No processo de sedentarização e durante o primeiro aprendizado agrícola, já surgiram os construíram os primeiros jardins domésticos, onde ao lado das espécies alimentícias se passou-se a agregar a seleção humana de plantas, ao longo de milênios, com espécies de uso medicinal e estéticos.62
As plantas dos complexos alimentícios humanos (trigo, cevada, centeio, mandioca e milho e arroz, para citar alguns) são resultado de seleções e modificações genéticas direcionadas pelos interesses humanos, que foram responsáveis pelo maior capítulo da história da alimentação, ao menos em termos de duração, baseado em uma fonte vegetal de carboidratos, acompanhado por
61 INGOLD, Tim. Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 18, n. 37, p. 25-44, jan./jun. 2012.
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carnes de caça ou de rebanho, verduras e legumes de horticultura, frutos, e assim por diante.63
Dean acredita que a chegada dos humanos na América do Sul coincidiu com a expansão das florestas durante o aquecimento do holoceno, há cerca de 13 mil anos AP, possivelmente atravessando o canal do Panamá, ocupando as planícies, embora haja argumentos a favor de datações mais antigas, e por volta de 11 mil anos estaria em terrenos nos limites entre regiões florestadas e campos abertos, talvez em busca de caça de grandes mamíferos, podendo ter contribuído para a extinção desses animais. Os grupos humanos teriam escolhido os locais de interseção entre condições ambientais distintas, ecótonos, entre rios, florestas e campos abertos, e seguindo as redes fluviais, adentrava para o leste, por áreas mais florestadas. Utilizando o fogo, podem ter modificado em grande escala amplas áreas de vegetação, especialmente quando o clima mais seco e a ação de ventos favorecia a dispersão do fogo, sendo talvez responsáveis pela formação de campos e savanas locais, ou das florestas de araucárias ao sul do continente.
Lévi-Strauss sublinha a diversidade de práticas de semi-cultivo e cultivo de espécies vegetais úteis - diversas espécies de palmeiras, árvores frutíferas, bromélias, raízes, e até capins – envolvendo processos de controle da dispersão, irrigação artificial, e beneficiamento dos materiais extraídos, demonstrando um controle refinado do meio- ambiente. O autor contradiz, com os dados da etnografia, as proposições que afirmam ser o indígena “marcado pelo seu meio”, i.e. extremamente dependentes de determinadas espécies botânicas. Pelo contrário, essas populações: por vezes fazem diferentes usos culturais de uma mesma espécie, mostrando um certo grau de autonomia e escolha em relação às possibilidades do meio circundante; em outros casos, encontraram substitutos para algum produto em espécies botânicas diferentes.64
Ao contrário de algumas correntes, a agricultura teria não sido atrofiada pela alta disponibilidade de recursos, mostrando que foi provavelmente nas áreas de maior oferta de recursos que se desenvolveram os cultivos extensivos. Não haveria oposição estrutural entre culturas silvícolas e coletoras, sendo muitas dessas últimas anteriormente cultivadoras. A oposição se deve mais a fatores históricos (guerras e migrações) que a determinismos do meio ambiente. A floresta é a principal fonte de
63MINTZ, Sidney W. Sweetness and Power: The place of sugar in modern history. New York: Viking
Penguin, 1985, p.9-12.
