• Nenhum resultado encontrado

Sapo Onkikit engole as panelas, mija na caiçuma e sovina as filhas bonitas

Capítulo II – Tanek e mito

Mito 2 Sapo Onkikit engole as panelas, mija na caiçuma e sovina as filhas bonitas

Narrador: Tumë Japonesa (mulher de Kuini Chumarapá) Aldeia Aurélio

O mito do Onkikit começa a ser contado por uma onomatopéia, a reprodução do canto do Sapo Onkikit que fala:

UUUUU ou RURURURU. Ënden65, os Matis-humanos foram caçar fora da aldeia para moquear animais. Havia ficado apenas uma menina na maloca e então entrou o Sapo Onkikit. Ele entrou para deitar e dormir. Em outra versão, a menina é quem pede para o Sapo-Onkikit entrar, pois queria que ele matasse queixada para ela, já que os homens Matis estavam fora, caçando. Assim que o sapo entra na maloca, a menina lhe oferece caldo de carangueijo e trata o Sapo Onkikit pelo termo ―bëntaro‖ (termo de parentesco usado pelas mulheres para primo cruzado (FZS e MBS) e avô cruzado (MF); pelos homens, termo usado para seus primos cruzados e cunhados. O Sapo Onkikit come o caldo e também engole a panela de barro na qual o caldo fora servido. Em outras versões, ele também mija na caiçuma e quebra tudo dentro da maloca. A menina pergunta pela panela. O Sapo Onkikit diz que engoliu a panela, então ele foge e sobe para o alto das árvores. Os Matis chegam e pedem ao Sapo Onkikit que jogue suas filhas bonitas, o Sapo Onkikit entrega apenas suas filhas feias. Os Matis queimam o mato (explicam- me que não tinham machado, por isso colocaram fogo para derrubar as árvores). Os Sapos Onkikit-humanos morreram quando as árvores tombaram. Alguns poucos Onkikit fugiram e hoje moram bem longe, dentro do mato, no fundo da floresta.

Como todo mito, há diversas interpretações possíveis de serem feitas. Até aqui, vinha interessada em mostrar a relação entre a narrativa performática, a estética do tanek e a mítica do Sapo-Onkikit. Agora, podemos tentar pensar com o mito. O Sapo Onkikit é um sovina, uma acusação máxima para a moral Ameríndia (Calavia 2006), mas é tratado de bëntaro, como já mencionado acima, um termo para primo cruzado, avô cruzado, ou seja, cônjuge potencial, a quem a menina Matis trata bem, oferecendo-lhe comida. Porém, o Onkikit não se porta bem socialmente, engole a panela e talvez tenha mesmo mijado na caiçuma /cerveja e quebrado tudo. Além do mais, quando cobrado pelos Matis para que entregasse suas filhas bonitas, retribuisse a relação de generosidade da menina Matis, nega-se, o Sapo Onkikit entrega apenas as filhas issamarop (feias). Essa é uma classificação bastante presente

65

Ënden é antigamente e marca também o início da narrativa mítica. Outro início comum é Ënden kuanampik (Antigamente, ouvi). O verbo ouvir está com o sufixo – ampik, usado para a conjugação verbal desse passado considerado como o mais remoto entre os quatro tempos de passado que aprendi em lingua matis). Pode-se começar ou finalizar também com Ënden darasibobon txuirenek (Antigamente, os velhos falavam...).

nos mitos – como no do atsaban (Jaburu) que será reproduzido adiante - e muito utilizada também no dia-a-dia das aldeias, quando se costuma chamar e separar as pessoas em bëra (belas/boas) e issamarop (feios/ruins).

Os Matis se vingam do sapo sovina de filhas e ser anti-social, queimando o mato para derrubar as árvores onde se abriga e esconde o Sapo Onkikit, matando assim muitos deles, enquanto outros fogem para o mato. A acusação de ter pele feia é também recorrente em outro mito também performado em tanek, o do Jaburu e do Urubu, sobre o qual trato mais adiante. Calavia observou a partir de mitos que, para os Yaminawa, ―os animais namoradores são animais-yushi (espìritos)‖ (Calavia 2006: 299).

