CAPÍTULO VI – A VOZ DOS FORMADORES
7. Síntese dos aspetos mais importantes do capítulo
Concluímos este capítulo salientando os aspetos mais marcantes do conteúdo que emergiu das entrevistas realizadas aos nove formadores de professores em TIC.
Começando pela caracterização dos entrevistados, foi possível distinguir a presença de dois grupos de formadores que se distinguem pela sua formação em TIC: os que possuem uma formação informal, adquirida maioritariamente a partir da sua experiência e participação, durante a década de noventa do século passado, nos primeiros projetos de introdução das TIC no sistema educativo português; e, os que tendencialmente começaram a dar formação em meados da primeira década deste século e que possuem formação formal na área das tecnologias, ao nível de graduação académica, ou pós- graduação, nomeadamente ao nível de mestrado e doutoramento. Também, sobre a sua experiência enquanto formadores, constatámos diferentes frequências, marcadas pelos que dinamizaram formação de forma apenas esporádica ou intermitente e os que nos últimos anos têm estado bastante ativos, proporcionando diversas ações de formação por ano. Os formadores mais ativos correspondem também na sua maioria ao grupo dos formadores que começaram a dar formação mais recentemente e que possuem formação formal na área das tecnologias. Existem ainda os formadores que tenderam a circunscrever a sua atividade a um território restrito, dando preferência à escola onde trabalham, ou ao centro de formação a que a sua escola está associada, e os formadores que exercem a sua atividade em diversos centros de formação. Estes últimos correspondem ao grupo dos formadores mais ativos.
Quanto à temática relativa à preparação da formação, as perceções dos formadores são as seguintes:
• A formação em ferramentas do Microsoft Office, nomeadamente Word, Excel e PowerPoint, foi o tema apontado como aquele em que foi proporcionado mais formação, especialmente em Microsoft Excel, que é comummente designada por formação em “competências básicas” ou “ferramentas básicas” e corresponde ao tema de formação que é proporcionado há mais anos;
144 • A formação na plataforma Moodle foi o segundo tema mais referido, seguindo-se a formação em aplicativos Google, em “dispositivos” ou “aplicações” móveis, em ferramentas web 2.0 e faz-se referência a novidades como Flip Classroom, Screencasting e Gamification;
• A grande maioria dos que deram formação na época do Plano Tecnológico de Educação terão dado formação em quadros interativos, a par da formação em competências básicas e apenas duas formadoras declararam ter proporcionado formação em TIC direcionada especificamente para o seu grupo de docência;
• A maioria dos formadores desenhou a formação com base na experiência pessoal, na leitura de livros e pesquisas que realizou na Internet e alguns desenvolveram investigações sobre a utilização das TIC para fins educativos ao nível de mestrado e doutoramento, o que afirmam ter contribuído significativamente para o desenvolvimento das suas práticas de formação;
• Em termos de visão, a maioria dos entrevistados defendeu que a formação em TIC deve estar subordinada a aspetos pedagógicos e ser orientada para a integração das tecnologias no processo de ensino e aprendizagem; • O levantamento das necessidades de formação é feito ao nível das escolas,
em articulação com os centros de formação e sugerem que a formação foi pensada a partir da observação que eles próprios fizeram das dificuldades e das necessidades reveladas pelos colegas das escolas onde trabalham como professores, ou que as necessidades são identificadas, muitas vezes, pelos próprios formandos durante as formações;
• Por norma, os centros de formação não transmitem aos formadores a informação recolhida nos diagnósticos realizados, nem fazem uma triagem dos formandos em função do seu nível de desempenho com as TIC, situação que causa alguma perturbação, o que sugere a falta de sequencialidade da formação, porque permite que pessoas que não possuem as competências básicas em TIC frequentem ações de formação de níveis mais avançados;
• São identificadas quatro situações relativas à preparação da formação – (1) da autoria do formador, (2) desenhada de acordo o pedido de uma entidade
145 promotora, (3) definida pelo Ministério da Educação e (4) desenvolvida em parceria entre os países envolvidos num projeto internacional – predominando a situação da formação desenvolvida pelo formador e que posteriormente é proposta pelos próprios aos centros de formação;
