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2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

4.1 ANÁLISE INDIVIDUAL DAS ENTREVISTAS

4.1.4 Entrevistada 4 (E4)

4.1.4.2 Saídas voluntárias da entrevistada 4

Como foi descrito na seção 4.1.4 e mostrado na figura 10, a entrevistada pediu demissão cinco vezes ao longo de toda a sua trajetória profissional. Nesse processo, a não realização de valores Autodireção-Ação (Abertura a Mudança); Realização e Poder-Recursos (Autopromoção) contribuíram para as saídas voluntárias das organizações, conforme detalhado a seguir.

A primeira saída voluntária aconteceu quando a entrevistada vivenciava sua primeira experiência profissional. Após seis anos atuando no call center do banco, decidiu pedir demissão para iniciar um projeto pessoal. Segundo ela, nessa época seu primeiro filho tinha completado um ano e ela sentia necessidade de ficar mais tempo com ele. A busca por liberdade e privacidade no seu dia a dia, para poder ficar mais tempo com o seu filho levou a entrevistada a pedir demissão e começar a trabalhar com seu marido na empresa deles:

Eu pedi as contas do banco em 2005 para viver um projeto pessoal. Foi a época em que meu filho tinha 1 aninho. Eu trabalhava de sábado, domingo, feriados, então assim, era muito corrido e o meu marido tinha acabado de investir em um projeto nosso, que ele tinha lojas de moto e ele tinha expandido, né e aí ele pediu um apoio e eu vi a possibilidade de estar mais próximo do meu filho. Então eu achei melhor sair do banco e vivi esse projeto aí por um tempo. [...] Foi mais uma questão particular mesmo, não foi uma questão de dinheiro, não foi uma questão de promoções, não foi uma questão de visibilidade de negócio, não. Foi uma questão pessoal mesmo nesse período.

É possível perceber que a entrevistada tomou a decisão de sair voluntariamente do banco com base na sua busca do valor Autodireção-Ação. Ademais, ao ser questionada sobre o que a incomodava em sua primeira experiência profissional, fica claro que não poder determinar o andamento do seu dia a dia, a falta de independência e liberdade foram questões que a fizeram realizar a saída voluntária. Assim, é possível identificar que a sua busca pela realização de valor Autodireção-Acão não estava sendo atingida, em outras palavras, a entrevistada não percebia realizar o valor Autodireção-Ação no ambiente organizacional onde vivenciava sua primeira experiência profissional:

Trabalhar de final de semana. [...] Era muito ruim. [...]Eu não gostava de trabalhar de final de semana, não gostava, foi uma das coisas que me fez sair de lá. [...] Eu acho assim que enquanto eu era solteira, solteira assim, sem filhos aquela coisa toda. Pra mim não era nenhum incomodo. É que tudo na vida tem períodos né? E pra mim naquele momento era um período que pra mim não valia a pena. Você trabalha de segunda a sexta e de sábado e domingo você fica com a sua família. E eu tava em momento família. Tudo, tudo, tudo no decorrer de uma carreira tem períodos. Você tem o período de aprendizado, você tem o período de adaptação, você tem o período de dinheiro, você tem o período de tudo. E naquele momento pra mim era o período de estar com a minha família, então pra mim trabalhar de final de semana era ruim por conta disso.

Quanto ao seu segundo pedido de demissão, após três anos trabalhando com o seu marido na loja de motos deles, sua segunda experiência profissional, a entrevistada reconhece que ter conquistado uma certa flexibilidade de horários, permitindo que pudesse conciliar de maneira equilibrada sua vida pessoal e profissional, fora muito importante para ela. No entanto, passou a se incomodar em estar tanto tempo com seu marido, o que acabou fazendo-a deixar o trabalho na empresa da família, voluntariamente, pela busca por liberdade. A percepção de não relização de valor Autodireção-Ação novamente esteve presente na saída sua voluntária:

Flexibilidade. A partir do momento que você tem flexibilidade é ótimo, ainda mais quando você tem filho pequeno. Então pra mim a flexibilidade era muito boa! Eu tinha, eu fazia os meus horários eu ia e vinha eu podia trabalhar da minha casa, da forma que fosse mais prático pra mim, pro meu dia a dia. Então pra mim lá a flexibilidade era muito boa.

