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Da infelicidade dos filhos na vida matrimonial, os paes são muitas vezes os culpados. Ou não os vigiam, ou então deixam-os namorar com quem não devem, ou ao menos com tanta liberdade e até desenvoltura que para evitar um escandalo tem de se apressar o casamento.

- Paes, vigiae vossos filhos e filhas e não vos fies da fraqueza humana. Não deixais namorar as filhas onde vós não as vejaes, e muito menos haveis de permittir que vão passear sosinhas com os seus noivos. Não imagineis que vossas filhas são incapazes de cahir no abysmo. Se julgaes que ellas hão de resistir á seducção enganae-vos. Não sabeis que fraco é o coração das mulheres sobretudo na edade do casamento”.

(“A Palavra”. Belém, 07 de janeiro de 1923, p. 02)

A Igreja Católica compreendia a necessidade sistemática de vigilância sobre os filhos, incumbência esta que recaía normalmente nos pais. A Santa Sé orientava, pois, os genitores no sentido de não deixar namorados desacompanhados por longos períodos, quer em passeios, quer em casa. Estes deveriam ser então constantemente vigiados para se

evitarem práticas de sedução e posteriormente possíveis alianças urgentes na Chefatura de Polícia. A Instituição compreendia ser o enlace matrimonial ato solene que deveria

realizar-se em momento oportuno e de forma conveniente, isto é, sem atropelos, seguindo as fases ditas “normais”: namoro comedido, noivado pouco demorado e a celebração do

consórcio, sendo assim indesejável sua realização por meio da força policial, jurídica ou de parentes. A liberdade dos filhos, acreditava a Igreja, era uma das causas de tantos casamentos apressados sem base econômica, sem residência, sem amor; desse modo o Clero passava a orientar os pais para que vigiassem seus filhos e filhas, uma vez que a fragilidade humana crescia quando o assunto se detinha na proximidade física entre um homem e uma mulher. Para procurar deter o “mal” da sedução, e conseqüentemente os matrimônios apressados dava-se aos genitores a incumbência de vigiar os casais para poupá-los da “fraqueza da carne”, não deixá-los namorar escondido e em nenhuma hipótese permitir que passeassem a sós.

Estes desejos eram corriqueiramente abandonados em virtude da conveniência, ou seja, em alguns casos, quando a sedução seguida de defloramento ocorria, o caminho dito higiênico encurtava-se. Exemplo neste sentido foram as tramas que envolveram Djalma d` Albuquerque Dias e Etelvina Lopes Bandeira que, em 17 de junho de 1917 em momento inoportuno, segundo as referências da Igreja Católica, matrimoniaram-se na cidade de Belém. O contraente, natural do Estado do Pará, 19 anos, empregado público, domiciliado e residente em companhia de sua genitora, Josephina de Albuquerque Dias, à Avenida Nazareth, nº 91. Seu pai, Joaquim Alves Dias, havia falecido em 29 de setembro de 1905. A contraente também paraense, 19 anos, prendas domésticas, domiciliada e residente em companhia de seus pais, João Paulo Bandeira e Evangelina Lopes Bandeira, à Avenida Gentil Bittencourt, nº 146. Djalma e Etelvina asseveravam perante o judiciário que pretendiam contratar núpcias e queriam que tivessem “(...) logar com a maior brevidade para evitar o grande damno que a demora lhe pode causar visto achar-se deflorada a nubente e ter o seu pae de embarcar para o Açu”.255 Desejava-se apressar [como aconteceu] o matrimônio, porém é necessário entender essa urgência mais em virtude do defloramento e menos em decorrência da viagem do pai da noiva; julgava-se ser este razão suficiente à pressa matrimonial, tanto que em tais momentos dispensavam-se os

255 Auto de desquite litigioso impetrado por dona Etelvina Lopes Bandeira Dias contra Djalma de

proclamas. Para o direito de família, a dar crédito a Clovis Bevilaqua,256 a causa de omissão dos documentos de praxe poderia provir de grave moléstia que colocasse em perigo a vida de um dos nubentes, e por necessidade de ausência em razão de trabalho público. O jurisconsulto evocava estes motivos para dispensar proclamas e certamente não esqueceu, apenas preferiu calar, que o rapto seguido de defloramento apreendia-se

igualmente como argumento utilizado na desobrigação [dos papéis].

