Após termos observado como os conceitos de sapientia e uirtus aparecem nas epístolas de Sêneca, passemos, agora, a confrontar tais observações com outras fontes. Segundo M. H. Pereira, para os estóicos, uirtus e sapientia identificavam-se.212 O primeiro sentido do segundo termo remonta à concretude de sapiens: o verbo sapio (“ter sabor” ou “gosto de”) e, a partir deste, o substantivo sapor (“sabor”). O dicionário de Oxford apresenta duas acepções que julgamos satisfatórias para o sapiens estóico: a de “homem sábio (especialmente implicado como homem virtuoso)” e a do “professor de sabedoria” e “sábio”. O conceito de sapientia, em Sêneca, seria a “sabedoria como o estudo e o objetivo dos filósofos” e “sabedoria como virtude estóica”.213 Virtus, por sua vez, deriva de uir, como já o atesta Cícero nas Tusculanae;214 era um valor fundamentalmente romano – apesar do paralelo que se pode estabelecer entre uirtus e o correspondente grego aretê – 215, e o sentido que lhe apõe a ética estóica é o de “excelência moral”, “virtude”. Na referida obra, o famoso orador define a uirtus como “(...) uma disposição constante e adequada da alma” (IV, 15, 34).216 Essa passagem se assemelha à encontrada na epístola 113 de Sêneca, em que ele diz que “a virtude nada mais é do que a alma se mantendo de um certo modo” (§ 2).217
A interdependência entre ser sapiens e possuir uirtutes surge no livro V das
Tusculanae: “(...) com efeito, dizemos que os versados e dotados de todas as virtudes
são tanto sábios quanto homens de bem” (X, 28).218 Veyne, citando essa interdependência, afirma que o sapiens é um homem que, “graças à interiorização das quatro virtudes, vive em uma alegria perpétua que goza de três excelências: a grandeza de alma, a confiança em si mesmo e a segurança em relação às coisas do mundo”219.
O centro do sistema da ética estóica consistia no que era moralmente perfeito, a virtude, cujo sentido mais amplo, como atesta Sandbach, é de excelência moral, era um termo absoluto, sendo um estado tal que seu possuidor faria sempre o que era certo, e isso era possível somente se ele soubesse o que era certo: “conseqüentemente, o homem
212
Pereira, op. cit., p. 409. 213
Todas essas definições se encontram no Oxford Latin Dictionnary, que consta da bibliografia. 214
II, 18, 43: Appellata est enim ex uiro uirtus. 215
Pereira, op. cit., p. 399. 216
(...) adfectio animi constans conueniensque.
217 (...) uirtus autem nihil aliud est quam animus quodammodo se habens. 218
(...) omnibus enim uirtutibus instructos et ornatos tum sapientes, tum uiros bonos dicimus. 219
virtuoso deve ser um homem sábio, e virtuoso porque é sábio”220. Burnier, de maneira semelhante, diz que “é no sábio que a virtude se realiza”221. Para os estóicos, a virtude era, essencialmente, assim como o foi para Sócrates, uma matéria de conhecimento ou sabedoria222.
O sábio, que encarna a realidade do summum bonum, é virtuoso, ele possui “a”
uirtus, ou seja, a perfeição da razão223, cujas quatro virtudes cardinais – justiça, coragem, moderação e prudência – são somente aspectos particulares224. Desde Zenão, a doutrina estóica da virtude consistia nos dogmas da unidade desta última e de sua identificação com a razão perfeita. A originalidade do estoicismo, no entanto, não residia nesse dogma, mas na articulação da uirtus à concepção unitária da alma, rompendo-se, assim, com a tripartição platônica225. Na epístola 113, Sêneca diz a Lucílio, em resposta à dúvida de seu discípulo sobre a virtude ser um ou vários
animales (“seres animados”):
“A mesma alma se converte em vários aspectos e ela não é um outro ser animado todas as vezes que executa outra coisa”226.