Trabalhar com o marido é muito complicado [...]. Porque você já não tinha assunto. [...]. Você tava o dia inteiro com a pessoa. O dia inteiro. Você acordava com a pessoa, você ia trabalhar com a pessoa, você almoçava com a pessoa, você voltava com a pessoa, a noite você tava com a pessoa.

Ao deixar de trabalhar com o marido, a entrevistada passou a vivenciar sua terceira experiência profissional, a qual também deixou voluntariamente, após dois anos de atuação, ao ser convidada por um dos líderes de uma das empresas de meios de pagamento em que prestava serviços como freelancer para ocupar o cargo de executiva de vendas na referida empresa. A entrevistada atribui a conquista da vaga efetiva em sua quarta experiência profissional ao fato de ela se dedicar ao máximo e ganhar destaque, chamando atenção do líder que a ofereceu a contratação. Nesse caso, sua saída voluntária de freelancer e contratação na quarta experiência profissional está relacionada à percepção de não realização de valor Realização (na terceira experiência profissional) e percepção de, provavelmente,

realizar esse valor na quarta experiência profissional, já que se sentiu reconhecida e bem- sucedida com o convite:

Aí eu tive mais contato com o pessoal que era, executivos dentro da [4aEP][...]. E

quando eu fui trabalhar com eles [ainda como freelancer] eu comecei a ter um relacionamento com eles e eles começaram a gostar do meu trabalho e aí foi a questão do diferencial. Eu fazia algo mais eu, por exemplo, tinha 10 clientes para visitar no dia, e desses 10 clientes, eu só tinha que informar que tinha quebra de exclusividade e tal. E aí quando eu vi que ele dava abertura eu pegava qual era a taxa que ele tinha com a [4aEP], eu já mostrava pra ele tal, e trazia [para a 4aEP]. [...] Aí eu trazia. No que eu trazia eu falava assim, gente ele tem tal taxa, não sei o que não sei o que. Aí o pessoal começou a e me ver com outros olhos. E aí foi quando o [líder da 4a EP] que foi o meu gestor por um bom

tempo ele me efetivou. Ele me convidou pra trabalhar na empresa ele falou assim, [E4] você gostaria de ser minha executiva, assim, assim, assim. Eu falei, lógico. Eu sempre pensei nisso, mas nunca tive a oportunidade. Aí ele falou assim, então ótimo. Vou te por para fazer uma entrevista com o meu diretor. E aí quando ele me pôs para fazer uma entrevista com o diretor dele, você sabe que estas empresas que você presta serviço, você ganha uma mixaria. Você não tem nada de benefícios, você não tem nada, nem carteira assinada. Aí quando eu fui conversar com o diretor dele eu demonstrei esse meu interesse, de vestir a camisa, de ser importante pra empresa. Ele adorou. E aquilo pra mim foi muito bom, era um orgulho pra mim estar entrando na empresa.

Após sete anos atuando na sua quarta experiência profissional, a entrevistada novamente pediu demissão, buscando mais reconhecimento salarial, ou seja, buscava realizar o valor Poder-Recursos, visando ao aumento do seu poder financeiro e riqueza material. Assim, ao receber a proposta de emprego da outra empresa de meios de pagamento (a qual, nesse caso, pertencia a um banco), percebendo que lá ganharia o dobro do salário que já vinha ganhando, partiu para sua quinta experiência profissional:

Todas as minhas promoções com a [4aEP] eu tinha um aumento de 15% no meu

salário. Tá. Então foram duas promoções, 30% de aumento de salário. Só que assim, é, quando começou a ter as novas entradas de adquirente [concorrentes], nós que éramos [4aEP], a gente era muito bem visto no mercado. E as propostas

que a gente [contratados da 4aEP] recebia dessas novas adquirentes eram propostas

assim muito, muito boas. [...] E aí, nesse decorrer dentro da [4aEP] eu recebi

uma proposta da [5aEP]. [...] a proposta que eles faziam para nós era o dobro

do que a gente ganhava. [...] Entendeu? Então assim, abria os olhos, claro, né. É

foi o que eu falei cada promoção que eu tinha [na 4aEP] era 15% de aumento,

era muito pouco.