O senhor Djalma, por força de pressão dos parentes da deflorada, da justiça, por “sua livre e expontanea vontade” ou por essas forças conjugadas, desejava “reparar o mal cometido”, dizia Manoel Carlos de Mello Cezar, natural do Ceará, 50 anos, advogado.257 Além da referida testemunha foram constituídas outras duas: Antonio Teixeira Lemos, advogado, 26 anos e Francisco Chagas de Araújo, empregado no comércio, 22 anos. Eles confirmavam as mesmas informações como a de que conheciam de longa data os nubentes, que sabiam não serem estes parentes e que entre eles inexistia qualquer impedimento conhecido. Entretanto uma declaração prevalecia: a de “que o nubente tem urgencia de effectuar o seu casamento porque havendo deflorado a nubente deseja de sua livre e expontanea vontade reparar o mal feito o mais breve possível”. No bojo das construções destes discursos é importante notar as profissões de duas das três testemunhas: advogado. Conjectura-se que o noivo se via diante de possíveis pressões e ameaças para casar, isto é, provavelmente lhe foi lembrado que o “mal cometido” facultava entendimento com a justiça criminal.258 Há a enfatizar, nas narrativas das testemunhas, o modo como compreendiam o defloramento, a força moral que a virgindade mantinha nas leis

republicanas, destarte chegava-se a ponto de os juristas entenderem ser esse ato resolvido apenas por uma de duas formas: matrimônio ou instaurar processo-crime. O sedutor- deflorador, como se verá a seguir, poderia ser pressionado pelo poder jurídico, pelos parentes ou vizinhos, sendo que estes “representantes” da “moralidade” buscavam resolver o embaraço causado por meio do estabelecimento de vínculos conjugais. Quando

256 BEVILAQUA, Clovis. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil. Vol. II. Rio de Janeiro: Francisco

Alves, 1952, p. 11.

257 Testemunha do auto de casamento em que são contraentes Djalma de Albuquerque Dias e Etelvina Lopes

Bandeira, 1917.

258 ESTEVES, Martha de Abreu. Meninas perdidas: os populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro da

Belle-Époque. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. Sobre as tramas de Djalma e Etelvina, veja-se: CAMPOS, Ipojucan Dias. “Cotidiano conjugal e discursos jurídicos em Belém nas primeiras décadas do século XX (1916 / 1940)”. In: PROJETO HISTÓRIA Nº 33: História e direitos. Revista do Programa de Estudos Pós- Graduados em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo: EDUC, 2006, pp. 329 / 341.

tal caminho era impossível, um processo-crime teria lugar ou mesmo a “lavagem” da honra com sangue.

Ainda de acordo com a fonte, encontrou-se que, na formação do jovem casal familiar, foram gastos alguns mil réis para colocar em ordem os documentos exigidos pela lei civil. O registro de nascimento do noivo custou seiscentos réis ($ 600); o da noiva, trezentos réis ($ 300); emolumentos, seis mil e quinhentos réis (6 $ 500) e as diligências do casamento, dez mil réis (10 $ 000). As despesas organizaram-se na ordem de dezessete mil e quatrocentos réis (17 $ 400), soma certamente não desprezível para um empregado público de 19 anos que vivia, em 1917, na cidade de Belém. Sobre família e custos recorre- se a dona Laura, pessoa bem conhecida nesta tese, que ao lembrar das orientações dadas por sua mãe e escritas em seu diário, em 1931, afirmava: “minha querida mãe me alertava que para um bom casamento era essencial o amor e pôder sustentar convenientemente a familia. Diante dessa questão ella contava uma historia de um casal Xavier e Francisquinha que consumou matrimonio por volta de 1917, sendo que o noivo não tinha qualquer

condição de suprir as necessidades basicas de uma prole, pois era funcionario publico da intendencia e ganhava cento e cinqüenta mil reis mensalmente” e mais à frente afirmava que “para se celebrar o casamento civil na cidade de Belém gastava-se por volta de vinte mil reis, 20 $ 000, mesmo sendo bem mais em conta se comparado com o religioso, ninguem pode dizer que fosse um valor baixo a um funcionario da intendencia”.259 Comparando os dados seriam gastos, apenas com a organização dos papéis das núpcias, 13,33 % do total dos vencimentos do noivo.

