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1 IMPLEMENTANDO A EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NA TI TUPINAMBÁ DE OLIVENÇA

1.1 ALFABETIZAÇÃO E ESTRATÉGIAS DE ALIANÇAS

1.2.1 Sapucaeira: esse direito indígena nasceu aqu

A primeira escola com educação escolar indígena na TI foi criada em 200250, com o nome Escola Estadual Indígena Tupinambá de Olivença (EEITO), cuja sede foi inaugurada em 200651, em Sapucaeira. Seu Pedro relembrou: “esse direito indígena nasceu aqui”, na Sapucaeira, fazendo referência à atuação da filha e das outras educadoras em prol da educação. A partir de uma análise de diferentes tipos de fontes, Viegas (2007: 74) explica que a toponímia desse lugar – Sapucaeira – é totalmente ligada aos Tupinambá que estão 49 Ver próxima subparte.

50 DO de 9 de junho de 2002.

51 “Tupinambás ganham o maior colégio indígena da Bahia”, conforme publicado no Diário Oficial do Estado da Bahia (BAHIA, 2006).

estabelecidos nessa localidade há pelo menos um século52. Tais fontes estudadas por Viegas

corroboram a história oral e as memórias dos Tupinambá, que consideram Sapucaeira como sendo um dos locais de resistência. A antropóloga, que estava em campo durante os anos de 1997 e 1998, compartilha, nesse sentido, um texto ditado pela então professora da Escola Municipal Aramari53, que alude à presença da população indígena na origem da localidade, mas também durante o ano de 1997.

Sapucaeira, 10 de abril de 1997

A origem do nome Sapucaieira surgiu por causa de um rio que nasce na Serra do Serrote e encontra-se com o rio Acuípe e deságua no mar. Neste lugar, havia muitos frutos que se chamavam sapucaia, por isso o rio levou este nome. E toda a nossa região também.

Os primeiros moradores de Sapucaieira foram Antônio Fulgêncio Manoel, Domingas, Juvenal Cunha, Antônio Damásio.

Depois, em 1922, chegaram outros moradores como a família de Sr. Lúcio Batista e Maria Batista, Sr. José de Araújo e Juvina Araújo e Pedro Batista. As primeiras casas foram feitas de taipa, cobertas de ouricana e as portas de ripa de Juçara. Não tinha estradas de carro, só para animais passarem para Olivença.

Só em 1948 a 1949 as estradas foram feitas à mão. Aí, foi que veio o primeiro transporte (o carro). As primeiras máquinas entraram para fazer a estrada em 1969. (Texto ditado para o caderno dos alunos, Escola Municipal Aramari, Sapucaeira, 1997)

Ademais, para alguns tupinambás, tal como Núbia, Sapucaeira é, de certa forma, considerado como o “centro da aldeia”; não só por ser um dos lugares recuados onde as famílias antigas fugiram e resistiram para escapar do aldeamento em Olivença, da dominação, da colonização, da invasão, do roubo, dos portugueses, jesuítas e coronéis, mas também por ser onde se concentraram as articulações para o reconhecimento étnico (COUTO, 2003: 69- 70; MAGALHÃES, 2010: 155). Núbia também considerou que foi onde tudo começou (MAGALHÃES, 2010: 154-155), fazendo eco à fala de seu Pedro, “esse direito indígena nasceu aqui”.

Segundo Pedrísia e outros professores tupinambás, anteriormente reuniões para ouvir a opinião dos mais velhos e decidir em que aldeia ia ser construída a primeira Escola Indígena 52 Viegas (2007: 101, nota de rodapé 1) acrescenta que “Essa conclusão resulta da pesquisa nos livros de registro do cartório da vila de Olivença, como da memória oral de índios e de fazendeiros que se fixaram na região em meados do século e, ainda, do vasto conjunto de histórias de vida dos índios que vivem na região.” A autora informa ainda que: “O primeiro documento escrito que refere o nome de Sapucaeira é um registro de óbito datado de 1925, no qual se indica com precisão o local de residência de um índio falecido, não simplesmente como Sapucaieira, mas como ‘Rio de Sapucaieira’ (Registro de Óbito do Cartório de Olivença, Folha 68, Livro 5).” (VIEGAS, 2007, p. 101, nota de rodapé 2).

reconhecida pelo Estado, a sugestão das educadoras para a construção da primeira escola em Sapucaeira foi acatada em consideração ao histórico da localidade na luta pelo direito à educação escolar indígena. Importante ressaltar que o lugar exato da construção da EEITO foi uma área cedida por seu Pedro Braz. Pedrísia ressalta: “Pai doou pensando no futuro”. Mais do que qualquer área do sítio, seu Pedro cedeu o local da própria casa da família. Lembramos que não é a primeira vez que seu Pedro oferecia sua casa, uma vez que ele aceitou, em 1986, que as reuniões vinculadas às atividades da Pastoral da Criança acontecessem ali. Fato interessante referente ao ato de doação é ressaltado por Cinthia Creatini Rocha (2014: 88), ao explicar que os pais de Pedrísia não demostraram nenhum tipo de “ressentimento pela perda das moradias”, mas “tristeza ao recordarem as espécies vegetais que perderam: abacate, caju, nogueira, graviola, mamão e os pés de coco que lhes rendiam a colheita de mil frutos por mês”. A memória mostra novamente ser enraizada na própria terra, tal qual a raiz de sua vegetação e a relação dos Tupinambá com elas. Pedrísia me explicou também que não era a primeira intenção doar o local exato da casa, mas sim uma área perto:

A gente morava lá embaixo onde tem a escola hoje. […] A gente mudou de lá para aqui para construir [a Escola]. […] Queria que fizessem em cima, mas acharam [os funcionários da empresa de construção] muito aladeirado. Pai pensou que era insegurança também, aí fizeram aqui. Foi até bom, porque o tempo está mais ruim de malandragem. Se fosse lá… Aqui está no meio, o que se passa aqui, a gente está vendo, e de lá não estamos vendo. Aí está no meio.

Construir a escola no espaço da casa resultou ser, segundo Pedrísia, uma melhor opção em termos de segurança. Com efeito, lembramos que, nesse período, os Tupinambá haviam sido recém-reconhecidos oficialmente pelo governo e que o processo demarcatório não tinha de fato começado. Sendo assim, não indígenas, como fazendeiros e trabalhadores, estavam – e alguns ainda hoje permanecem – na região, o que representa fonte de preocupações pelos indígenas, que temem violências e perseguições. O antropólogo José Valdir Santana (2015: 125) acrescenta que a escolha do local de construção da escola deu-se também por ser um lugar sagrado, no qual, no passado, foram realizados rituais onde encantados, espíritos – tal como do caboclo Marcellino – e energias “muito fortes” costumavam circular, permitindo um vínculo com os Tupinambá, atuando sobre seus corpos “(mas não somente sobre os corpos), inclusive, debilitando-os, mas também fortalecendo-os” no presente54. Ademais, o fato de ser mais para “dentro” do território, na “roça”, representaria, segundo alguns indígenas, o “modo

de vida Tupinambá” (SANTANA, J., 2015: 125), o que vai no sentido do que mencionamos acima, contrapondo Sapucaeira com Olivença.