4 A CARA DO PECADO
4.2 Sem ideais e objetivos: masturbação
Outra zona de tensão entre discurso religioso e sexualidade é o tema da masturbação116. Nos escritos de Ellen G. White, ela aparece como uma das “perversões sexuais”. Quando olhamos para Mocidade, o pouco que se fala sobre masturbação aparece na seção “Você Pergunta”, na qual angústias dos leitores (e nesse caso, exclusivamente homens) são trazidas para o debate e respondidas por Dr. Belisário. Ela gera angústia por ser considerada dentro da moral cristã como uma prática desviante da sexualidade sadia. Em outras palavras, a masturbação é também tratada como uma “deturpação da atividade sexual”
causada pela falta de formação espiritual. Chega a ser considerada, como já citado no capítulo anterior, uma prática de “auto-homossexualismo”, e que de acordo com José Novaes Pasternostro117, gera desorganização e irritabilidade no jovem que a pratica (BRITO, 1979, p.
07). É, por isso, tarefa da escola e dos familiares orientar adequadamente as crianças e os jovens sobre o controle dos impulsos sexuais se desejam uma formação sadia dos mesmos (idem).
Laqueur (2007) observa que registros médicos do início do século XVIII colocavam a masturbação enquanto uma prática profana e antinatural, permeada por questões éticas. Mas, como o próprio autor enfatiza, a história da medicina só conta uma parte da história, afinal, outras instâncias sociais já haviam pautado o corpo e suas “más condutas”.
A medicina sempre foi algo semelhante a um guia moral, um tipo de ética da carne.
Esse papel aumentou consideravelmente no século XVIII, quando, ao menos nos círculos progressistas, as normas morais começaram a ser fundamentadas na natureza, e são ensinadas mais nas escolas, no mundo dos médicos e dos pedagogos, e menos por meio da autoridade divina e da pregação da Igreja, a esfera dos sacerdotes e pastores. Nesse contexto, não é surpreendente que as angústias culturais foram transformadas em enfermidades118 (LAQUEUR, 2007, p. 19).
Enfermidades estas que provém, dentre outras coisas, da excessiva atividade sexual.
Portanto, por um longo período, variadas dimensões da sexualidade humana foram
116 A prática da masturbação é conhecida também como “onanismo” em alusão à história bíblica de Onan, o qual é penalizado por Deus com a morte por praticar o “coito interrompido”, entendido como uma forma de masturbação, e que resultava em um “desperdício de sêmen”, pois não era usado para fecundar a mulher.
117 Em abril de 1979, o artigo “Educação Sexual - Desafio na escola e no lar” identifica José Novaes Pasternostro como psicólogo, educador e diretor de uma clínica de aconselhamento profissional e psicológico não identificada na cidade de São Paulo. Também foi, ainda que por um breve período, diretor interino da Faculdade Teológica Batista de São Paulo. É autor dos livros “Como Ter Sucesso Na Profissão”, publicado em 1982, e “Sustento Ministerial – Sua Base Bíblica” de 1984.
118 “La medicina siempre fue algo semejante a una guía moral, una suerte de ética de la carne. Ese papel aumentó considerablemente en el siglo XVIII, cuando, al menos en los círculos progresistas, las normas morales comienzan a fundarse en la naturaleza, y son ensenãdas más en las escuelas, el mundo de los médicos y de los pedagogos, y menos a través de la autoridad divina y las prédicas de la Iglesia, la esfera de curas y pastores. En ese contexto, no es sorprendente que las angustias culturales fueran transformadas en enfermedade” (tradução livre).
condenadas por uma moral cristã e posteriormente, a partir do século XVIII, patologizadas pelo discurso médico. O argumento de Laqueur centra-se na ideia de que a masturbação ou o
“sexo solitário” era uma prática democratizada, feita por homens e mulheres. Nas palavras do autor, ambos estavam em “idênticas condições para cometer essa infração, igual e moralmente propensos”119 (idem, p. 17). E enquadrá-la como um problema moral foi estratégia para tentar solucionar outros problemas sociais e políticos e, sobretudo, uma resposta ao aumento do individualismo e da autonomia dos sujeitos. A masturbação moderna, perpassada por esse discurso, torna quem a pratica em enfermos, indivíduos não sadios.
O fato de o discurso médico se apropriar do argumento condenatório de práticas associadas à sexualidade a partir desse período não necessariamente fez com que outras instâncias se ausentassem do debate e da aversão a elas. Eles estavam muito mais em confluência de ideias do que em oposição. Em 1912, Freud publica seu estudo Contribuições a um debate sobre a masturbação, no qual ele conceitualiza a masturbação como um vício primário do indivíduo. Além de considerá-la como uma matriz para outros vícios, Freud também a associa as “atividades auto-eróticas da primeira infância” (THÁ, 2011, p. 3) e entende que ela é uma prática “regida pelo princípio do prazer com a evitação sistemática do princípio da realidade” (idem). Para Freud, a masturbação é uma atividade sexual limitada, que resulta em um comportamento de dependência, acarreta prejuízos orgânicos, descola a pessoa da realidade estabelecendo um padrão psíquico segundo o qual “não há necessidade de passar pelas agruras da alteração do mundo externo para obter a satisfação” (idem), além de persistir em um infantilismo psíquico.