Laura, ao reelaborar os ensinamentos de sua mãe, lembrava que o início do século XX era momento difícil para constituir e prover convenientemente um lar. Ao recordar os posicionamentos da genitora, rememorava que o jovem casal Xavier e Francisquinha consumou núpcias “por volta de 1917”, sendo que os vencimentos da nascente família eram de cento e cinqüenta mil réis mensalmente. Deste modo mãe e filha consideravam montante insuficiente para a celebração das alianças, assim como à

mantença da ordem doméstica. Em relação aos dramas do senhor Djalma e Etelvina, desconhecem-se os salários do noivo, apenas ser ele funcionário público, como o era Xavier. Porém, mesmo não descartando existirem gradações nas remunerações entre os funcionários, ao se tomar por base os números oferecidos por Laura de que os ganhos mensais conseguidos por Xavier eram de cento e cinqüenta mil réis e as despesas de seu

casamento giravam sobre vinte mil réis, assim sendo nada muito distante das

possibilidades financeiras de Djalma para o mesmo ano e a mesma intenção: casar-se. Nas tramas de Djalma e Etelvina a legitimação religiosa inexiste, ato que, se fosse somado ao civil, tornaria o enlace ainda mais oneroso. Além das observações realizadas por Laura e comparando-as ao casamento em análise, há outros indicativos de que a quantia de dezessete mil e quatrocentos réis (17 $ 400) gastos na celebração matrimonial [de Djalma e Etelvina] apresentava-se alta, assim como o custo de vida. A título de comparação, estabelecimentos comerciais da capital paraense como o “Bazar

Americano” propagandeavam ser possível a uma família composta de 08 pessoas passar diariamente com dois mil e novecentos réis (2 $ 900), isto é, com este dinheiro comprava- se: “1 Kg 1 / 2 de carne de viração, 1 $ 650 mil réis; café, $ 200 réis; farinha Kg, $ 250 réis; pão, $ 400 réis; feijão Kg, $ 400 réis; total 2 $ 900 mil réis”.260

Nota-se que ao escrever suas impressões relativas ao casamento, família e possibilidades concretas de sustentá-la adequadamente, Laura estabelecia vínculos diretos entre o tempo histórico vivido e o passado narrado por sua mãe.261 Desse modo, é de suma necessidade atenção, porquanto cada agente social busca imprimir em suas narrativas seus próprios enquadramentos. Subjacente a esta análise, a narrativa acima trata de memórias reelaboradas a partir de leituras feitas pela mãe e em conseqüência disso, quando o assunto é a mediação entre presente e passado, entenda-se que a memória depende das

circunstâncias sócio-culturais de quem a realiza, bem como do que consegue lembrar no momento da escrita.262

A questão que se impõe com a narrativa desse e de outros casos de

defloramento seguidos de casamento é notar como se tramavam os sentidos da sedução e defesa, assim como os discursos para e pelo judiciário sobre as questões defloramento e matrimônio. O necessário para parte da sociedade (família e Igreja) era a urgente reparação do “mal”, pouco importando se o deflorador e a deflorada fossem maiores ou menores de idade e se pudessem ou não sustentar uma família; mas havia sentido nesta aparente

260 A Província do Pará. Belém, 30 de julho de 1922, p. 03.

261 Para uma análise consistente sobre as dinâmicas que se organizam entre passado e presente, remete-se a

dois autores especialistas no assunto: LE GOFF, Jacques. “Passado/presente”. In: História e memória. São Paulo: Editora da UNICAMP, 1996, pp. 203 / 231. PESAVENTO, Sandra Jatahy. “Em busca de uma outra história: imaginando o imaginário”. In: REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA / ANPUH Nº 29:

Representações. São Paulo: Contexto, 1995, pp. 09 / 27.

262 LE GOFF, Jacques. “Memória”. In: História e memória. São Paulo: Editora da UNICAMP, 1996, pp. 423

incongruência: procurar formar elos de aproximação entre defloramento e necessidade

urgente de consórcio, pois era primordial resguardar a ordem familiar.

