Capítulo II – Tanek e mito
Foto 16 Tumi Branco como ikbo das capivaras, com cabeça alta
Na máscara do Mariwin, colocam-se às vezes penas de pássaros no orifício para o mananukit, como aqui estão enfiados os galhos que lembram as penas de arara da máscara.
Vale notar que as munurek/danças de queixada sempre foram realizadas no meio da tarde, por volta de 15 horas, e o tanek de capivara e os demais, performados quase sempre ao cair da noite, após o crepúsculo68. Os tanek são quase minimalistas, as roupas em alguns casos são apenas um pequeno bico de pássaro feito com um pedaço de galho ou um ramo de folhas que, animado com rapidez em frente ao rosto, é a roupagem de penas da ave. Como os Mariwin, as roupas para os animais são compostas de materiais vegetais: galos, folhas, ramos, máscara de lama. Na munurek de queixada, a roupa é mais complexa, possui mais elementos, porém a de capivara cobre todo o corpo. Como já comentado, em muitos tanek, há uma narrativa mítica que é encenada, ritualizada e reatualizada, a audiência acompanha e mesmo antecipa os próximos movimentos. Na sequência, entraram os pássaros e o tamanduá. Dentre as aves, me detenho a apresentar o mito do Urubu e do Jaburu.
Tanek de pássaros69 e tamanduá Isku tanek, pássaro japó
Os jovens homens entram e fazem sons desse pássaro, conhecido na Amazônia por fazer imensos ninhos que ficam pendurados nas árvores. Como um som de Prrrup Pprrriiiii, outros fazem Tuukruu bem agudo, entram e brincam com as mulheres, esfregam-se nelas, elas riem e gritam às vezes. Ao final de cerca de uns cinco minutos, todos saem rápidos e saltando como japós, correm na direção da porta masculina. A roupa do japó é composta apenas de um ramo de folhas mantido na frente do rosto, o Matis olha através das folhas, como uma máscara. Eles o movem tremendo as mãos, então as folhas transformam-se em penas de um pássaro agitado. A velha Chawá matxó (mulher de Makë Grifo) tentou ensinar-me a cantar como o japó ―toookorururon, txo txo txitxi kororo kek‖70.
68 Em sua pesquisa com os Guarani Kaiowá, Montardo identifica que ―há horários definidos para cada repertório. Os animais de hábitos noturnos são cantados à noite, e os de hábito diurno, de dia. Mesmo dentro dessa divisão, há horários mais especìficos para cada animal‖ (Montardo 2009: 185). Tenho dados esparsos que corroboram essa observação.
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Para mim, lembravam alas de um desfile de carnaval. Jonathan Hill apresentou oralmente um artigo na conferência da SALSA 2011 onde afirmava que diversos cantos em rituais seriam como ―livros taxonômicos‖ entoados por áreas e classificações como, por exemplo, pássaros, cobras, etc. Nessa sequência de tanek, se ele está certo e se essa observação serve para analisar as sequências de cantos/tanek de animais, seria interessante compreender porque o tamanduá encontra-se em meio aos pássaros. O artigo ainda não se encontra publicado e não foi disponibilizado.
70 Talvez as palavras txó txó txitxi possam significar ―venha, avó materna‖, já que txó é venha e txitxi é avó materna (MM). O kek do final é para enfatizar que ―assim falam eles‖. Katá é um imperativo ―Fale‖.
Xaná tanek, pássaro cigana
Em menos de um minutos, voltam para dentro da maloca vestidos com o mesmo ramo, mas agora são xaná, pássaro chamado na
Amazônia de cigana. Eles entram e fazem um som de Txatxatxa txatxa txaááá, quase como um sussurro, em menos de dois minutos, saem entre gritos estridentes para a porta. Emitem sons de sussuros, saem entre gritos mais agudos, como revoada, sempre em bando.
Kuëbu tanek – pássaro jacu
Os jacus entram com um pequeno bico feito de um galho pequeno (cerca de 15 cm de comprimento) segurados por ambas mãos em frente ao nariz. Emitem também sons de pássaros, fazem um pouco de sons guturais também grrgrrr, brincam com as mulheres. A maloca é tomada dos arrulhos, em meio a risadas e gritos das mulheres, algumas reclamam com um tom de voz em falsete (tom muito empregado pelas mulheres Matis para ralhar com as crianças e em certas conversações, especialmente em certas disputas domésticas).
Xaë tanek – tamanduá
Os tamanduás entram com um enorme pau (cerca de um metro) seguro entre as duas mãos, como longos bicos, trompas que vão fuçando contra o chão. Procurando e comendo formigas (mawës). Procuram formigas embaixo dos traseiros da audiência, vão empurrando as pessoas para o lado. Uma das mulheres explica-me: ―tamanduá (xaë uirim71) não faz som, comem minhoca (noen pek)‖. Alguns deles esfregaram de leve urtiga (pokes) na gente, na audiência.
