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Saussure e a Linguística conforme Pêcheux

3.2. Em torno de Saussure e da Linguística

3.2.1 Saussure e a Linguística conforme Pêcheux

A leitura que Pêcheux faz de Saussure e do CLG bem como a sua posição acerca da história da Linguística segue as linhas gerais da leitura dominante até certa época no contexto do movimento estruturalista francês. Nesse contexto, as formulações do CLG, que haviam ficado um longo período fora da cena teórica na França, sendo, entretanto, festivamente recebidas e frutuosamente ampliadas na Europa oriental, gozavam de um estatuto de cientificidade e eram tidas como modelo para o desenvolvimento das ciências humanas e sociais. Conforme Normand (2009, p. 117), no contexto do estruturalismo: “A palavra de ordem era a Ciência e os critérios de cientificidade. Saussure apareceu como aquele que introduziu, enfim, sua possibilidade na Linguística, até então muito pouco rigorosa e que não havia ainda encontrado seu ‘verdadeiro objeto’”. Pêcheux faz coro às teses dos estruturalistas, tomando Saussure como o fundador da Linguística científica. Muitas das posições do filósofo sobre o CLG, sobre o trabalho teórico de Saussure e sobre o papel deste na história da Linguística seguiam aquelas sustentadas por Claudine Normand, que participava de seu grupo.

Como dissemos acima, no interior da Linguística, as leituras sobre Saussure não eram unânimes e havia, assim, um outro movimento que, questionando principalmente as dicotomias de Saussure e a exclusão do estudo da fala e da história da língua, buscava repensar a Linguística, seus objetos, seus métodos. Inclui-se nesse movimento o empreendimento da sociolinguística de Marcellesi e seu grupo, como demonstrado na seção 1. A nosso ver, Pêcheux não segue as leituras e a postura que caracterizam o movimento de questionamento das proposições de Saussure sobre e para a Linguística. O empreendimento da sua análise do discurso dependia, em grande parte, da cientificidade alcançada pela Linguística com Saussure e a partir dele.

Vale, ainda, comentar a posição de Pêcheux quanto ao problema gerado quando das pesquisas sobre as fontes manuscritas do CLG e dos cadernos de anotações de Saussure. Em primeiro lugar, Pêcheux não vê uma oposição entre a obra póstuma e os manuscritos, mas uma complementaridade: sendo assim, entende que a compreensão dos conceitos do CLG, como por exemplo, a teoria do valor, pode ser ampliada pelo recurso aos estudos sobre poesia. Sobre essas duas posições, Gadet e Pêcheux (2004 [1983], p. 57) afirmam:

Para nós, o saussurianismo não se divide assim [CLG/manuscritos]: o que faz aqui irrupção na linguística [...] refere-se precisamente à

relação entre o diurno e o noturno, entre a ciência e a poesia (até a loucura). O que só pode ser concebível retomando-se as duas faces da obra saussuriana sob o domínio do conceito de valor.

Vale ressaltar ainda outra passagem na qual fica evidente que Pêcheux e seu grupo não opõem o CLG aos manuscritos – tratando da teoria do valor de Saussure, Haroche, Henry e Pêcheux (2007 [1971], p. 17) sustentam em nota que ela “parece ter preocupado Saussure durante toda a sua vida. Notas pessoais sobre as personagens das mitologias germânicas, bem anteriores ao Curso, atestam tal afirmação”.

Em segundo lugar, não considera que os manuscritos coloquem em cheque as formulações da obra póstuma, nem que esta seja uma obra apócrifa ou uma vulgata do verdadeiro pensamento do mestre. Tratar o CLG como vulgata seria o efeito trazido pelos estudos hermenêuticos da obra Saussure – qual seja, o de criar um texto sagrado, cuja verdade deve ser encontrada (Cf. NORMAND, 2009). Além disso, foi o CLG que teve um papel histórico na constituição tanto da Linguística e seus ramos, quanto de certas ciências sociais. Conforme Normand (2009, p. 118): “Foi o texto do CLG [...] que desempenhou, na história das ciências da linguagem, um papel maior”.