O desvirginamento seguido por casamento era o indesejado, porém resolvia em algum sentido o problema; na cotidianidade, impunha-se equação mais ampla e passível de variadas combinações. Por exemplo, os jogos de sedução ou acusação podem ser

encontrados no auto de investigação de paternidade cumulado com o de alimentos a que respondeu Mardomiro Sanches da Anunciação, 29 anos, solteiro, paraense, pardo,

marítimo, sabia ler e escrever, morador da casa nº 424 da Travessa Timbó que era acusado de ter deflorado a menor Jeronima Vivalda Tostão, 18 anos, paraense; o réu não desejava casar.263 Vejam-se os sentidos da sedução e da defesa que a autora e o acusado utilizavam em juízo. O senhor Chefe de Polícia afirmava que para o réu conseguir o seu intento [a sedução] “comprou moveis e utensilios para a formação do novo lar e assim aproveitando das circunstancias e da fraqueza de Jeronima com esta teve relações carnais no dia 13 de janeiro desse mesmo anno em casa de Gorgiana Santana deflorando-a”.264 Sanches fazia a Jeronima reiteradas promessas matrimoniais. A compra do mobiliário expressava

significativa simbologia em torno das efetivas pretensões do namorado. A estratégia certamente centrava-se em invadir e cercar de certezas a namorada, uma vez que, além das promessas de enlace, presenciava a compra de objetos que formariam os recônditos do seu lar.

Na epígrafe, documento escrito pela Igreja Católica em 1923, afirmava o quanto era fraco “o coração das mulheres sobretudo na edade do casamento”, mais de dez anos depois, em 1934, o Chefe de Polícia, ao argumentar as razões que fizeram com que Jeronima cedesse aos jogos do namorado, recorria igualmente à fraqueza da mulher quando se aproximava a idade matrimonial.265 Dessa maneira aqueles que se vestiam com as máscaras da ordem e da moral lançavam mão basicamente dos mesmos argumentos para defender, mas também acusar as mulheres. Se por um lado não se questiona neste trabalho a participação efetiva destas nas tramas de sedução, por outro, no início do século XX, para muitos, elas eram frágeis diante das estratégias de sedução dos homens. Destarte, das tramas em pauta e em diversas outras, interpretava-se a mulher como incapaz de ser

263 Auto civil de investigação de paternidade cumulado com prestação de alimentos impetrado por Jeronima

Vivalda Tostão contra Mardomiro Sanches da Anunciação, 1934.

264 Idem.

265 Para uma análise sobre o que seria boa idade para o matrimônio, veja-se: CAMPOS, Ipojucan Dias. Idade

detentora de ardis de defesa aptos a se contraporem às investidas dos homens, mas

“sempre” como pessoas que necessitavam da defesa dos irmãos, pais, parentes enfim, por uma idealizada moralidade. A testemunha Tertuliana Moreira da Rocha, 20 anos, casada, paraense, doméstica, branca, sabia ler e escrever, afirmava que Jeronima foi sua empregada e era recorrente o assunto casamento entre deflorada e deflorador e que depois do fato consumado “se desempregou da casa da respondente e foi morar na casa da família de Mardomiro de onde a mesma foi posta na rua a uns meses atrás juntamente com

Mardomiro pois os pais deste segundo a respondente ouvio dizer haviam descoberto que Mardomiro deflorou Jeronima”. Nos limites da cotidianidade tudo conspirava contra o sedutor/deflorador e também contra a deflorada, visto que os pais daquele se colocaram desfavoráveis às ações do casal chegando a ponto de expulsá-los da residência.

A conquista de um corpo virgem se apresenta ao conquistador como um momento e acontecimento únicos e nada se apresenta mais desejável do que o que jamais foi possuído por ninguém, pois “o frescor das nascentes secretas, o aveludado matinal de uma corola fechada, o tom da pérola que o sol não acariciou ainda” são sensações que atraem os sedutores.266 Estas imagens eram desejadas por Mardomiro Sanches da Anunciação, uma vez que o fim do desejo “é a consumação do objeto desejado”; assim sendo as armas interpostas organizavam-se de forma bem variada por aqueles que se lançavam às empreitadas conquistadoras, e o lançar múltiplos significados às artimanhas utilizadas constituía-se trivial ao sucesso da causa, tanto que promessas de casamento, objetos (mobiliário) e cartas fizeram parte das experiências cotidianas forjadas pelo réu. Compromissos, obrigações, endividamentos morais, ao que tudo indica, foram assumidos e sobrecarregavam Jeronima de planos e de esperanças, porquanto funcionavam

simbolicamente com vistas a uma convivência duradoura. Não obstante, vêm

freqüentemente à luz vestígios de elevada mobilidade de convencimento e de confiança entre os que, tanto quanto se pode saber, movimentavam-se entre si com bastante intimidade, notada em missiva enviada pelo réu a impetrante.