Essa percepção de Freud sobre a masturbação (bem como das práticas homossexuais, como veremos adiante) construída entre o final do século XIX e início do XX rege o discurso sobre a prática na revista Mocidade na década de 1980. Como observado por Foucault (1999), nos três últimos séculos há uma multiplicação do discurso sobre o sexo e suas mais diversas dimensões. Pelo menos até Freud, a ciência estava “subordinada aos imperativos de uma moral” (idem, p. 54). Esta que,
a pretexto de dizer a verdade, em todo lado provocava medos; atribuía às menores oscilações da sexualidade uma dinastia imaginária de males fadados a repercutirem sobre as gerações; afirmou perigosos à sociedade inteira os hábitos furtivos dos tímidos e as pequenas e mais solitárias manias (idem).
É comum a ideia de que a masturbação pode causar doenças, considerado um vício perigoso pelo discurso médico até a primeira metade do século XX, este pautado em uma
119 “hombres y mujeres estaban en idénticas condiciones para cometer esa infracción, igual y moralmente propensos” (tradução livre).
moral religiosa e higienista, que para Foucault estava a serviço “da lei e da opinião dominante” (idem). Entre os séculos XVIII e XX, a campanha impetrada por médicos e educadores contra os “hábitos solitários” das crianças e jovens considerava a masturbação uma “epidemia a ser extinta”, ou ao menos adestrada (idem, p. 42). Mesmo que a partir da década de 1960 e 1970, surgem novas formas de perceber a masturbação, passando a ser o
“sexo solitário” aceito e até mesmo incentivado como forma de autoconhecimento, o discurso da revista prefere orientar a juventude sobre formas de se evitar essa prática considerada narcisista e auto-erótica.
Em fevereiro de 1981, um jovem da cidade de Bonfim-BA escreve para Dr. Belisário a seguinte pergunta: “Gostaria de saber como deixar de praticar a masturbação. Quais as doenças causadas por ela? É que um colega meu me falou que há tempo vem praticando este ato, e não sabe como deixá-lo”. De antemão, já podemos concluir que o “colega” na realidade é o próprio D. S., iniciais do jovem que assina a carta. Para deixar de se masturbar, o conselheiro afirma que se deve eliminar da rotina todos os hábitos que alimentam essa prática auto-reforçadora. O prazer associado à masturbação não é o mesmo que traz o alívio da tensão sexual, pois o indivíduo que se masturba está sempre tenso. Por isso, a prática deve ser abandonada em etapas, buscando fugir de sentimentos os espaços que sejam propícios para fazê-la. Solidão e isolamento são uma dessas situações, e por isso deve-se procurar sempre estar com outras pessoas, conversando e trocando ideias. Em conjunto, a ociosidade surge como fator que contribui para prática. Sendo assim, a mente deve estar sempre ocupada com atividades físicas e mentais sadias, e conversas que não sejam relacionadas ao sexo. Quanto aos ambientes, a cama e o banheiro, ou o momento do banho, são lugares oportunos para
“entrar na fantasia e jogar-se em devaneios” (MARQUES, 1981a, p. 16). Desse modo, o conselheiro orienta que a cama seja um lugar para ficar apenas quando se estiver com sono e para dormir, livre do excesso de cobertores, e o quarto deve ser um ambiente ventilado para
“não haver perturbação da circulação” (idem) – o que coincide com as recomendações de higiene feitas pelos adventistas desde a reforma da saúde no século XIX. Quanto ao banheiro, o chuveiro deve ser usado apenas para o banho, evitando ficar tempo além do necessário, pois se torna um momento favorável à excitação. Nada de banhos quentes e demorados, e “‘com um jato frio no fim’, como dizia um velho professor” (idem).
Quanto às doenças provocadas pela masturbação, Belisário Marques pondera dizendo que “não existe um acordo muito grande entre os estudiosos” (idem), mas que entre as principais reações observadas estão a perda de contato com a realidade e os sentimentos de
“culpa, remorso, incapacidade de concentração, dores de cabeça, dores nas costas, ejaculação
precoce”, entre outras. Por conta de a masturbação ser tratada como algo negativo dentro da esfera religiosa, e por muito tempo também na esfera médica e social, esses sentimentos são de fato frequentes nos relatos sobre masturbação, além do arrependimento e a busca por tratamento por quem a pratica. Podemos observar isso em outro momento da seção, em julho de 1985, quando novamente o tema entra em pauta. Um jovem de 27 anos, que se autonomeou como “Nau sem rumo”, afirma que ele é “mais um psicopata cheio de fantasias sexuais, que deturpam a mente. Mais um que quer abandonar a masturbação e não sabe como”, em tom bastante angustiado.
No caso desse pedido de ajuda, Dr. Belisário utiliza do seu repertório cristão para aconselhar o jovem. O maior obstáculo a ser superado é a vontade, não importando “quanto fantasia sexual você tem ou quantas vezes masturba” (MARQUES, 1985, p. 13). Se o desejo é abandonar definitivamente o vício, o melhor a fazer é juntar a vontade do homem à vontade Superior - de Deus - o que pode render um verdadeiro milagre. Mesmo que não seja algo fácil de abandonar, o importante é estabelecer uma meta e buscá-la de forma incansável. Quanto a isso, Marques argumenta que “obstáculos surgirão. O desânimo poderá abatê-lo. A preguiça poderá sacrificá-lo. Não desanime. Você vai errar, mas tenha certeza de uma coisa: só acerta quem corre o risco de errar. Não há sucesso sem fracasso” (idem). Outra proposta interessante é que o problema não precisa ser resolvido sozinho. Assim como em casos de
“homossexualismo”, como veremos a seguir, o conselheiro orienta que seja buscada ajuda médica, psicológica, assistência social e até mesmo a liderança religiosa caso seja necessário para repelir o vício.