Mas é certo que Pêcheux não é um mero repetidor da leitura feita na Linguística francesa acerca de Saussure. O autor, como filósofo-epistemólogo, tem sua própria posição sobre o trabalho teórico de Saussure e sobre seus efeitos na história da Linguística. O referencial teórico-epistemológico das reflexões de Pêcheux, nesse período dos anos 1960-70, é basicamente o “Materialismo Dialético” (ou a “Dialética Materialista”), tal como concebido por Althusser na primeira fase de seu pensamento, isto é, como a Teoria das práticas e da prática teórica em especial – uma teoria do conhecimento científico e de sua história. No Materialismo Dialético sustenta-se a tese da oposição entre conhecimento científico e representações ideológicas (derivada de uma apropriação da oposição da epistemologia histórica francesa entre conhecimento científico e conhecimento comum), a qual se marca por uma descontinuidade qualitativa e histórica; a tese de que essa descontinuidade é marcada por um corte epistemológico que instaura uma problemática nova; e uma concepção particular de objeto do conhecimento (teórico) que supõe uma distinção deste com o objeto real.

São vários os trabalhos em que Pêcheux trata de Saussure: desde o seu primeiro artigo até os últimos há referência ao autor e à Linguística. O primeiro texto em que Pêcheux trata diretamente de Saussure é “Analyse de contenu et théorie du discours”, de 1967, sendo que as ideias aí presentes são reproduzidas quase integralmente na Análise

Automática do Discurso, de 1969. No entanto, a referência à Linguística já está presente

nos primeiros textos de Pêcheux, assinados Herbert, onde se aponta o lugar que essa ciência viria a ocupar na constituição do dispositivo instrumental que viria ser a análise do discurso. Ainda em seus últimos trabalhos, como A língua inatingível (GADET; PÊCHEUX, 2004 [1983]) e “Sobre a desconstrução das teorias linguísticas” (PÊCHEUX, 1999 [1982]), o autor retorna sempre a Saussure e à Linguística. Em todas as suas discussões, não está em primeiro plano fazer uma história epistemológica da Linguística, mas pensar a condição de possibilidade da sua análise do discurso e a sua relação com esta ciência.

Para Pêcheux, a Linguística se fundara como ciência no século XX, separando- se de um passado não-científico. Nessa ruptura, a Linguística teria se separado da “ciência clássica da linguagem”, adquirindo lugar próprio e específico no campo científico. Segundo Pêcheux (1997 [1969], p. 61), “a ciência clássica da linguagem pretendia ser, ao mesmo tempo, ciência da expressão e ciência dos meios dessa

expressão, e o estudo gramatical e semântico era um meio a serviço de um fim, a saber,

a compreensão do texto [...]”.

Para Pêcheux, bem como para a maioria dos chamados estruturalistas, foi Saussure quem efetuou o corte epistemológico, inaugurando a cientificidade da Linguística e separando-a de seu passado: a origem da Linguística científica “pode ser marcada com o Curso de Linguística Geral” (PÊCHEUX, 1997 [1969], p.61). Pêcheux (1999 [1982], p. 9) afirma que, em sua tarefa de buscar a ordem da língua, “Saussure pôs-se a pensar contra seu tempo, rompendo com uma série de interrogações pré- linguísticas sobre a linguagem e suas determinações biológicas, lógicas, sócio-históricas ou filosóficas”. Com o linguista suíço, a Linguística passa a ter como objetivo o estudo do funcionamento da língua, em outras palavras, a descrição das regras que tornam possível os elementos do sistema, e não mais o estudo da sua função (Cf. PÊCHEUX, 1997 [1969], p. 62).

Para Pêcheux, a produção do conceito de língua foi primordial para a fundação da Linguística científica, uma vez que, segundo o autor, toda ciência só se funda com a produção de seu objeto. E, além disso, a produção de tal objeto proporcionou à Linguística formular um método e desenvolver esse núcleo de conhecimentos científicos produzidos. Para Pêcheux (1999 [1982]), Saussure foi aquele que se ocupou da tarefa de encontrar o real da língua, a ordem própria da língua, e conseguiu realizar

tal tarefa, tendo inaugurado, assim, a possibilidade de constituir os campos da fonologia, da morfologia e da sintaxe.