Leia-se a carta:

“Minha inesquecida Jeronima do coração. Receba mil beijos deste que te ama.

Prezada Jerô estas mal traçadas linhas que acabo de escrever-te estão representando o verdadeiro simbolo desse nosso torturado amor.

Minha filhinha já que é a aventura não concede-me passar mais os antigos deliciosos estantes que outrora passei ao carinhoso lado peço-te pelo amor que me tens a tua extremosa mãe que não fiques mais ai na casa desta maldita vibora olha vou trabalhar este resto de semana para ter dinheiro para tua passagem e para levareis para tua mãe tambem comprarei tua meia Sabado. Domingo te espero no canto da Segunda para nós ir na casa do teu tio sim meu amor! Tenho muitas coisas a te contar mas so te fallando pessoalmente tambem quero que me deixes como recordação do nosso amor o travesseiro onde repousa o teu famoso rosto que so nelle repousara ardente paixão que fica no meu pobre coração que te ama e adora por toda a vida. Quero que tambem deixe teu endereço por escrito. O resto do papel é para escreveres para mim tudo o que desejais de mim ate a tua volta. Belém (ilegível), sem mais peço-te perdão pelo sofrimento que já passaste por mim e que está (ilegível) ou ate o dia de tua partida”. 267

É possível perceber na carta que o senhor Sanches atuava nas tramas da sedução, ou seja, inquestionavelmente o “sedutor” mostrava-se ativo nos jogos da conquista. Acentua-se o fato de que o namorado enunciava a pretensão de construir um relacionamento duradouro e para tal empreendimento entendia ser de suma importância elaborar um plano que proporcionasse segurança à sua pretendente; então, em seu jogo, lançava mão de promessas e palavras suaves (inesquecível, amor, coração, beijos, recordação), justamente para mostrar envolvimento profundo com a autora. Com efeito, atente-se para o fato essencial de que este projetava sobre si um caráter que deveria mostrar-se próprio e consistente: um sério envolvimento; e esta projeção de caráter era boa estratégia nos interstícios da sedução não somente para convencer a amada, mas para colocar-se em condições favoráveis diante da família dela e da sociedade. Agia-se tanto no intermediar convencimentos em relação ao alvo a ser conquistado, como em vencer batalhas contra aqueles que o circundavam. Nas estratégias de sedução havia um segundo princípio, diretamente ligado ao argumento anterior: quando Sanches lançava uma

definição precisa de suas intenções pretendia, implícita ou explicitamente, caracterizar-se de determinada forma e automaticamente exercer exigência moral diante das pessoas que protegiam Jeronima, o que as “obrigaria” a valorizá-lo e a tratá-lo da maneira como as pessoas “de seu tipo” têm o direito de esperar ser tratadas.

Dez anos antes, em 1924, igualmente por meio de uma missiva o sedutor Bertolino Alves de Amorim se complicava diante da polícia e da família de Minerva Ferreira de 14 anos, ao escrever:

267 Carta anexada ao auto de investigação de paternidade cumulado com prestação de alimentos impetrado

“Minha adoradissima creatura. Eu, este pobre moregador de sentimentos, não pensei, ou melhor, nunca acreditei que a gente pudesse morrer de amor. Mas, agora, que vi os teus olhos, admirei o teu penteado “a lá garçonne”, extaziei-me enxergando todo o teu corpo divino corpo em bamboleios apalhaçados, já não posso mais fugir das garras desse tigre de bengala que se chama amor. E na Africa selvagem dos meus instinctos barbaros revolucionam-se as tribus antropophagas do meu desejo. Se tu, por um fortuito acaso, me negares o teu affecto de mulher moderna, eu te juro pelos santos que fizeram milagre na terra, que no estoirar medonho de um legitimo “Colt” encontrarei a delicia suprema desta vida”.268

Minerva respondeu ao amado da seguinte maneira:

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