1.2 A AD francesa e suas linhas
1.2.1 A AD de Pêcheux O projeto de uma teoria do discurso
1.2.1.3 O solo epistemológico
Uma reflexão sobre o gesto de Pêcheux de explicitação das relações que o discurso, enquanto objeto da AD, teria com a língua e com a fala, tal como definidas por Saussure no CLG, gesto esse repetido em vários de seus textos, como vimos há pouco, aponta para o fato de que ele pode ser tomado como um sintoma da presença de recorrentes mal-entendidos acerca da relação da AD com a Linguística, principalmente aquela derivada de Saussure.
Ao afirmar que discurso e língua não se confundem, sendo objetos de ordens distintas e de teorias distintas, e que o discurso não é a reformulação da fala, Pêcheux anuncia de antemão que seu projeto não é “completar” o trabalho de Saussure,
desenvolvendo aquela Linguística da fala que teria ficado postergada, na qual se recuperaria a história e o sujeito, nem tampouco re-articular, numa teoria global, a língua e a fala, antes separadas.
A análise da problemática de Pêcheux, que fizemos na seção anterior, é suficiente para mostrar que a análise do discurso projetada por ele não pertenceria, do ponto de vista epistemológico, ao campo da Linguística, nem de uma ciência da linguagem (mais ampla que uma Linguística da langue), nem tampouco de uma sociolinguística. Na verdade, ela pertenceria a uma ciência das ideologias, como uma de suas teorias regionais, própria da ciência da história, ou Materialismo Histórico.
Essa parece não ser uma posição fácil de compreender, e dois fatores são complicadores. O primeiro é derivado de uma ilusão retrospectiva ligada ao fato de, no atual contexto, a AD se encontrar institucionalizada nos departamentos de Linguística das Universidades (inclusive no Brasil). O segundo é ligado ao desconhecimento da “metodologia” de Pêcheux – como as primeiras páginas da AAD-69 são dedicadas a uma discussão dos conceitos de língua e fala de Saussure, tem-se a impressão de que se trata de uma intervenção no debate das exclusões saussurianas, quando o que ocorre de fato é a exposição do processo pelo qual se construiu um novo objeto a partir da crítica de conhecimentos prévios.
Pêcheux, ao longo da sua trajetória, sempre sinalizou para a inscrição epistemológica da AD no campo de uma teoria das ideologias no interior do Materialismo Histórico. Na AAD-69, o autor comenta, ainda que vagamente, que a teoria do discurso poderia intervir no campo de uma teoria da ideologia. Em “A semântica e o corte saussuriano...”, de 1971, Pêcheux afirma que o desenvolvimento da teoria do discurso, enquanto teoria dos efeitos de sentido, “depende apenas parcialmente de uma abordagem linguística” e que parece indispensável, para esse fim, realizar uma “mudança de terreno” em relação à Linguística (p. 14-5). O estudo do sentido exigiria a introdução de novos objetos, pertencentes ao terreno teórico “que determina as formas e os conteúdos da mudança”, isto é, o Materialismo Histórico (p. 25). Em Semântica e
Discurso, de 1975, Pêcheux é explícito ao afirmar que seu objetivo é “desenvolver as
consequências de uma posição materialista – no elemento de uma teoria marxista- leninista da Ideologia e das ideologias – com respeito ao que chamamos ‘processos discursivos’” (p. 32).
Apelar ao que disse o autor é uma das estratégias para defender nossa posição. Mas não é a única, e certamente a menos eficaz. A nosso ver, a inserção epistemológica
da análise do discurso de Pêcheux no MH fica evidente no próprio conceito de discurso de que tratamos acima. E, mais, fica evidente quando se considera a problemática da teoria do discurso. Ora, o que define mais especificamente o discurso é seu aspecto de elemento material das ideologias. O discurso, entendido como “objeto sócio-histórico” e não propriamente linguístico, conforme Pêcheux e Fuchs (1997 [1975]), é um objeto definido a partir da perspectiva sócio-histórica e não linguística. O problema perseguido pela linha pecheutiana é o problema da função social da ideologia, como bem explica Robin (1977). Maldidier et al (1994, p. 87) esclarecem:
Se, como se pode observar, os sistemas de representação, o pré- construído e o pré-assertado governam o discurso, as formações discursivas, quanto à sua lei de evolução, de transformação, não podem ser apreendidas senão no quadro de uma teoria das ideologias (apenas parcialmente construída), mas o conceito de ideologia não pode ser pensado senão relacionado a toda hierarquia dos conceitos do
materialismo histórico (grifos nossos).
Quase todas as categorias que definem o discurso em Pêcheux são provenientes do MH: historicidade, ideologia, luta de classes, posições ideológicas, etc. A categoria da particularidade que define o discurso é estabelecida em conformidade com a ideologia, concebida também como algo que é do nível do particular. A categoria da historicidade e da conflitividade também se ligam ao problema da ideologia – as ideologias, bem como as posições ideológicas, são históricas e entram num embate umas com as outras.
Certamente, a Linguística e o pensamento de Saussure, assim como também a Psicanálise, tiveram um papel fundamental para a produção não só do conceito de discurso, como vimos acima, mas também de outros conceitos da teoria e do método de análise do discurso. Além disso, foi sobre a base de uma série de conceitos operatórios provenientes da Linguística que o método se construiu. Não é, entretanto, pertinente, para o nosso problema, fazer uma análise minuciosa do papel que tiveram essas duas ciências na AD pecheutiana. Basta-nos, para o momento, ter bem claro que, embora Pêcheux não concebesse a sua AD como uma teoria do campo da Linguística, essa ciência e Saussure têm um papel de elemento constitutivo da AD, como um instrumento teórico para a constituição do campo. Seguimos, portanto, a posição de Possenti (2004, p. 361), segundo a qual “não há AD sem linguística”.
1.2.2 O projeto de Marcellesi e seu grupo. A AD e a sociolinguística (ou Linguística