As considerações de Pêcheux sobre a história da Linguística e o papel de Saussure nessa história, como dissemos, não são um fim em si mesmo, mas são direcionadas a apontar que a Linguística e os conceitos do CLG são científicos e podem, assim, constituir uma base sobre a qual se pode construir o edifício da análise do discurso. Talvez por causa disso, a análise de Pêcheux tenha apresentado um “defeito”, compartilhado por muitos estudiosos da época, de apresentar Saussure, conforme nos mostra Normand (2009), como se não houvesse nada antes dele, como se a história da Linguística começasse por ele. Ou pelo menos, com o defeito de, buscando colocar em primeiro plano o caráter de novidade da teoria de Saussure e a descontinuidade com o passado da Linguística, deixar na sombra as heranças de Saussure.

Para Pêcheux, um campo comumente considerado como pertencente naturalmente à Linguística, a semântica, não alcançou um desenvolvimento científico tal como aquele alcançado pela fonologia e outros. É que o tratamento do problema do sentido por Saussure fora marcado por uma perspectiva ideológica. Conforme o filósofo francês, haveria dois momentos do CLG em que Saussure trata de questões de sentido, ou seja, de semântica: quando trata do fenômeno da analogia e quando lança sua teoria do valor linguístico.

Conforme Haroche, Henry e Pêcheux (2007 [1971]), ainda que a discussão sobre o fenômeno da analogia não seja voltada para o problema do sentido, mas para o da história da língua, haveria aí algumas implicações a esse respeito. Os autores entendem que Saussure explica que o processo de criação de novas formas da língua se dá por meio da analogia, entendida a partir dos modelos das proporções. A posição de Saussure é que as formas da língua são criadas pelos indivíduos primeiramente na fala e por meio da analogia, passando a constituir o sistema somente depois de um processo complexo. Nessas considerações, Saussure expressaria a posição de que nesse processo interferem tanto a liberdade e a consciência do indivíduo quanto a coerção do sistema: o falante cria novas formas que lhe são necessárias para atender suas necessidade de expressar dada ideia; mas essa criação só é possível porque o sistema tem um lugar vazio, não preenchido, que essa forma viria a preencher, e obedece dada estrutura já existente no sistema.

A posição de Pêcheux é que, nas considerações de Saussure sobre a analogia, haveria elementos ideológicos (ou pré-científicos) – por exemplo, sua concepção de

“ideia”: “para Saussure, a ideia não poderia ser de outra forma senão totalmente subjetiva, individual” (HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX, 2007 [1971], p. 16-7). Seria, no ver dos autores, uma concepção subjetivista e individualista da “ideia” (do sentido), pois que ela teria sua origem no sujeito individual. No ver dos autores, o fato de Saussure entender que o que comanda uma analogia é uma “ideia” justifica o fato de que para ele “é preciso obrigatoriamente passar pela fala e pelo sujeito individual” (HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX, 2007 [1971], p. 17). Tratar-se-ia, assim, de uma orientação antropológica ou humanista, que toma o sujeito e suas intenções como ponto de partida para a explicação de fatos linguísticos. 60 Para o autor francês, Saussure teria acentuado, a respeito da analogia, a criatividade e a liberdade do falante quanto ao conhecimento e ao uso de sua língua. Essa solução seria ruim também porque apelaria ao sujeito como princípio explicativo.

O segundo momento do CLG em que haveria uma reflexão sobre o problema do sentido seria nas páginas dedicadas à teoria do valor. Aí a perspectiva seria completamente diferente, seria efetivamente científica. Pêcheux corrobora a tese de que a teoria do valor de Saussure é o lugar de sua ruptura epistemológica, ou seja, o ponto central de sua teoria, aquele que marca mais efetivamente a sua novidade em relação a tudo que lhe antecedeu na história da Linguística.