Embora houvesse uirtutes diversas,227 não podiam existir separadamente. E Sêneca, sem enveredar pelas vias dos antigos mestres da Estoa, não estabelece uma “hierarquia das virtudes”, não se preocupando em delimitar quais as “principais” e quais as “secundárias”. O cordovês se contenta em considerar a virtude como um único todo: “O seu escopo é levar o orientando à prática da virtude, simplesmente, numa intenção pedagógica em que, como sempre, o importante é o valor real do ensino para a formação moral e não o luxo intelectual da informação”.228 Na epístola 109, Sêneca afirma que “(...) todas as virtudes têm um elo229 entre si” (§ 10).230
220
Sandbach, op. cit., p. 28. 221
Op. cit., p. 20. 222
Id., ibid., p. 41. 223
Cf. Ep. 76, 10: haec ratio perfecta uirtus uocatur (“essa razão perfeita é chamada de virtude”). 224
Cf. Lévy, op. cit., p. 170. 225
Idem, ibidem, p. 171. 226
Idem animus in uarias figuras conuertitur et non totiens animal aliud est quotiens aliud facit. 227
Além das quatro virtudes definidas por Zenão a partir da tradição platônica – justiça, coragem, prudência e moderação –, Sêneca menciona, entre outras, a patientia (“impassibilidade”), a fides (“confiança”) e a humanitas (“benignidade”).
228
Segurado e Campos, op. cit., p. XXVII. 229
Traduzimos amicitia por “elo” de acordo com a quarta acepção do OLD: 4 Afinidade, acordo (...): b (entre coisas inanimadas ou qualidades).
230
Todas as virtudes, segundo Sandbach, dependiam do conhecimento do que era bom ou ruim, e um homem que tinha tal conhecimento possuía todas as virtudes. E esse homem não era outro que não o sábio. Na epístola 85, sapientia e uirtus parecem indissociáveis:
“Fídias não sabia fazer estátuas somente de marfim: fazia-as de bronze. Se lhe tivesses fornecido mármore, ou mesmo um material de menor valor, ele faria o melhor possível a partir deles. Assim, o sábio, se for possível, desenvolverá sua virtude nas riquezas; se não for, na pobreza; se puder, em seu país; se não, no exílio; se puder, como general; se não, como soldado; se puder, com o corpo são; se não, debilitado. Seja qual for a Fortuna que lhe couber, fará dela algo memorável” (§ 40).231
Sapientia e uirtus caminham juntas, por assim dizer, também na epístola 79; na
passagem abaixo, é interessante notar que ambas, uma vez adquiridas em sua totalidade, serão uniformes e não podem ser destruídas:
“Não podem seampliar os que já atingiram a grandeza exata: todos aqueles que se tornaram sábios serão iguais e uniformes. Cada um deles terá suas qualidades particulares: um será mais acessível, outro mais desembaraçado, um mais firme no falar, outro mais eloqüente. Mas a sabedoria de que se trata, a que leva à felicidade, será uniforme em todos. Se o teu Etna232 pode se consumir aos poucos e desabar sobre si mesmo, se a constante violência dos fogos pode destruir esse monte, visível através dos espaços do vasto mar, não sei: a virtude, nenhuma chama ou desastre deita porterra. A sua majestade é a única que não sabe se rebaixar (...)” (§§ 9-10).233
Sapientia e uirtus são consideradas, juntas, o único e imortal bem:
“Pois o verdadeiro bem nunca morre, é seguro e perpétuo: a sabedoria e a virtude” (Ep. 98, 10).234
231
Non ex ebore tantum Phidias sciebat facere simulacra; faciebat ex aere. Si marmor illi, si adhuc uiliorem materiam obtulisses, fecisset, quale ex illa fieri optimum posset. Sic sapiens uirtutem, si licebit, in diuitiis explicabit, si minus, in paupertate; si poterit, in patria, si minus, in exilio; si poterit, imperator, si minus, miles; si poterit, integer, si minus, debilis. Quamcumque fortunam acceperit, aliquid ex illa memorabile efficiet.
