6.1 Era uma vez um caminho investigativo: das artes de fazer às artes de
6.1.1 Um inventário de invenções: o curso de extensão
6.1.1.2 Segundo encontro: Itaboraí, 18 de setembro de 2017
Quinze dias se passaram. Duas semanas com o diário. Benjamin também escrevia em diários de viagem. Ele escrevia em rememoração sobre o particular, as mônadas. Nosso segundo encontro iniciou com o compartilhamento das narrativas das caminhantes. Ao caminhar pelo cotidiano, a professora Bya25 escreveu:
25Nome fictício escolhido pela professora em homenagem a sua filha.
Como pode?
As segundas minha turma tem aula de Educação Física. Eles sempre ficam empolgados com a presença do professor na escola.
Nesta segunda, após a aula do professor, João Pedro me perguntou: _ Professora, como pode?
_ Como pode, o quê? Perguntei a ele.
_Como pode tio Antônio não brincar com a gente lá fora? _Ele faz o quê com vocês?
_Ele pede pra gente desenhar. _E você queria fazer o que na aula?
_ Ah, professora! Eu queria jogar bola que nem as crianças maiores. _Na próxima aula, pede ao professor para ir lá fora com vocês! _Tá bom professora. Se ele não for você fala com ele “pra gente”. Vou ler meu passaporte na reunião de planejamento.
As crianças chamam a nossa atenção para as práticas pedagógicas com elas. Elas nos dão indícios, sinais em avaliação sobre o cotidiano. Que cenas aparecem nesta narrativa? O que está dito? E os não ditos? Eles dizem algo? Uma criança que está relativizando com o adulto, o fato de não brincar. João Pedro parece saber que a brincadeira é um direito. E que, no “currículo” oficial, jogar deveria estar contemplado, a priori. Então munido deste saber, ele reflete: Como pode um professor que não leva a gente para brincar lá fora? Só propõe o mesmo tipo de atividade? Talvez os adultos não estivessem percebendo isto. Mas Bya, ao escutar João Pedro, percebeu que era importante pensar. A reunião de planejamento coletivo parece ser um espaçotempo propício à avaliação, ao estudo e a reflexão sobre a prática. A narrativa também.
A escrita de Bya pareceu anunciar o tema de discussão do nosso segundo encontro: “Narrativas e infâncias. Entre as infâncias das professoras e as infâncias das crianças: Que
narrativas? Que Práticas?”. Este foi o assunto principal da pauta.
As professoras que desejaram, leram suas narrativas. A professora Lua26 queria ler seu diário. Mas o registro feito durante aqueles quinze dias não traziam uma experiência avaliada por ela como agradável. Então, com vergonha da situação, solicitou à colega que lesse em seu lugar. Após a leitura, Lua fez uma interessante reflexão. Ao ouvir a história vivida por ela, lida por outra pessoa, a fez olhar para a experiência por outro lócus. Segundo Lua, o acontecimento narrado não pareceu ser tão ruim, como havia pensado até então. A história
26 Nome fictício escolhido pela professora por lembrar-se do seu pai. Ele a chamava assim. E isso a fazia se
sentir única. Em virtude disto, a professora tem uma relação especial com a lua. Certa vez disseram a ela que pessoas que gostam de observar a lua são sonhadoras. Ela confirma que sim. (Registro no diário da professora Lua-13/11/2017.
vivida que ela viveu e escrita por ela, ao ser lida por outra pessoa, a fez pensar que uma experiência negativa também é constitutiva de sua formação.
Trago o registro da fala da professora Lua somente munida dos lampejos da minha memória. Como o objetivo do curso estava na escrita das narrativas nos diários, não planejei utilizar o gravador como recurso. Naquele momento, quando escutei as reflexões feitas por ela queria ter a capacidade de reter, fixar aquela reflexão em minha memória. Mas não foi possível. Os detalhes da fala, as pausas, as palavras escolhidas, as nuances do dito, já não podiam ser recontados exatamente como foram expressados. Porém, só me dei conta disto quando recontei este episódio durante a reunião do grupo Polifonia. Ali, “cutucada” por meus companheiros, percebi que estava perdendo uma grande possibilidade do curso, a gravação dos encontros.
Figura 13 - Mix de fotos do segundo encontro do curso de extensão
Após ouvirmos as narrativas umas das outras, assistimos ao curta metragem Alike27. O filme nos trouxe muitas provocações: a relação adulto-criança, as concepções que temos sobre as infâncias e como esses modos de conceber as crianças dizem das práticas que temos com
27 Curta-metragem espanhol de oito minutos, dirigido por Daniel Martinez Lara e Rafa Cano Méndez tem
ganhado a admiração e o reconhecimento de muitos críticos. Alike mostra a rotina de Paste, uma criança alegre e criativa, e seu pai, Copi, que tenta ensinar ao filho as obrigações do dia a dia.
elas. O filme nos fez pensar sobre o tempo na modernidade, a relação dos adultos com o trabalho e o esvaziamento de sentido das experiências. Um debate bastante inquietador.
Depois de conversarmos sobre o filme, fizemos uma tempestade de palavras. Cada professora disse uma palavra para traduzir o que pensa sobre as crianças. Fomos refletindo sobre as palavras e o que elas podem nos dizer. O que está por trás delas? Pensar sobre as palavras convidou-nos a fazer uma viagem entre os tempos. O que pensavam sobre nós quando éramos crianças? O que pensamos hoje sobre os pequenos? Discutimos então, sobre os conceitos de infância e sua dimensão histórica e cultural.
Para trazer novos fios à tessitura da conversa, vimos uma seleção de fotos com imagens de crianças e seus brinquedos por todo o mundo. O que as difere? O que as aproxima? Este segundo encontro foi especialmente provocador, tanto que não conseguimos dar conta de todos os pontos da pauta. O livro “Estela” ficou para o terceiro encontro.