Deriva da teoria do valor a concepção de língua como sistema e não como nomenclatura. Ao descartar a concepção de língua como nomenclatura, Saussure anularia qualquer concepção de relação biunívoca entre significante-significado, e isso porque não bastaria que um falante entrasse em contato com um significante para ligá-lo ao significado correspondente, mas que é necessário relacionar o signo em questão a toda uma rede de outros signos (em relações sintagmáticas e paradigmáticas) para identificar qual o seu significado. Conforme Pêcheux (1997 [1969], p. 64), a noção de biunivocidade da relação significante-significado:

[...] pertence a um campo teórico pré-saussuriano, já que a linguística atual se baseia em grande parte sobre a ideia de que um termo só tem sentido em uma língua porque ele tem vários sentidos, o que significa negar que a relação entre significante e significado seja biunívoca.

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Lembremos o que foi dito na seção 1 – Pêcheux era um anti-humanista teórico, um teórico para quem a noção de homem, de indivíduo, não pode ser tomada como explicação dos fatos de cada ciência. Ao contrário, é o homem (concreto, histórico) que deve ser explicado por meio de conceitos propriamente científicos.

Mas Pêcheux vai mais longe, ao afirmar que, no CLG, há uma subordinação da significação ao valor: “O princípio da subordinação da significação ao valor pode ser considerado o centro da ruptura saussuriana” (HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX, 2007 [1971], p. 17). Segundo esse princípio, não haveria na língua significação dada de antemão ou a priori, mas valores que determinam a significação. Esse princípio teria aberto a possibilidade de uma teoria geral da língua, assentada nas relações imanentes, intra-sistêmicas e, além disso, o que é de extrema importância sob a perspectiva epistemológica de Pêcheux e seu grupo, “a subordinação da significação ao valor [...] tem precisamente por efeito interromper bruscamente todo retorno ao sujeito quando se trata da língua” (HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX, 2007 [1971], p. 17), ou seja, sair de uma perspectiva antropológica.

A posição de Pêcheux e seu grupo é que, “se essa ruptura [de Saussure, através do conceito de valor] abre passagem para a fonologia, para a sintaxe e para a morfologia, deixa entretanto de fora de seu campo uma boa parte daquilo que atribuímos à semântica” (HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX, 2007 [1971], p. 18). 61 Tal posição se explica pelo fato de que aquelas concepções presentes nas considerações sobre a analogia estão fora do núcleo da ruptura – ou seja, estão dentro da antiga problemática – trata-se de um lugar da teoria saussuriana marcado por concepções pré- científicas, tal como a de “ideia” que aí intervém.

Algumas teorias semânticas elaboradas com base nos conceitos de Saussure não teriam conseguido instituir sua cientificidade. Umas porque buscariam seu embasamento justamente naquelas concepções pré-teóricas em que se atribui ao sujeito uma liberdade, a partir da qual o sentido das palavras por ele empregadas ou criadas seria explicado. Outras porque teriam promovido uma anulação do princípio de subordinação da significação ao valor – seria o caso de teorias semânticas que seguem o modelo da fonologia, nas quais haveria o retorno da tese da existência de significações a

priori (HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX, 2007 [1971], p. 22-3). Mas, para Pêcheux e

seu grupo, o problema da cientificidade não estaria resolvido caso as teorias semânticas levassem a sério o núcleo da ruptura saussuriana – porque, simplesmente, o sentido,

para esses pensadores, não é um objeto linguístico.

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Essa leitura epistemológica de Saussure segue os pressupostos da dialética materialista, enquanto teoria das práticas teóricas, de que tratamos anteriormente – nesta, uma ruptura epistemológica nunca é geral, uma ciência não se funda de uma vez por todas: junto aos elementos (conceitos, questões) novos, científicos, persistem elementos antigos, ideológicos; e aqueles primeiros podem sempre retornar. Assim é que, no CLG, há uma teoria do valor convivendo com uma concepção subjetivista da “ideia”.

O sentido, diferentemente do fonema, do morfema e do sintagma, é constituído não apenas por elementos linguísticos, mas, sobretudo, por elementos extralinguísticos. Segundo Haroche, Henry e Pêcheux (2007 [1971], p. 20), “o laço que liga as ‘significações’ de um texto às condições sócio-históricas desse texto não é de modo algum secundário, mas constitutivo das próprias significações”.

Conforme Possenti (2004, p. 360-1):

[...] a AD contesta que o sentido seja da ordem da língua, que funcione submetido aos “seus” critérios – uma semântica não é uma “fonologia” do sentido. O sentido é da ordem das formações discursivas (FD), que, por sua vez, materializam formações ideológicas, que, por sua vez, são da ordem da história.