• Alguns dos formadores mais ativos, e que colaboram com diversos centros de formação possuem um catálogo formativo que compreende ações de formação sobre diversos temas relacionados com as tecnologias, enquanto outros limitam a sua oferta a um leque mais reduzido de temas, ou tendem a proporcionar formações sobre um único tema, da sua preferência; Quanto às finalidades da formação:
• Os objetivos e as competências que a formação procurou desenvolver foram evoluindo e tornou-se possível identificar dois períodos distintos: o primeiro período, corresponde a uma fase mais inicial da formação em TIC, cujos objetivos consistiram, em introduzir os equipamentos tecnológicos nas escolas e dotar os professores de competências básicas para poderem utilizar os referidos equipamentos; e o segundo período é marcado mais pelo propósito de desenvolver literacias digitais e explorar o potencial interativo da web 2.0, promovendo a utilização de plataformas de trabalho colaborativo, e para uma miríade de ferramentas que potenciam ambientes de aprendizagem mais ativos e permitem múltiplas formas de interatividade entre professores e alunos;
• Na avaliação dos conhecimentos dos formandos houve uma tendência quase geral para a informalidade, em que a dimensão formativa da avaliação e a autoavaliação foram mais valorizados do que os aspetos classificativos, o que talvez se explica pelo facto dos formadores verem a formação, antes de mais, como uma oportunidade para os professores experimentarem e se familiarizarem com as TIC;
• Entre os recursos TIC mobilizados durante a formação: o software mais utilizado inicialmente compreendeu as ferramentas do Microsoft Office – com especial destaque para o Microsoft Excel – e, mais recentemente, surgem as ferramentas da web 2.0, as aplicações da Google, as aplicações para dispositivos móveis e as plataformas de trabalho colaborativo – especialmente o Moodle; os equipamentos foram essencialmente
146 computadores, quadros interativos, ou videoprojectores, tablets e smartphones;
• A justificação mais comum dada pelos formadores para a escolha dos indicados equipamentos, programas e aplicativos utilizados na formação, foi que a formação está limitada ao software mais utilizado nas escolas, no dia-a-dia do trabalho do professor;
Em relação às dimensões da formação:
• A formação privilegiou essencialmente aspetos práticos, pedagógicos e técnicos – os práticos são os mais citados, porque se alega que a finalidade da formação em TIC é fazer com que os professores utilizem as tecnologias no seu trabalho e os pedagógicos surgem com as preocupações em torno da utilização pedagógica das TIC nos processos de ensino e aprendizagem, nomeadamente em relação à sua utilização efetiva em contexto de sala de aula;
• A justificação dada para a valorização dos aspetos práticos da formação reside na opinião generalizada de que só é possível aprender a lidar com os equipamentos e com as ferramentas TIC através da experiência, colocando os formandos em contacto direto com a tecnologia, para ganharem confiança e sentirem-se à vontade quando pretenderem aplicar as ferramentas no contexto profissional;
• Alguns formadores defendem a opção pelas as modalidades de oficina de formação, círculo de estudos e projeto, por valorizarem a formação em contexto de trabalho
Finalmente, relativamente às políticas de formação em TIC:
• Revela-se um consenso em torno da opinião de que atualmente não existe uma política de formação TIC, que a formação que os centros de formação vão oferecendo é insuficiente em relação ao que consideram ser as necessidades dos professores e que houve uma quebra muito grande na frequentação das ações de formação, porque deixaram de ser gratuitas e a carreira esteve congelada, factos que levaram a generalidade dos professores a desinteressarem-se pela formação;
• Para o futuro da formação em TIC, sugere-se que se dirija para interesses específicos, refletindo sobre a utilização de determinadas ferramentas e
147 recursos, refere-se a necessidade de formação cíclica e de atualização, propõe-se uma nova abordagem das TIC centrada na apropriação e gestão da informação, pede-se a concertação de uma visão comum da formação TIC entre os formadores e o desenvolvimento de um plano nacional de formação de formadores TIC, solicita-se a agilização da burocracia, defende-se a promoção da formação em regime de blended-learning e, sobretudo, diz-se que a formação tem que ser credibilizada e deve ser gratuita.
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