3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 29
3.3 Saneamento Ambiental 45
De acordo com a FUNASA (2006), saneamento ambiental é o conjunto de ações socioeconômicas e técnicas que têm por objetivo alcançar salubridade ambiental, por meio de abastecimento de água potável, coleta e disposição sanitária de resíduos sólidos, líquidos e gasosos, promoção da disciplina sanitária de uso do solo, drenagem urbana, controle de doenças transmissíveis e demais serviços e obras especializadas, com a finalidade de proteger e melhorar as condições de vida urbana e rural.
A Política Nacional de Saneamento, Lei n°11.445 de 05 de janeiro de 2007, define o saneamento básico como o conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais de:
a- Abastecimento de água potável: constituído pelas atividades, infraestruturas e
instalações necessárias ao abastecimento público de água potável, desde a captação até as ligações prediais e respectivos instrumentos de medição;
b- Esgotamento sanitário: constituído pelas atividades, infraestruturas e instalações
operacionais de coleta, transporte, tratamento e disposição final adequados dos esgotos sanitários, desde as ligações prediais até o seu lançamento final no meio ambiente;
c- Limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos: conjunto de atividades,
infraestruturas e instalações operacionais de coleta, transporte, transbordo, tratamento e destino final do lixo doméstico e do lixo originário da varrição e limpeza de logradouros e via públicas;
d- Drenagem e manejo das águas pluviais urbanas: atividades, infraestruturas e
instalações operacionais de drenagem urbana de água pluviais, de transporte, detenção ou retenção para o amortecimento de vazões de cheias, tratamento e disposição final das águas pluviais drenadas nas áreas urbanas.
Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que 40% da população mundial, não têm acesso ao saneamento básico, e aproximadamente 1,5 milhões de crianças morrem ao ano em decorrência da carência de água potável, esgotamento sanitário adequado e condições higiênicas adequadas. Cerca de 90% do esgoto no mundo é despejado no meio ambiente com pouco ou nenhum tratamento (PROGRAMA DAS NACOES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO, 2006).
De acordo com o estipulado na meta nº7 dos Objetivos do Milênio (ODM), as condições básicas para a sustentabilidade ambiental são: saneamento básico, acesso à água e reafirmação cultural. Da mesma forma, considera que o uso e acesso a tecnologias ambientalmente corretas são pontos chave para alcançar esse objetivo (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2000).
O conceito de desenvolvimento sustentável foi incluído no relatório Brüntland pela a Assembleia Geral da ONU em 1987, como aquele “capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações”. Para que uma ação seja considerada sustentável, qualquer empreendimento humano deve ser
ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito (BRÜNTLAND, 1987).
A sustentabilidade, em sistemas de tratamento de água e esgoto, é alcançada quando, com qualidade, promovem o nível desejado do serviço, economia e preservação ambiental. Nesta perspectiva, devem ser consideradas três dimensões: ambiente, tecnologia e comunidade. O ambiente é o entorno no qual a comunidade gerencia seu desenvolvimento, pode ser visto como oferta hídrica (qualidade e quantidade de água bruta) e disponibilidade de recursos locais (energia, clima, materiais para construção, etc.). A comunidade são as pessoas alvo do projeto. Da relação ambiente/comunidade surgem os fatores de risco, fruto dos impactos ambientais das atividades humanas. Como resposta aos riscos, as comunidades criam as tecnologias, entretanto, para que essas sejam eficientes, é necessário que a comunidade se aproprie delas (conhecimento das tecnologias e capacidade de projetá-las, construí-las e mantê-las) (DI BERNARDO & SABOGAL PAZ, 2008).
Von Sperling (1996) apresenta alguns indicadores de sustentabilidade considerados na construção de um sistema alternativo de tratamento de esgoto, que podem servir também, alguns deles, para os sistemas de tratamento de água:
Baixo custo de implantação;
elevada sustentabilidade do sistema. Pouca dependência de fornecimento de energia, peças e equipamentos de reposição;
simplicidade operacional, de manutenção e de controle (sem necessidade de operadores e engenheiros altamente especializados);
baixos custos operacionais;
adequada eficiência na remoção das diversas categorias de poluentes (matéria orgânica biodegradável, sólidos suspensos, nutrientes e patogênicos);
pouco ou nenhum problema com a disposição do lodo gerado na estação; baixos requisitos de área (de acordo com a realidade local e disponibilidade); elevada vida útil;
possibilidade de recuperação de subprodutos úteis, visando sua aplicação na irrigação e na fertilização de culturas agrícolas;
existência de experiência prática.