Sendo assim, para o grupo de Pêcheux, uma semântica linguística (de base científica) é impossível. Uma semântica científica só pode ser uma semântica discursiva, concebida como a teoria do discurso que está em seu horizonte.

Dissemos no início que Pêcheux recorre às formulações de Saussure com o objetivo de pensar um novo objeto teórico, que permitiria abordar os problemas que perseguia – o discurso. A leitura empreendida pelo autor francês tem, assim, um viés epistemológico – não se trata de uma leitura visando à aplicação de conceitos existentes a dado fato linguístico.

Para este autor, a Linguística é uma ciência de fato, sendo Saussure o fundador de sua cientificidade. Desse modo, ela pode exercer a função de um instrumento teórico para a constituição da AD. Como uma ciência, segundo Pêcheux, constrói seu objeto por meio de um trabalho sobre conhecimentos científicos produzidos em ciências determinadas, trabalho esse que passa também pela crítica de noções ideológicas, de evidências ideológicas, Pêcheux parte de conceitos científicos produzidos na Linguística para pensar o objeto de sua teoria (assim como também dos conceitos do Materialismo Histórico e da Psicanálise). É o que se passa com a análise crítica da dicotomia de língua e fala, que tanto já comentamos: trata-se de um ponto de partida para propor a existência de um nível intermediário entre esses dois, o nível da particularidade. Em outras palavras, um ponto de partida para pensar outros problemas e fazer

deslocamentos.

Portanto, Pêcheux não propunha o abandono do que fora formulado por Saussure: a Linguística, enquanto ciência da língua, tinha seu lugar e deveria continuar sua história. Todas as teorias linguísticas saídas de Saussure – a fonologia, a morfologia e a sintaxe – tinham seu lugar legítimo e sua pertinência tal como constituídas. A

existência da Linguística como ciência da língua é uma condição sine qua non para a existência da teoria e da análise do discurso. O autor não partilha da posição de um Marcellesi, para quem, a Linguística estruturalista, completamente equivocada em seus fundamentos, deveria ceder lugar a uma nova Linguística, a social.

Além disso, Pêcheux também não tinha em seu horizonte a ambição de, através de um gesto de recuperação daquilo que supostamente fora rejeitado por Saussure, promover o desenvolvimento da Linguística. A nosso ver, as críticas feitas por Pêcheux a algumas noções saussurianas (como sua concepção de “ideia” e de instituição social), bem como a sua “ingenuidade sociológica” e seu antropologismo pontual, e, ainda, as teorias semânticas de modelo fonológico, não são críticas de quem objetiva apontar o que falta na Linguística e o meio de se preencher a falta. Se, nos anos 70, há um movimento de questionamento do corte de Saussure, do fechamento da Linguística numa ciência da língua, objeto que excluiria fatores extralinguísticos, o sujeito e a história, e tentativas de promover o retorno do “recalcado”, não é nesse movimento que a reflexão de Pêcheux se inscreve. Ela é direcionada, na verdade, à constituição de um outro campo de problemas, de uma outra teoria – a do discurso; a análise do discurso não é pensada por Pêcheux como aquilo que poderia superar as limitações da Linguística.

Apesar de Saussure aparecer como uma referência positiva no trabalho de Pêcheux, pode-se afirmar que sua proposta não se caracteriza como um desenvolvimento da Linguística, tratando daquilo que Saussure teria “excluído” ou postergado – a fala. Para Pêcheux (1988 [1975], p. 91): “[...] a discursividade não é a

fala (parole)”. Em primeiro lugar, porque a concepção de fala como o aspecto

individual da linguagem não seria um conceito, mas um “resíduo não-científico” da teoria saussuriana. Seria uma noção ideológica, que “autoriza a reaparição triunfal do sujeito falante como subjetividade em ato, unidade ativa de intenções que se realizam pelos meios colocados a sua disposição” e aparece como “um caminho da liberdade humana” (PÊCHEUX, 1997 [1969], p.71). Em segundo lugar, porque o discurso (ou a discursividade) é um objeto sócio-histórico e não linguístico.