Interessante saber que o tamanduá-bandeira aparece na Festa da Tatuagem na espécie de ‗estandarte‘ que as jovens mulheres carregam. Trata-se de uma espécie de trançado de folha de palmeira presa a uma haste que é o tamanduá-bandeira. Por sua vez, logo atrás delas, os jovens homens portam ‗estandartes‘ de borboleta. Volto a tratar desses adereços ao comentar sobre os chapéus da festa da queixada e outras padronagens de pintura. No tanek, o tamanduá entrou junto com os
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Como os professores Matis, escrevo uirim, mas a lingüísta Spanghero Ferreira glosa em seu dicionário Matis Português widen . Ela traduz como o adjetivo ―rìgido‖ e, como exemplo, apresenta iwi widenrap que seria ―pau muito duro‖ (2005: 191). O uirim é utilizado também para referir-se ao pênis duro. Escutei várias vezes, especialmente os mais velhos, se vagloriarem de o terem.
pássaros. Na festa da tatuagem o estandarte do tamanduá é acompanhado pelo da borboleta. Não sei as implicações simbólicas dessas escolhas, as registro apenas.
Atsaban tanek, pássaro jaburu
Uma revoada. De repente, na maloca meio escura, iluminada
por poucas fogueiras, surgem como que voando baixo com seus longos bicos feitos por galhos de árvores finos os atsaban (jaburus). Eles entram na maloca em silêncio Uma das mulheres mais velhas critica dois meninos que vinham gritando: ―Não é gritando que se entra na maloca‖. Eles param. Todos juntos param e congelam seus movimentos, param numa certa composição – os mais altos atrás e no centro, os mais baixos na frente e lados. Seguram os bicos em frente ao nariz com as duas mãos, pois esse bicos/galhos medem cerca de um metro. Eles voam novamente e pousam suas pernas compridas no lago, imaginamos o lago imenso e cor amarelo claro, um imenso lago de caiçuma, cerveja fermentada de mandioca. O jaburu é um pássaro amigo quem devolveu o menino Matis roubado pelo urubu para seus pais e ensinou-os a pescar com timbó. O jaburu mora no lago de caiçuma, o lago é representado pelas panelas de barro cheias até a borda de cerveja de mandioca. Os jaburu pescam, comem os peixes do lago. As mulheres da audiência cutucam alguns dentre os homens que não participam do tanek, elas mandam alguém dar o esperado choque do poraquê. Alguém pega no pé de um dos ―atores‖, um tio mais velho, um cunhado, um tio. O pai não pode, irmão não pode, irmã não pode, mãe não pode, porque pode morrer alguém.
Acontece algo rápido. Um dos jaburu cai no chão, foi pego por um dëndu (poraquê), peixe elétrico amazônico que mata pela altíssima descarga de energia. O jaburu eletrocutado cai no chão, os demais voam para cima dos paus horizontais da maloca. Ficam como empoleirados, movem seus bicos imensos para o lado, alarmados. O jaburu que ficou no chão está morto (morte Matis, ou seja, o tsussin está fora do corpo).
Enquanto o Atsaban tanek é realizado, os homens velhos e as mulheres comentam e fazem gracejos sobre a movimentação dos atsaban (jaburu). Riem também porque eu digo: ― tá bom, tá bom‖ quando esfregam urtiga na minha perna e na de outros da audiência. Estamos sendo inoculados de xó, espetados pelas urtigas, volto a tratar dessas injeções adiante. Os conhecimentos são injetados, mas devemos também provar que sabemos executar, performar o que de nós é esperado. Durante a festa, Kuini Marubo disse-me várias vezes:
Tantániax, tantatá. Tantániax - tantatá é o imperativo do verbo tanekin. Kuini Marubo é um dos homens na Aurélio que dedicava seu tempo e sua atenção a mim, ensinou-me a realizar diversas atividades e aprimorar algumas de minhas práticas, também investia em enriquecer meu vocabulário matis e cuidava de meu corpo, por exemplo, quando minha perfuração abaixo do lábio para o kuiut feita por Tumi Tuku estava cicatrizando, veio em minha casa para checar como se comportava o novo furo, se estava ou não inflamado, foi também comigo ao mato cortar a madeira certa e ensinou-me a esculpir com uma faquinha meu kuiut (nas duas versões feminina - de árvore clara - e masculina - de madeira escura). Kuini Marubo agora me ordenava: Tantániax, tantatá , ―Barbara, vá participar do Tanek! Taneka (verbo no imperativo)!‖ Eu deveria mostrar que havia aprendido e, para tal, eu deveria participar do tanek. Apenas no final da festa, quando quase todos me incitaram, mandaram-me entrar na performance e, finalmente, participei como a mulher que destrincha os membros da anta. Conhecer é mostrar que se sabe fazer, como observou também Gow entre os Piro tratando de pinturas corporais (1999).
Faço agora uma pausa na descrição da festa – narrativa vivida na maloca - para apresentar mito - narrativa oral - do menino Matis levado pelo Urubu e depois trazido de volta a seus pais pelo Jaburu. Procuro cruzar os registros narrativos: oral em matis, com tradução interlinear ao português e também pictóricos, com seis desenhos feitos por Mantê, mesmo narrador principal do registro oral, são ilustrações de eventos do mito.
Minha intenção é mostrar a comunicação entre mitos, as relações entre mito e tanek e também entre os registros oral, transcrito, traduzido ao português, acompanhados de ilustrações feitas pelo próprio narrador. Assim o leitor poderá fazer outras relações entre tanek, mito, imagens a eles associadas, refletir sobre as dificuldades de traduções, não traduções de palavras, mas as mais difíceis traduções de conceitos cosmológicos e estéticos que são apresentados.
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Mito 3 - Matis levado pelo Urubu (puikun) e trazido pelo Jaburu