmunsky, 1994:208)

Na literatura brasileira encontra-se, na pessoa do ensaísta Silviano Santiago, a ideia de que as literaturas dos países colonizados não estão atreladas às dos colonizadores: ele confirma essa ideia no artigo “O entre-lugar do discurso latino-americano” (Uma literatura nos trópicos, de 1978).

Na voz de Barthes (1988:65), “a escritura é destruição de toda voz, de toda a origem. A escritura e esse neutro, esse composto, esse oblíquo aonde foge o nosso sujeito, o branco-e-preto aonde vem se perder toda a identidade, a começar pela do corpo que escreve.”

As mudanças no sentido de valorizar todas as literaturas foram progressivas, segundo Bernabé (1989:47). Os antilhanos conquistaram a língua francesa a partir da mescla de sentidos. “Nós entendemos o sentido de certas palavras. Nós desviamos outros. E metamorfoseamos muito. Nós a enriquecemos tanto no léxico quanto na sintaxe.”

Salman Rushdie (1993), mesmo reconhecendo que há uma grande valorização de todas as literaturas, sublinha que Paris, Londres, Lisboa e Nova Iorque ainda detêm o centro. Estamos no século XXI, os impedimentos parecem distantes: os escritores regionais estão a ser lidos também nos centros urbanos e internacionalmente, porque oferecem a diferença.

No que tange ao cinema, em relação ao entrelaçamento ou separação da obra literária e da fílmica, sabe-se que essas duas formas de arte possuem suas características e métodos especiais, mas podem vir a encontrar-se porque são duas formas de expressar sentimentos, de contar histórias, de voltar ao passado, para entendê-lo e construir o presente. Logo, a narrativa literária tanto quanto a narrativa cinematográfica, nessa ótica, constituem-se em espaços de construção da linguagem.

Na análise da representação do espaço, a literatura comparada projeta outras imagens, que não são especificamente cinematográficas, mas que definem a análise de realidades culturais semelhantes e constroem a imagem do Outro, nas suas semelhanças e nas suas diferenças.

A imagem é, portanto, o resultado de uma distância significativa entre duas realidades culturais. Ou melhor: a imagem é a representação de uma realidade cultural estrangeira através da qual o indivíduo ou o grupo que a elaboram (ou que a partilham ou quem a propagam) revelam e traduzem o espaço ideológico no qual se situam. (Machado & Pageaux, 2001:51)

O comparativismo vai encontrar nas culturas, as semelhanças e diferenças, “uma forma particularmente corrente da imagem”, digamos mesmo o seu estereótipo, é também quase sempre estudada em termos de falsidade, de esquematismo. [...] O estereótipo distingue o Eu do Outro” (p.52). A imagem pode ser estudada em um espaço e um tempo, esses dois elementos podem estar ligados às personagens.

Segundo Machado & Pageaux (2001: 57):

O espaço, na imagem da cultura, não é contínuo nem homogéneo; um pensamento mítico valoriza certos lugares, isola outros, condena outros ainda; confere a alguns a função primordial de ser o verdadeiro círculo de vida do Ego e de uma coletividade escolhida, enquanto outra parte do espaço, face a esse substituto do cosmos harmonioso, assumirá o papel negativo do caos, gerador de desordens. É evidente que se deverá estar atento a tudo o que tornar o espaço, face a esse substituto do cosmos harmonioso, assumirá o papel negativo do caos, gerador de desordens. É evidente que se deverá estar atento a tudo o que pode tornar o espaço exterior isomorfo do espaço interior do escritor, pois um espaço estrangeiro reproduz e significa a paisagem mental e uma personagem, do escritor. Assim, a leitura desse espaço levará ao estabelecimento de relações quase explicativas entre o espaço geográfico e o espaço psíquico, pelo menos no plano metafórico.

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Portanto, o espaço, na imagem da cultura deve ser elaborado pelo escritor de forma que saiba valorizar os dois extremos, pois cada cultura apresenta formas de arte com características distintas.

O comparativismo proporciona a possibilidade de aprofundar o estudo sobre o espaço nas obras de arte, sobre os estereótipos construídos ao longo das culturas. Logo, “a imagem pode ter, como o mito, essa capacidade de contar, de reatualizar uma história que se tornará eventualmente exemplar” (Machado & Pageaux, 2001:60). A representação do outro pode levar à interpretação errada de certa cultura. Outra cultura sempre é tida como melhor. O estrangeiro é posto para mostrar ou suprir a possível falha da cultura de origem. Portanto: “A palavra, na poesia como na prosa, tem necessidade dum espaço, como a estátua que dá sentido ao espaço no qual se situa, nesse espaço em que está também aquele que a contempla” (Machado & Pageaux, 2001:153). O comparativista procura entender a obra de arte como aquele que a observa. Estuda as semelhanças e as diferenças para poder interagir com o Outro, adquirir e aplicar o conhecimento, no sentido de valoração e não de depreciação do Outro.

Segundo Machado & Pageaux, (2001:158), “o estudo das diferenças não elimina a procura da unidade”. A maior singularidade pode ser vista na descoberta do outro, [...] “um diálogo com ele próprio, criando assim momentos em que a consciência de si próprio tenta conciliar encontro e diferença – afinal, as duas palavras-chave da Literatura Comparada”. (ibid.:158) Essa singularidade pode mostrar a importância de conhecer o outro para comparar o que há de diferente e de semelhante e aceitar as diferenças como experiências valiosas entre as culturas.

Para Mast (1982) há quem defenda as semelhanças entre a obra fílmica e a obra literária e há quem duvide dessa aproximação. Porém, sabe-se que as discussões são importantes para a aproximação dessas artes.

Since moving pictures and, after 1927, moving pictures synchronized whit recorded sounds could be used to tell stories, describe events, imitate human actions, expose problems, and urge reforms, it is not surprising that such uses of motion pictures would provoke speculative comparisons with that other major human system for telling, describing, imitating, exposing, and urging – verbal language. The history of these comparisons between film and literature has been a history of splitters and lumpers, of those who argue for the distinctness of the two media – the effects, purposes, pleasures, and possibilities of two separate arts that are, ought to be, or must be distinct – as

opposed to those who argue that the aims, effects, and means of the two media are similar, parallel, or analogous. (Mast, 1982: 278)

É nesta perspetiva comparatista, nesta consciência de um dialogismo intenso entre literatura e cinema que é possível analisar a representação do espaço na construção do suspense, duas realidades e dois conceitos omnipresentes nas duas artes:

O comparativista tem todo o interesse em levar em conta certas interrogações feitas por investigadores que trabalham em campos próximos do seu. Não, claro, para pôr de parte o estudo especificamente literário nem para ampliar desmedidamente o seu território, mas sim para confrontar os seus métodos aos métodos dos outros e, sobretudo, a imagem propriamente literária a outros testemunhos paralelos e contemporâneos (imprensa, paraliteratura, estampas, filmes, caricaturas, etc.). Trata-se, de facto, de situar a reflexão literária numa análise geral que diz respeito à cultura de uma ou de várias sociedades. (Machado & Pageaux, 2001:49)