A economia dos Matis com esse Sapo não é estabelecida, os Matis reagem tentando matá-lo para se vingar do sovina. Na nëix tanek, os sapos a quem consideramos bëra (bons/belos) são aqueles que marcamos publicamente ser nossos parentes, com quem não podemos manter relações sexuais, a quem tratamos bem e que retribuem sem tentar nos espancar. As generosidades não retribuídas são punidas e os sovinas são sempre mal tratados, sejam eles sovinas de filhas, como o Sapo Onkikit, ou sovina de saberes e tecnologias, como será narrado mais adiante no mito do Jabuti. Como aprendemos de Lévi-Strauss, os mitos não apenas refletem a estrutura social, eles também a engendram; a partir de suas hipóteses de análises ―mìtico-dedutivas‖, ele propõe, ao pensar com os mitos, aproveitar para questionarmos as condições apropriadas para que uma estrutura social os engendre (2004: 322).

Ënawat tanek - capivara66

Homens e algumas crianças se cobrem de lama que encontram na beira de igarapés ou pequenos córregos, molham a lama com bastante água e a esfregam no corpo todo, sobre o rosto, cabelos, braços, torso, pernas. Para cobrir totalmente as costas, uns ajudam os outros com a roupa, esfregando a lama no dorso. O Matis fica assim totalmente coberto em lama, quando essa seca, fica totalmente mascarado com uma pele de barro e em cor bege. O detalhe final é montar o focinho da capivara, com uma bola de barro, molda-se uma forma arredondada e

66

Participei de festas da capivara muitas vezes, em quase todas, elas foram realizadas dentro da maloca (em ambas aldeias Aurélio e Beija-Flor) e apenas uma vez ao ar livre, realizada pelos Matis numa aldeia Tikuna para que cinegrafistas norte-americanos a filmassem. No capítulo dedicado a comentar as relações com a mídia, volto a analisar essa particularidade e destreza de atuar ―como se fosse para a câmera‖.

nela coloca-se folhas de grama longa ou de algum arbusto, essa folhas serão os bigodes do grande roedor (mamífero conhecido por ser o maior roedor do mundo67). O focinho da capivara aproxima-se esteticamente da máscara do Mariwin.

Um dos Matis encorpora o ënawat ikbo (mestre/dono ou ―encabeçador‖ das capivaras), reconhecido por sua cabeça de barro maior e mais alta que a dos outros. É o ikbo quem faz o primeiro movimento, sempre seguido pelos demais.

Ilustração 14 – Ënawat tanek (capivara)

Desenho de Damë Pëkui, 16/09/2009 Beija Flor

67 Algumas informações de biólogos sobre as capivaras. ―As capivaras vivem em grupos familiares que podem chegar a 20 indivíduos ou mais. Geralmente, o grupo é composto por um macho dominante, várias fêmeas adultas com filhotes e outros machos subordinados. Os machos têm uma grande glândula sebácea sobre a cabeça, que utilizam para demarcar sua dominância através do cheiro. São encontradas próximo da água, em florestas ao longo de rios e em lagoas. As capivaras alimentam-se de grama e também de vegetação aquática. Quando estão em perigo, as capivaras mergulham dentro d'água e nadam sob a superfície até escapar. São excelentes nadadoras e podem permanecer submersas por vários minutos‖. Fonte: www.cpap.embrapa.br. ―Capivara é um nome de origem tupi, que significa comedor de capim (caapii-uara). Portanto, como o próprio nome indica, a capivara é um herbívoro, por excelência, que se alimenta de capins em geral, embora aceitem raízes, milho, mandioca, cana-de-açúcar, bananas verdes e talos de bananeira, aguapé, samambaia, sal, peixes aquáticos‖. Fonte: www.naturalsul.com.br . ―The species occurs only in habitat close to water including marshes, estuaries, and along rivers and streams (Eisenberg and Redford 1999). Depending on habitat and hunting pressure, they are found singly or socially. They are diurnal or nocturnal depending on hunting pressure and the season (Eisenberg and Redford 1999)‖ (Queirolo et alli 2008).