• Nenhum resultado encontrado

S OBRE O ENTENDIMENTO DE DIREITOS E A COLONIALIDADE

1. ENTENDIMENTO E PROMOÇÃO DO DIREITO À MORADIA

1.3. S OBRE O ENTENDIMENTO DE DIREITOS E A COLONIALIDADE

a proposição da Reforma Urbana17 passa a ecoar nos debates sobre a cidade. A partir do entendimento da urbe como organismo dinâmico, sugere-se uma atuação sobre a cidade com proposições oriundas do conhecimento científico de caráter teórico e crítico, mas também modeladas pela práxis de representantes das classes operárias, em oposição à estratégia das classes dominantes. Sobretudo as propostas de reforma urbanadeveriam desafiar as forças políticas a assumir suas responsabilidades diante da história.

A compreensão do chamado sistema-mundo moderno (WALLERSTEIN, 1990)18, que tem início ao longo do século XVI, nos permite entender que a expansão das relações econômicas em escala global naquela época mudaria de forma muito incisiva as relações sociais, culturais e políticas nos séculos seguintes, por meio da imposição de um padrão cultural hegemônico europeu. Segundo Quijano e Wallerstein (1992), a chegada dos navegadores europeus nas Américas é condicionante constitutiva da economia capitalista mundial, ou seja, o sistema mundo capitalista atual só foi viável pela forma como se deu colonização das Américas. O contato violento com as populações indígenas e a massiva importação da força de trabalho escravo da África estruturaram uma ‘nova’ sociedade dizimando povos inteiros, costumes, saberes e formas de se relacionar com o território, a natureza, a espiritualidade e com outros humanos. Dessa forma, diferente de outros pontos do mundo em que o capitalismo, ao longo de suas diversas fases, levou a reconstituição ou a adaptação de economias e instituições políticas, nas Américas houve a construção impositiva de uma economia e de instituições políticas nos moldes do oeste europeu.

A ‘modernidade’ que é propagada após a conquista das Américas – o “novo mundo” – se tornou o padrão para todo o sistema mundial fundamentalmente marcado pela colonialidade, etnicidade, racismo e o conceito de novidade. Tudo que não era europeu passou a ser “o outro”, o ‘não-padrão’. Quijano (1992) explica que a colonização não se restringiu às relações políticas de dominação, ela se estendeu no imaginário dos dominados.

A repressão recaiu, sobretudo, nos modos de conhecer, de produzir conhecimento, de produzir perspectivas, imagens e sistemas de imagens, símbolos, modos de significação; sobre os recursos, padrões e instrumentos de expressão formalizada e objetivada, intelectual ou visual. Foi seguida da imposição do uso de padrões de expressão próprios dos dominadores, bem como de suas crenças e imagens referentes ao sobrenatural, as quais serviam não apenas para impedir a produção cultural dos dominados, mas também como meios muito eficazes de socialização. e controle cultural,

18 Wallestein (1990) conceitua o sistema mundo moderno, como espécie de sistema social inédito que se diferencia de qualquer sistema anterior por conformar uma entidade econômica mundial, que, por sua vez, não era política como as cidades-estados, os estados-nação ou os impérios. O autor esclarece que não é uma economia-mundo por incluir todo o mundo, mas por ser mais abrangente que qualquer unidade juridicamente definida. O sistema mundo moderno, diferente das economias-mundo anteriores, que se transformaram em impérios – China, Pérsia, Roma, por exemplo – ofereceu uma forma alternativa e mais lucrativa de se apropriar de excedentes e prosperar sem uma estrutura política unificada.

quando a repressão imediata deixou de ser constante e sistemática (QUIJANO, 1992, p. 12).

A colonialidade então é o substantivo que Quijano cunhou para definir o padrão de poder constituído por essa trama de relações complexas. Ela não ficou restrita às fronteiras das colônias e tampouco se encerrou com os processos de independência nas Américas e, mais tarde, na África e sul e sudeste da Ásia. Um dos seus aspectos proeminentes é a posição predominante que os valores europeus capitalistas assumem hierarquicamente em questões políticas, econômicas e também culturais por todo o mundo; outro ponto são as regras de interação entre estados criadas a partir desse período que seguem a mesma lógica (QUIJANO; WALLERSTEIN, 1992).

Mignolo (2000) define a modernidade como um fenômeno europeu em que todo o mundo participou com diferentes posições de poder. Segundo o autor, a colonialidade do poder foi uma estratégia que permitiu a autodefinição da Europa no topo de uma hierarquia global e, o Sul global19, em posição periférica ou marginal. E a suposta passividade das colônias em todo esse processo começou a ser desconstruída somente a partir dos movimentos de independência que se iniciaram no fim do século XVIII e se estenderam até a segunda metade do século XX.