232
Cf. Ep. 51, 1: tu istic habes Aetnam (“tu tens, aí, o Etna”). 233
Extollere se, quae iustam magnitudinem impleuere, non possunt: quicumque fuerint sapientes, pares
erunt et aequales. Habebit unusquisque ex his proprias dotes: alius erit adfabilior, alius expeditior, alius promptior in eloquendo, alius facundior: illud, de quo agitur, quod beatum facit, aequal est in omnibus. An Aetna tua possit sublabi et in se ruere, an hoc excelsum cacumen et conspicuum per uasti maris spatia detrahant assidua uis ignium, nescio: uirtutem non flamma, non ruina inferius adducet. Haec una maiestas deprimi nescit (...).
234
Não somente o sapiens realiza suas ações através da uirtus, como também, por meio dela, vence a Fortuna e adquire a verdadeira alegria (gaudium). As passagens seguintes ilustram claramente tal afirmação:
“Assim como o sábio faz tudo através da virtude, assim a virtude faz por si” (Ep. 113, 3).235
“Os homens de bem são úteis uns aos outros. Com efeito, praticam as virtudes e conservam a sabedoria no estado que lhe é próprio (...)” (Ep. 109, 1).236
“Na verdade, o sábio vence a Fortuna através da virtude, mas muitos que declaram ter sabedoria se atemorizam, por vezes, com as mais leves ameaças” (Ep. 71, 30).237
“Tens, portanto, um motivo para quereres ser sábio, uma vez que ele nunca está sem alegria plena238. Essa alegria não se forma senão a partir da consciência das virtudes: não pode ter alegria plena a não ser o homem corajoso, justo e comedido” (Ep. 59, 16).239
Percebe-se, portanto, nas passagens acima, que os conceitos de sapientia e uirtus estão interligados. Já na acepção encontrada no dicionário de Oxford, nota-se que o
sapiens também é virtuoso240 e que, em Cícero e Sêneca, possuir virtude e ser sábio são interdependentes241. E, quando o cordovês se refere separadamente a cada uma das referidas noções, os aspectos em comum entre elas são:
a) a “estabilidade”: tanto na uirtus quanto na sapientia, a constantia está presente. Conforme já se observou, é necessário que, para ser sábio, o homem deve ser sempre “semelhante e igual a si próprio” (Ep. 20, 2)242. Também a virtude possui, como uma de suas características principais, essa mesma constantia: “A virtude perfeita”, diz Sêneca, “é a igualdade e o curso da vida conforme a si através de todas as coisas” (Ep. 31, 8).
235
Quomodo sapiens omnia per uirtutem gerit, sic uirtus per se. 236
Prosunt inter se boni. Exercent enim uirtutes et sapientiam in suo statu continent (...). 237
Sapiens quidem uincit uirtute fortunam, at multi professi sapientiam leuissimis nonnumquam minis
exterriti sunt.
238
Ver tradução da Ep. 71. 239
Habes ergo et quare uelis sapiens esse, si numquam sine gaudio est. Gaudium hoc non nascitur nisi ex
uirtutum conscientia: non potest gaudere, nisi fortis, nisi iustus, nisi temperans.
240 Cf. supra, p. 45. 241 Idem, p. 45-48 . 242 Idem, p. 30.
b) a apreensibilidade: sapientia e uirtus não são inatas. Como o próprio
Sêneca apregoa, “ninguém é bom por obra do acaso” (Ep. 123, 16), e a
uirtus, assim como a sapientia, deve ser aprendida.
c) o fato de serem, juntas, o único e verdadeiro bem e de não poderem ser perdidas uma vez que foram adquiridas: “Pois o verdadeiro bem nunca morre, é seguro e perpétuo: a sabedoria e a virtude” (Ep. 98, 10. Grifos nossos)243. E, assim como não se pode desaprender a uirtus 244, tampouco se pode regredir após adquirir, por completo, a sabedoria245.
d) finalmente, o fato de serem, ambas, o fim em si mesmas, haja vista a opinião de Lévy246 e a conclusão do capítulo Viuere militare est247.