Os critérios de sustentabilidade, quanto à aceitação cultural, segundo Garcia & Galvis (2000) podem ser:
Saber que a tecnologia deve acomodar-se à cultura local e não ao contrário. A técnica deve corresponder aos desejos e expectativas da comunidade, considerando o nível de serviço requerido, disponibilidade e capacidade do pagamento, além das possibilidades de realizar as atividades de operação e manutenção;
reconhecer que a tecnologia não é somente um equipamento e/ou metodologia. Ela possui elementos de organização para sua operação, manutenção e administração e, em função da técnica selecionada, pode requerer pessoal altamente capacitado;
saber que toda tecnologia gera impacto ambiental (na construção e operação) que deve ser minimizado, segundo a visão sistêmica da seleção;
aceitar que toda tecnologia precisa de avaliação e adaptação na região onde será implantada.
3.3.1 Saneamento em pequenas comunidades
Metcalf & Eddy (1991) definem de pequena comunidade com sendo aquela com menos de 1.000 habitantes. Essas comunidades enfrentam uma série de desafios para a construção e operação de estações de tratamento de água e esgoto. Os principais problemas encontrados são relativos aos orçamentos limitados para construção e funcionamento; às limitações técnicas em sua operação e manutenção (pessoas qualificadas); e por último, à sustentabilidade ambiental. Geralmente, as pequenas comunidades rurais estão intimamente ligadas ao ambiente natural do
seu entorno, existem atividades de agricultura, pecuária e ecoturismo, que exigem tecnologias de tratamento de água e esgoto, que garantam um processo de impacto ambiental mínimo evitando- se aquelas tecnologias que geram lodos contaminantes, maus odores, CO2 elevado e resíduos sólidos (METCALF & EDDY, 1991). Neste sentido, constata-se a necessidade por sistemas locais e simplificados, com baixos custos de implantação e operação, simplicidade operacional, índices mínimos de mecanização e sustentabilidade do sistema como um todo.
Segundo Di Bernardo & Dantas (2005) existe uma relação intrínseca entre o meio ambiente e as tecnologias de tratamento, isto é, em função da qualidade da água de determinado manancial e suas relações com o meio ambiente, há tecnologias específicas para que o tratamento seja eficientemente realizado (Figura 1). Por esse motivo devem ser consideradas as tecnologias alternativas, termo que em algumas ocasiões se refere a opções tecnológicas mais adequadas para determinado tipo de grupo social (de acordo com características do seu entorno e do poder aquisitivo), e em outras, diz respeito ao desenvolvimento e aplicação de tecnologias completamente diferentes às características da sociedade industrial avançada, ou seja, da tecnologia convencional (QUINTANILLA, 1990).
FIGURA 1 – Interação entre meio ambiente, tecnologias de tratamento e alternativas tecnológicas.
O saneamento ecológico oferece uma alternativa ao saneamento convencional e tenta resolver alguns dos problemas mais prementes da sociedade: doenças infecciosas, a degradação ambiental e a poluição. É definido como um ciclo fechado que imita ciclo dos ecossistemas em que os desperdícios (excretas humanas), são recursos para os microrganismos, que ajudam as plantas e produzem alimentos. O tratamento de urina e fezes é feito de maneira segura, destruindo elementos patógenos e mantendo os nutrientes. Usa o mínimo de água possível, portanto, é uma alternativa viável em áreas com escassez hídrica. Além disso, é considerado de baixo custo (ESREY et al., 2001). Não favorece ou promove uma tecnologia de saneamento específica, mas sim uma nova filosofia no manuseio de substâncias que têm sido até agora vistas apenas como resíduos ou transporte de resíduos destinados à eliminação. Ele traz consigo uma nova abordagem para a educação, saneamento, um novo discurso e uma nova forma de gestão do conhecimento. O princípio essencial do saneamento ecológico é fechar o ciclo entre o saneamento e a agricultura, permitindo e trazendo o significado de reuso agrícola, assim como do significado de outras formas de fechamento de ciclo (GTZ, 2006b).