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recurso, sendo considerado o ambiente ideal o estabelecimento de núcleos de povoamento, embora em ambientes de savana tenha sido também aproveitado, por vezes havendo a exploração de ambos ao mesmo tempo, complementarmente.65
A vegetação modifica-se segundo os regimes pluviométricos, disponibilidade hidrológica, e de acordo com a história evolucionária das florestas e suas populações. Ao mesmo tempo, é possível pensar na história das florestas costeiras brasileiras e desses outros biomas como parte de um todo comunicante entre regiões andinas, chaquenhas.A expansão das populações humanas, embora não datadas na compilação de Williams, promoveu segundo ele, modificações na estrutura das florestas, acompanhadas da difusão de espécies vegetais úteis, e alterando a relação entre florestas e savanas, com a expansão das últimas. A expansão da agricultura foi multifocal, em torno das áreas elevadas do México, dos Andes, e das florestas da América do Sul, com contatos frequentes entre essas áreas, impossibilitando de se falar de um desenvolvimento unilinear, além de ter convivido com práticas de coleta em áreas menos manejadas.66
Em contraste com o mundo eurasiático-africano, nas Américas teria havido relativamente pouca associação entre a domesticação de animais – e o desenvolvimento agrícola, este extremamente diversificado.67 No entanto, as sociedades neotropicais desenvolveram sistemas inteligentes e sofisticados de aproveitamento agrícola dos territórios, mesmo sem o domínio, por exemplo, da tecnologia do ferro e a implementação da roda para o trasporte, nem a presença dos animais domésticos da Áfro-eurásia. A mandioca, o milho e a batata foram selecionadas para se tornar amplas bases alimentares das populações americanas68. Associadas a essas espécies estava o cultivo das abóboras, feijões e favas, pimentas, abacate.69 As sociedades que povos tribais da América criaram meios de produzir alimentos em grande quantidade e qualidade, que no momento dos contatos ultramarinos tornaram-se amplamente difundidos, tornando-se a base da agricultura em larga escala mundial. Mantinham
65 LÉVI-STRAUSS, Claude. “O uso das plantas silvestres na américa do sul tropical”. In: Suma
Etnológica Brasileira.. pp. 35-36.
66
Idem, p.54; No vale do Oaxaca, no México, as áreas onde estabeleceram-se os cultivos ocuparam as florestas de carvalho e pinheiros - por volta de 2000-1500 AC, no México central entre 1000AC-300 AD, na península de Yucatán entre 1200-600 a.C com a cultura Olmec e daí pra frente com a formação da sociedade Maia clássica – formando então grandes centros de urbanos, impérios comerciais e tributários.
67
Dos quais cita-se as lhamas e alpacas, uma espécie andina de cão, porcos da guiné, patos e o peru. WILLIAMS, Michael, Deforesting the earth... Op.cit., p.54-56.
68 SAUER, Carl O. "As Plantas Cultivadas na América do Sul Tropical", in: RIBEIRO, Darcy. [org]
Suma Etnológica Brasileira, 1. Etnobiologia, coord. de Berta G Ribeiro.
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também um amplo aproveitamento da fontes de alimentação da caça e coleta, direta ou indiretamente - na forma de tributos. De forma geral, esses povos mantiveram grandes densidades populacionais associados à manutenção da biodiversidade, embora seu impacto na modificação/criação de paisagens tenha sido considerável – no entanto às vezes pouco visível, como no caso das florestas tropicais.
Possivelmente chegando à orla marítima brasileira pelos rios, populações iniciaram, por volta de 8 mil anos a.P. um ciclo de exploração dos recursos marinhos (ostras, mariscos, etc.), quando o nível do mar estava vários metros abaixo do atual, formando estuários naturais, cujo vestígio mais evidente eram os montes que chegavam a centenas de metros de extensão, formados pelo acúmulo de conchas descartadas - os chamados sambaquis - que contém vários extratos resultantes talvez de explorações por grupos distintos ao longo do tempo. No outro extremo da floresta, os grupos caçadores e coletores continuavam a se desenvolver, acumulando conhecimentos sobre espécies animais e vegetais dos ecossistemas em que viviam, e dispersando espécies de plantas entre eles, que nos campos e cerrados, formando inclusive o chamado “capão de mato”, ilhas de arborização em meio a essses biomas, constituído de espécies úteis às populações, diminuindo assim algum dispêndio de energia na coleta desses materiais. Por volta de 4 mil anos, há indícios da agricultura do milho na região de Minas Gerais, adotando também vegetais próprios da região, marcadamente raízes tuberosas, cuja espécie central foi a mandioca.