Sabe uma coisa que pra mim naquela época era estressante, desgastante, mas que eu vejo hoje que não é? A minha chefe fala assim: que empresa que você trabalha que tem uma convenção de quatro dias num hotel, num resort, nisso, naquilo. Eu falava ai que besteira, pra que que eu vou pra um resort? Prefiro minha parte em dinheiro.

Além do interesse em ganhar mais, a proposta de emprego da quinta experiência profisisonal fez com que a entrevistada ficasse interessada em ocupar uma posição em que

atenderia clientes mais glamourosos, o setor de corporate. Na experiência profissional anterior, ela lidava com clientes mais simples e menores. É possível identificar a busca pela realização de valor Realização, uma vez que estar em ambientes e com clientes mais importantes chamaram a atenção da entrevistada, fazendo-a conquistar sucesso, ambição e reconhecimento de acordo com padrões sociais:

E aí o que aconteceu, quando a [5aEP] me fez uma proposta. Além de abrir meus

olhos com relação ao meu salário, eles me ofereceram o dobro do que eu ganhava. É abriu os meus olhos para novos horizontes com relação a crescimento da minha carreira. Porque eu fui atender o corporate.

Não tinha, eu só havia trabalhado com varejo e pequenas empresas [na 4aEP].

Eu, eu fui atender o corporate e quando eu fui para a [5aEP] eu fui atender a

região de Guarulhos e basicamente 98% da minha carteira eram grandes redes de supermercado.

Ah era muito bom, muito bom, trabalhar e se relacionar com o banco na Corporate do [5aEP]. Eu tinha reunião as vezes na torre, então era. A visibilidade

que você tinha dentro do banco era muito boa.

No entanto, foi demitida da sua quinta experiência profissional, portanto, sua última saída voluntária foi realizada quando trabalhava na outra empresa de meios de pagamento que também pertencia a um banco, onde viveu sua sexta experiência profissional. A entrevistada diz não ter se adaptado ao ambiente de trabalho por sentir-se excluída do grupo de funcionários que trabalhavam no banco detentor da empresa em que foi contratada:

É como se eu fosse uma terceirizada ali dentro. Eles me tratavam com se eu não fosse uma funcionária também do banco. Eles abordavam o cliente, eles faziam a negociação, quando era pra fechar e que eles viam que não estavam conseguindo fechar eles me levavam. Se não eles prospectavam, eles faziam tudo.

Pediu demissão antes mesmo de conseguir qualquer outra oportunidade de emprego. Ela preferiu não trabalhar a continuar em um ambiente em que não estava bem. Sentir que não poderia ter liberdade e autonomia para realizar suas atividades foram questões que a levaram a pedir demissão. Assim, é possível inferir a não realização do valor Autodireção-Ação:

Com sinceridade, eu não gostei de lá. [...] Sabe quando você acordava, primeiro mês, é eu fui jogada dentro de uma plataforma. É essa é a [E4] e ela vai atender vocês. [...] e eu fui ficando infeliz até eu tomar a decisão de não querer mais. [...] O que mais me incomodava era essa questão de eu não poder ter a negociação na palma da minha mão. De eu não poder ter autonomia sobre o cliente, o cliente é meu. E se eu não puder fazer qualquer coisa que eles não autorizassem que não era primeiro falado pra eles, nossa, eles caiam matando. [...] Sabe, eu sou, e você não é nada.

Eu não me adaptei a [6EP], [...], eu fiquei 8 meses na [6EP]. E aí eu pedi as contas e fiquei no mercado. [...] Eu preferi não trabalhar porque eu não me adaptei ao banco [da 6aEP]. [...]Eles me tratavam como se eu não fosse uma

funcionaria também do Banco. Eles abordavam o cliente, eles faziam a negociação, quando era pra fechar e que viam que não estavam conseguindo fechar eles me levavam. Se não eles prospectavam, eles faziam tudo.

Desta forma, conforme apresentado, é possível inferir que a percepção de não realização dos três valores pessoais considerados mais importantes pela entrevistada (Autodireção-Ação, Realização e Poder-Recursos) estiveram presentes ao longo dos processos que a levaram à decisão de saída voluntária das organizações em que atuou.