1. Plano abstrato: os dois poderes morais
1.2 Segundo poder moral: racionalidade e reconhecimento
Para bem compreender o segundo poder moral de Benson, vale construí-lo a partir do primeiro, demonstrando a correlação e, até mesmo, vinculação entre eles.
Ao afirmar que a pessoa, enquanto tal, possui a aptidão natural pela independência pura, Benson demonstra que esse primeiro poder tem caráter negativo: ele não dá azo a qualquer pretensão positiva, de cunho moral ou legal. Entretanto, Benson não ignora que para preservar essa independência, é necessário ação. Ação não como a busca pelos interesses subjetivos subjacentes a cada escolha (inclusive a de contratar), mas sim como o reconhecimento de que a independência pura é, em si mesma, um “objetivo e um fim”, que merece ser perseguida33.
Esse reconhecimento implica, assim, uma escolha racional, porquanto envolve definir finalidades para a ação e assumir as consequências disto34. O agir racional depende de esforço, sendo, assim, uma liberdade positiva. São necessários ímpeto, atitudes positivas no sentido de fazer valer esse segundo poder moral. Não mais se fala em contemplação, mas em esforço: “a posição passiva torna-se abolida e existir significa esforçar-se”35. Racionalidade é precisamente o primeiro aspecto em que o segundo poder moral está ancorado.
O segundo aspecto é o reconhecimento. Reconhecer, neste caso, significa compreender que a pessoa está em comunidade e, assim,
33 BENSON, Peter. Justice in Transactions: A Theory of Contract Law. Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2019, p. 371.
34 KANT, Immanuel (trad. Clélia Aparecida Martins). Metafísica dos Costumes.
Petrópolis: Vozes, 2013, p. 37 (“a personalidade moral, portanto, é tão somente a liberdade de um ser racional submetido a leis morais (a psicológica não passando, porém, da capacidade de tornar-se a si mesmo consciente da identidade de sua existência nos seus diferentes estados), donde se segue que uma pessoa não está submetida a nenhuma outra lei além daquelas que se dá a si mesma (seja sozinha ou, ao menos, juntamente com outras”).
35 ORTEGA y GASSET, Jose. Kant Hegel Dilthey. Madrid: Revista Del Occidente, 1972, p. 37.
relaciona-se com outras. Sem esta característica sequer se falaria em contrato, quanto mais na concepção de Benson, em que a transferência de propriedade se dá de modo recíproco, sendo ambos os polos da relação contratual promitente e promissário ao mesmo tempo36. Benson bem pontua em um trabalho sobre Kant que “a vontade comum articula a lei para a vontade individual das partes”37.
Como, então, conceber uma independência pura se a pessoa é inegavelmente influenciada pelas outras no entorno social? A resposta está no segundo poder moral. Ao incidir, esse poder permite reconhecer a independência pura do outro para assim abster-se de infringi-la. Benson conclui:
Essa ideia de razoável postula que, antes de qualquer conduta voluntária que possa colocá-los em uma relação especial entre si, os indivíduos são considerados mutuamente independentes. As consequências decorrentes das próprias decisões são imputadas apenas a eles mesmos. Tudo o que uma pessoa pode legitimamente exigir dos outros é que se abstenham de infringir o que lhe pertence, não que atendam às suas necessidades ou desejos, por mais básicos ou urgentes que sejam38.
Nessa perspectiva, as pessoas são idênticas e nessa identidade sobressai o segundo poder moral, enquanto decisão racional de abster-se de infringir a personalidade alheia. Esse é o imperativo hegeliano – “sê uma pessoa e respeita os outros enquanto pessoas”39 –, a demonstrar a proximidade com a teoria proposta por Benson.
36 BENSON, Peter. Justice in Transactions: A Theory of Contract Law. Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2019, p. 51.
37 BENSON, Peter. External Freedom According to Kant. In: Columbia Law Review.
Vol. 87, n. 3, 1987, p. 568 (destacou-se).
38 BENSON, Peter. The Idea of a Public Basis of Justification for Contract. Osgoode Hall Law Journal, vol. 33, n. 2, 1995, p. 301.
39 HEGEL, G. W. F (trad. Paulo Meneses). Filosofia do Direito. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2010, p. 80.
Dando fecho à análise do plano abstrato, vale sintetizar como esses poderes se entrelaçam e se compatibilizam em Benson.
O primeiro poder moral, a independência pura, é a aptidão necessária para que o sujeito contratante possa se distanciar de seus interesses, desejos, e finalidades subjetivas, colocar-se como um ser independente de tudo o que não lhe seja ínsito e inseparável – um ser em abstrato.
Tal característica é única da pessoa, na concepção bensoniana, o que a distingue do objeto a ser transacionado: a pessoa é proprietária – e não propriedade40 – no ato de transferência que constitui o cerne da teoria de Benson. Esse primeiro poder moral serve de suporte para a construção teórica de uma transferência de propriedade como ato jurídico dissociado das intenções e desejos particulares dos sujeitos contratantes.
Já o segundo poder moral atua em um espectro ainda abstrato, porém mais próximo da realidade dos sujeitos contratantes, como se fosse uma etapa intermediária para chegar-se ao plano concreto que será tratado logo mais. Nesse nível compreende-se que a pessoa não só tem sua independência pura, como deve respeitar essa mesma independência das demais.
Não há como deixar de relacionar essa característica à profunda discussão proposta por Benson sobre dano (injury) e inadimplemento culposo (misfeasance). Para o autor, “a indiferença legal às motivações é compatível com os preceitos éticos que determinam às partes respeitarem os direitos recíprocos”41, em especial sua respectiva independência pura.
40 Op. cit., p. 81 (“a pessoa, diferenciando-se de si, relaciona-se com uma outra pessoa, e precisamente ambas têm ser-aí uma para a outra somente como proprietários. Sua identidade sendo em si recebe uma existência pela passagem da propriedade de um para a de outro, por sua vontade comum e com a manutenção de seus direitos, - no contrato”).
41 BENSON, Peter. Justice in Transactions: A Theory of Contract Law. Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 2019, p. 398.