A agricultura valeu-se da técnica [mundial] da queima da vegetação, ateando fogo a plantas herbáceas da floresta, às quais foram cortadas e deixadas secar, associada – talvez - ao favorecimento da combustão das árvores de maior porte com a retirada de anéis de casca de partes do tronco próximas ao chão, onde espalhavam-se as chamas. Associada à mandioca, havia uma série de outras plantas, alimentares, medicinais ou industriais, que devem ter sido plantadas de forma associada, garantindo melhores colheitas ciclagem de nutrientes no solo. As capoeiras, por outro lado, podiam ser também manejadas, de forma a favorecer espécies úteis.70 Apesar disso, Dean considera, no entanto, a adoção da agricultura como uma fase de início de desperdício florestal, tendo talvez afetado quase a totalidade das florestas da Mata Atlântica. Embora as cinzas garantam a deposição de nutrientes no solo, a maior parte é perdida para a atmosfera, retornando em um período de três a quatro anos nas chuvas e na
70 Entre elas, urucum, jaboticaba, goiaba, grumixuma, araçá, cambuci, cambucá, sapucaia, pacova,
absorção por outros vegetais o que segundo Dean teria provocado “modificações padronizadas de certos microambientes no interior da Mata Atlântica do planalto”. Essas técnicas teriam talvez migrado junto com grupos de agricultores em contatos com os povos dos sambaquis, levando consigo a agricultura.
Por volta do ano 400 d.C., há registros da expansão de povos vindos do sul, associados aos chamados Guaranis das baixadas litorâneas dos atuais Paraguai, Uruguai, Argentina e sul do Brasil, que ficaram conhecidos como Tupis. Praticantes da agricultura de derrubada e queimada, associada à caça, pesca, e coleta de materiais vegetais, dominando também a navegação fluvial, entraram em áreas já da floresta atlântica litorânea. A guerra, que é considerada o momento central da cultura Tupi, pode ter aumentado a movimentação de grupos humanos dentro do continente, sendo mais constante a partir do ano mil, até o qual parece ter havido um período de relativa tranquilidade. Os Tupis abriram – ou forçaram a abertura por outros – caminhos na floresta, criando rotas de migração e contato Em síntese, Dean considera que a floresta encontrada pelos europeus em 1500 era esse mosaico e colcha de retalhos de florestas e campos, resultantes de interações entre dinâmicas de reprodução de seus seres e os usos dos humanos, ou esse palimpsesto de diversas ocupações.71
A operação, segundo Dean, era feita próxima aos meses de chuva, como forma de favorecer a acumulação das cinzas restantes na terra, fertilizando-a e poupando trabalhos de limpeza. A terra era agricultada por algum tempo e posteriormente abandonada ao crescimento da vegetação, que em algumas gerações poderia recompor- se a estágios maduros. A escolha da época de queimada envolvia capacidades de previsão meteorológica e talvez de controle do fogo. O manejo do fogo permitiu a manutenção do estoque de caça de forma pouco dispendiosa, seja na criação de descampados seja em reservas florestais, ou no manejo correto das reservas fluviais. A agricultura de derrubada-e-queimada, realizada de forma consciente e controlada,
71 Considera-se que a agricultura tupi era realizada por mulheres, e que uma série de formas de
dominação masculina fossem constantes, e que a pressão sobre a floresta pode ter aumentado, ao mesmo tempo que Dean indica que as necessidades de obtenção de proteína animal pode ter estimulado a manutenção de reservas florestais para a caça. A associação da farinha de mandioca com o peixe seco, por outro lado, era um meio eficiente de estocagem de alimentos. Ao mesmo tempo, há a hipótese de que em função da guerra, a área de influência de cada grupo tupi sobre áreas florestais e agricultadas tenha se mantido não muito distante do núcleo central da aldeia, facilitando a defesa, e estimulando a utilização de florestas secundárias [capoeiras] ao invés de florestas primárias. As guerras podem ter levado esses povos a favorecerem a formação de áreas abertas onde a visibilidade era favorecida, e em outro sentido pode ter fragmentado o conhecimento da biodiversidade local, pela falta de comunicação e por preconceitos entre os diferentes grupos.
associava-se à dispersão consciente de plantas, ao replantio de florestas e a associações de cultivos de forma a manter as reservas de nutrientes dos solos.