Importante pontuar que as diferenças entre as colonizações britânica e ibérica bem apresentadas por Quijano e Wallerstein (1992) levaram a América do Norte a se posicionar de forma completamente diferente da América Latina no sistema-mundo moderno.

A forma de contar a história do mundo e também de definir noções como direitos fundamentais são então permeadas de disputas, contradições e, portanto, não conseguem abarcar todos os entendimentos reais do que seria essencialmente valores para tantas culturas que, ao longo da história, ocuparam posições tão distintas na hierarquia global. Mignolo (2000) fala da dupla consciência, que ilustra bem a complexidade no entendimento de direitos, por exemplo.

O princípio da dupla consciência é, no meu argumento, a característica do imaginário do mundo moderno-colonial das margens dos impérios (das Américas, do Sudeste Asiático, do Norte da África e do Sul do Saara). Mas também, como evidenciam hoje as migrações massivas para a Europa e os Estados Unidos, de dentro dos países que foram ou são potências imperiais:

19 Laó-Montes e Vásquez (2018, p. 293) pontuam que as premissas que conectam as distintas regiões do Sul global são o passado marcado pela colonização; a situação periférica em relação ao capitalismo global; e a configuração da colonialidade como a perpetuação de mecanismos de exploração e dominação.

os "negros" (tanto africanos, como paquistaneses e indianos) na Inglaterra;

os norte-africanos na França; Latinos/como nos Estados Unidos. A dupla consciência, em suma, é consequência da colonialidade do poder e da manifestação de subjetividades forjadas na diferença colonial. As histórias locais variam, porque a própria história da Europa estava mudando no processo de se forjar no movimento expansivo do Ocidente (MIGNOLO, 2000, p. 39, tradução nossa)20.

Assim, retornando aos debates do pós-guerra sobre o entendimento de direitos, vemos que há uma série de limitações nessas definições dadas as circunstâncias em que a modernidade e o sistema mundo capitalista se desenvolveram pelo menos nos últimos cinco séculos.

Ainda durante os debates prévios a Declaração, por exemplo, havia uma tendência à separação interpretativa de direitos civis e políticos dissociada dos direitos econômicos, sociais e culturais. Harvey (2015) explica que a ascensão neoliberal tornou mais difícil a separação desses conceitos. Dessa forma, por todo o mundo, conseguiu-se influenciar a noção de garantia e quebra de direitos sob viés muito específico. O objetivo de incluir os direitos econômicos no domínio geral dos direitos humanos, por exemplo, penetra na luta de classes de forma perversa e, popularmente, está muito ligada à defesa da propriedade privada como um imperativo para garantia de outros direitos.

A Declaração Universal teve uma série de implicações que podem ser exaltadas no contexto em que foi promulgada, todavia, seu exemplo aqui visa a ilustrar a maneira como os interesses do capital permeiam entendimentos chave do mundo globalizado. Dessa forma, a defesa de direitos, que têm inúmeras nuances e condicionantes, pode promover a efetivação de uma lógica opressora para certos grupos sociais. Isso parece estar exposto na luta por direito à moradia no Brasil, quando mal interpretado como direito à propriedade privada e individual de um imóvel, ou quando o direito à propriedade se torna preponderante em relação aos demais direitos sociais.

20 No original: “El principio de doble-conciencia es, en mi argumento, la característica del imaginario del mundo moderno-colonial desde las márgenes de los imperios (desde las Américas, desde el Sureste de Asia, desde Africa del Norte y del Sur del Sahara). Pero también, como se comprueba hoy por las migraciones masivas a Europa y a Estados Unidos, desde el interior de los países que fueron o que son potencias imperiales: los "negros" (tanto africanos, como pakistanos como indes) en Inglaterra; los magrebinos en Francia; los latinos/as en los Estados Unidos. La doble conciencia, en suma, es una consecuencia de la colonialidad del poder y la manifestación de subjetividades forjadas en la diferencia colonial. Las historias locales varían, porque la historia misma de Europa fue cambiando en el proceso de forjarse as sí misma en el movimento expansivo de Occidente” (MIGNOLO, 2000, p.39).

Além disso, a consolidação do entendimento de qualquer direito, sem ações ou decisões que enfrentem suas causas no âmbito estratégico internacional também nos parece favorecer interesses hegemônicos, como foi a desregulamentação do sistema financeiro global que, como veremos, teve tantas consequências sociais drásticas, materializadas nas cidades de todo o mundo.